Sunday, May 3, 2009

Número 37

Esta semana estarei virando a folhinha... chegando aos meus 38 anos. Hora portanto de avaliar o que foi pra mim o ano de número 37 da minha vida.

Que ano, este ano 37. Quando eu era mais jovem (sim, porque eu ainda sou jovem, apenas que eu já fui ainda mais jovem, he he he), 37 para mim era a idade adulta perfeita, aquela idade em que já alcançamos tudo o que queríamos e ainda temos a energia necessária para curtir a vida. 

Ledo engano...

Estou chegando aos 38 e ainda tem muita, muita, mas muita coisa que ainda quero se possível alcançar nesta vida cheia de altos e baixos, curvas e retas, becos, campos, poços, escadas, desvios, retornos, pontes e precipícios que é a minha. Bom, energia eu ainda tenho, embora possa dizer que depois dos 35 a pilha começa a falhar mesmo.

Mas não posso reclamar dos meus 37 anos, aliás não devo reclamar de modo algum, pois faz muito tempo que eu não me sentia tão feliz e em paz com a minha vida como agora, no final dos meus 37 anos. As vezes até mesmo me pergunto se eu algum dia fui mais feliz do que agora. Será que é a maturidade felizmente chegando e colocando tudo em perspectiva, e relativizando todas as minhas certezas e também as minhas dúvidas? 

Este meu ano 37 começou bastante atordoado. Há um ano atrás eu estava saindo de um relacionamento desgastante, destrutivo mesmo (e antes que me chamem de one sided, eu quero deixar bem claro que eu tive sim a minha parcela de mea culpa nesta história, apenas acho que as reações com as quais tive que lidar eram infinitamente superiores que quaisquer atos de minha parte... e não se fala mais disso que esta página eu já virei, desejo ao meu ex toda a felicidade do mundo, apenas bem longe de mim). Acabara de me mudar para o meu apartamento novo em Ixelles, e estava curtindo a paz eterna da solidão sem fim.  No more drama, como diria Mary J. Blige. (se por acaso eu escrevi o nome dela errado, alguém me corrija por favor, estou com preguiça de google it.)

Como parte do meu processo de reestruturação passei o ano com o pé na estrada. Desde maio do ano passado eu estive em vários lugares onde pude conhecer gente nova, rever gente velha, e me renovar igualmente. Fui a Praga, a bela Praga, e em Maio, e lá conheci o meu querido amigo B., hoje em dia um dos meus melhores amigos, um dos poucos amigos gays que tenho que sabe toda a minha vida de A a Z. Nele eu confio. 10 anos mais novo que eu, doidinho, a little slut, but a sweetheart. Estive também em Madrid, onde me joguei em 3 dias de festa no Gay Pride de lá, fui a todas as festas, tomei todas, fiz tudo o que devia e o que não devia, chutei o pau da barraca, enfiei o pé na jaca, virei noite, enfim, mais Almodóvariano que eu no Pride de Madrid do ano passado, impossível. Demanda reprimida, eu diria. Saí de lá com várias lembranças de momentos incríveis, outras de momentos, digamos, menos incríveis, uma lista de números novos no celuular, uma dor de cabeça daquelas, e uma crise existencial dois dias depois na chuvosa Bruxelas. Enfim, passou.

Passei ainda por Paris onde tive o prazer de rever a minha querida sobrinha G., assim como a minha irmã, e com elas passei momentos bastante agradáveis, na cidade que talvez seja hoje em dia a única coisa que eu e minha irmã temos em comum, infelizmente, além da família. Amamos Paris. Mas nossas vidas são tão diferentes, nossas experiências de vida adulta tão díspares, que já não mais falamos a mesma língua. Não é culpa dela, nem minha. Coisas da vida. Passei também por Leiden, onde encontrei a minha querida B, essa sim minha irmã de alma, que me entende sem pestanejar, e com quem eu consigo rir e chorar. 

Tive o meu batismo de fogo em Ibiza no verão de 2008, o meu verão 37, onde descobri porque Ibiza é Ibiza, e porque dá sim vontade de voltar. Porque em Ibiza todo mundo é sempre jovem, a vida parou ali, Ibiza é só festa, hedonismo, curtição, enfim, celebração da vida, ainda que por vezes acabe em morte. Mas enquando o mundo for o que é, e enquanto a humanidade precisar de todas as válvulas de escape necessárias para esquecer o mundo, Ibiza continuará também a ser o que é. Ou talvez venha a surgir uma nova Ibiza, mas o espírito de Ibiza, ele estará lá. Ibiza foi pra mim o highlight dos meus 37. Pode parecer superficial, mas não é. Pelo contrário. 

