
No que estou aqui sentado ao lado do computador e em frente da TV, vejo um programa sobre um hotel dem Florença, e a música de fundo é a parte Inverno, das Quatro Estações do Vivaldi. O Inverno de Vivaldi é uma de minhas composições favoritas, ela tem uma força e uma beleza realmente incríveis. Aliás, adoro Vivaldi e Bach, adoro música barroca, isso mesmo, ADORO. O Mattia diz que eu gosto de música de enterro, mas pra mim não tem maneira melhor para se começar um dia, sobretudo se estiver fazendo sol, que colocando Bach ou Vivaldi pra tocar. Pra mim Vivaldi, e sobretudo Bach, são a mais pura perfeição da música, a arte no seu estado mais puro, mais platônico, mais apolíneo. Perfeição matemática. Exata.
Mas enfim, a música me remeteu a uma outra idéia, a idéia do inverno. De como eu gosto do inverno. Agora é primavera e está fazendo tanto calor que já é praticamente como estivéssemos no verão, e devo admitir que está bem gostoso sim, as janelas abertas, a gente podendo sair de camiseta na rua, o suor que faz com que eu me sinta vivo. Está ótimo. Mas devo admitir, no fundo, mas lá no fundo mesmo, o que eu gosto mesmo é do inverno. Não dos invernos chuvosos e sem graça, cinzentos, mas daqueles invernos frios e ensolarados, aqueles dias lindos de sol depois que a neve caiu, os parques e os telhados da cidade todos branquinhos, um frio de lascar na rua que nos obriga a usar os casacos mais pesados, e o céu azul acima de nós. Nossa, como eu gosto. Pode parecer incrível, mas um dos motivos pelos quais eu não me entusiasmo muito com a idéia de voltar a morar no Brasil (pelo menos no momento, pode ser que um dia eu mude de idéia), é que tenho certeza de que ia sentir muita falta da mudança das estações do ano, e sobretudo do inverno. Eu não gosto do outono, outono pra mim é sinônimo de chuva, de fim de festa, de ranço no ar... mas inverno... é sinônimo de curtir o lar, ler mais livros, dormir mais... ah, eu gosto sim.
Aliás tem muita coisa aqui na Europa que eu gosto bastante. Eu estou pensando nisto agora porque vivo no eterno dilema, "não sei se vou ou se fico". Aliás, pra mim nem é um dilema, eu sei que fico, mas me cansa ter que ficar me explicando toda hora pra todo mundo. Sim, porque me cobram... e este amadurecimento eu ainda não alcancei, o de não se importar mais, eu ainda me importo com as cobranças alheias, eu ainda quero agradar, ser o bonzinho, fazer tudo o que esperam de mim, e no final só eu que sobro. Eu tenho que me explicar de porquê eu não quero voltar. Também o blog recente de uma amiga me fez pensar a respeito.
Um dia, anos atrás, a minha irmã me perguntou, em um e-mail, por quê eu não voltava pro Brasil (hoje em dia ela já entendeu, e até concorda). Ela dizia, por quê que eu "teimava"em ficar na Europa (palavras dela), quando eu teria uma vida muito melhor no Brasil em termos financeiros, por vir de um meio econômico mais privilegiado, por ter melhores contatos, e isso, principalmente depois de ter obtido um diploma de mestrado por uma universidade européia. Era evidente que no Brasil eu teria melhores chances de conseguir um bom emprego do que aqui na Europa, lá eu faço parte da nata, aqui eu sou fundo de tacho. Eu falei pra ela, porque já que é pra sofrer preconceito mesmo, eu prefiro sofrer preconceito por algo que escolhi do que por algo que eu não escolhi. Porque ser estrangeiro é minha escolha, então sendo assim, é minha escolha enfrentar o preconceito decorrente da situação. Ao passo que ser gay não é minha escolha (se bem que eu também acho que ser gay também tem um pouquinho de escolha sim, mas isto é outro papo pra outro post), eu não posso interferir muito a respeito, então é muito mais difícil lidar com tal tipo de precoceito. Então no final eu acabo aceitando em ter que engolir a xenofobia européia - porque digamos a verdade, europeu em geral é racista sim, e muito - porque dói menos que a mentalidade troglodita e anos cinquenta do Brasil.
Quando eu penso que no Brasil ainda se assiste a Domingão do Faustão nos domingos... nossa, que bom que eu escapei desta.
