
Há 20 anos atrás quando o muro de Berlim caiu, eu estava ainda na faculdade de Direito. Para falar a verdade eu não me lembro exatamente do que eu estava fazendo naquele dia, mas por curiosidade procurei através da internet o calendário de 1989 e descobri que o 9 de novembro daquele ano caiu numa quinta feira. Deve ter sido um dia normal, de muito calor e talvez chuva, como são os dias em Belém nesta época do ano. Eu devo ter passado o dia em aulas na Universidade, e ao final da tarde devo ter voltado pra casa. O que eu me lembro sim, daquele dia, é de ter recebido a notícia pela televisão, acho que no jornal das oito, assim como a maior parte da população mundial. E também como todo mundo, é claro que achei fantástico o que estava acontecendo, e fiquei grudado em frente à tv até altas horas da noite, mudando de canal para canal, de jornal para jornal, para não perder nenhum minuto daquele acontecimento histórico que estava sendo transmitido ao vivo para o mundo. E uma idéia na cabeça: "puxa, como eu gostaria de ter estado ali naquele lugar e naquela hora precisa.'
Naquela época, a idéia que se tinha dos países do leste europeu, e principalmente dos seus habitantes, era bem diferente da realidade que vemos hoje. Berlim, Praga, Budapeste, ainda estavam bem longe de ser as megacapitais de turismo em que se tornaram hoje. Países como a Bulgária ainda eram vistos com receio e a Bósnia ainda nem sequer existia como país independente, escondida no país que chamávamos de Iugoslávia. Quanta mudança e a gente nem se toca! Quando eu finalmente estive em Berlim pela primeira vez, em 1998, a cidade já estava em plena transformação. A Potsdamer Platz ainda era apenas o "maior canteiro de obras da Europa" como se falava na época mas o Checkpoint Charlie já era lembrança de um passado distante e a Friedrichstrasse estava em franca evolução rumo ao que é hoje. Mas a impressão geral que a cidade dava é a de que era realmente uma cidade em fase de transição, de mudanças, tantas eram as obras espalhadas pela cidade, tantas eram as diferenças que se encontravam aqui e ali, tanta cor de um lado, tanto vazio de outro. Este ano, ao visitar a cidade apenas pela segunda vez, notei que apesar de um ou outro canteiro de obras aqui ou ali, em termos gerais a cidade já está bastante refeita. A cidade está completamente diferente. Mas o que é interessante no caso de Berlim é que a cidade conseguiu se transformar sem perder a alma. Prenzlauer Berg virou um bairro yuppie, quem diria, mas comparada com Londres ou Paris, Berlim ainda é bem undergroundzinha, e é essa aversão civilizada mas resistente a tudo que cheire a pequeno-burguês da cidade que a torna atraente. Amsterdam, que vem seguindo o caminho contrário nos últimos anos, poderia tirar uma lição daí sem dúvida. Bruxelas então, nem se diga.
Um amigo meu comentou hoje que estava surpreso com a relativa apatia com a qual a celebração dos 20 anos da queda do muro foi - ou não - comentada durante o dia. A verdade é que ninguém falou muito a respeito do assunto em círculos privados. Sim, a notícia está em todos os jornais e revistas, sim, a Alemanha preparou uma festa enorme em Berlim com um belo jogo de queda de dominó gigante simbolizando a queda do muro, sim, todos nós sabemos do quanto o mundo mudou de lá pra cá. Mas será nos damos conta ainda do significado disso tudo? Parece-me que já estamos dando o fato como favas contadas, já estamos "taking it for granted" e esquecendo que na verdade o povo da antiga Alemanha Oriental teve realmente que lutar para conseguir chegar lá e que tudo poderia ter acabado diferente de como acabou. Em uma Europa reunida, o que talvez poderia, e deveria, ter sido o motivo para uma festa continental, não foi. Todo mundo continua seguindo suas vidas, e quando possível assistindo ao resumo das festividades em Berlim pela televisão, mas assim, de passagem. Durante o jantar e de preferência antes da hora de dormir porque amanhã todos nós temos que ir trabalhar, ora bolas. A queda do Muro de Berlim, verdadeira queda da Bastilha do século XX, virou produto de consumo. Alguém tem ainda algum pedacinho do muro pra vender? Será que vale ainda alguma coisa? Tudo foi banalizado. O Muro virou um jogo de dominó bem colorido para cair ao vivo pela tv, mas por favor não confundir as peças de dominó caídas com o Monumento ao Holocausto logo ao lado. Nele os blocos são cinzentos, já estão caídos antes da festa começar, e lá ficarão, eternamente, para o esquececimento geral da humanidade.
Deixa eu esclarecer. Não é que o assunto fora esquecido pela mídia não, eu já falei isso, muito pelo contrário. A semana inteira pudemos nos deliciar aqui na Europa com todo tipo de documentário sobre o Muro. Quando o Muro surgiu, como o Muro caiu, quem pulou do Muro, quem caiu do Muro, quem fugiu do Muro e quem ficou em cima do Muro, de todos eles pudemos saber os nomes, as vidas, as histórias. Relatos de "como eu consegui fugir" aos montes, seguidos dos inévitáveis momentos de emoção, os reencontros, os choros, o final feliz. Sem esquecer o epílogo em que nós é narrado em off o que aconteceu com cada um dos "personagens" após o capítulo final. E assim cada uma daquelas pessoas, testemunhas da história há 20 anos atrás, narradoras de seriado na atualidade, expôs a sua história ao mundo, como um verdadeiro "Truman Show" versão europeia e todos nós assistimos aos documentários, assim com quem assiste a uma novela das oito. Emocionados sem dúvida, mas vivendo a sensação de que aquilo que nos é contado não passa de uma ficção barata de um tempo que já passou, que já não existe mais. O tempo voa. A memória é curta. Não há espaço suficiente no drive. Deleta. Como assim o Muro caiu? Como assim comunismo, o que era isso mesmo? Ah sim, claro, tinha um muro ali antes, nossa. Muda o canal agora por favor, que o show da Beyoncé vai começar. Puxa, é não é que ela ganhou três awards no European MTV Awards... FABULOUS!!! E coincidência do século, não é que a festa foi em Berlim??? Ach, Berlim, tinha que ser por isso que estava todo mundo falando da cidade mesmo esta semana, era o show da Beyoncé, era o MTV Awards, ora bolas. Dá pra fazer um download no YouTube? Ich bin auch ein Berliner!!!



1 comment:
Oi, querido,
Esta aparentemente tímida referência ao 9/11/89 (eu estava numa redação de jornal) tenha talvez origem no fato de o tema, apesar da importância mundial, ter um forte aspecto de assunto interno. Aqui na Alemanha, nós estivemos, muito antes do dia 9, concentrados no marco dos 20 anos da queda do muro, data que não coincide como o Dia da Reunificação, que é 3 de outubro e completou 19 anos.
Berlim tem algo de mágico, sim, como se fosse um foco de resistência ao que é mainstream. Não é uma cidade belíssima, se pensarmos no resto da Alemanha, sobretudo no sul do país. Mas é uma cidade que faz a pessoa se sentir um "escolhido", alguém certo, no lugar certo.
Talvez esta circunstância que você tão apropriadamente descreveu no seu post seja um efeito desta aura da cidade: Berlim é um memorial "vivo". O muro caiu, mas a história permanece, quando não assombrando, dando sentido ao que a cidade se tornou, uma espécie de terra prometida... Em Berlim, diz uma música do Beirut, a luz da manhã é triste e feia. Mas só a luz da manhã.
Um beijo,
Arnild
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