Tuesday, January 29, 2008

Alemanha


Este final de semana eu decidi que estava precisando mudar de ares, e resolvi aceitar o convite de um ex-namorado, hoje em dia grande amigo meu, P, de ir visitá-lo na Alemanha. P mora em Moers, uma cidadezinha pacata e sem graça perto de Duesseldorf. Nós havíamos namorado há seis anos atrás, por seis meses, e depois disto eu nunca mais tinha voltado por lá. Terminamos na época porque eu achava que ele não conseguia me dar toda a atenção de que eu precisava, P era muito ligado à família e eu me sentia confortavelmente em segundo lugar na sua lista de interesses, o que com o tempo foi me cansando... na festa de Ano Novo de 2002, ele me deixou sozinho, o que pra mim fora a gota d´água (é, eu infelizmente tenho algumas histórias de réveillons sozinho...). Ficamos sem nos falar por um bom tempo, depois de uns 3 anos reatamos o contato, e acabamos por nos tornar bons amigos. Eu não o via desde aquela época, mas a gente mantinha contato via e-mail, etc. Quando P soube da minha situação atual aqui em Bruxelas, não hesitou em me convidar para visita-lo, só para descansar, mudar de ares, e eu aceitei o convite prontamente.


Tomei o trem na sexta feira à noite, cansado, depois de um dia maçante cheio de reuniões, e depois de passar por Liège, Aachen, Colônia e Düsseldorf, cheguei finalmente a Duisburg, a cidade grande mais próxima, onde P me esperava na saída do trem, com os mesmos olhos azuis bem grandes (os olhos azuis mais azuis que eu já vi), o mesmo cabelo louro cortado à la Joãozinho, os mesmos dentes enormes e o mesmo jeitão pacato, tranquilo, seguro. A mesma sensação de estabilidade e auto confiança que haviam me conquistado há seis anos atrás. Apesar dos maravilhosos olhos azuis e do sorriso iluminado, P nunca fora o meu tipo físico ideal, é mais baixo que eu, não tem corpão, enfim, não é alguém para quem eu realmente teria olhado em uma situação normal. Mas nós havíamos nos conhecido em uma situação um tanto peculiar, um dia na praia na Holanda, a praia estava semi deserta, a gente começou a conversar despreocupadamente, ambos estavam relaxados, a coisa acabou fluindo naturalmente.


Mas bem, deixa eu explicar em todo caso que esta viagem não foi um flashback. Eu sei exatamente os motivos pelos quais nós havíamos terminado na época, ele também, e sei que nunca conseguiríamos ser um casal, temos opiniões diferentes a respeito disto. Mas como amigo, ele foi maravilhoso este fim de semana. Eu fui tratado como um príncipe do início ao fim da minha estada por lá. No sábado passamos o dia inteiro em casa, simplesmente descansando, conversando, vendo televisão, comendo besteira, enfim, um dia tranquilíssimo. Estava fazendo sol, mas a gente nem se importou em sair. P tem uma vida totalmente diferente da minha, ele sempre viveu na mesma cidade, sempre teve o mesmo emprego de cirurgião ginecologista (é, ginecologista... eu já falei pra alguém que eu já tive 3 ginecologistas na minha vida??), sempre fez exatamente as mesmas coisas do mesmo modo... previsibilidade a 100%. Eu acabo por invejá-lo neste sentido, eu que já rodei meio mundo, estou cansado de guerra.


No domingo depois do café da manhã eu peguei o trem de volta para Colônia, P tinha um almoço em família e não tinha muito a ver eu ficar por lá, então tomei o meu rumo... resolvi passar o dia em Colônia, para tomar o último trem de volta à Bruxelas às seis e meia da tarde. Então cheguei na estação, deixei a minha sacola no bagageiro, e fui dar uma volta pela cidade. Eu já estive algumas vezes em Colônia, então conheço o básico. Não é uma cidade bonita, o centro histórico foi praticamente totalmente destruído durante a guerra, só sobrou a Catedral mesmo, linda, enorme, imponente, que a gente vê logo quando sai da estação. Mas Colônia é ainda assim uma cidade gostosa para se passar um dia, a cidade tem um jeito bastante simpático, há vários cafés, lojas interessantes, o povo é geralmente bonito e bem cuidado... uma cidade para se andar pela rua, ver, ser visto, jogar o tempo fora, enfim. Passei uma tarde bastante agradável por lá, inclusive fui a um café no final da tarde e ainda acabei puxando papo com um carinha que no final era português... e aí foi aquele bate papo na língua de Camões, ele me contando as desilusões amorosas dele, e eu contando a ele as minhas.


