Monday, September 28, 2009

Multipolaridade

Outro dia eu escrevi no Facebook um comentário falando que eu não estava tendo um dia muito bom mas que certamente o dia seguinte seria melhor. Na minha opinião, a melhor maneira de lidar com aqueles dias em que tudo dá errado e temos no final a impressão de que deveríamos ter ficado na cama... simplesmente aceitar e engolir, mas manter a esperança por uma melhora no futuro próximo. Quem é que nunca teve um dia desses? Quem disser que não, que nunca teve um dia assim, eu vou sinceramente achar que ou é uma pessoa muito, mas muito ingênua, ou está mesmo mentindo, o que é o mais provável.

Ainda assim, o meu - pelo menos ao meu ver - razoável otimismo foi criticado. Falaram que eu estava sendo negativo demais. Hmmmmm... esperem aí. Uma coisa é ser negativa ou pessimista, pessimista para mim é aquela pessoa que sempre vê tudo ruim e não acha que nada vai melhorar. Conheço uma assim, uma amiga de Amsterdam que vou chamar de X para evitar problemas. X é uma boa pessoa, eu sei disso porque já a conheco faz tempo, foi na verdade uma das primeiras pessoas a quem fui apresentado quando ali cheguei há quase 10 anos atrás. É muito prestativa, gosta de ajudar os outros. Mas X tem a infeliz capacidade de sempre estragar qualquer ambiente festivo com o seu habitual mau humor e suas considerações nada agradáveis sobre quem quer que ouse discordar de seu olhar quase fúnebre sobre a sociedade. X é pesada, como diriam os espanhóis.

Outra coisa é ter a dignidade de admitir um dia ruim. Ora bolas, será que desde que todos os livros de auto-ajuda começaram a fazer sucesso estamos todos condenados a sempre sorrir e fazer de conta que somos todos Martha Stewart (e mesmo ela foi parar na cadeia ou algo assim se não me engano) e levamos vidas maravilhosas, "the time of our lives", o tempo inteiro? Não estou dizendo que devemos reclamar da vida, eu mesmo sou atualmente bastante contra o ato de reclamar simplesmente porque é um desperdício de energia que não leva a nada, mas o simples "acknowledgement" (como é mesmo a palavra em português?) de um dia ruim não deveria na minha humilde opinião ser considerado demonstração de negatividade, ainda mais se logo na sequência eu emendei com um "amanhã certamente será melhor". Ou será que estou errado?

O fato é que para "consertar o meu erro" da maneira mais sarcástica possível (eu posso afirmar que felizmente ou infelizmente faço parte do grupo que "perde o amigo mas não perde a piada" literalmente) que é a forma de humor que eu prefiro (e quem me conhece sabe também que quanto mais próximo e íntimo eu me sinto de alguém, quanto mais confortável eu me sinto para ser "eu mesmo", mais sarcástico eu fico) emendei o meu comentário com um outro, falando que o dia tinha sido maravilhoso, o melhor da minha vida até hoje, assim quase como se eu estivesse tendo um orgasmo cibernético. Daí outro amigo de longa data, B, que tem um humor parecido com o meu e que no comentário anterior já tinha falado que era mesmo tudo horrível e que o melhor que eu poderia fazer naquele dia específico era realmente me jogar contra um trem em movimento, escreveu perguntanto, muito convenientemente, se eu sofria de algum distúrbio de personalidade bipolar, afinal de contas mudar de humor assim tão drasticamente em um prazo de 5 minutos não é pra qualquer um. Povo gosta de brincar com coisa séria, mas como B tem lastro para falar do assunto (é psiquiatra) eu sei que foi brincadeira mesmo.