O atraso mental do brasileiro médio sempre me incomodou muito. E os brasileiros são tão machistas... Eu já ouvi cada comentário... que talvez quem seja heterossexual não se dê conta, mas quem é gay, sabe... sempre acaba vindo um comentáriozinho no Brasil... e no final isso cansa muito. Pode ser uma piadinha leve, pode ser uma piada de mau-gosto na hora errada, um olhar torto, uma condenação velada, pode ser uma condenação à morte (sim, eu já ouvi na minha própria família, que todos os gays deveriam morrer de aids, e que era castigo de Deus). Aqui na Europa felizmente há uma consciência política e social maior, isso evita a discriminação. Preconceito tem também, mas discriminação, não.
Então este acaba sendo o motivo principal mesmo. Por causa disto, eu não tenho muita vontade de voltar, vou ficando por aqui mesmo. Aqui eu me sinto mais respeitado como cidadão, e isso é algo que eu valorizo muito.
Mas não é só isso. Tem a insegurança também. Eu aqui gozo de uma liberdade que no Brasil a gente já não em mais. A liberdade de ir e vir. Eu detesto dirigir, eu nem sequer carteira de motorista tenho. Gosto mesmo é de andar, e se a distância for longa, tomo metrô ou ônibus numa boa. No Brasil, não se pode fazer isto à noite. Ir jantar fora e voltar andando pra casa, nem pensar. E eu quero viver assim, trancado, com medo da rua? Não, obrigado. Sim, este é o motivo número dois. Eu me sinto mais seguro aqui do que no Brasil. E eu gosto da liberdade que tenho aqui, e que não tinha no Brasil.
E depois vêm todos os outros motivos, que são vários. É verdade que não há paraíso na Terra, e que se houver, tanto a Bélgica, onde moro atualmente, como a Holanda, onde morei antes, estão muito longe disto. Problemas aqui é o que não faltam. Mas são outro tipo de problemas, problemas que não me afetam tanto, ou pelo menos ainda não me afetaram. Ou se me afetaram, eu já os aceitei. Eu entendo quem não consegue se acostumar com a vida aqui por que sente falta do calor humano do Brasil, isso é muito verdadeiro, as pessoas aqui são mais frias e distantes mesmo, mesmo quando ficam amigas, não é como no Brasil, no Brasil você já é ""intimo"depois de meia hora de conversa, já te convidam pra ir jantar (embora muitas vezes fique na promessa mesmo), já te incluem no grupo, pegam teu telefone (nunca ligam, mas tudo bem, tá lá o nome)... Imagino que a distância imposta pelos europeus no tratamento interpersonal deva ser difícil pra muito brasileiro, acostumado com aquele clima de 'casa da mãe joana' que são as amizades no Brasil. Eu sinceramente, não sinto tanto, até porque sempre fui muito na minha mesmo. Sempre fui muito desconfiado, era muito tímido quando criança, nunca me abri muito pra ninguém, e por causa disto, sempre tive pouquíssimos amigos. Eu cresci praticamente sozinho, no meu próprio mundo. E sempre tive muita dificulade em me comunicar com as pessoas, então estou acostumado com a distância da maioria, na maior parte das vezes sou eu mesmo quem me distancio. E de resto, fiz ao longo do tempo bons amigos aqui na Europa, brasileiros ou não, e eles me dão todo o calor humano de que preciso, quando preciso.
E tem o inverno... agora é primavera/verão, e está ótimo, não vejo a hora de pegar uma praia... mas eu gosto mesmo de saber que daqui a uns 8 meses, talvez até menos, eu vou tirar os meus casacos do armário de novo... podem me chamar de louco, eu assino embaixo.



2 comments:
Aliás tem muita coisa aqui na Europa que eu gosto bastante. Eu estou pensando nisto agora porque vivo no eterno dilema, "não sei se vou ou se fico". Aliás, pra mim nem é um dilema, eu sei que fico, mas me cansa ter que ficar me explicando toda hora pra todo mundo.
rapaz, esta frase poderia ter sido escrita por mim...na verdade, acho que nunca vivi realmente este dilema. e também amo As Quatros Estações de Vivaldi, passava dias só ouvindo isso no Brasil. e As Quatros Estações do Ano como temos aqui na Europa. a primavera é a minha favorita, mas adoro ficar em casa de preguiça lendo e assistindo filmes, sem ter a obrigação de sair porque está fazendo SOL e todo mundo tem de ir pra rua!!! (é impressão minha ou na primavera e no verão é como se tivéssemos a obrigação de sermos felizes?)
:) Gostei do post. Mas do frio, então na Bélgica, já não digo o mesmo!
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