
Acabei de jantar. Está uma lua linda lá fora, uma lua bem cheia, e uma noite fresca, e bem clara. Íamos jantar fora, mas acabamos comprando comida chinesa, e comendo aqui em casa mesmo. Passada a hora da refeição, não resisti à tentação da lua, que brilha imensa bem em frente à minha janela... como que me convidando a decifrá-la... então pus "Clair de Lune" pra tocas, que é uma das minhas composições favoritas. E me sentei à poltrona, e me pus a pensar.
Estamos em Primeiro de Maio, a primavera já corre solta. Maio é um dos meus meses prediletos, não só por causa da primavera, mas também devido ao meu aniversário, que ocorre daqui a alguns dias. Sempre gostei de comemorar o meu aniversário. Não que eu seja de festa, aliás por muitas vezes eu não fiz festa alguma. Mas sempre gostava de me presentear naquele dia, seja tirando folga e fazendo algo especial, ou viajando, ou comprando algo, enfim. Pra mim era sempre festa, ainda que particular.
Este ano estou chegando aos meus 36 anos, e pela primeira vez, devo admitir, a conta está vindo com um gostinho amargo. Não estou gostando nada desta história de fazer 36 anos. A impressão que eu tenho, é que já tinha chegado ao topo da montanha no ano passado, e agora, chegando aos 36, eu virei o topo, dei de frente com o outro lado, e agora tudo o que eu vejo é uma grande ladeira morro abaixo, e os 40 me acenando lá no fundo... como, se eu ainda me sinto tão criança?
Eu me lembro que quando eu era criança eu achava que a minha vida iria estar totalmente solucionada e estabilizada aos 35 anos. 35 para mim era um número mágico, era a idade da maturidade e da independência. Eu sonhava que aos 35 anos eu ia estar bem casado, ser pai de família, que eu ia ser arquiteto ou diplomata, e que ia morar em Paris, Londres ou algo assim, algum lugar bem importante, bem interessante, bem internacional. Mal sabia eu que os meus 35 anos seriam o pior ano da minha vida até então (mas isso é papo pra outro blog). Agora que eu estou já chegando aos 36, devo confessar que é um pouco triste se dar conta de que praticamente nenhum dos sonhos daquele menininho se tornou verdade. Tudo não passava de ilusão. Nada do que ele queria aconteceu.
A primeira ilusão a cair foi o bom casamento, a constituição de família. Eu diria que lá pelos meus 15, 16 anos, eu comecei a desconfiar de que isto não ia acontecer, que eu simplesmente não tinha "vocação"pra coisa. Até que tentei, experimentei o fruto como todo adolescente normal, mas não veio nenhum estalo, nenhuma epifania, nenhuma sensação de bem estar... só um vazio, uma sensação de "só isso?". E assim se foi, e assim eu me fechei pro mundo, e permaneci fechado por muitos anos, mergulhado no meu mundo, nos meus estudos, nos meus livros, e colocando a cabeça pra dentro do buraco que nem um avestruz, me escondendo da vida, não querendo ver a luz do sol. Foi assim por muito tempo.
A segunda ilusão a cair foi a profissão. Eu adorava desenhar, passava tardes inteiras desenhando, desenhava prédios, casas, cidades... e também gostava muito de história e de geografia, de aprender culturas e línguas diferentes, então tinha muito gosto tanto pela arquitetura como pela diplomacia. Passei muitos anos num dilema terrível, sem saber o que queria da vida. No final acabei desistindo de ambas as profisssões, por puro preconceito e imaturidade. Eu me deixei levar por opiniões alheias, tive medo do fracasso, não quis decepcionar ninguém, então deixei de lado aquela que talvez fosse a minha vocação natural - a arquitetura - assim como nem sequer ousei tentar aquela que talvez fosse a minha vitória ou a minha derrocada - a diplomacia. Entrei pra faculdade de Direito, e muito bem até, fui segundo lugar no vestibular, e terminei o curso em primeiro lugar na minha turma. Fiz tudo de acordo com a cartilha - no dia da formatura compareci, fui à festa de graduação e tudo. E nunca mais usei o meu diploma.