E assim se passou mais um final de semana, um final de semana bastante agradável e descontraído, como há já muito tempo eu não tinha... estou planejando passar os próximos finais de semana fora, acho que me faz muito bem neste momento. Não sei ainda o que vou fazer neste final de semana que vem, mas vou pensar em algo. Teremos aqui em Bruxelas na sexta feira mais uma edição da La Demence, a maior festa gay da cidade, mas não sei ainda se vou, faz muito tempo que não ponho meus pés por lá, aliás no ano passado não fui uma única vez sequer, tentando ser o marido ideal... tja. Mas no outro final de semana, já tenho programação: vou a Amsterdam visitar a minha queridíssima amiga A, minha confidente de toda hora, que está aguentando o meu lenga lenga desde o nosso gostoso encontro no Rio, e que vem tendo uma paciência enorme comigo desde então... A, te adoro! E vou rever a minha também queridíssima amiga C, dos meus anos de São Paulo, que estará lá conosco... não vejo a hora de poder me reunir com ambas, rir, me divertir, e esquecer um pouco a minha vida.

Thursday, January 24, 2008

Tristeza


Esta semana estive visitando um par de apartamentos... um na Rue de Flandre, uma área simpática do centro, e um na Rua Emile Jacqmain, numa área não tão simpática do centro, mais em relativa ascensão. Os dois apartamentos muito bons, novinhos em folha, cozinha bem equipada, relativamente espaçosos e iluminados, principalmente o primeiro, do qual gostei bastante. Não sei se terei como me mudar para qualquer um deles porque preciso primeiro comprar os meus móveis que ainda não tenho, e para isso preciso receber um dinheiro.


Estranho quando a gente vai olhar apartamento assim deste jeito... uma coisa é procurar por casa por um motivo bom... porque ganhou emprego novo, porque casou e quer algo melhor, porque acabou de se mudar para uma nova cidade... aí tudo é entusiasmo, descoberta, animação... a gente entra e já vai pensando na futura vida naquele lugar. Estamos andando em direção a sonhos que estão em vias de se tornar realidade.


Mas outra coisa é procurar apartamento por causa de um motivo ruim. Não por algo que se ganhou, mas por algo que se perdeu. A gente olha para as paredes, para o piso, para os espaços vazios, e por mais que a gente faça um esforço e se imagine vivendo naquele lugar e os futuros móveis arrumados deste ou daquele jeito, a gente não vê a felicidade morando com a gente. Só o que a gente vê é a tristeza, a tristeza de ter que deixar para trás um sonho que não deu certo. O fim de um sonho e a volta à vida real.


Foi assim sem tesão nenhum que eu visitei ambos apartamentos. Semana que vem vou ver outros dois, desta vez mobiliados, levando em consideração que eu talvez não venha a receber o dinheiro que precisaria para comprar meus móveis. Estes dois da semana que vem têm a vantagem de estarem localizados pertinho do meu trabalho, assim a vida fica um pouco mais fácil. Já tive tantos problemas e decepções ultimamente que estou precisando de uma vida fácil.


Deixa eu fazer um aparte e explicar que a minha decisão me separar foi uma decisão racional, baseada na infeliz certeza de que não há mais solução para este relacionamento, que o ressentimento mútuo e a desconfiança mútua são tão grandes que não é mais possível chegar a um acordo sobre nada. Eu tenho que me separar para poder me dar a chance no futuro de encontrar alguém que me ame e me compreenda e me aceite como eu sou, com todas as minhas contradições, as minhas opiniões que são certamente incomuns para dizer o mínimo na maioria dos casos, as minhas esquisitices, etc. Alguém que me entenda e não que me julgue. Eu mereço me dar a chance de ser amar e ser amado com mútua confiança e honestidade, algo que talvez não tenha sido possível neste meu relacionamento que acaba tão tristemente, por erros de ambas as partes, erros acumulados e nunca perdoados.


Quero também fazer aqui um mea culpa. Não quero que ninguém pense que eu sou um santinho e que nunca tenha errado e que só faço coisas boas e que sou sempre vítima. Não, eu também já fiz muita coisa ruim, já pisei na bola muitas vezes com M de uma maneira bem feia, já fui algoz e já fiz muita coisa de que me arrependi depois. Mas infelizmente eu não tenho como mudar o passado, não tenho como apagar os meus erros, só posso pedir perdão, o que já fiz, e esperar ser perdoado, e que o passado seja deixado para trás, onde ele tem que ficar. Mas não posso aceitar passar a vida inteira pagando por erros do passado, e pagando de uma forma cada vez mais vil. Eu não posso mudar o passado... eu só posso mudar o presente, na esperança de um futuro melhor.


