Tuesday, November 24, 2009

Boom boom Buda Bangkok


Eu não tinha comentado ainda sobre Bangkok.


Bom, quando minha mãe me perguntou como era Bangkok, a resposta que me veio instintivamente à cebaça foi "Bangkok é uma mistura de Belém com Tóquio. Eu não conheço Tóquio e portanto é claro que esta comparação está sujeita a erros, mas pelo que costuma falar, ver e ouvir de e sobre Tóquio, eu imagino que a minha comparação esteja mais para correta do que para errada, até porque o outro lado da moeda, Belém, essa eu conheço muito bem e portanto falo com categoria. Pode parecer muito estranho uma descrição como esta, mas é exatamente isso o que eu senti. De um lado, Bangkok é uma capital asiática high tech hiper moderna e futurista. Por outro lado, é uma cidade antiga, quente e pitoresca. De uma forma ou de outra, a palavra em inglês que melhor definiria a cidade seria "overwhelming".


O calor. Essa é a primeira coisa que se sente quando saímos do enorme aeroporto internacional da capital tailandesa. O calor e a umidade. Bangkok foi recentemente votada a capital mais quente do mundo, literalmente falando, e eu não duvido nem um pouco do resultado desta pesquisa. A sensação de estar dentro de uma sauna ao ar livre é constante. Como em qualquer capital tropical que se preze, tudo acontece em ambientes climatizados, então o calor só se sente mesmo na rua e em lugares públicos. Mas como turista tem mesmo é que ir pra rua e conhecer a cidade, então não há solução a não ser vestir roupas bem leves e enfrentar o termômetro.


A multidão. Em Bangkok não é só o calor que assusta, é também a multidão. A chamada "Cidade dos Anjos", nome oficial da cidade na língua thai (Krung Thep ou algo assim, por favor me perdoem se eu escrevi errado) é uma metrópole de pelo menos uns 10 milhões de habitantes que parecem estar o tempo inteiro indo de um lugar para o outro, quando não estão vendendo, comprando, ou simplesmente ajoelhados em algum dos vários templos budistas espalhados pela cidade, orando e cantando. Ou estão a comer pelas ruas, em um dos milhares de food stalls que estão espalhados pela cidade inteira. Em Bangkok não há como se sentir isolado.


A ostentação. Uma visita turística a Bangkok tem que começar pelo Wat Phra Kaew, o convento budista localizado ao lado do Palácio Real e onde encontra-se o Templo do Buda de Esmeralda. O lugar é simplesmente inteiro folheado a ouro. Torres, colunas, estátuas, tudo é em ouro. Ou em mosaicos maravilhosos que deixam o Parc Guell de Barcelona com complexo de inferioridade. É impossível não ficar absolutamente impressionado com a beleza e ostentação do lugar. Eu acho que nem em Versalhes eu vi tanta riqueza por metro quadrado como naquele convento, abastecido por generosas doações da família real tailandesa ao longo dos séculos. Pois, se o Rei é Rei, Buda é Buda.


A religião. A Tailândia é um país budista e em Bangkok o budismo está por toda parte. Desde templos enormes onde se pode ver Buda em todas os modelos e posições possíveis (há o templo do Buda sentado, o templo do Buda em pé, o templo do Buda deitado, o templo do Buda de ouro, o templo do Buda negro, o templo do Buda meditando, eu achei que só faltava mesmo o templo do Buda cagando, Buda que me perdoe!) até os pequenos altares montados em lojas, restaurantes, hotéis, museus e prédios públicos em que oferendas são colocadas, além de incenso e flores. Eu tive a sorte de estar na cidade durante um festival religioso budista e pude ver a devoção da população local que lotou todos os templos por onde estive. Se os templos mais luxuosos são hoje em dia mais um local de peregrinação turística do que qualquer outra coisa, foi nos pequenos templos de bairro, que eu tive a oportunidade de visitar, que eu pude "sentir" a fé budista do povo de mais perto.


A comida. A comida tailandesa é muito saborosa e em Bangkok ela está por toda parte, desde os shopping centres mais luxuosos até os milhares de botecos de Chinatown onde se pode ver e escolher comida de todos os tipos, cores, formas, cheiros e sabores. Eu devo admitir que sou meio chato para comer, preciso de um ambiente calmo, uma mesa e uma cadeira, mas para quem é mais aventureiro, Bangkok pode ser uma viagem gastronômica em termos de diversidade culinária dentro de um mesmo tema. Comida é o que não falta por ali.


A modernidade. Se a Bangkok antiga é um mosaico de templos budistas, lojinhas de quinquilharias, bancas de comida, e multidões de pedestres e motoristas, a Bangkok moderna é o templo dos shopping centres, dos hotéis de luxo e do Skytrain, o metrô futurista da cidade que ao invés de passar por baixo, passa por cima, serpenteando entre um arranha céu e outro e cortando caminho ao mesmo tempo que evita a confusão lá de baixo. Do Skytrain é possível sair diretamente dentro de um shopping centre, e por meio de passarelas suspensas também é possível passar diretamente de um shopping centre a outro, de forma que podemos passar o dia inteiro assim, pulando de um centro de consumo a outro sem tocar os pés no chão da realidade local. Do MKB, um dos principais shoppings locais que é quase como uma versão shopping centre de uma feira de rua (só vendo para entender) ao hiper luxuoso Siam Paragon onde há um andar para qulaquer tipo de desejo, desde cirurgia plástica até carro importado, tem para todos os gostos e bolsos. Viva o consumo, viva a simpatia local, e em nome de Buda, vamos todos gastar. Boom boom boom, modelitos comprados, é hora de se divertir, a noite em Bangkok vai começar.

