Friday, October 23, 2009

Tailândia, tsunamis e trópicos


Acabei de voltar de férias da Tailândia.


Passei uma semana em Pukhet, uma ilha da costa do Mar de Andaman e um mega destino turístico para Europeus e Australianos, e depois um final de semana em Bangkok. Era outubro, oficialmente o período das monções, e portanto a expectativa era de chuva. Além disso, o recente maremoto em Samoa (distante, sem dúvida, mais ainda assim uma notícia nada agradável de se ouvir alguns dias antes de se embarcar rumo ao mar), mais o terremoto na vizinha Indonésia, e este bem na região da falha geológica que há alguns anos causara o terrível tsunami naquela parte do globo, não eram os melhores indicativos de férias, digamos, tranquilas. Mas a minha vontade de ir era muita, não só por motivos de ordem pessoal mas também porque nunca tinha antes estado na Ásia (conexões em aeroportos não contam!) e tinha mesmo fome de conhecer o maior dos continentes.


Eu ainda me lembro dos meus pais desesperados procurando notícias a meu respeito quando houve o terremoto de Atenas, acho que foi em 1999, e eu já estava em Santorini mas as ligações telefônicas haviam sido cortadas e eu só pude entrar em contato com eles dois dias depois, já no aeroporto de Atenas e voltando para o Brasil, e o meu pai só conseguia falar no telefone "meu filho, saia da Grécia!" (ah, que lembranças, eu também me lembro das três cariocas que eu conheci de passagem na fila do telefone público em Santorini, todo mundo tentando alguma conexão e ninguém conseguindo, e a gente bateu um papo por uma meia hora e elas concordavam comigo que Santorini era linda mas o agito mesmo era em Mikonos... mas enfim, estou aqui falando da Tailândia, não da Grécia) então para não espantar ninguém fiquei quietinho no meu canto fazendo "low profile", mas a verdade é que antes de viajar eu estudei bem a respeito do fenômeno dos maremotos e até mesmo em como distinguir a proximidade de um deles e que fazer no caso de deparar com um deles.


Basicamente, uma das maneiras de se perceber que algo de muito errado está para acontecer, é quando a maré baixa muito além do esperado (acho que isso não deve valer para a região do Mont Saint Michel na França ou mesmo para Salinas no norte do Pará onde as diferenças entre maré alta e baixa são enormes, mas em todo caso estas regiões não estão nas áreas chamadas "de risco), com o mar se afastando de uma maneira nunca antes vista. Isto é mau sinal, porque quando ele volta, vem com tudo. E se vier, a única coisa a fazer, além de rezar, é claro, é correr, e se possível para cima, pois muito provavelmente somente as pessoas que estiverem nos andares mais altos dos prédios em frente à praia vão conseguir se salvar... simplesmente correr para a rua não adianta, o mar é mais rápido. Então foi munido destas instruções básicas de sobrevivência que eu parti rumo ao meu primeiro encontro com o Oceano Índico.


Cheguei em Pukhet e a minha primeira impressão da ilha é que ela se parece muito com o Brasil. À parte a língua estranha, os olhinhos puxados por toda parte e as oferendas em mini templos budistas espanhados pelas ruas, eu me senti quase como se estivesse em alguma auto estrada brasileira no caminho entre o aeroporto e a região das praias. O mesmo mixto de riqueza e pobreza convivendo lado a lado, a bagunçinha arquitetônica típica das zonas tropicais e aquele calor tórrido - felizmente o carro que me conduzia tinha ar-condicionado. E quando fomos chegando perto das praias e aquele panorama de morros, ilhas e praias côncavas urbanizadas lá em baixo, aí mesmo foi que eu tive a nítida impressão de que eu poderia estar indo para Ubatuba e teria visto exatamente a mesma coisa. O que é um elogio, pois eu adoro Ubatuba.


Bom, eu poderia continuar citando as inúmeras comparações que fiz com o Brasil mas ao invés prefiro comentar o que vi de diferente. Primeiro, os enormes resorts da região. Pukhet ganhou fama internacional e por causa disto todas as principais marcas hoteleiras estão lá, você vai passando pelas avenidas de beira mar que existem em quase todas as praias e os nomes vão se alternando, Hilton, Sheraton, Meridien, Intercontinental, you name it, they have it. Um maior que o outro, um melhor que o outro, um tão igual como o outro no final. Ah, como vida de milionário deve ser difícil, ter que escolher entre um resortinho destes e outro. Como assim, só tem duas piscinas??? Como assim não tem acesso direto ao mar???


Pois eu fiquei em um resortinho com três piscinas e acesso direto ao mar, he he he. Não que eu seja milionário, mas ao invés de me aventurar pelos label hotels da vida, procurei uma marca local, e fui parar num hotel chamado Kata Beach Resort & Spa, que apesar dos medonhos elefantinhos de concreto na entrada, eu recomendaria para qualquer um. Pode não ter o glamour dos hotéis de classe, mas em termos de conforto, localização, preço e atendimento, não tenho queixas. Ganhamos um upgrade na chegada (motivo, hotel lotado e o tipo de quarto que tínhamos reservado não estava disponível) e fomos confortavelmente hospedados no que eles chamam "pool villa", uma suíte no andar térreo com varanda e piscina privativa. Isso mesmo, a gente tinha uma piscina só pra gente. E principalmente a localização do hotel era a melhor possível: o Kata é um dos poucos hotéis em Pukhet com acesso direto à praia. Nem Hilton nem Sheraton podem se gabar disto. A nossa preocupação diária era: hoje vamos para a praia, para a piscina da esquerda, para a piscina da direita, ou ficamos aqui na nossa piscininha privativa? Ah, pra quê escolher? Vamos primeiro à praia, depois a gente sobe para a piscina e depois do almoço damos os últimos mergulhos na nossa piscina. A verdade é que só tivemos chuva no princípio da viagem, a maioria dos dias foi de puro verão.


