Sunday, April 29, 2007

Ode à solidão


Domingo de sol aqui em Bruxelas, mais um dia de sol e calor, e de uma privamera tão intensa que mais parece verão.

Estou sozinho aqui em casa, o Mattia saiu ontem à noite pra visitar um amigo, acabou bebendo demais e ficou dormindo por lá mesmo.

Eu podia criar caso e fazer drama, arranjar motivo pra briga e partir pra cima, afinal de contas, se não fosse eu saber quem é, são já doze horas fora de casa... enfim.

Mas sabe porquê eu não faço drama? Porque na verdade eu gosto. Isto me dá a possibilidade de ficar sozinho em casa, e eu adoro ficar sozinho. A verdade é que pra mim, os momentos em que eu me sinto melhor comigo mesmo, mais feliz com a minha vida e com tudo ao meu redor, são os momentos em que eu estou absolutamente só, como agora. Eu adoro a solidão.

Meus amigos e minha família que não me levem a mal, eu também adoro a companhia deles, adorom quando vêm me visitar, sempre faço questão e minha casa está sempre de portas abertas pra todos eles. Mas assim como eu adoro quando eles vêm, também adoro quando eles vão. Adoro ficar sozinho. Um dia cheguei a pensar que eu tinha algum problema, não é "normal" ser assim tão anti-social. Acho até que já perdi boas oportunidades profissionais por este meu jeito fechadão de ser. Mas, o que eu posso fazer? Eu gosto da minha companhia mais do que da companhia de qualquer outra pessoa, seja meu namorado, minha mãe, minha irmã, meus amigos mais próximos.

Acho que isso vem de família; eu puxei muito à família da minha mãe neste aspecto. Aliás, eu puxei totalmente à minha mãe em vários aspectos. Eu tenho a convicção de que a minha mãe é a pessoa mais próxima de mim, é a minha alma gêmea mais próxima. Uma pena que educações dieferentes, visões do mundo diferentes, generation gaps, nos impeçam de certa forma de ter uma relação mais próxima, porque sei que ela é na verdade a pessoa que mais se parece comigo, e vice versa. Pois bem, minha mãe, assim como meu avô materno, são também meio anti sociais. Minha mãe nunca foi muito de ter "melhor amiga", e meu avô, este então, depois que envelheceu, nunca mais saiu de casa. Sério. Acho que nem no casamento das netas ele foi. E o pior é que eu entendo ele muito bem. Acho que quando eu envelhecer, se chegar a tanto, vou ser como ele, vou ficar dentro de casa e nunca mais sair, e quem quiser que venha me visitar. Ainda sonho um dia, daqui a muitos anos, se minha aponsentadoria permitir (sabe-se lá se na nossa geração ainda viremos a ter aposentadoria), ter uma casa perto de um bosque ou uma praia, um lugar com janelas bem grandes e muito verde em volta, e eu vou ficar lá, e vou morrer lá.

O meu pai e a minha irmã são diferentes, eles são pessoas gregárias, sempre têm muita gente em volta. O meu pai, quando sai pra jantar fora em algum restaurante, a primeira hora é gasta cumprimentando um e outro que encontra no local - e ele sempre encontra muita gente, ele sempre conhece todo mundo. A minha irmã é meio assim também, conhece Deus e o mundo. Eu não, eu sempre fui bicho do mato mesmo. Talvez a minha irmã tenha mudado neste aspecto ao longo dos anos, mas eu me lembro que quando a gente era adolescente, toda vez que a minha mãe viajava - ela tinha que ir fazer compras para a loja que tinha - a minha irmã aproveitava pra fazer festas, e eu que não gostava nada da idéia, me trancava no meu quarto até a festa acabar. Eu era conhecido como o "irmão estranho" da minha irmã.

Engraçado, quem me conhece de uns tempos pra cá talvez se surpreenda com estas revelações, afinal eu estou - ou estava, principalmente quando morava em Amsterdam - sempre organizando jantares, reuniões, etc. Mas será mesmo que eles nunca notaram, que em todas as festas e reuniões que eu organizo, eu sou sempre o que menos fala? Eu gosto assim, de dar às pessoas a oportunidade delas se encontrarem, se divertirem, e se puder ser na minha casa, pra que eu não precise sair, ainda melhor. Mas chegada a hora, o que eu quero mesmo é ser platéia, eu observo tudo e todos, eu faço questão que todo mundo se divirta e se sinta bem, mas eu também procuro "aparecer" o mínimo possível. Deixa os holofotes para o meu namorado, o Mattia, ele adora. Eu prefiro ficar mesmo nos bastidoes. É, eu sou tímido mesmo, e muito.

Então quando eu estou sozinho, não tem cobrança social, não tem obrigação, não tem "aparentar amenidades e ocultar precipícios", quando eu estou sozinho eu sou eu mesmo, eu me basto, e me sinto tão bem... eu ouço os discos que quero (posso ouvir meus discos de jazz que só eu gosto, como agora), eu leio os livros que quero, eu navego na net livre e desimpedido, eu me divirto comigo mesmo. E eu escrevo, como agora. Porque escrever pra mim sempre foi muito importante, os meus amigos de fora que já receberam os meus e-mails-carta, sabem do que estou falando, eu adoro escrever, até porque detesto falar. Quanto menos eu falo, melhor. Quanto mais eu escrevo, melhor.

Uma amiga minha ficou impressionada outro dia, de como eu sou travado no telefone. Sou mesmo, não gosto de telefone, telefone pra mim é só pra dar recado e olhe lá. Se eu quero mesmo falar com alguém, ou eu falo pessoalmente, ao vivo, ou eu escrevo. No telefone eu não consigo passar do superficial, então pra mim não faz sentido.

Espero que quem leia este post não me leve a mal, que não vá começar a achar que é melhor não me procurar pra não me importunar. Não é este o sentido da coisa, como eu falei, meus amigos nunca me importunam, eu sempre adoro quando eles me procuram. Mas é simplesmente que eu não tenho a necessidade de ter gente à minha volta. Adoro quando me procuram, mas se não me procuram, não sofro com isto, pelo contrário, aprecio a solidão, a sorte de ter um momento só meu, onde não há nada nem ninguém, onde não preciso fazer concessões, onde posso deixar todos os problemas do lado de fora e curtir a ilusão de que eu vivo num mundo só meu.

3 comments:

Bebete Indarte said...

Eu já sabia um pouco, principalmente do telefone...
e eu acho que mais do que timidez, você é uma pessoa seletiva.
Seleciona o que é bom ou não pra você, e sabe estabelecer limites.
E esses momentos são todos seus e assim você pode curtir a vontade a sua própria companhia e essência.
O que é fundamental, não é mesmo?

Beth Blue said...

pra variar, entendi perfeitamente..e depois de ler seu blog me deu até vontade de te ligar. só que depois deste post, mudei de idéia! rsrsrs.

Annix said...

Same here! E ninguém acredita quando eu digo que sou anti-social. Com vc é assim também? ;-)
(interagir com pessoas é fonte de stress - encaro se necessário, mas se puder escolher...)