Também quero dizer que se é para mim tão difícil de acatar a minha decisão racional de me separar é porque, é lógico, ainda tenho sentimentos por M. Claro que tenho. Não é à toa que passamos quase 3 anos vivendo juntos e enfrentando uma barra atrás da outra no que foi a época mais difícil da minha vida, e sentimentos tão fortes não se apagam assim de uma hora para outra. Por mais que meu ex tenha no final pisado na bola comigo de uma maneira que eu considero dolorida demais e absolutamente imperdoável, sei que é uma pessoa com muitos lados bons, é uma pessoa extremamente divertida quando está de bom humor, extremamente atenciosa e prestativa, que me ajudou muito em momentos difíceis da minha vida, e isso pesa muito na balança também. Mas eu simplesmente não tenho como lidar a atual situação, tudo o que aconteceu, é mais do que eu aguento. Eu simplesmente não quero isso para mim, eu não tenho pique para lidar com isso. Eu mereço ter um dia um relacionamento caracterizado pela paz e não pela guerra.


ah, mas o meu coração vagabundo... que quer guardar o mundo em mim... é, mas desta vez o meu coração vagabundo vai ter que engolir em seco mesmo.


Ontem saí para jantar com C, um conhecido meu, comissário, de passagem pela cidade. Foi bastante agradável, nos atrasamos tanto eu e ele e por isso demoramos bastante para encontrar um restaurante com a cozinha aberta, acabamos jantando já lá quase pela meia noite, conversamos bastante, rimos, nos divertimos. No final da noite eu o deixei de volta em seu hotel e voltei pra casa, me sentindo mais leve e mais relaxado. Isso é algo que me fala muito aqui em Bruxelas, sair com amigos MEUS, conversar e me divertir, sem nenhuma pretensão, sem nenhuma preocupação.


Hoje B me ligou... o húngaro. Tão lindinho, quer que eu passe a noite com ele... olha, de repente eu vou mesmo, estou precisando de alguém que me trate bem e com carinho, que me faça me sentir bem querido acima de tudo, principalmente quando é alguém assim, que não pede nada em troca, apenas a companhia do momento... ah, como era isso que eu gostaria de ter um dia... alguém que me amasse e me entendesse, que me respeitasse e que me aceitasse como eu sou, como tudo o que eu tenho de bom e de ruim, sem neura nem julgamento... só com amor e compreensão. Utopia? Não sei, só sei que estes dias o único sentimento que me vem à cabeça quando eu penso nisto tudo, é o de uma infinita tristeza.


Sunday, January 20, 2008

Vida de solteiro


Agora que eu voltei à vida de solteiro, tenho que desenferrujar os meus instrumentos da arte da paquera e do encontro. Depois de quase 3 anos casado, a gente fica meio sem jeito no início, meio sem saber como se apresentar, como se comportar, etc. De repente aqueles olhares que a gente tinha a tanto custo aprendido a evitar, voltam a nos cercar e a gente tem que lembrar que não é mais pra evitar, é pra olhar de volta mesmo, é pra retribuir a atenção, é para se fazer notar e é para ousar tudo aquilo que já não ousávamos. Um pouco difícil de fazer isso quando se está ainda com o coração em frangalhos, mas enfim, a vida continua e não espera pela gente, e ficar enfurnado em casa chorando e olhando para as paredes não leva a lugar algum, então tenho mesmo é que tomar um bom banho, passar um perfume, e ir pra rua.

No final de semana passado, após 3 dias sem sair de casa e sem comer, resolvi reagir. Juntei as forças que eu ainda tinha e me preparei um bom brunch com tudo o que eu tinha direito. Depois saí e comprei o celular novo, o antigo tendo sido quebrado na briga do Natal. À noite resolvi sair. Procurei por um antigo conhecido meu de Antuérpia, P, 38 anos, gerente comercial de uma rede de academias no norte da Bélgica. Entrei em contato com ele, praticamente me convidei para sair com ele em Antuérpia, e fui. Eu sabia que P tinha um interessezinho por mim, e resolvi conferir. Tomei o trem, ele estava me esperando de carro na saída da estação. Fomos à Red & Blue, uma conhecida boite daquela cidade. Eu pus a roupa mais sexy que tinha, o jeans mais apertado e um tank top que eu havia comprado nos meus anos dourados em Barcelona, daqueles que deixam os músculos bem à mostra (gay às vezes parece mulher, mesmo...). Coloquei gel no cabelo, etc, e cheguei lá, bronzeado e lindo. Quando entramos na boite, até porque eu era carne nova no pedaço, os olhares foram imediatos. Olha, eu tenho que admitir, eu adorei aquela atenção toda. Eu que saí do Rio me sentindo feio, jogado, humilhado e maltratado, precisava de algo que me ajudasse a colocar a minha auto estima de volta em equilíbrio.