Monday, November 9, 2009

O Dominó de Berlim


Há 20 anos atrás quando o muro de Berlim caiu, eu estava ainda na faculdade de Direito. Para falar a verdade eu não me lembro exatamente do que eu estava fazendo naquele dia, mas por curiosidade procurei através da internet o calendário de 1989 e descobri que o 9 de novembro daquele ano caiu numa quinta feira. Deve ter sido um dia normal, de muito calor e talvez chuva, como são os dias em Belém nesta época do ano. Eu devo ter passado o dia em aulas na Universidade, e ao final da tarde devo ter voltado pra casa. O que eu me lembro sim, daquele dia, é de ter recebido a notícia pela televisão, acho que no jornal das oito, assim como a maior parte da população mundial. E também como todo mundo, é claro que achei fantástico o que estava acontecendo, e fiquei grudado em frente à tv até altas horas da noite, mudando de canal para canal, de jornal para jornal, para não perder nenhum minuto daquele acontecimento histórico que estava sendo transmitido ao vivo para o mundo. E uma idéia na cabeça: "puxa, como eu gostaria de ter estado ali naquele lugar e naquela hora precisa.'

Naquela época, a idéia que se tinha dos países do leste europeu, e principalmente dos seus habitantes, era bem diferente da realidade que vemos hoje. Berlim, Praga, Budapeste, ainda estavam bem longe de ser as megacapitais de turismo em que se tornaram hoje. Países como a Bulgária ainda eram vistos com receio e a Bósnia ainda nem sequer existia como país independente, escondida no país que chamávamos de Iugoslávia. Quanta mudança e a gente nem se toca! Quando eu finalmente estive em Berlim pela primeira vez, em 1998, a cidade já estava em plena transformação. A Potsdamer Platz ainda era apenas o "maior canteiro de obras da Europa" como se falava na época mas o Checkpoint Charlie já era lembrança de um passado distante e a Friedrichstrasse estava em franca evolução rumo ao que é hoje. Mas a impressão geral que a cidade dava é a de que era realmente uma cidade em fase de transição, de mudanças, tantas eram as obras espalhadas pela cidade, tantas eram as diferenças que se encontravam aqui e ali, tanta cor de um lado, tanto vazio de outro. Este ano, ao visitar a cidade apenas pela segunda vez, notei que apesar de um ou outro canteiro de obras aqui ou ali, em termos gerais a cidade já está bastante refeita. A cidade está completamente diferente. Mas o que é interessante no caso de Berlim é que a cidade conseguiu se transformar sem perder a alma. Prenzlauer Berg virou um bairro yuppie, quem diria, mas comparada com Londres ou Paris, Berlim ainda é bem undergroundzinha, e é essa aversão civilizada mas resistente a tudo que cheire a pequeno-burguês da cidade que a torna atraente. Amsterdam, que vem seguindo o caminho contrário nos últimos anos, poderia tirar uma lição daí sem dúvida. Bruxelas então, nem se diga.

Um amigo meu comentou hoje que estava surpreso com a relativa apatia com a qual a celebração dos 20 anos da queda do muro foi - ou não - comentada durante o dia. A verdade é que ninguém falou muito a respeito do assunto em círculos privados. Sim, a notícia está em todos os jornais e revistas, sim, a Alemanha preparou uma festa enorme em Berlim com um belo jogo de queda de dominó gigante simbolizando a queda do muro, sim, todos nós sabemos do quanto o mundo mudou de lá pra cá. Mas será nos damos conta ainda do significado disso tudo? Parece-me que já estamos dando o fato como favas contadas, já estamos "taking it for granted" e esquecendo que na verdade o povo da antiga Alemanha Oriental teve realmente que lutar para conseguir chegar lá e que tudo poderia ter acabado diferente de como acabou. Em uma Europa reunida, o que talvez poderia, e deveria, ter sido o motivo para uma festa continental, não foi. Todo mundo continua seguindo suas vidas, e quando possível assistindo ao resumo das festividades em Berlim pela televisão, mas assim, de passagem. Durante o jantar e de preferência antes da hora de dormir porque amanhã todos nós temos que ir trabalhar, ora bolas. A queda do Muro de Berlim, verdadeira queda da Bastilha do século XX, virou produto de consumo. Alguém tem ainda algum pedacinho do muro pra vender? Será que vale ainda alguma coisa? Tudo foi banalizado. O Muro virou um jogo de dominó bem colorido para cair ao vivo pela tv, mas por favor não confundir as peças de dominó caídas com o Monumento ao Holocausto logo ao lado. Nele os blocos são cinzentos, já estão caídos antes da festa começar, e lá ficarão, eternamente, para o esquececimento geral da humanidade.

Deixa eu esclarecer. Não é que o assunto fora esquecido pela mídia não, eu já falei isso, muito pelo contrário. A semana inteira pudemos nos deliciar aqui na Europa com todo tipo de documentário sobre o Muro. Quando o Muro surgiu, como o Muro caiu, quem pulou do Muro, quem caiu do Muro, quem fugiu do Muro e quem ficou em cima do Muro, de todos eles pudemos saber os nomes, as vidas, as histórias. Relatos de "como eu consegui fugir" aos montes, seguidos dos inévitáveis momentos de emoção, os reencontros, os choros, o final feliz. Sem esquecer o epílogo em que nós é narrado em off o que aconteceu com cada um dos "personagens" após o capítulo final. E assim cada uma daquelas pessoas, testemunhas da história há 20 anos atrás, narradoras de seriado na atualidade, expôs a sua história ao mundo, como um verdadeiro "Truman Show" versão europeia e todos nós assistimos aos documentários, assim com quem assiste a uma novela das oito. Emocionados sem dúvida, mas vivendo a sensação de que aquilo que nos é contado não passa de uma ficção barata de um tempo que já passou, que já não existe mais. O tempo voa. A memória é curta. Não há espaço suficiente no drive. Deleta. Como assim o Muro caiu? Como assim comunismo, o que era isso mesmo? Ah sim, claro, tinha um muro ali antes, nossa. Muda o canal agora por favor, que o show da Beyoncé vai começar. Puxa, é não é que ela ganhou três awards no European MTV Awards... FABULOUS!!! E coincidência do século, não é que a festa foi em Berlim??? Ach, Berlim, tinha que ser por isso que estava todo mundo falando da cidade mesmo esta semana, era o show da Beyoncé, era o MTV Awards, ora bolas. Dá pra fazer um download no YouTube? Ich bin auch ein Berliner!!!

Tuesday, November 3, 2009

Independência e Morte.