A terceira ilusão foi Paris. Ah, Paris, como eu gosto daquela cidade. Por mais cretinos que os parisienses possam ser, nem o mau humor deles é capaz de destruir a beleza e a magia daquela cidade. Pois bem, eu vim para e Europa em 1999, para fazer um mestrado em Relações Internacionais, em Amsterdam. Estava tentando dar uma guinada na minha carreira profissional, um tanto estagnada depois de três anos trabalhando na Air France (que foi aliás uma das minhas experiências profissionais mais saborosas até hoje, era divertidíssimo trabalhar ali). E pensava em voltar ao Brasil, depois de formado, para começar "dentro de casa" uma carreira que poderia no futuro me levar para outros lugares. Acabou não acontecendo nada como previsto. Eu terminei o curso, mas por motivos pessoais fiquei na Holanda, fui trabalhar com vendas para poder me sustentar, fui ficando, fui ficando... e lá se foi o sonho de Paris. Bom, pelo menos no final eu vim parar em Bruxelas, não é tão mal assim, afinal de contas Paris é aqui do lado...
Engraçado, a minha vida parece que acontece em ciclos de 6 anos. Mas um ciclo que começou um ano antes, vejam só: aos 5, eu fui alfabetizado; aos 11, eu fui morar nos Estados Unidos; aos 17, eu entrei pra faculdade; aos 23, eu me mudei pra São Paulo; aos 29, eu cheguei na Holanda; e aos 35, eu acabei vindo parar aqui em Bruxelas. Sabe-se lá o que me aguarda aos 41.
Enfim, a gente cresce, vai "entrando" na vida, a vida vai nos levando, a gente cai, tropeça, erra o caminho, volta pra trás, pega o desvio errado... e vamos pouco a pouco nos afastando do que havíamos prometido pra nós mesmos, do que havíamos esperado, do que haviamos sonhado. Nós vamos nos afastando de nós mesmos, vamos nos tornando outras pessoas. Algumas vezes o casulo vira borboleta, mas eu outras situações, é a borboleta que vira casulo. Às vezes sem se dar conta. Às vezes, pior ainda, a gente se dá conta sim, mas se sente incapaz de mudar o rumo. A vida nos prende de tal maneira que fica difícil sair. Por vezes acabamos virando prisioneiros de nossas próprias vidas. Porque quando a gente é novo o que a gente tem de energia, nos falta de sabedoria, e a gente nào consegue encontrar a medida certa, e a gente erra tentando acertar, e vai se embolando cada vez mais, e quando a gente vê, perdemos o fio da meada, estamos dentro do labirinto, e só nos resta agora tentar nos esconder do Minotauro, porque a saída a gente já perdeu de vista. A vida às vezes me dá medo.
E aí a gente chega em um dia como hoje, uma noite como hoje, e a gente olha a lua lá fora pela janela, uma lua linda e branca, tão bela, tão mansa, tão plácida, tão perfeita... tão diferente da vida... e aí a gente se pergunta, "como é que eu vim parar aqui?"



2 comments:
Calma rapaz, calma. No final dá tudo certo (alles komt goed!). Eu que o diga, hoje com 41 anos, sobrevivi não apenas a crise dos 40 como já passei por muitas crises e mudanças nos últimos 10 anos. E quanto aos nossos sonhos e ilusões...cometer erros é humano, burrice é repetir os mesmos erros! Fiquemos atentos para aprender com as lições que a vida - mais cedo ou mais tarde - nos oferece.
E vou dizer mais, meu lema hoje em dia é: o que não me mata, me fortalece (banal, mas é a pura verdade).
E eu então que vou fazer 37?Mas a gente tá no lucro,pode acreditar!Imagine quem é lixeiro,por exemplo? Ningué cresce dizendo:"Quando crescer vou ser gari!"As coisas simplesmente acontecem.Já viu o filme Sob o Sol da Toscana? É a estória de uma mulher de 40 que vai morar na Toscana e sonhava e rezava para encontrar um grande amor,ter crianças a seu redor,familia,casamento e nada disso acontece.Mas no final do filme ela se vê rodeada de amigos,com um afilhado recém nascido da melhor amiga que vai morar com ela e iniciando uma paquera.Então ela percebe que no final,aquilo que desejou,conseguiu.A familia veio por conta dos amigos,o filho por conta do afilhado e de repente,ela não estava mais sozinha no mundo.Deus realmente escreve certo por linhas tortas, a gente se torna aquilo que tem de ser e assim vai vivendo...E bem vindo aos blogs!
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