Naquela noite acabei saindo da boite por volta das 2:30 da manhã, com P, fui para a casa dele, um belo apartamento em um subúrbio nobre de Antuérpia, e passamos a noite juntos. Foi muito bom, eu estava precisando muito de momentos de intimidade e carinho, muito mais que sexo propriamente dito, e ele me deu exatamente aquilo que eu queria. Ou melhor, ele queria mais, mas eu meio que neguei fogo mesmo, não estava preparado. Passamos a noite juntos brincando na cama, curtindo a presença um do outro, e em meio a beijos e carícias acabamos dormindo, mas não sei dizer se houve sexo propriamente dito ou não, se é que alguém me entende. Mas foi muito bom, era exatamente aquilo que eu estava precisando naquela noite, alguém que me beijasse e me abraçasse e me fizesse me sentir querido.

No domingo almoçamos juntos em um restaurante no centro de Antuérpia, depois passeamos um pouco pelo centro da cidade, e eu peguei o trem de volta para Bruxelas no final da tarde. Não sei se posso dizer que eu estava cansado mas feliz, mas infeliz eu certamente não estava. Ao longo da semana inteira P ficou me ligando, tentando entrar em contato comigo, queria me ver de novo, etc. Eu conversei com ele, mas de uma maneira mais amigável que interessada. Não quero me envolver com P, acabei de sair de uma barra pesada e não quero já cair em outra cilada. Além do quê P é muito como eu, tranquilão, devagar quase parando, talvez fosse a companhia ideal para um relacionamento de longo prazo, mas para o meu momento atual eu preciso, se for o caso, de alguém que reacenda em mim a faísca que há tempos se apagou, e para isso eu preciso de alguém com um pique mais alto que o meu.

Este final de semana eu não sabia ainda o que ia fazer. Tinha sido convidado para uma festa na casa de B, um conhecido da academia, que me pegou no choro um dia na saída do ginásio e ficou com pena de mim. Mas eu estava com preguiça, a festa era longe, eu não conhecia ninguém além de B, dei uma de bicho do mato e fui ficando em casa, aqui enfurnado no meu quarto, entre os meus discos, os meus livros e o meu computador. Passei quase que o dia inteiro batendo papo pela internet com uma porção de gente, inclusive um conhecido que é médico e psicólogo e me deu uns insights bem interessantes sobre o meu momento atual. Eu estava quase que decidido a passar a noite aqui mesmo, tranquilamente, quando ouvi uma ligação telefônica que vinha do terraço. Não vou entrar em detalhes, mas aquela conversa em português no telefone me desconcertou. Resolvi que eu tinha que sair ontem à noite, pro meu próprio bem. Acabei entrando em contato com B, alemão-húngaro de 29 aninhos, pesquisador, que também já tinha me contactado antes, e havia me convidado para passar na casa dele. Resolvi aceitar o convite, fui.

Se P já era um doce de pessoa, B é um doce com a particularidade de ser jovem, o que o torna ainda mais doce. B me tratou como um príncipe do início ao fim da nosso encontro. Cheguei lá, conversamos muito, ele é muito inteligente, bioquímico, e também muito, digamos, experiente, já fez de tudo na vida, apesar da idade. Um bom corpo e um equipamento ainda melhor, he he he... fumei um baseado como eu já não fazia há anos... e me entreguei a ele, senão de alma, pelo menos de corpo inteiro. Passamos a noite juntos, transamos a noite inteira, e deixa eu dizer, o sexo foi maravilhoso. Me senti verdadeiramente desejado, com todas as letras, como há muito tempo ninguém me fazia sentir, eu que passava todas as noites lendo sozinho no meu quarto. Entre beijos e abraços, carícias e estocadas, B me dizia toda hora como eu era sexy, como eu era gostoso, como eu era atraente, e como ele estava feliz em me ter ao seu lado aquela noite, enfim, tudo o que eu precisava ouvir. Olha, para um casual date, melhor, impossível. Eu acordei esta manhã com aquele riso bobo na cara, típico de quem se sente amado, ainda que por uma única noite.

E B já me disse que quer me ver de novo, quer me ver ainda hoje, quer me ver regularmente, e até já me convidou para passar férias com ele em abril no seu apartamento de Budapeste... eu que acabei de ler Budapeste, do Chico Buarque, e adorei, fiquei lisonjeado com o convite.... mas esperem aí, P também queria me ver de novo, queria saber se havia alguma possibilidade... e em ambos os casos foi apenas uma primeira noite juntos... de P e de B eu ainda sei muito pouco, para saber se quero ter algo mais com um ou outro. Mas eles já parecem tão decididos a querer me ver de novo... será que está todo mundo desesperado por uma relação?