Hoje a tarde eu recebi en passant a notícia da morte de um tio, o qual já não vejo há muitos anos. Para falar a verdade eu me lembro muito pouco dele, quase nada mesmo. Nem sei dizer quando foi a última vez em que o vi. Talvez tenha sido quando fazia o segundo grau na escola, pois eu tinha amigos em comum com a minha prima, que estudava no mesmo colégio, e portanto ainda me lembro de ter estado na casa deles algumas vezes naquela época, já há mais de 20 anos atrás. Depois, fui perdendo o contato. Meus pais sendo separados e eu nunca tendo tido muito contato com a família do meu pai, o afastamento foi quase que uma coisa natural, consequência da vida. Cresci, estudei, me mudei, fui embora e acabei perdendo o contato não só com eles mas com quase toda a minha família, inclusive aqueles a quem eu era mais chegado. Para falar a verdade, não posso dizer que fiquei triste com a notícia. Como ficar triste com a notícia da morte de alguém com quem se perdeu o contato há mais de 20 anos? Por outro lado, fiquei triste pela minha tia e pelos meus primos, pois imagino o seu sofrimento. Só que é um sofrimento do qual eu faço parte apenas como espectador. Devo admitir que eu me senti bastante constrangido ao me dar conta disso.

Nessa vida de quase nômade que eu levei até agora por maiores ou menores espaços de tempo em 9 cidades espalhadas por 6 países. Uma vez eu contei que entre o ano 2000 e 2008 eu havia me mudado de casa 16 vezes, o que dava uma média de uma mudança a cada 6 meses. Nessas andanças todas conheci muita gente, é claro, gente que passou pela minha vida, deixou marca ou não, e se foi, além de alguns poucos que foram insistindo em ficar pelo caminho, ainda que a vida marche em direção oposta. Gente que foi muito importante durante um tempo, e com as quais eu perdi totalmente o contato; mas também gente a quem eu talvez nunca tenha dado a atenção necessária, pois apesar de tudo, ficaram.

Agora a noite eu acabei de usar um daqueles aplicativos bobos do Facebook, que eu uso para matar o tempo quando não tenho nada para fazer. 10 e meia da noite, já jantei, já vi o noticiário, já arrumei a casa, já me preparei para amanhã, estou agora aqui a divagar pelo computador enquanto espero a hora de ir dormir. Resolvi fazer a minha contagem de "amigos" (assim entre aspas porque a noção de "amigo" no Facebook é muito ampla!) por cidade, país e continente e me deparei com um resultado que me surpreendeu. Tenho 52 amigos em Amsterdam, 21 em São Paulo, 19 em Londres, 15 em Bruxelas, 10 em Nova York, 9 em Sydney, 6 em Paris, Colônia, Melbourne e Barcelona, 5 no Rio de Janeiro e Berlim, 4 em Madri, 3 em Milão e Rotterdam e mais uma lista enorme de lugares onde tenho um ou dois "amigos". Eu sabia que conhecia muita gente em muitos lugares, mas sinceramente não tinha idéia de que era tanto assim.

E é aí que está o paradoxo da coisa. Ao mesmo tempo em que conheço tanta gente em tantos lugares, tenho a sensação por vezes de que não conheco quase ninguém e me sinto um estranho total mesmo ao lado da minha própria família. É muito estranha esta sensação. Não posso dizer que eu esteja sozinho com uma lista dessas pelas costas e ainda mais se levo em consideração os poucos amigos mais chegados que apesar dos pesares me ligam, me procuram, e me interessam também, mas a verdade é que eu sou de fato um solitário, um loner, e apesar de conhecer muita gente, acabo me apegando a muito poucos.

Eu sempre fui muito independente desde criança, sempre quis fazer tudo sozinho e nunca procurei a ajuda de ninguém para nada; eu sempre achava que sozinho eu faria melhor. Uma das coisas que eu gostava de fazer era sair andando sozinho, onde quer que fosse, apenas para ver onde aquele determinado caminho ia dar; acho que foi dessa curiosidade que nasceu a minha paixão por geografia, eu sempre curioso em relação ao mundo. Mas à medida em que fui crescendo e que fui andando pela vida, procurando ver onde cada caminho ia dar, (e cada caminho onde eu fui parar!) fui perdendo o contato com aqueles que ficaram no ponto de partida, aqueles que não quiseram, não puderam ou não ousaram me acompanhar. Eu fui sozinho, e sozinho fiquei.

Hoje em tenho a minha família no Brasil, o meu namorado e futuro cônjuge na Austrália, os meus amigos e conhecidos espalhados pela Europa e pelo mundo, mas eu sei muito pouco de quase todos eles, e quase todos eles também sabem muito pouco ou quase nada a meu respeito. Talvez o meu noivo, talvez a minha irmã e as minhas quatro ou cinco amizades mais sólidas são as que conhecem a maior parte de mim - o "eu" inteiro, ninguém conhece. No mais, todo o resto são relações leves e desimportantes, infelizmente. São relações verdadeiras uma vez que francas e honestas, mas ao mesmo tempo superficiais em sua maioria, uma vez que não há por minha parte, eu admito isto, a busca pela profundidade, pelo verdieping como se fala em holandês. Ficou tudo muito raso assim como a Holanda. Eu gosto de saber que estejam todos bem, mando notícias de vez em quando para que saibam como eu vou passando, ajudo quando posso, mas fica por aí. Quando alguém se vai, como agora, eu não posso dizer que eu sinta muito... mas também tenho certeza, e sem nenhuma mágoa, que a maioria também não sentiria muito a minha falta se eu um dia me fosse.