Estive ainda em Portugal, revendo também a minha irmã, e onde me esbaldei na comida, na língua, nas ruas, nos livros, no Chiado, ouvi um fado na Alfama, perambulei pelo Bairro Alto, dancei com o Luís e a Verinha até as seis da manhã, e descansei naquele praião enorme que é a Caparica, que praia linda, que praia sem fim, que beleza sem fim, ai que saudades de Lisboa. Andei, andei, andei, andei, andei, andei. Andei, e voltei.

E voltei pro inverno, e o inverno este ano doeu. O inverno foi frio, o inverno foi longo, o inverno foi triste, o inverno foi duro, o inverno foi difícil, o inverno foi deprimente. O inverno matou. O inverno matou um certo eu, que morreu de tanto sofrer, que cansou de tanto apanhar, um certo eu que não aguentou as dificuldades da vida e afundou e levou consigo muita coisa e muita gente. Um certo eu que ficou pra trás. Janeiro de 2009 viu nascer um novo eu, um eu talvez mais egoísta mas também muito mais forte e sem dúvida nenhuma, muito mais assertivo e mais feliz. Um eu que não se contenta mais em ser o bonzinho e só levar pancada. Um eu que apanha, mas que bate de volta, na mesma hora, e sacode a poeira e dá risada e segue em frente. Um eu que se olha no espelho todas as manhãs e diz "you're fabulous!" e que vai no terraço e grita: Bom dia, dia! Um eu que acordou um dia sozinho em um quarto de hospital e olhou para os lados e viu aquelas paredes brancas numa fria manhã de inverno e pensou: what a waste of time, such drama in my life. Enough. 

Um eu que comecou tomando de volta o que era dele, porque o que é do homem o bicho não come e que é MEU é MEU e niguém mais me rouba. Porque eu mordo a mão MESMO. Meus dentes estão afiadíssimos. E quem quiser ter problemas com isso, que tenha. Quem paga as minhas contas no final do mês sou EU, não é mamãe, nem papai, nem maridinho, nem filhinho. Quem sabe quais são os calos me me machucam são eu e quem os cura sou eu também. E quem não quer ter o trabalho de me entender, quem não quer perder o tempo de me escutar, quem não quer saber, bom... paciência. Quem não me quer, não me terá, simples assim. 

E o inverno foi passando e a primavera foi chegando e as noites diminuindo e os dias aumentando e o ano novo começou e estava na hora de um velho sonho, e o sonho finalmente se tornou realidade, eu fui parar lá do outro lado do mundo, lá na Austrália, onde tive férias maravilhosas, se não as melhores dos meus 37, pelo menos e sem sombra de dúvida, as mais marcantes, as férias que eu não vou esquecer... por que foi lá, na Austrália, que a vida voltou a sorrir pra mim, e foi lá que eu voltei a sorrir pra vida, e foi assim, sorrindo pra vida, aproveitando tudo o que ela tem pra me oferecer, e aprendendo a ser feliz com o que tenho, e mais ainda, de ter orgulho de quem eu sou, que eu cheguei onde estou agora. E onde eu estou agora, não só eu estou sorrindo pra vida e ela pra mim... mas também, tem um certo alguém sorrindo pra mim, desde lá da Austrália, com o sorriso mais lindo que eu já vi na minha vida, sorrindo pra mim. 

Mas esta será a história do número 38. Quem viver, verá. 

Champagne! Que a vida vale muito a pena, e eu sou muito, mas muito, feliz. :-) 

1 comment:

Beth Blue said...

Muita champagne mesmo pora brindar a sua felicidade e a minha, porque merecemos! E que bom te ver (ler) depois de um longo silêncio...

E isso aqui poderia ter sido escrito por mim (vamos em frente que atrás vem gente, meu amigo):

Um eu que comecou tomando de volta o que era dele, porque o que é do homem o bicho não come e que é MEU é MEU e niguém mais me rouba. Porque eu mordo a mão MESMO. Meus dentes estão afiadíssimos. E quem quiser ter problemas com isso, que tenha. Quem paga as minhas contas no final do mês sou EU, não é mamãe, nem papai, nem maridinho, nem filhinho. Quem sabe quais são os calos me me machucam são eu e quem os cura sou eu também. E quem não quer ter o trabalho de me entender, quem não quer perder o tempo de me escutar, quem não quer saber, bom... paciência. Quem não me quer, não me terá, simples assim.


PS. Minha vida também é cheia de becos, estradas esburacadas e por ai vai. Só falta mesmo as viagens, que um dia ainda retomarei. Enquanto isso, você parece que tem viajado por mim, hehehe.