Eu quero sim ter uma relação, quem não quer. Quero amar e ser amado como todo mundo, por isto mesmo que insisti tanto em uma relação que não estava funcionando. Mas quero uma relação saudável, construída em bases sólidas, onde hajam não apenas amor e carinho mas também canais de comunicação sempre abertos, honestidade e franqueza, mútuo respeito e principalmente mútua compreensão. E mútua compreensão só vem com o tempo, a gente tem que aprender a conhecer alguém para poder entender e compreender esta pessoa, e aceitá-la como ela é, sem julgamentos nem promessas de mudança. Eu não quero pular de um relacionamento para o outro, não quero cometer o mesmo erro de me comprometer com alguém que talvez não seja necessariamente a minha melhor complementaridade, não quero me envolver sem ter a certeza de que desta vez, se for o caso, pode realmente dar certo. Chega de dar murro em ponta de faca.

Então estou assim, paquerando, paquerando, mas no final, como diz a música, seguindo o meu caminho bem sozinho pela vida, até porque ainda tenho que me recompor, ainda tenho que juntar todos os caquinhos do meu coração machucado, ainda tenho que lamber as minhas feridas e me curar totalmente do trator que passou por mim nesta entrada de ano, antes que eu possa começar a me entregar não apenas de corpo mas também de alma a alguém. E isto só vai poder acontecer quando a minha mente estiver totalmente livre, o que ainda não é o caso. Porque ontem à noite, assim como no final de semana passado, depois de todo o furor da mútua descoberta dos corpos, depois do auge e do descanso, quando nos abraçamos para dormir, foi em M que eu pensei. E enquanto for assim, eu sei que nada mais poderá acontecer.

Saturday, January 19, 2008

Controle de Qualidade


Ganhei este selo da Mulher de 30 (dá uma olhada no link aqui embaixo), um blog que eu sempre procuro acompanhar e que me incluiu na lista de blogs a serem recomendados, pelo que fiquei muito surpreso e muito agradecido, sabe? Vindo de alguém que na minha opinião escreve tão bem, é um elogio e tanto.


Engraçado esta história de blog, né? Eu comecei este blog aqui meio que assim por falta do que fazer, meio que por pura vontade de escrever, e fui escrevendo, escrevendo... a verdade é que quando eu escrevo, é mais como se fosse um papo comigo mesmo MESMO, eu escrevo pra mim e sem pensar muito em quem vai ler. Acho que às vezes escrevo mais do que deveria, tenho escrito ultimamente coisas muito pessoais, muito íntimas até, e acho que se continuar assim por mais um tempo vou ganhar fama de lavadeira, o que para um carinha de 36 anos como eu, gay, enxuto, e querendo estar de bem com a vida, não é fama muito boa, deveria pegar os meus óculos de sol e pegar mais leve com a vida, mas sei lá, eu gosto de escrever aqui, aqui extravaso todas as minhas mágos, dúvidas, medos, rancores, esperanças, a vida parece que fica mais fácil depois que eu termino um texto.


De repente é falta de amizade. Eu tenho que confessar que às vezes me faz uma falta danada ter alguém por perto com quem eu pudesse conversar na minha própria língua. Ter que falar sempre em inglês, francês, às vezes até mesmo holandês, cansa um pouco no final. Às vezes eu sinto bastante falta dos meus amigos brasileiros, na Holanda e no Brasil, com quem eu posso conversar em bom português sobre tudo o que me acontece. L, um amigo meu brasileiro que mora em Barcelona, é uma pessoa de quem sinto falta, a gente quase não se vê, mas eu tenho uma confiança enorme nele, é uma das poucas pessoas com as quais eu consigo conversar sobre quase tudo, acho que também pelo fato dele ser gay como eu, pensar como eu, a gente se entende muito bem. Grande amigo.


Assim como no orkut, eu às vezes esqueco que este blog é público, que talvez é lido por mais gente que deveria. Eu basicamente conto com a leitura dos meus amigos, aqueles que eu já conhecia antes, e aqueles que eu conheci por aqui, porque são em todo caso aqueles que me acompanham sempre, que sabem quem eu sou e que me entendem, e que não levam as minhas palavras a mal, não me julgam nem me criticam, apenas procuram me entender. Mas infelizmente, imagino que há gente lendo o meu blog, que não é meu amigo, que não me conhece, e que se estiver mal intencionado, vai usar as minhas palavras contra mim. É o risco que eu corro em me expor aqui. Eu acho apenas que é uma pena, que exista gente assim neste mundo. Se não é meu amigo real nem cibernético, se nem sequer me conhece nem sabe quem eu sou, porque perde o tempo me lendo aqui? Se não está satisfeito com o conteúdo, muda de página, dá um click, e eu sumo da sua vida. Por que criar caso, né? Já não temos todos problemas suficientes?