Será que sou insensível? Não, eu sei que não sou insensível. Pelo contrário, eu tenho uma sensibilidade muito forte, e talvez por isso mesmo eu tenha me afastado da maioria, e mantenha este escudo gelado e transparente que não deixa quase ninguém se aproximar muito. Sorrio para todos, procuro ser cordial, mas fico na minha. O "problema", se é que se pode chamar isto de problema, é que eu prefiro me concentrar àqueles poucos que conseguem furar a barreira, só que eu talvez me concentre demais nestas poucas pessoas que realmente contam para mim, e negligencio o resto. Há vezes em que me sinto sozinho. Chego numa festa por exemplo, e não me sinto à vontade com quase ninguém, e tenho uma ponta de inveja daquelas pessoas que chegam em um evento desses e em meia hora já conhecem a festa inteira. Eu nem que quisesse, não conseguiria. Mas aí é que está; eu talvez ache que eu queira algo assim quando eu chego na festa e me sinto um peixe fora d'água... mas na verdade, eu acho é que eu não quero nada disso, senão talvez tivesse tentado um dia fazer algo a respeito. O fato é que desconfio da humanidade e prefiro deixar ela assim, ao largo, assim não deixo que me machuquem. Já chorei muito pela ausência daqueles a quem eu mais queria... se hoje em dia alguém se vai e eu não consigo chorar... acho que é o preço que pago pela minha independência.

Friday, October 23, 2009

Tailândia, tsunamis e trópicos


Acabei de voltar de férias da Tailândia.


Passei uma semana em Pukhet, uma ilha da costa do Mar de Andaman e um mega destino turístico para Europeus e Australianos, e depois um final de semana em Bangkok. Era outubro, oficialmente o período das monções, e portanto a expectativa era de chuva. Além disso, o recente maremoto em Samoa (distante, sem dúvida, mais ainda assim uma notícia nada agradável de se ouvir alguns dias antes de se embarcar rumo ao mar), mais o terremoto na vizinha Indonésia, e este bem na região da falha geológica que há alguns anos causara o terrível tsunami naquela parte do globo, não eram os melhores indicativos de férias, digamos, tranquilas. Mas a minha vontade de ir era muita, não só por motivos de ordem pessoal mas também porque nunca tinha antes estado na Ásia (conexões em aeroportos não contam!) e tinha mesmo fome de conhecer o maior dos continentes.


Eu ainda me lembro dos meus pais desesperados procurando notícias a meu respeito quando houve o terremoto de Atenas, acho que foi em 1999, e eu já estava em Santorini mas as ligações telefônicas haviam sido cortadas e eu só pude entrar em contato com eles dois dias depois, já no aeroporto de Atenas e voltando para o Brasil, e o meu pai só conseguia falar no telefone "meu filho, saia da Grécia!" (ah, que lembranças, eu também me lembro das três cariocas que eu conheci de passagem na fila do telefone público em Santorini, todo mundo tentando alguma conexão e ninguém conseguindo, e a gente bateu um papo por uma meia hora e elas concordavam comigo que Santorini era linda mas o agito mesmo era em Mikonos... mas enfim, estou aqui falando da Tailândia, não da Grécia) então para não espantar ninguém fiquei quietinho no meu canto fazendo "low profile", mas a verdade é que antes de viajar eu estudei bem a respeito do fenômeno dos maremotos e até mesmo em como distinguir a proximidade de um deles e que fazer no caso de deparar com um deles.


Basicamente, uma das maneiras de se perceber que algo de muito errado está para acontecer, é quando a maré baixa muito além do esperado (acho que isso não deve valer para a região do Mont Saint Michel na França ou mesmo para Salinas no norte do Pará onde as diferenças entre maré alta e baixa são enormes, mas em todo caso estas regiões não estão nas áreas chamadas "de risco), com o mar se afastando de uma maneira nunca antes vista. Isto é mau sinal, porque quando ele volta, vem com tudo. E se vier, a única coisa a fazer, além de rezar, é claro, é correr, e se possível para cima, pois muito provavelmente somente as pessoas que estiverem nos andares mais altos dos prédios em frente à praia vão conseguir se salvar... simplesmente correr para a rua não adianta, o mar é mais rápido. Então foi munido destas instruções básicas de sobrevivência que eu parti rumo ao meu primeiro encontro com o Oceano Índico.


Cheguei em Pukhet e a minha primeira impressão da ilha é que ela se parece muito com o Brasil. À parte a língua estranha, os olhinhos puxados por toda parte e as oferendas em mini templos budistas espanhados pelas ruas, eu me senti quase como se estivesse em alguma auto estrada brasileira no caminho entre o aeroporto e a região das praias. O mesmo mixto de riqueza e pobreza convivendo lado a lado, a bagunçinha arquitetônica típica das zonas tropicais e aquele calor tórrido - felizmente o carro que me conduzia tinha ar-condicionado. E quando fomos chegando perto das praias e aquele panorama de morros, ilhas e praias côncavas urbanizadas lá em baixo, aí mesmo foi que eu tive a nítida impressão de que eu poderia estar indo para Ubatuba e teria visto exatamente a mesma coisa. O que é um elogio, pois eu adoro Ubatuba.


Bom, eu poderia continuar citando as inúmeras comparações que fiz com o Brasil mas ao invés prefiro comentar o que vi de diferente. Primeiro, os enormes resorts da região. Pukhet ganhou fama internacional e por causa disto todas as principais marcas hoteleiras estão lá, você vai passando pelas avenidas de beira mar que existem em quase todas as praias e os nomes vão se alternando, Hilton, Sheraton, Meridien, Intercontinental, you name it, they have it. Um maior que o outro, um melhor que o outro, um tão igual como o outro no final. Ah, como vida de milionário deve ser difícil, ter que escolher entre um resortinho destes e outro. Como assim, só tem duas piscinas??? Como assim não tem acesso direto ao mar???


Pois eu fiquei em um resortinho com três piscinas e acesso direto ao mar, he he he. Não que eu seja milionário, mas ao invés de me aventurar pelos label hotels da vida, procurei uma marca local, e fui parar num hotel chamado Kata Beach Resort & Spa, que apesar dos medonhos elefantinhos de concreto na entrada, eu recomendaria para qualquer um. Pode não ter o glamour dos hotéis de classe, mas em termos de conforto, localização, preço e atendimento, não tenho queixas. Ganhamos um upgrade na chegada (motivo, hotel lotado e o tipo de quarto que tínhamos reservado não estava disponível) e fomos confortavelmente hospedados no que eles chamam "pool villa", uma suíte no andar térreo com varanda e piscina privativa. Isso mesmo, a gente tinha uma piscina só pra gente. E principalmente a localização do hotel era a melhor possível: o Kata é um dos poucos hotéis em Pukhet com acesso direto à praia. Nem Hilton nem Sheraton podem se gabar disto. A nossa preocupação diária era: hoje vamos para a praia, para a piscina da esquerda, para a piscina da direita, ou ficamos aqui na nossa piscininha privativa? Ah, pra quê escolher? Vamos primeiro à praia, depois a gente sobe para a piscina e depois do almoço damos os últimos mergulhos na nossa piscina. A verdade é que só tivemos chuva no princípio da viagem, a maioria dos dias foi de puro verão.