Aproveitamos um dia para fazer um passeio às chamadas Phi Phi islands, um pequeno arquipélago situado ao largo de Pukhet, e famoso desde que o filme "The Beach" com Leonardo di Caprio e Tilda Swinton foi filmado por lá. O filme é medíocre, mas a tal da praia de que fala o fime é mesmo paradisíaca e sem dúvida entrou direto pra minha lista das top ten no mundo, dentre aquelas que conheço, é claro. Bastante parecida com outra praia linda em que estive este ano, a Loch Ard Grove, na Austrália, só que mais verde, a praia de Maya bay é formada por dois paredões de rocha enormes que quase estrangulam o mar, dando acesso a uma pequena baía dentro da qual encontramos o paraíso perdido. Sim, o lugar é mesmo de uma beleza indescritível. Mas, paraísos perdidos não existem... subindo um pouquinho em direção à terra firme, encontramos logo uma placa bem grande informando que aquela região é zona de risco de tsunamis, "tsunami hazard zone" e dando instruções aos banhistas de seguir a trilha rumo acima no acaso de um evento desagradável. Mas olha, com ou sem risco de tsunami, vale muito a pena conhecer a praia, e não é à toa que haviam vários barcos por ali, todos cheinhos de turistas se maravilhando como eu com a beleza ímpar do lugar. Infelizmente eu escolhera mal o dia da visita, logo no começo da viagem e portanto o tempo não estava dos melhores... tivesse ido uns dois dias mais tarde e eu teria encontrado a praia em todo o seu esplendor tropical. Mas uma praia que consegue ser linda ainda com chuva e tempo nublado... é para poucos.
Depois da visita à Maya Bay beach seguimos para o outro lado da ilha, onde uma laguna também formada por paredões de rocha estrangulando o mar e ainda mais paradisíaca nos esperava... nessa laguna não há praia, mas a concentração de sal na água é tão grande que não é preciso ter medo dos 20 metros de profundidade ao se saltar para um mergulho... os corpos boiam na água assim como no famoso Mar Morto de Israel. Eu bem que fiquei tentado a pular, mas tenho que admitir, tenho um problema muito sério com a sensação de não dar pé na água... fiquei no barco mesmo. Para terminar a sessão de passeios, fizemos também um dia um passeio de barco e canoas por um outro grupo de ilhas vulcânicas com lagunas internas às quais só se tem acesso através de pequenas canoas que passam por debaixo de grutas escuras e misteriosas... aí é que tive mesmo a sensação de estar entrando em um universo paralelo... a sensação de atravessar uma escuridão total em um barquinho para encontrar do outro lado um mini paraíso ecológico preservado, é como se estivéssemos voltando no tempo. Quantas vezes eu já usei a palavra paraíso aqui neste post?


Bom, a parte paraíso de Pukhet se resume a estas pérolas de beleza natural espalhadas ao redor da ilha... a ilha em si é mais mundana, mas tudo bem. A noite em Pukhet? Olha, tem pra todos os gostos, desde o chiquérrimo Supperclub até o boteco da esquina, passando pelas milhares de nightclubs tourist traps para todo tipo de clientela... mas a noite para mim se resumiu em momentos íntimos e aconchegantes na minha pool villa, afinal de contas eu estava em ótima companhia. Um dia ainda nos animamos para ir ao Supperclub mas a animação não passou do jantar, passamos em frente a um bom restaurante tailandês chamado Mali, todo branco e que ficava em frente ao hotel... olhamos um para o outro e falamos a mesma coisa "Supperclub? I couldnt bother...". De repente a ideia de ter que trocar a camiseta, bermuda e sandálias por algo mais urbano nos pareceu insuportável. Estou ficando velho and I love it.


Não falei ainda da comida. A comida na Tailândia é fantástica, saborosa, nutritiva, e barata. Um jantar completo para duas pessoas com entrada e sobremesa em um restaurante local sai por 10 euros... bebidas alcóolicas a parte, e no caso da Tailândia, elas são caras... melhor ficar na Singha, a marca de cerveja local. Não é preciso explicar que nos fartamos de comida tailandesa até o esgotamento. Eu adoro comida tailandesa, mas tenho que admitir que no final eu já estava um pouco cansado de qualquer coisa à base de curry ou molho agridoce, mas felizmente em Pukhet também há uma dezena ou mais de bons restaurantes europeus onde se pode comer pratos de carnes e massas decentes por um preço adequado, mais caros que os pratos tailandeses mas ainda assim pagáveis, para aqueles que não apreciem (vai saber, tem gosto pra tudo) a maravilhosa cozinha tailandesa. Apenas por favor não fiquem espantados se em uma determinada hora aparecer uma baratinha pela parede lateral do restaurante sendo seguida por uma lagartixa que pelo jeito também estava a fim do seu jantar... afinal, isso é a vida nos trópicos.


Puxa, ainda nem falei de Bangkok... fica pra próxima!


1 comment:

Quel Carvalho said...

Mais uma viagem na sua companhia! ;)
Espero por Bangkok!
Abraços, Antônio.