Aliás, acho que vou ter que censurar alguns posts, infelizmente. Neguinho está soltando fogo pra cima de mim, e eu como tenho medo mesmo de quem não sabe se controlar, prefiro amansar a fera. Só fico muito chateado de ter que escutar que são amigos meus que estão passando a bola, e eu fico achando, que se estão passando a bola assim deste jeito pra neguinho, então não são meus amigos de verdade. Ou então é neguinho mesmo que está variando outra vez. Enfim, pra bom entendedor meia palavra basta. Mas tudo bem, o que eu escrevo aqui, quando eu termino, para mim já é passado. O que vale é o presente. O post da vez.


E o presente vai bem, obrigado. Amanhã estou pensando em ir passar o final de semana em Amsterdam, acho que vou no sábado e volto no domingo, tenho o aniversário da filha de um casal de amigos, e como são mesmo muito amigos meus, sempre gosto de vê-los. Acho que vai me fazer muito bem sair daqui de casa, aqui está uma urucubaca só ultimamente. Não vejo a hora de me mudar... segunda feira vou visitar um apartamento.


De resto levando a vida, uma paquera surgindo de leve no horizonte, bem descompromissada, assim é que é bom, chega de drama na minha vida. Eu quero sol, eu quero viver, eu quero em volta de mim gente que me queira bem e não que me queira mal, eu quero gente descomplexada que de complexo já bastam os meus, quero gente que assuma os seus atos e não gente que tem vergonha de ser quem é. Eu posso ser ridículo às vezes, posso ser patético, posso ser lavadeira e posso ser banal, mas o importante é que eu permaneço fiel a mim mesmo, e não tenho vergonha de ser quem sou, não tenho vergonha de ser ridículo por amor porque amor é assim mesmo, e não tenho vergonha de viver a vida. Eu chuto o pau da barraca mesmo, meto o pé na jaca, dou vexame... e no final do espetáculo me levanto e vou embora, ou melhor, vou dormir, como agora.


Antes de terminar - passo o controle de qualidade adiante para todos os blogs que leio, todos estes que estão linkados aqui embaixo, porque não quero ser mal educado de citar um e não citar outro, e como eu gosto de todos mesmo, então eu recomendo todos. É ler e conferir.


Thursday, January 17, 2008

Krakatoa


Acho que toda separação vem em fases. Tem a primeira fase, a fase vulcão. É a fase da briga, da explosão, da raiva e do ódio, a fase das frases de efeito, "nunca mais!", "eu quero que você morra!", vá embora!" Você merece morrer... você merece morrer... Vá embora, saia da minha vida, leve consigo todo o seu bem e todo o seu mal, que eu não te quero mais perto de mim. Leve a sua existência para longe da minha existência, que eu quero ter o direito de ser e de existir. Eu não vou morrer, eu vou viver, vá embora! Nesta fase irracional e desmesurada, não há lugar para mais nada além da mágoa contida que explode feito lava saindo de um vulcão em atividade e queima a todos em volta. Nesta fase, todos os olhos estão voltados para o vulcão fervendo e atirando ódio, rancor e ressetimento para todos os lados. "Morra!" "Vá Embora!"


Depois vem a segunda fase, a fase tsunami. Porque depois da explosão do Krakatoa, vem a tsunami, que ninguém esperava. A tsunami é traiçoeira, ela chega despercebida e em segundos toma conta de tudo. É a destruição de tudo aquilo que você tinha ao seu redor, a destruição da sua casa, da sua família, da sua vida. Todas as coisas que você tinha e apreciava, o jardim da casa, os lençóis do quarto... as fotos do álbum... a vida a dois... aquelas boas lembranças, os bons momentos que de repente são varridos para longe, para o nada, submergidos no mar de sujeira que tomou conta de sua vida... é a fase em que você percebe que a erupção do vulcão ocasionou muito mais prejuízos do que você tinha noção quando o deixou explodir. É aí que você percebe que perdeu tudo, tudo o que tinha construído, e como dói, como dói a percepção de uma vida a dois que se vai assim, sem mais nem menos, varrida por uma tsunami. Não sobra nada.