Aproveitamos um dia para fazer um passeio às chamadas Phi Phi islands, um pequeno arquipélago situado ao largo de Pukhet, e famoso desde que o filme "The Beach" com Leonardo di Caprio e Tilda Swinton foi filmado por lá. O filme é medíocre, mas a tal da praia de que fala o fime é mesmo paradisíaca e sem dúvida entrou direto pra minha lista das top ten no mundo, dentre aquelas que conheço, é claro. Bastante parecida com outra praia linda em que estive este ano, a Loch Ard Grove, na Austrália, só que mais verde, a praia de Maya bay é formada por dois paredões de rocha enormes que quase estrangulam o mar, dando acesso a uma pequena baía dentro da qual encontramos o paraíso perdido. Sim, o lugar é mesmo de uma beleza indescritível. Mas, paraísos perdidos não existem... subindo um pouquinho em direção à terra firme, encontramos logo uma placa bem grande informando que aquela região é zona de risco de tsunamis, "tsunami hazard zone" e dando instruções aos banhistas de seguir a trilha rumo acima no acaso de um evento desagradável. Mas olha, com ou sem risco de tsunami, vale muito a pena conhecer a praia, e não é à toa que haviam vários barcos por ali, todos cheinhos de turistas se maravilhando como eu com a beleza ímpar do lugar. Infelizmente eu escolhera mal o dia da visita, logo no começo da viagem e portanto o tempo não estava dos melhores... tivesse ido uns dois dias mais tarde e eu teria encontrado a praia em todo o seu esplendor tropical. Mas uma praia que consegue ser linda ainda com chuva e tempo nublado... é para poucos.
Depois da visita à Maya Bay beach seguimos para o outro lado da ilha, onde uma laguna também formada por paredões de rocha estrangulando o mar e ainda mais paradisíaca nos esperava... nessa laguna não há praia, mas a concentração de sal na água é tão grande que não é preciso ter medo dos 20 metros de profundidade ao se saltar para um mergulho... os corpos boiam na água assim como no famoso Mar Morto de Israel. Eu bem que fiquei tentado a pular, mas tenho que admitir, tenho um problema muito sério com a sensação de não dar pé na água... fiquei no barco mesmo. Para terminar a sessão de passeios, fizemos também um dia um passeio de barco e canoas por um outro grupo de ilhas vulcânicas com lagunas internas às quais só se tem acesso através de pequenas canoas que passam por debaixo de grutas escuras e misteriosas... aí é que tive mesmo a sensação de estar entrando em um universo paralelo... a sensação de atravessar uma escuridão total em um barquinho para encontrar do outro lado um mini paraíso ecológico preservado, é como se estivéssemos voltando no tempo. Quantas vezes eu já usei a palavra paraíso aqui neste post?


Bom, a parte paraíso de Pukhet se resume a estas pérolas de beleza natural espalhadas ao redor da ilha... a ilha em si é mais mundana, mas tudo bem. A noite em Pukhet? Olha, tem pra todos os gostos, desde o chiquérrimo Supperclub até o boteco da esquina, passando pelas milhares de nightclubs tourist traps para todo tipo de clientela... mas a noite para mim se resumiu em momentos íntimos e aconchegantes na minha pool villa, afinal de contas eu estava em ótima companhia. Um dia ainda nos animamos para ir ao Supperclub mas a animação não passou do jantar, passamos em frente a um bom restaurante tailandês chamado Mali, todo branco e que ficava em frente ao hotel... olhamos um para o outro e falamos a mesma coisa "Supperclub? I couldnt bother...". De repente a ideia de ter que trocar a camiseta, bermuda e sandálias por algo mais urbano nos pareceu insuportável. Estou ficando velho and I love it.


Não falei ainda da comida. A comida na Tailândia é fantástica, saborosa, nutritiva, e barata. Um jantar completo para duas pessoas com entrada e sobremesa em um restaurante local sai por 10 euros... bebidas alcóolicas a parte, e no caso da Tailândia, elas são caras... melhor ficar na Singha, a marca de cerveja local. Não é preciso explicar que nos fartamos de comida tailandesa até o esgotamento. Eu adoro comida tailandesa, mas tenho que admitir que no final eu já estava um pouco cansado de qualquer coisa à base de curry ou molho agridoce, mas felizmente em Pukhet também há uma dezena ou mais de bons restaurantes europeus onde se pode comer pratos de carnes e massas decentes por um preço adequado, mais caros que os pratos tailandeses mas ainda assim pagáveis, para aqueles que não apreciem (vai saber, tem gosto pra tudo) a maravilhosa cozinha tailandesa. Apenas por favor não fiquem espantados se em uma determinada hora aparecer uma baratinha pela parede lateral do restaurante sendo seguida por uma lagartixa que pelo jeito também estava a fim do seu jantar... afinal, isso é a vida nos trópicos.


Puxa, ainda nem falei de Bangkok... fica pra próxima!


Monday, September 28, 2009

Multipolaridade

Outro dia eu escrevi no Facebook um comentário falando que eu não estava tendo um dia muito bom mas que certamente o dia seguinte seria melhor. Na minha opinião, a melhor maneira de lidar com aqueles dias em que tudo dá errado e temos no final a impressão de que deveríamos ter ficado na cama... simplesmente aceitar e engolir, mas manter a esperança por uma melhora no futuro próximo. Quem é que nunca teve um dia desses? Quem disser que não, que nunca teve um dia assim, eu vou sinceramente achar que ou é uma pessoa muito, mas muito ingênua, ou está mesmo mentindo, o que é o mais provável.