Eu que tenho pelo menos 4 amigos assim so de lembrar de cabeça que são mesmo clinicamente diagnosticados como bipolares, sei bem que estou a anos-luz da bipolaridade, e infelizmente para aqueles que gostam de novidades quentes, ou felizmente para mim mesmo, não sou assim tão especial não, sou pelo contrário bem normalzinho mesmo, apenas com uma leve tendência, por vezes mais acentuada mas ainda assim dentro dos parâmetros considerados razoáveis, para a melanconlia ou para o grumpiness (essa coisa de ficar esquecendo o português é terrível, por favor me perdoem!) dependendo da ocasião. Eu tomo um remedinho de vez em quando, porque já tive períodos de depressão em que tive que ser medicado, e ultimamente me dera conta de que, estando clinicamente deprimido ou não, eu simplesmente "funcionava melhor" no dia a dia quando tinha algum aditivo de serotonina em mãos, então em conjunta discussão e acordo com o meu médico optei por um paliativo leve mas eficiente. Eu sofria constantemente de acessos de ânsia e desconforto que geralmente terminavam em crises de choro e recolhimento, assim sem mais nem menos e sem nenhum motivo específico aparente, mas depois que comecei a tomar o tal remedinho, os ataques de ânsia diminuiram e se tornaram bem mais suportáveis quando teimam em acontecer.

Mas para continuar naquela onda do sarcasmo total, respondi afirmando que eu não era bipolar, mas multipolar. Sou um caso de multipolaridade. Não tenho abruptas mudanças de humor nem sofro de extremos de euforia ou depressão. Simplesmente tenho várias mudançaszinhas durante o dia, acho que assim como todo mundo mesmo. Ao contrário da maioria, costumo (veja bem, "costumo" é diferente de "sempre") acordar de bom humor e, acredite se quiser, gosto de acordar e cedo e adoro as segundas-feiras, para mim sinônimo de renovação, de recomeço, de novas possibilidades. Mas posso mudar de humor se ao chegar no escritório perceber ao ler os meus e-mails que terei um dia complicado ou se cair uma chuva enorme no meio do caminho e encharcar os meus sapatos. Geralmente estou de mau humor quando me dá fome mas volto ao meu sorriso habitual depois de saciado. A burrice alheia tem o poder de me irritar terrivelmente da mesma forma que a minha própria burrice quando desmascarada. Tenho preguiça de ir à ginástica mais ainda assim me forço a ir o mais frequentemente possível não especialmente por uma questão de vaidade física que, é claro, tem o seu papel no evento, mas eu juro, e repito, juro, não é o fator preponderante na questão, mas principalmente o resultado psicológico, este sendo de fato a minha força motriz, qual seja, a necessidade do estímulo químico provocado pelo esforço físico, ou em outras palvras mais claras e objetivas, a tão comentada produção suplementar daquela enzima chamada endorfina que nos dá a sensação de bem estar e do serviço cumprido depois de uma hora ralando nos equipamentos de musculação ou contando os 400, 500 abdominais. A ginástica para mim é uma terapia.

Inútil portanto de precisar (copiei esta expressão do meu chefe que inicia quase qualquer parágrafo de carta com ela... e eu sempre me pergunto, "se é inútil de precisar, porque ele está precisando exatamente isto?") que quando eu não vou habitualmente a academia, o meu bom humor se deteriora. Isto é o que vem acontecendo ultimamente, e por um motivo de ordem anatômica. Há algumas semanas, que juntas devem contar pelo menos uns dois bons meses, eu machuquei o ombro e o braço esquerdo durante a musculação, de uma tal forma que tive praticamente de parar de malhar por todo este tempo, pois a dor de levantar a barra durante o supino era tanta que não valia a pena arriscar. A princípio, resolvi fazer como a maioria das pessoas faz. Dei um tempo da academia, aproveitei o tempo livre que daí resultara para resolver outros assuntos pendentes, na esperança de que com o descanso forçado o meu braço melhoraria. Fiquei umas três semanas ou mais, quase um mês inteiro, sem pôr os pés na academia, e quem malha habitualmente sabe que apenas uma semana de ausência já serve para que possamos perder o hábito e a força. Infelizmente o sacrifício de nada adiantou, a dor continuou lá, muito bem instalada no meu braço, e já tomava conta do cotovelo quando finalmente resolvi ir ao médico e pedir a solução rápida, radical e eficaz praticada pela medicina moderna: uma injeçãozinha de cortizona no braço para acabar com a inflamação.