E vem a fase chuva de cinzas, a fase da tempestade e da solidão e o desejo de morte e de luto. O luto por tudo o que se foi, tudo o que morreu, tudo que se perdeu. O céu que teima em não sair do cinza. As paredes em volta que parecem cair em cima de você. O silêncio aterrador. O frio. A saudade. O remorso. A imcompreensão. O choro. A incredulidade, isto não está acontecendo! A teimosia em querer acreditar que há vida depois da morte, mas não há, você vê o caixão descendo para debaixo da terra e só pode chorar cada vez mais e cada vez mais mansinho à medida em que ele se afasta de você, levando para o fundo da terra a esperança de uma vida feliz.


E então vem a calmaria. Os ânimos arrefecem. O choro pára e você pode pela primeira vez olhar para trás e pesquisar com calma o fenômeno acontecido, para poder entender o que de fato ocorreu, o que sobrou ou não, e porque tudo ocorreu da forma como ocorreu. É a fase das perguntas, do "onde foi que eu errei?" do "porque não foi diferente?" ou do "porque não consegui?", ou "será que eu mereci?" É uma fase de meditação, de recolhimento, de análise, de reflexão. A gente procura entender porquê o Krakatoa explodiu. Será que tudo poderia ter sido evitado?


E aí depois de muita análise, de muita pesquisa, a gente chega na fase final, onde a gente se dá conta, de que o vulcão explodiu simplesmente porque tinha que explodir, porque não dava mais pra segurar, porque aquele relacionamento já tinha virado há muito tempo uma bomba latente, ressentimento em cima de ressentimento, mágoa alimentando mágoa, a comunicação cada vez mais difícil no meio daquele mar de lava comprimida. Não tinha como ser diferente, o vulcão explodiu porque estava no ponto. Para que não tivesse explodido, teria sido necessário que o vulcão simplesmente não existisse, mas ele já vinha sendo construído há muito tempo, a cada nova pastagem verde, a cada novo milharal, vinha também uma pedra negra no quintal, e depois duas pedras e depois mais três, construindo aquela montanha de rancor e de tristeza que foi crescendo, crescendo, crescendo, foi encobrindo o sol, foi transformando praia em sombra, e como tentávamos nos concentrar em salvar o milharal, e como as visitas sempre olhavam apenas para o milharal, e que belo era o milharal, não nos demos conta da montanha que cresceu, do vulcão que evoluiu sob as nossas costas e finalmente entrou em erupção. Explodiu porque tinha que explodir, não dava mais pra segurar.


E é melhor assim, porque milharal nenhum poderá algum dia florescer em terreno onde não bate mais o sol, onde só o que há é uma sombra enorme e um vulcão amedrontador no horizonte. Tinha que ser assim, perdemos o milharal, perdemos tudo, mas pelo menos o vulcão se foi, está extinto, levou tudo ao redor consigo, mas adubou a terra, ao final. As cinzas adubaram a terra porque com elas nós aprendemos sobre nós mesmos, e poderemos quem sabe aprender a evitar os mesmos erros, poderemos evitar a mesma sorte, e poderemos quem sabe plantar outros milharais em outras plantações, onde não haverá mais um vulcão, porque saberemos evitá-lo, ou não, e onde um dia o sol poderá talvez voltar a brilhar.


O krakatoa explodiu, a tsunami varreu tudo, as cinzas congelaram o dia, e eu perdi o meu milharal. Chorei, chorei, chorei. Mas ao final eu me dei conta, de que eu tenho ainda dois pés e duas mãos, e que enquanto eu ainda estiver por aqui, nada me impede, que um dia eu tente plantar um outro milharal em um outro terreno, e quem sabe desta vez, eu vou colher os frutos do meu esforço.


Tuesday, January 15, 2008

Hibernação


"A Hibernação é um estado letárgico pelo quais muitos animais de sangue quente passam durante o inverno, principalmente em regiões temperadas e árticas. Os animais mergulham num estado de sonolência e inatividade, em que as funções vitais do organismo são reduzidas ao absolutamente necessário à sobrevivência."


Estou hibernando desde que voltei à Bélgica. Tenho passado quase que dias inteiros dentro de casa e dormido até 12 horas por dia. Acho que estava precisando, quando cheguei de viagem peguei um resfriado, e estava muito cansado já desde antes da viagem. Como não tive descanso nenhum no Brasil, estou recuperando o tempo perdido agora. Uma preguiça enorme de fazer o que tem que ser feito. Também tenho comido menos, um misto de falta de apetite com falta de vontade de cozinhar. Como não tenho gasto muita energia, não tenho sentido muita fome. É, eus ei que isso é ruim, hoje fiz um esforço de me preparar um bom café da manhã, com suco, ovos, café, pão, etc. Apenas hoje comecei a desfazer a minha mala, arrumar a casa, que estava uma zona total, triar a correspondência, etc.