Ainda assim, o meu - pelo menos ao meu ver - razoável otimismo foi criticado. Falaram que eu estava sendo negativo demais. Hmmmmm... esperem aí. Uma coisa é ser negativa ou pessimista, pessimista para mim é aquela pessoa que sempre vê tudo ruim e não acha que nada vai melhorar. Conheço uma assim, uma amiga de Amsterdam que vou chamar de X para evitar problemas. X é uma boa pessoa, eu sei disso porque já a conheco faz tempo, foi na verdade uma das primeiras pessoas a quem fui apresentado quando ali cheguei há quase 10 anos atrás. É muito prestativa, gosta de ajudar os outros. Mas X tem a infeliz capacidade de sempre estragar qualquer ambiente festivo com o seu habitual mau humor e suas considerações nada agradáveis sobre quem quer que ouse discordar de seu olhar quase fúnebre sobre a sociedade. X é pesada, como diriam os espanhóis.

Outra coisa é ter a dignidade de admitir um dia ruim. Ora bolas, será que desde que todos os livros de auto-ajuda começaram a fazer sucesso estamos todos condenados a sempre sorrir e fazer de conta que somos todos Martha Stewart (e mesmo ela foi parar na cadeia ou algo assim se não me engano) e levamos vidas maravilhosas, "the time of our lives", o tempo inteiro? Não estou dizendo que devemos reclamar da vida, eu mesmo sou atualmente bastante contra o ato de reclamar simplesmente porque é um desperdício de energia que não leva a nada, mas o simples "acknowledgement" (como é mesmo a palavra em português?) de um dia ruim não deveria na minha humilde opinião ser considerado demonstração de negatividade, ainda mais se logo na sequência eu emendei com um "amanhã certamente será melhor". Ou será que estou errado?

O fato é que para "consertar o meu erro" da maneira mais sarcástica possível (eu posso afirmar que felizmente ou infelizmente faço parte do grupo que "perde o amigo mas não perde a piada" literalmente) que é a forma de humor que eu prefiro (e quem me conhece sabe também que quanto mais próximo e íntimo eu me sinto de alguém, quanto mais confortável eu me sinto para ser "eu mesmo", mais sarcástico eu fico) emendei o meu comentário com um outro, falando que o dia tinha sido maravilhoso, o melhor da minha vida até hoje, assim quase como se eu estivesse tendo um orgasmo cibernético. Daí outro amigo de longa data, B, que tem um humor parecido com o meu e que no comentário anterior já tinha falado que era mesmo tudo horrível e que o melhor que eu poderia fazer naquele dia específico era realmente me jogar contra um trem em movimento, escreveu perguntanto, muito convenientemente, se eu sofria de algum distúrbio de personalidade bipolar, afinal de contas mudar de humor assim tão drasticamente em um prazo de 5 minutos não é pra qualquer um. Povo gosta de brincar com coisa séria, mas como B tem lastro para falar do assunto (é psiquiatra) eu sei que foi brincadeira mesmo.

Eu que tenho pelo menos 4 amigos assim so de lembrar de cabeça que são mesmo clinicamente diagnosticados como bipolares, sei bem que estou a anos-luz da bipolaridade, e infelizmente para aqueles que gostam de novidades quentes, ou felizmente para mim mesmo, não sou assim tão especial não, sou pelo contrário bem normalzinho mesmo, apenas com uma leve tendência, por vezes mais acentuada mas ainda assim dentro dos parâmetros considerados razoáveis, para a melanconlia ou para o grumpiness (essa coisa de ficar esquecendo o português é terrível, por favor me perdoem!) dependendo da ocasião. Eu tomo um remedinho de vez em quando, porque já tive períodos de depressão em que tive que ser medicado, e ultimamente me dera conta de que, estando clinicamente deprimido ou não, eu simplesmente "funcionava melhor" no dia a dia quando tinha algum aditivo de serotonina em mãos, então em conjunta discussão e acordo com o meu médico optei por um paliativo leve mas eficiente. Eu sofria constantemente de acessos de ânsia e desconforto que geralmente terminavam em crises de choro e recolhimento, assim sem mais nem menos e sem nenhum motivo específico aparente, mas depois que comecei a tomar o tal remedinho, os ataques de ânsia diminuiram e se tornaram bem mais suportáveis quando teimam em acontecer.

Mas para continuar naquela onda do sarcasmo total, respondi afirmando que eu não era bipolar, mas multipolar. Sou um caso de multipolaridade. Não tenho abruptas mudanças de humor nem sofro de extremos de euforia ou depressão. Simplesmente tenho várias mudançaszinhas durante o dia, acho que assim como todo mundo mesmo. Ao contrário da maioria, costumo (veja bem, "costumo" é diferente de "sempre") acordar de bom humor e, acredite se quiser, gosto de acordar e cedo e adoro as segundas-feiras, para mim sinônimo de renovação, de recomeço, de novas possibilidades. Mas posso mudar de humor se ao chegar no escritório perceber ao ler os meus e-mails que terei um dia complicado ou se cair uma chuva enorme no meio do caminho e encharcar os meus sapatos. Geralmente estou de mau humor quando me dá fome mas volto ao meu sorriso habitual depois de saciado. A burrice alheia tem o poder de me irritar terrivelmente da mesma forma que a minha própria burrice quando desmascarada. Tenho preguiça de ir à ginástica mais ainda assim me forço a ir o mais frequentemente possível não especialmente por uma questão de vaidade física que, é claro, tem o seu papel no evento, mas eu juro, e repito, juro, não é o fator preponderante na questão, mas principalmente o resultado psicológico, este sendo de fato a minha força motriz, qual seja, a necessidade do estímulo químico provocado pelo esforço físico, ou em outras palvras mais claras e objetivas, a tão comentada produção suplementar daquela enzima chamada endorfina que nos dá a sensação de bem estar e do serviço cumprido depois de uma hora ralando nos equipamentos de musculação ou contando os 400, 500 abdominais. A ginástica para mim é uma terapia.

