Tuesday, May 6, 2008

Seis de Maio, Trinta e Sete


Eu nasci às duas horas e cinco minutos do dia seis de maio de mil novecentos e setenta e um, na Clínica Dalmazia Pozzi, em Belém do Pará. Signo de Touro, que me faz teimoso, ascendente em Peixes, que me faz chorão, e Lua em Virgem, que me faz exigente. A minha mãe diz que eu nasci atrasado... eu era pra ter nascido no final de abril, mas fui ficando, fui ficando... eu já sou devagar desde aquela data... demorei pra sair, demorei pra ver o que este mundo tinha a me oferecer.


Hoje é dia seis de maio e portanto hoje é meu aniversário, e eu estou completando trinta e sete anos... trinta e sete. Já vejo os quarenta chegando, lá no final da ladeira, mas tudo bem, ainda tenho uma boa caminhada até lá.


Quando eu era criança, a data mágica pra mim eram os trinta e cinco anos. Eu achava que trinta e cinco era a idade de gente feita na vida, e eu imaginava que aos trinta e cinco eu já ia ter tudo aquilo que eu queria na vida. Um emprego estável, um casamento, uma vida estável. Ah, ledo engano... eu nem sequer imaginava que os meus trinta e cinco anos viriam a ser a fase mais difícil da minha vida, e que ia chegar aos trinta e cinco sem ter praticamente nada do que eu havia pensado.


Mas enfim, foram embora os trinta e cinco, comemorados com amigos em volta de uma mesa em Amsterdam, e foram embora os trinta e seis, comemorados com amigos em volta de um mesa em um terraço aqui em Bruxelas, e cheguei aos trinta e sete. O plano era passar de novo a data com amigos em Amsterdam, mas meu dente do juízo me pregou uma peça e tive que ficar por aqui mesmo, em Bruxelas, e sem plano nenhum para a data de hoje. Meu aniversário vai passar assim como o meu apartamento novo: em branco.


Eu estou feliz. Sim, eu estou feliz e isso já é para mim um presente de aniversário. Tem muita coisa na minha vida que eu queria diferente, mas está fazendo um dia tão lindo de sol hoje, um céu azul sem nenhuma nuvem sequer, eu vou reclamar de quê? Que estou sozinho e sem namorado? Mas puxa, foi a minha própria decisão, e se de um lado perdi a pessoa de quem realmente gostava (e do meu sentimento eu tenho certeza), por outro lado ganhei a paz de espírito que tanto me fazia falta, aqui na minha casa reina a paz. Vou reclamar porque tenho um emprego chato? Puxa, mas paga bem e eu lutei tanto pra chegar lá, não posso reclamar. Vou reclamar por problemas de saúde? E quem não os tem uma hora ou outra na vida? Vivre, c'est vieillir e rien d'autre, já dizia Simone de Beauvoir... Viver, é envelhecer e nada mais.


E deixem me envelhecer em paz, e que eu envelheça com dignidade e amor próprio. Hoje acordei cedo, já estava fazendo este sol todo, fui para o meu terraçozinho, e rezei. Rezei pra Deus, se é que ele existe, tenho minhas dúvidas, e rezei pra Virgem Maria e para Santo Antonio, que na minha fé existem sim, e agradeci por mais um ano de vida, e pedi proteção e mais que tudo, pedi uma luz que me guiasse, porque eu estou precisando. E me dei por agradecido por ser presenteado com um dia tão lindo como o de hoje.


Voltei pra dentro de casa, fiz o meu café da manhã ao som de Vivaldi, e agora estou ouvindo Tom Jobim, que me lembra, é claro, do Rio de Janeiro e do Brasil, e de como seria bom se eu estivesse por lá agora, mas não estou, estou aqui em Bruxelas, e tenho que aproveitar, fazer deste um dia especial ainda que em minha singela companhia e nada mais. Mais tarde eu vou sair, vou cortar o cabelo, vou fazer um solarium, vou malhar na academia, vou almoçar em algum caf'é com terraço, vou talvez comprar um livro ou um cd, pode ser que vá ao cinema a noite, vou me divertir, vou me presentear.


A vida não é como eu queria que fosse, mas ela é boa o bastante, se eu souber vivê-la. Basta um dia de sol... e a vontade de aproveitar. Bom, é verdade que a minha infecçãozinha ingrata no dente do juízo já melhorou bastante e isso ajuda, se o meu aniversário tivesse caído na semana passada eu teria me jogado da janela, he he he.... brincadeira.


Parabéns a mim pelo meu aniversário e pelo meu apartamento e pela minha coragem de virar a mesa toda vez que a mesa tem que ser virada, e parabéns a mim por carregar nas costas todas as consequências das minhas inconsequências e conseguir continuar sorrindo em um dia de sol como hoje. Estou sozinho, mas estou em paz.


E parabéns aos meus colegas de data... Taíssa, colega escola de infância, a gente sempre comemorava o aniversário junto... e Sara, colega de trabalho de adulto, minha querida Sara Portuguesa com quem eu ficava conversando na língua de Camões lá na IDA, em Amsterdam... parabéns Sara... e parabéns ao Marcel, colega de academia também de Amsterdam, com quem tive a oportunidade uma vez de passar o aniversário juntos em Barcelona, os meus trinta e quatro anos, estes sim, anos de glória, como eu estava bem nos meus trinta e quatro anos! E parabéns a Freud, que nasceu no mesmo dia que eu, seis de maio...


Mas agora eu cheguei aos trinta e sete, e como diz a música, não sou eu quem me carrega, quem me carrega é o mar, e se o mar foi revolto um dia, hoje o mar é tranquilo e azul. Pelo menos hoje... :-) E antes de terminar... a todos os meus amigos que estão me enviando mensagens pelo computador e pelo telefone... muitíssimo obrigado, vocês não imaginam o bem que me faz me sentir querido na data de hoje.

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