Sábado 9 horas da manhã eu estava lá, sentadinho no banco da sala de exames, sem camisa e esperando que a agulha fina perfurasse a minha pele na altura no ombro, à procura do músculo avariado; a intervenção foi simples e rápida. Em menos de meia hora eu já estava de novo na rua, em direção ao centro onde fui comprar dois cds, um que viria a ser dado na mesma noite como presente de aniversário a uma colega de trabalho e outro que será enviado ainda esta semana à Escócia a um amigo como presente em retribuição a um maravilhoso cd com uma versão jazzística da Rhapsody in Blue que me fora dado faz alguns dias, simplesmente porque eu mencionara que gostava da Rhapsody in Blue porque é uma composição que me faz lembrar da minha mãe. É, gentilezas ainda acontessem neste mundo vil em que vivemos (será que eu estou sendo negativo?).

Bom, se a tal injeção de cortizona vai resolver o meu problema eu ainda não sei. Eu já notei uma leve melhora, pois até a semana passada a dor entrava em cena até mesmo durante o simples movimento de vestir uma camiseta, e isso já deixou de acontecer desde ontem. Agora a prova final eu só terei mesmo hoje a noite quando de novo irei à academia testar o resultado. Eu ainda sinto a sensação de cansaço no braço, mas levando em consideração que eu sou canhoto e portanto faço tudo com a mão esquerda, desde assinar um documento importante até aliviar o stress no chuveiro quando a tensão é alta, então estar com a sensação de um braço cansado não é tão infundada. Ora, depois de dois meses sem poder estar com o namorado que vive literalmente do outro lado do mundo e não a apenas um, mas a pelo menos dois vôos de longa distância daqui, e querendo a qualquer custo preservar a romântica fidelidade, o constante aliviar do stress de maneira unilateral com a consequente fatiga do membro motor superior esquerdo não é algo tão estranho assim. E, aviso aos puritanos de sempre e hipócritas de plantão, quem nunca praticou tal ato que jogue a primeira pedra, e já que entre a masturbação simples e a infidelidade pura eu estou optando pela primeira, acho que deveria ser louvado e não criticado e muito menos julgado pelo meu ato solitário. Felizmente daqui a uns dez dias estarei reencontrando a minha cara metade na Tailândia. Acho que finalmente poderei dar um descanso ao meu braço e voltar ao bom humor de sempre. Vai ver é isso, a minha multipolaridade dos últimos dias é simplesmente falta daquilo mesmo. Ah, homens, somos todos iguais.

3 comments:

Beth Blue said...

Falaram que eu estava sendo negativo demais. Hmmmmm... esperem aí. Uma coisa é ser negativa ou pessimista, pessimista para mim é aquela pessoa que sempre vê tudo ruim e não acha que nada vai melhorar. Outra coisa é ter a dignidade de admitir um dia ruim. Ora bolas, será que desde que todos os livros de auto-ajuda começaram a fazer sucesso estamos todos condenados a sempre sorrir e fazer de conta que somos todos Martha Stewart (e mesmo ela foi parar na cadeia ou algo assim se não me engano) e levamos vidas maravilhosas, "the time of our lives", o tempo inteiro?
************************************************************

Te entendo perfeitamente...e confesso que odeio gente que vive com aquele sorriso colgate no rosto todo santo dia (todo dia é festa). A vida é feita de momentos bons e ruins, luz e sombra, alegrias e tristezas...é errado (pra não dizer simplista) querer enfatizar só um lado da estória. E quem faz isso mais cedo ou mais tarde acaba pagando um preço alto. Porque quando a fachada cai, a casa (literalmente) desaba. Já vi isso acontecer...




PS. Que bom que você voltou a blogar ;-)

Beth Blue said...

“You must understand the whole of life, not just one little part of life. That is why you must read, that is why you must look at the skies, that is why you must sing and dance, and write poems, and suffer, and understand, for all that is life”. (Krishnamurti)

Tá lá no meu blog há séculos. ;-)

Quel Carvalho said...

Cheguei aqui meio que "de pára-quedas" e fiquei pelo menos 1h lendo um post atrás do outro. O primeiro que li contava sua história desde os primeiros anos. Você também é paraense e todas as mudanças e viagens e recomeços me prenderam por aqui.
Obrigada pela 'companhia' nessa tarde ensolarada que faz na nossa cidade. Por aqui passou mais um Círio e na próxima segunda, o ReCírio.
Energias boas é o que mando daqui.
Beijo grande, Antônio.