Inútil portanto de precisar (copiei esta expressão do meu chefe que inicia quase qualquer parágrafo de carta com ela... e eu sempre me pergunto, "se é inútil de precisar, porque ele está precisando exatamente isto?") que quando eu não vou habitualmente a academia, o meu bom humor se deteriora. Isto é o que vem acontecendo ultimamente, e por um motivo de ordem anatômica. Há algumas semanas, que juntas devem contar pelo menos uns dois bons meses, eu machuquei o ombro e o braço esquerdo durante a musculação, de uma tal forma que tive praticamente de parar de malhar por todo este tempo, pois a dor de levantar a barra durante o supino era tanta que não valia a pena arriscar. A princípio, resolvi fazer como a maioria das pessoas faz. Dei um tempo da academia, aproveitei o tempo livre que daí resultara para resolver outros assuntos pendentes, na esperança de que com o descanso forçado o meu braço melhoraria. Fiquei umas três semanas ou mais, quase um mês inteiro, sem pôr os pés na academia, e quem malha habitualmente sabe que apenas uma semana de ausência já serve para que possamos perder o hábito e a força. Infelizmente o sacrifício de nada adiantou, a dor continuou lá, muito bem instalada no meu braço, e já tomava conta do cotovelo quando finalmente resolvi ir ao médico e pedir a solução rápida, radical e eficaz praticada pela medicina moderna: uma injeçãozinha de cortizona no braço para acabar com a inflamação.

Sábado 9 horas da manhã eu estava lá, sentadinho no banco da sala de exames, sem camisa e esperando que a agulha fina perfurasse a minha pele na altura no ombro, à procura do músculo avariado; a intervenção foi simples e rápida. Em menos de meia hora eu já estava de novo na rua, em direção ao centro onde fui comprar dois cds, um que viria a ser dado na mesma noite como presente de aniversário a uma colega de trabalho e outro que será enviado ainda esta semana à Escócia a um amigo como presente em retribuição a um maravilhoso cd com uma versão jazzística da Rhapsody in Blue que me fora dado faz alguns dias, simplesmente porque eu mencionara que gostava da Rhapsody in Blue porque é uma composição que me faz lembrar da minha mãe. É, gentilezas ainda acontessem neste mundo vil em que vivemos (será que eu estou sendo negativo?).

Bom, se a tal injeção de cortizona vai resolver o meu problema eu ainda não sei. Eu já notei uma leve melhora, pois até a semana passada a dor entrava em cena até mesmo durante o simples movimento de vestir uma camiseta, e isso já deixou de acontecer desde ontem. Agora a prova final eu só terei mesmo hoje a noite quando de novo irei à academia testar o resultado. Eu ainda sinto a sensação de cansaço no braço, mas levando em consideração que eu sou canhoto e portanto faço tudo com a mão esquerda, desde assinar um documento importante até aliviar o stress no chuveiro quando a tensão é alta, então estar com a sensação de um braço cansado não é tão infundada. Ora, depois de dois meses sem poder estar com o namorado que vive literalmente do outro lado do mundo e não a apenas um, mas a pelo menos dois vôos de longa distância daqui, e querendo a qualquer custo preservar a romântica fidelidade, o constante aliviar do stress de maneira unilateral com a consequente fatiga do membro motor superior esquerdo não é algo tão estranho assim. E, aviso aos puritanos de sempre e hipócritas de plantão, quem nunca praticou tal ato que jogue a primeira pedra, e já que entre a masturbação simples e a infidelidade pura eu estou optando pela primeira, acho que deveria ser louvado e não criticado e muito menos julgado pelo meu ato solitário. Felizmente daqui a uns dez dias estarei reencontrando a minha cara metade na Tailândia. Acho que finalmente poderei dar um descanso ao meu braço e voltar ao bom humor de sempre. Vai ver é isso, a minha multipolaridade dos últimos dias é simplesmente falta daquilo mesmo. Ah, homens, somos todos iguais.

Friday, September 18, 2009

O Ano da Austrália


A felicidade é inimiga da criação.


Neste ano que está sendo para mim o "Ano da Austrália", está indo tudo tão bem em quase todos os campos (sim, quase, pois felicidade plena é impossível) que é simplesmente difícil arrumar assunto para escrever. Eu não tenho nada o que comentar, não tenho nada para reclamar, não tenho nada para sugerir. Ou aliás até tenho e bastante, mas tanta coisa, que fica difícil resumir em um textinho de blog de segunda categoria como o meu. A verdade é que a vida tem passado por mim este ano com mais pressa do que eu tenha tido capacidade de escrever.


Poderia falar sobre a Austrália. Ano passado dediquei um tempo enorme escrevendo sobre as minhas férias em Ibiza, e o meu final de semana em Portugal, a minha viagem ao Sul da França, etc, etc, etc. Hoje tenho tanto ou mais para falar sobre "down under" mas a verdade é que acho mesmo que neste caso mil palavras não valem uma imagem e o melhor é ir lá mesmo pra quem aguentar as 24 horas de viagem e conferir por conta própria. Que Sydney é mesmo uma das cidades mais bonitas e alegres do mundo (top da minha lista!), que o café em Melbourne dá de 10 ao zero em qualquer café italiano (verdade absoluta, o café em Melbourne é o mais delicioso que eu já tomei até hoje, quentinho, espesso, cheiroso, cremoso, enfim, um sonho), que o passeio pela Great Ocean Road é lindo e que os coalas são mesmo uma gracinha embora passem a maior parte do tempo dormindo. Aparentemente estão sempre mareados devido à enorme quantidade de folhas de eucalipto que comem. Isto que é país, até os ursos estão colocados, ha ha ha.