Para não dizer que estou escondendo o jogo: saí no final de semana. Eu tinha pensado em ir a Praga, mas achei caro. Depois pensei em ir a Paris, mas deixei para a última hora e não consegui mais. Daí fui a Antuérpia. Estava precisando trocar de ares, foi legal. Passeei pelas ruas da cidade, assim sem destino algum, só olhando as vitrines, os prédios, etc. Antuérpia é uma cidade legal para passear, o centro é mais limpo que em Bruxelas e a rua de comércio deles é bem melhor, larga, lojas bonitas, prédios bem cuidados, etc. Fui no sábado, dormi por lá, voltei no domingo no final da tarde. Saí, me distraí, foi bom.


No mais, tenho ficado em casa, mesmo. O tempo ajuda... no final de semana até que fez sol, mas desde ontem a chuvinha voltou. Tenho que ir ao banco e aos correios, mas a preguiça está levando a melhor... tenho também que ir à academia, voltar a malhar, etc, mas isto me parece ainda um feito fora de alcance. Talvez amanhã, quem sabe. O tempo parece que parou aqui dentro de casa. Não há passado, nem presente nem futuro. Só há eu e a minha casa. Não tenho visto televisão, não tenho a menor idéia do que tem acontecido pelo mundo. Passo o tempo ouvindo os meus discos, que me fazem muito bem.


Sexta feira volto ao trabalho. Devo confessar que não estou com a menor vontade, mas ao mesmo tempo sei que será bom para mim, ocupar os meus pensamentos com outras coisas que não apenas as mazelas da minha vida pessoal. Tenho que recolocar a minha vida em ordem, e sei que para um taurino como eu a mudança que está se fazendo necessária é uma tarefa herculeana, mas paciência, tem que ser assim, assim será.


E o que vier, virá. Se decidir continuar casado, será em outras bases, porque as bases atuais já não servem mais, aliás nunca serviram, tanto é que a casa ruiu. E se tiver que voltar a ser solteiro, voltarei a ser solteiro numa boa, sem remorso nem arrependimento. Ter saído no sábado à noite em Antuérpia foi bom, sentir olhares interessados, acho que eu estava precisando disso, me sentir gente de novo, sentir o sangue correndo pelas veias, sentir que existe vida aí fora. Sentir que tudo pode sim ser diferente. Sentir que eu valho a pena como pessoa.


No próximo final de semana estou pensando em ir a Amsterdam. Tenho dois convites para reuniões no sábado, inclusive o aniversário da filha de um casal de amigos, V e T, e acho que ia me fazer bem também revê-los. Mas terei que vencer a preguiça... e as quase 3 horas de trem me desanimam um pouco... (quando é que vão colocar o trem de alta velocidade, afinal??) acho que eu gosto mesmo de hibernar, se passei os primeiros três dias da volta deprimido, estou agora aqui numa boa na solidão e no aconchego do meu lar, tomando conta do meu coração, e em paz comigo mesmo. Estas são finalmente as férias das férias (ou das férias que não foram férias). Bem diferentes do que eu havia planejado, mas ainda assim, estão me fazendo bem.

Monday, January 7, 2008

Inútil Paisagem


How insensitive

I must have seemed

When she told me that she loved me

How unmoved and cold

I must have seemed

When she told me so sincerely

Why she must have asked

Did I just turn and stare in icy silence

What was I to say

What can you say

When a love affair is over


Now she's gone away

And I'm alone

With a memory of her last look

Vague and drawn and sad

I see it still

All her heartbreak in that last look

How she must have asked

Could I just turn and stare in icy silence

What was I to do

What can one do

When a love affair is over


Mas pra que

Pra que tanto céu

Pra que tanto mar,

Pra que

De que serve esta onda que quebra

E o vento da tarde

De que serve a tarde

Inútil paisagem


Pode ser

Que não venhas mais

Que não voltes nunca mais

De que servem as flores que nascem

Pelo caminho

Se o meu caminho

Sozinho é nada

É nada

É nada


Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim

Não me valeu

Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!

O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar

As sobras de tudo que chamam lar

As sombras de tudo que fomos nós

As marcas de amor nos nossos lençóis

As nossas melhores lembranças


Aquela esperança de tudo se ajeitar

Pode esquecer

Aquela aliança, você pode empenhar

Ou derreter


Mas devo dizer que não vou lhe dar

O enorme prazer de me ver chorar

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago

Meu peito tão dilacerado


Aliás

Aceite uma ajuda do seu futuro amor

Pro aluguel

Devolva o Neruda que você me tomou

E nunca leu


Eu bato o portão sem fazer alarde

Eu levo a carteira de identidade

Uma saideira, muita saudade

E a leve impressão de que já vou tarde.


De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto


De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente


Fez-se do amigo próximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente