
Fim de ano bastante agitado. Meu querido P chegava da Australia para uma estadia de duas semanas aqui na Europa e como estávamos em clima de "tudo ao mesmo tempo agora", bolamos um roteiro compactíssimo que nos deixou bastante cansados no final, mas com certeza devemos ter melhorado o contorno de nossas pernas pois o que andamos nestas duas semanas daria para o mês inteiro ou ainda mais.
Primeiro alguns dias em Bruxelas. São Pedro foi generoso com P, que queria ver neve, e neve é o que não tem faltado por aqui neste inverno. Pois é, P queria ver neve. Não é só brasileiro que tem essa relação com a neve, pelo jeito Australiano também, e imagino que em geral qualquer cidadão vindo de algum lugar onde a temperatura nunca chega perto de zero grau, tem essa visão romântica da neve, que até eu mesmo ainda tento guardar, embora nem sempre seja fácil, devo admitir que para este ano já tivemos bastante neve, suficiente. Logo de cara a neve perturbou a viagem de P, que chegou em Bruxelas com nada menos que 12 horas de atraso, depois de um vôo cancelado, um vôo atrasado, uma reserva mal-feita, uma conexão perdida e uma mala extraviada. Lufthansa. German efficiency.
Pelo menos ele chegou, teve gente que ficou no meio do caminho. Como os ingleses que ficaram entalados no túnel do Eurostar sob o canal da Mancha. Este é o inverno mais rigoroso na Europa nos últimos 30 anos e neve é o que não tem faltado. Sim, tudo lindo e romântico, mas o caos total para quem tem um trem ou avião a tomar. Bom, P já estava em Bruxelas e era hora de curtir o Natal. Tivemos o primeiro "Natal Branco" (uma camada de pelo menos 1 cm de neve nas ruas) em Bruxelas desde 1986, e se ficamos em casa, posso dizer que o nosso Natal foi único. Aproveitamos os dias livres por aqui para passear pela cidade, que P não conhecia e, que alívio, gostou. Nada óbvio para alguém que vem de Sydney. Sydney e Bruxelas, difícil de pensar em duas cidades mais diferentes uma da outra. Que bom que deu tudo certo.
Depois do Natal, chegou a hora de enfrentar o trem e mais uma viagem, desta vez de um breve final de semana em Paris em que passamos a maior parte do tempo perambulando pela cidade sem rumo definido nem muito o que fazer, olhando as lojas do Marais e comendo nos restaurantes da Bastilha - não quero soar arrogante mas chega uma hora em que até mesmo Paris cansa... - não tínhamos muito o que fazer por ali, sinceramente. Foi um vai e volta que valeu porque Paris é sempre Paris, mas acho que teríamos aproveitado melhor o tempo se tivéssemos ficado mesmo em casa descansando na Bélgica. Bom, pelo menos em Paris o tempo estava ótimo, frio mas com bastante sol.
Chegou a véspera do Ano Novo e tomamos o Thalys rumo a Amsterdam, onde passaríamos o reveillon festejando com amigos. Tínhamos medo de mais um atraso, pois o trem de volta de Paris a Bruxelas também tinha atrasado em função da neve... mas felizmente em Amsterdam deu tudo certo e correu tudo numa boa. O trem atrasou de novo, é verdade, mas bem menos, e não chegou a prejudicar a agenda lotada. Amsterdam é sempre uma festa pra mim, eu revejo amigos, volto a locais repletos de lembranças - boas e más, mas a vida é assim - vou a festas, enfim, me divirto. Logo no primeiro dia um périplo pelo centro para encontrar o maior número de amigos possível no menor espaço de tempo permitido. Foi um café com Nordine na Frederiksplein, almoço com Bebete no Magna Plaza, jantar em festa de aniversário na Olympiaplein, volta ao centro para uma rodada de drinques com uma turma no ARC e antes de voltar pra cama ainda um ultimo drink para um ultimo encontro com amigos no centro.
Dia 31 de dezembro, ultimo dia do ano, festa pra ir a noite, e a ressaca da noite anterior era braba. Conseguimos preguiçosamente sair da cama, tomar o café da manhã, passear um pouco pelo Amstel, e depois mais um almoço com amigos no De Pijp. De lá, rápido para uma sessão de revigoramento energético e muscular na academia Splash da Leidseplein. Mais uma rodada de "olás" (é, Amsterdam é uma cidade bem pequenininha) e aí já são quase 6 da tarde, só dava tempo de tomar um banho, descansar um pouquinho, trocar de roupa, e sair para o jantar com meus queridos Nono e Oli, seguindo com eles para o festão da noite, a Rapido, a conhecida "circuit party"da cidade. Foi lá no meio de vários amigos que entramos o ano novo, rindo, brindando, brincando, dançando e beijando, como tem que ser em um reveillon.
O "day after" foi dia de relaxar, em um gostoso brunch que durou a tarde inteira. De novo, muita risada, e muito café e muito prosecco. A noite ainda tinhamos um programa, mas desistimos, estavamos tao cansados de tanto zig zag que só queriamos mesmo saber de cama. Dormimos profundamente e acordamos bem cedinho no dia seguinte com destino a Schiphol, pois dois vôos nos aguardavam: um para o enorme e complicado aeroporto de Frankfurt, e o seguinte, depois de muito procurar o portão de embarque na Alemanha, para Zagreb, a capital da Croácia.
Eu nunca tinha estado na Croácia então estava curioso para conhecer a sua capital de herança austro-húngara. A primeira impressão não é das melhores: o aeroporto é mínimo e os arredores da cidade nos fazem pensar mais na Sibéria e seus blocos residenciais de estilo soviético do que qualquer capital de país Europeu. O aspecto é tão desolador que chega a ser desconfortável. Enfim, não podemos esquecer que estamos também na antiga Iugoslávia comunista, e em um país que há dez anos atrás estava em guerra.
O ônibus nos leva do aeroporto até a estação rodoviária na parte central da cidade, e de lá vamos caminhando até nosso hotel, o Sheraton, localizado perto do centro. Ao entrar nesta parte mais central da cidade, percebemos já alguma mudança, é assim como se tivéssemos de alguma forma saído da Sibéria e passado para a antiga Alemanha Oriental, antes da reunificação. Os prédios de apartamentos são sóbrios mas de uma certa forma elegantes, apenas necessitando urgente de uma reforma profunda. É como se estivéssemos na Prenzlauer Berg de 10 anos atrás. É evidente que a Croácia ainda não faz parte da União Europeia mas ficamos a pensar em toda a reforma que será feita quando os fundos de desenvolvimento começarem a entrar, e a transformação que a cidade certamente vai sofrer.
Porque o centro de Zagreb, esse sim é bem bonito, e nos faz lembrar não só da Alemanha, mas também um pouco de Praga e até mesmo, quem diria, de Lisboa com seus casarões e ladeiras. O centro de Zagreb é dividido em duas partes, a cidade baixa, de vocação comercial e administrativa, com carão de século XIX e dominado por uma esplanada enorme contendo todas as comodidades fáceis de encontrar em uma cidade europeia, como a Ópera e alguns museus, enquanto que a parte alta, mais antiga, é bucólica e pitoresca e de vocacão turística. Mas vale o passeio, a Igreja de São Marcos com seu telhado em mosaico colorido monstrando os pavilhões de Zagreb e da Croácia, o mercado de Dolac que nos faz pensar que estamos em uma cidadezinha da Itália e a Passagem da Pedra com a sua igrejinha cavada e colada junto à rua são bastante interessantes. Além da Catedral, gótica, linda, e cheia: a Croácia é certamente um país bastante católico, tive a impressão de que a cidade inteira estava presente à missa do domingo.
E a comida, que delícia. Não consigo lembrar o nome de quase nada que eu comi porque a lingua croata é não é o meu forte mas a comida sem dúvida nenhuma o será um dia. ;-) Muitas carnes, muitos molhos, e muitos doces. Comi uma torta que deve ter sido a melhor descoberta em termos de sobremesa que já tive na minha vida. É um bolo misturado com massa folhada recheada com chocolate, nozes, canela, e maçãs assadas, em várias camadas sobrepostas. Quentinho por dentro e acompanhado de uma bola de sorvete de creme. Uma espécie de apfelstrudel misturado com tiramisu, dá pra imaginar algo mais delicioso?
Enfim, gostei bastante de Zagreb, e certamente voltaria no verão, quando os terraços da cidade alta devem estar todos abertos e as pessoas todas ao sol entre uma badalada de sino de igreja e outra, passeando pelas ruazinhas que sobem e descem a montanha vagarosamente. Depois de duas semanas de muito vai e vém, meu querido P já voltou pra Austrália, e agora só o verei de novo em fevereiro, em Londres. Ficaram as lembranças de um dos melhores fim de ano dos últimos tempos para mim, a descoberta de um novo país bastante agradável e sua cozinha saborora... e a neve, a branca, essa que continua caindo até hoje, no inverno mais rigoroso que já tive por estas terras setentrionais.



3 comments:
Pena que não foi dessa vez que nos vimos em Amsterdã, mas não faltarão outras oportunidades! E nem me fale em frio, dá só uma olhada nas fotos do meu blog. Em 15 anos de Holanda, nunca tive inverno tão rigoroso...mas que a neve é belíssima, isso é (e eu estou com visita do Brasil).
beijos e NÃO suma ;-)
Olá estou te fazendo uma visita e gostei muito do teu trabalho, quero aproveitar e te convidar para conhecer o meu...http://araretamaumamulher.blogspot.com/2010/02/por-favor-leia-ate-o-final-depois-voce.html
Espero que goste, desde já lhe fico grata.
Beijos
Gosto imenso de neve também!
:)
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