Hoje a tarde eu recebi en passant a notícia da morte de um tio, o qual já não vejo há muitos anos. Para falar a verdade eu me lembro muito pouco dele, quase nada mesmo. Nem sei dizer quando foi a última vez em que o vi. Talvez tenha sido quando fazia o segundo grau na escola, pois eu tinha amigos em comum com a minha prima, que estudava no mesmo colégio, e portanto ainda me lembro de ter estado na casa deles algumas vezes naquela época, já há mais de 20 anos atrás. Depois, fui perdendo o contato. Meus pais sendo separados e eu nunca tendo tido muito contato com a família do meu pai, o afastamento foi quase que uma coisa natural, consequência da vida. Cresci, estudei, me mudei, fui embora e acabei perdendo o contato não só com eles mas com quase toda a minha família, inclusive aqueles a quem eu era mais chegado. Para falar a verdade, não posso dizer que fiquei triste com a notícia. Como ficar triste com a notícia da morte de alguém com quem se perdeu o contato há mais de 20 anos? Por outro lado, fiquei triste pela minha tia e pelos meus primos, pois imagino o seu sofrimento. Só que é um sofrimento do qual eu faço parte apenas como espectador. Devo admitir que eu me senti bastante constrangido ao me dar conta disso.
Nessa vida de quase nômade que eu levei até agora por maiores ou menores espaços de tempo em 9 cidades espalhadas por 6 países. Uma vez eu contei que entre o ano 2000 e 2008 eu havia me mudado de casa 16 vezes, o que dava uma média de uma mudança a cada 6 meses. Nessas andanças todas conheci muita gente, é claro, gente que passou pela minha vida, deixou marca ou não, e se foi, além de alguns poucos que foram insistindo em ficar pelo caminho, ainda que a vida marche em direção oposta. Gente que foi muito importante durante um tempo, e com as quais eu perdi totalmente o contato; mas também gente a quem eu talvez nunca tenha dado a atenção necessária, pois apesar de tudo, ficaram.
Agora a noite eu acabei de usar um daqueles aplicativos bobos do Facebook, que eu uso para matar o tempo quando não tenho nada para fazer. 10 e meia da noite, já jantei, já vi o noticiário, já arrumei a casa, já me preparei para amanhã, estou agora aqui a divagar pelo computador enquanto espero a hora de ir dormir. Resolvi fazer a minha contagem de "amigos" (assim entre aspas porque a noção de "amigo" no Facebook é muito ampla!) por cidade, país e continente e me deparei com um resultado que me surpreendeu. Tenho 52 amigos em Amsterdam, 21 em São Paulo, 19 em Londres, 15 em Bruxelas, 10 em Nova York, 9 em Sydney, 6 em Paris, Colônia, Melbourne e Barcelona, 5 no Rio de Janeiro e Berlim, 4 em Madri, 3 em Milão e Rotterdam e mais uma lista enorme de lugares onde tenho um ou dois "amigos". Eu sabia que conhecia muita gente em muitos lugares, mas sinceramente não tinha idéia de que era tanto assim.
E é aí que está o paradoxo da coisa. Ao mesmo tempo em que conheço tanta gente em tantos lugares, tenho a sensação por vezes de que não conheco quase ninguém e me sinto um estranho total mesmo ao lado da minha própria família. É muito estranha esta sensação. Não posso dizer que eu esteja sozinho com uma lista dessas pelas costas e ainda mais se levo em consideração os poucos amigos mais chegados que apesar dos pesares me ligam, me procuram, e me interessam também, mas a verdade é que eu sou de fato um solitário, um loner, e apesar de conhecer muita gente, acabo me apegando a muito poucos.
Eu sempre fui muito independente desde criança, sempre quis fazer tudo sozinho e nunca procurei a ajuda de ninguém para nada; eu sempre achava que sozinho eu faria melhor. Uma das coisas que eu gostava de fazer era sair andando sozinho, onde quer que fosse, apenas para ver onde aquele determinado caminho ia dar; acho que foi dessa curiosidade que nasceu a minha paixão por geografia, eu sempre curioso em relação ao mundo. Mas à medida em que fui crescendo e que fui andando pela vida, procurando ver onde cada caminho ia dar, (e cada caminho onde eu fui parar!) fui perdendo o contato com aqueles que ficaram no ponto de partida, aqueles que não quiseram, não puderam ou não ousaram me acompanhar. Eu fui sozinho, e sozinho fiquei.
Hoje em tenho a minha família no Brasil, o meu namorado e futuro cônjuge na Austrália, os meus amigos e conhecidos espalhados pela Europa e pelo mundo, mas eu sei muito pouco de quase todos eles, e quase todos eles também sabem muito pouco ou quase nada a meu respeito. Talvez o meu noivo, talvez a minha irmã e as minhas quatro ou cinco amizades mais sólidas são as que conhecem a maior parte de mim - o "eu" inteiro, ninguém conhece. No mais, todo o resto são relações leves e desimportantes, infelizmente. São relações verdadeiras uma vez que francas e honestas, mas ao mesmo tempo superficiais em sua maioria, uma vez que não há por minha parte, eu admito isto, a busca pela profundidade, pelo verdieping como se fala em holandês. Ficou tudo muito raso assim como a Holanda. Eu gosto de saber que estejam todos bem, mando notícias de vez em quando para que saibam como eu vou passando, ajudo quando posso, mas fica por aí. Quando alguém se vai, como agora, eu não posso dizer que eu sinta muito... mas também tenho certeza, e sem nenhuma mágoa, que a maioria também não sentiria muito a minha falta se eu um dia me fosse.
Será que sou insensível? Não, eu sei que não sou insensível. Pelo contrário, eu tenho uma sensibilidade muito forte, e talvez por isso mesmo eu tenha me afastado da maioria, e mantenha este escudo gelado e transparente que não deixa quase ninguém se aproximar muito. Sorrio para todos, procuro ser cordial, mas fico na minha. O "problema", se é que se pode chamar isto de problema, é que eu prefiro me concentrar àqueles poucos que conseguem furar a barreira, só que eu talvez me concentre demais nestas poucas pessoas que realmente contam para mim, e negligencio o resto. Há vezes em que me sinto sozinho. Chego numa festa por exemplo, e não me sinto à vontade com quase ninguém, e tenho uma ponta de inveja daquelas pessoas que chegam em um evento desses e em meia hora já conhecem a festa inteira. Eu nem que quisesse, não conseguiria. Mas aí é que está; eu talvez ache que eu queira algo assim quando eu chego na festa e me sinto um peixe fora d'água... mas na verdade, eu acho é que eu não quero nada disso, senão talvez tivesse tentado um dia fazer algo a respeito. O fato é que desconfio da humanidade e prefiro deixar ela assim, ao largo, assim não deixo que me machuquem. Já chorei muito pela ausência daqueles a quem eu mais queria... se hoje em dia alguém se vai e eu não consigo chorar... acho que é o preço que pago pela minha independência.
Tuesday, November 3, 2009
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