Poderia falar também sobre a minha postura mais "portas abertas" perante a vida que tenho tomado nos últimos tempos. Eu sempre fui - e continuo sendo! - bicho do mato, adoro ficar sozinho escondido no meu canto. Mas teve uma época bem recente em que eu tinha levado tanto desaforo da vida que acabei ficando com medo de gente. Isso mesmo, com medo de gente. Eu desconfiava de tudo e de todos e não abria a porta pra mais ninguém. Eu me enfiei no meu castelinho branco que é o meu apartamento e esperei a vida passar. Mas nada como um dia depois do outro e eu fui aos pouquinhos abrindo a porta, e acabei encontrando um bando de gente bem legal e bem parecida comigo pedindo pra entrar, gente que eu nem esperava. E entre todos um certo alguém bem, bem, bem especial, que pelo jeito veio pra ficar e sobre o qual eu não escrevo porque também palavra alguma chega perto do sentimento. Um certo alguém que é de lá da Australia por sinal, he he he.


Podia falar do meu trabalho, mas a única coisa que eu poderia falar é que está tudo ótimo neste campo, não tenho do que reclamar. Faço algo de que gosto, tenho suficiente tempo para mim, posso viajar quando quero, ganho a minha vida de maneira decente, ainda rola uma viagenzinha a trabalho de vez em quando e trabalho para uma organização respeitada. Eu estudei pensando em um dia trabalhar para uma organização internacional, e consegui. Isto não é estupendo? Missão cumprida. :-) Posso estar anos-luz longe da perfeição, mas meus pais já não morrerão mais com vergonha de mim... ;-) e para melhorar ainda mais um pouquinho... não é que agora eu vou trabalhar com... a Austrália? Pois é, é Austrália por todos os lados pra mim este ano.


Por isto mesmo, que eu estou chamando 2009 de "O Ano da Austrália". E em termos gerais posso dizer que apesar dos pesares, estou tão feliz este ano quanto o tamanho e a distância da Austrália. E dá licença que a vida continua e eu não quero perder o próximo capítulo que isto aqui está bom demais!


Monday, June 29, 2009

The boy and the purple flower

Once upon a time there was a boy who really liked flowers.

He lived in a farm away from the city and he had a big garden so he started planting many flowers there. Roses, daisys, irisis, they would all blossom very quickly because the boy was very careful with them, he just loved them.

But in the farm there was a guardian, a very old man who didnt like flowers, he hated them. When he was a child we wanted to have flowers as well, but he was never patient, he never really took care of them, so they all died and he was very frustrated at that. So whenever the flowers started to look really beaufitul, he would go to the garden at night and destroy them.

The boy was very sad every morning to see that all his efforts were gone but he wouldnt give it up. He tried to replant them but they didnt survive. But then he would plant new flowers and take care of them again, until they would blossom again. And so they did.

But then again, the guardian came at night and destroyed them. He would just grab them with all his strength and pull them out of the land until they were dead. And none of them survived.

And this went on and on and on for many years until the boy was sad and tired and gave up planting flowers because he was sure the guardian would come at night and destroy them anyway. He was contempted with the idea of having a garden without flowers.

One day a very beautiful flower rose in his garden, all of a sudden, out of nothing. It was a flower like he had never seen before. It was beautiful and elegant, and the flower was purple; a colour he didnt know could exist. Roses, tulips and orchids he had had before but none was like that unique flower. And moreover, the flower could smile! It was the most beautiful smile ever, and the flower was smiling at him!!! He was mesmerized by that beautiful flower that he did not resist and started taking care of it.

The flower grew very quickly and soon it was already the most beautiful flower he had ever had in his garden. The boy just loved that flower. He was so happy!!!!

He was then very afraid that the guardian would come at night and destroy the flower like all the previous times. It seemed unbelievable that such a beautiful and strong flower could be destroyed like that; but that had happened so many times before!!!! He wanted to believe it would not happen this time but he started getting very nervous and afraid of seeing it happening again. For a while he wouldnt even sleep anymore, on guard all night next to the flower, protecting it from the assaults of the guardian. But wow that was tiring. But he had to do it! He noticed that the guardian had already seen the flower and was making rounds every now and them. He was sure that the minute he would loose his concentration, the guardian would come and destroy the flower.

He was so afraid that the flower wouldnt be as strong as he hoped it was, and that with an easy grab the guardian would pull it out from the land like he had done before so many times and so easily with all the other flowers. So he went to check it himself.

He started grabbing the flower to see if he could pull it easily out of the land. But wow, the flower was really strong this time! He pulled, and pulled and pulled and the flower was still there and still smiling. He could hardly believe in it! Such a nice flower and so strong! He was sure the guardian would be after it whenever he could. He did one last attempt and this time he pulled the flower so hard that he finally managed to take the flower out of the land. Then he thought "oh my God, what have I done?"

Then the guardian who was only watching from a distance came closer with a sickening smile and told him: "you have learned the lesson my boy; This time I didnt even need to come and do the job, you have destroyed your flower yourself. Congratulations! My job is done." And then the guardian left, laughing… and never came back.

The boy was so sad and angry at himself! Immediately he tried to put the flower back into the land. He digged into the land and put the roots of the flower back there, and he started watering the flower again, hoping the flower would be still alive and that the flower would smile at him again.

Every day the boy was there in his garden, taking care of the flower and hoping that the purple flower would stand on its roots, because after all they were really strong roots, and that the flower would smile at him again. Whoever passed by could hear him saying "please my purple flower, forgive me, and smile to me again."

That could have been the end of this story.

But one day in the early morning the flower made a move, finally. It was the beginning of the spring and it was a beautiful sunny day. The boy was amazed! Immediately he apologized to the flower, who said "I am hurt and bruised... but I will survive." Then the flower asked, "why did you do that to me? I had always smiled at you, I didnt deserve that!" The boy had no words... he tried to explain himself, by saying "I am very sorry again, but all my previous flowers had died like that when I most loved them, so I was afraid the same would happen to you and that I would be left alone with no flowers in my garden again".

The flower then said "you should not have compared me to the other flowers, that was very unfair of yours. I dont know why they have died like that... but every flower is different and we all deserve a chance to survive, regardless of what has happened to the others before, dont you think so?" The boy nodded shyly, "yes".

It has been said lately that the flower has been seen smiling again and it is indeed the most beautiful flower ever in that garden. The guardian never came back indeed. The boy still wonders every now and then if he will ever return, but as his purple flower grows every day, he is more and more assured that its roots are indeed very strong and very reliable, and therefore it will always survive.