Sunday, May 20, 2007

Os Sinos da Igreja


Eu moro aqui em Bruxelas em um apartamento no centro da cidade, em uma avenida bem movimentada. Felizmente moro no último andar, e isso me poupa da maior parte dos ruídos vindos da rua. Mas tem um ruído do qual eu não escapo, e nem quero escapar: os sinos da igreja tocando. Praticamente em frente ao meu prédio, do outro lado da rua, há uma pracinha, com uma pequena igreja ao lado. É a Igreja da Providência, uma igreja barroca, que curiosamente faz parte de um dos caminhos de Santiago de Compostela, inclusive ela é marcada com as conchinhas de Santiago na entrada e nas calçadas em volta. Se não me engano é o mesmo caminho que começa da igreja de Sint Jakob de Franeker, na Frísia, ao norte da Holanda, onde também já estive. Pois bem, esta igreja toca os seus sinos todos os dias por volta das onze da manhã. Não tem como fugir, o sonido é forte e longo o bastante para acordar qualquer um, e mesmo levando em consideração que o meu quarto dá para os fundos do prédio. Eu já me acostumei, até gosto de ouvir os sinos aos domingos de manhã.


Já não é a primeira vez em que eu moro perto de uma igreja, e tenho que conviver com o badalar de sinos. Em Amsterdam, eu morei uma época em um apartamento um pouco parecido com este, também no centro, no Zeedijk, também no último andar, e também perto de uma igreja - aliás ali não era apenas uma, eram várias. A Oude Kerk, eu a tinha bem em frente à janela da sala, coroando uma bela vista sobre os telhados da velha Amsterdam. A igreja de Sint Niklaas ficava do outro lado, perto da janela do quarto, então em um dado momento do dia eu podia escolher se queria ouvir os sinos de uma na sala, ou da outra no quarto. Era bem gostoso nos finais de semana, ouvir aos sinos das igrejas se misturando ao burburinho que vinha lá de baixo do Zeedijk. Em São Paulo eu morava perto da Catedral Ortodoxa, mas não me lembro de poder ouvir sinos. Por outro lado, em Belém, sim, lá estavam eles. Eu morei por uns tempos na casa de minha avó materna, um pequeno apartamento no centro antigo da cidade, e nós morávamos em frente à igreja de Sant'Anna, onde a minha avó ia religiosamente todos os domingos, para a missa das nove da manhà. Eu me lembro dos sinos da igreja tocando, e a minha avó andando pela sala apressada, terminando de se vestir, já estava atrasada. Ela sempre ia à missa das nove, e sempre sentava mais ou menos no mesmo lugar.


Da igreja de Sant'Anna eu me lembro da enorme imagem do Cristo carregando a cruz, bem na entrada da igreja, uma estátua que me metia mais medo do que outra coisa. Eu me lembro também dos sermões do padre, um tanto cansativos, e do fervor religioso de minha avó, sempre presente, sempre ouvindo tudo com atenção, sempre fazendo a comunhão. Ela sempre nos levava, a mim e à minha irmã, à famigerada missa dos domingos - nós íamos origados. Sempre que possível nós tentávamos fugir da missa, fingindo que estávamos dormindo, e a minha avó saia resmungando, "vocês vão virar ateus!". Nem sempre adiantava, às vezes ela ia nos acordar, não tinha jeito. Cresci em uma família católica, como tantas outras no Brasil. Minha avó era devota de Santo Antonio, e tinha uma imagem do próprio no quarto, para quem rezava todos os dias. Eu cursei o primeiro grau em uma antiga escola americana - já abrasileirada no meu tempo, mas ainda assim havia uma igreja presbiteriana ao lado, e um pequeno cemitério, no qual nós íamos brincar na hora do recreio, era uma pequena aventura. O segundo grau, eu o cursei em uma escola católica, o Colégio Marista local, e todos os anos eu participava, junto com a turma do colégio, da procissão do Círio de Nazaré, vestindo o uniforme da escola.


Cresci rodeado de santos, rezas, novenas, procissões, dogmas e pecados. Minha mãe não era muito religiosa, mas o resto da família mais do que compensava. Era impossível fugir do manto católico em uma cidade tão religiosa como Belém. Eu era novinho, não questionava muito tudo aquilo, aceitava mecanicamente, até gostava, em dia de festa. Acho que a primeira vez em que eu comecei a questionar mais fundamentalmente o papel da igreja foi quando meu tio Paulo Fonteles (o "Fonteles"dele era assim mesmo, com um "l" só, erro do registro) foi assassinado. Meu tio era um político de esquerda, comunista de carteirinha, daqueles da velha guarda mesmo, que acreditava que a Albânia era o paraíso na terra. Meu tio era bastante envolvido com o movimento dos sem-terra, e acabou levando um tiro na cabeça, a mando da aristocracia rural local. A minha avó paterna, tão religiosa quanto a outra, pediu a realização de uma missa de sétimo dia para o filho morto. O arcebispo da cidade negou o pedido de missa à minha avó, sob a alegação de que meu tio era comunista, e portanto não acreditava na igreja, e assim sendo não haveria missa para ele. Isto foi um choque para minha avó e para minha família paterna inteira. O padre bateu a porta na cara de minha avó. Bom, nem preciso dizer, que depois deste dia, a igreja meio que deixou de existir para minha família paterna inteira.


Decepcionar-se com a igreja, a partir do momento em que se começa a questioná-la, é uma tarefa facílima. Aliás não é tarefa alguma, pois não há trabalho algum a fazer, é uma mera constatação. A igreja católica não resiste ao questionamento mais superficial. Eu não me surpreendo mais com a falta total de decoro e decência de padres e afins, o que me choca é como as pessoas ainda se negam a fazer este questionamento tão simples. Por que as pessoas querem continuar a acreditar em uma instituição tão obviamente podre? Por que ainda prestam atenção aos sermões do papa? Por que ainda querem casar na igreja? Só pela beleza do prédio? Uma festa de casamento em um jardim, em um barco, em um castelo, na praia, pode ser tão mais bonita... Só por que "faz parte"? Então é isso que somos, um bando de animais desprovidos de inteligência, seguindo o bando porque "faz parte"? Uma instituição comandada por um coroinha da juventude nazista, que condena o uso de preservativos na África ameaçada pela Aids, que abre a boca para ofender gratuitamente a muçulmanos e índios, cujas interpretações de mundo pouquíssimo têm a ver com o mundo em que vivemos, não deveria ser merecedora de atenção. Eu já nem me revolto mais com a igreja, eu me revolto é com a população que teima em ser burra, que quer viver na ignorância. O pior cego é aquele que não quer ver.


A igreja católica como instituição já deixou de fazer parte da minha vida há muito tempo. Mas ainda admiro a beleza das igrejas góticas e barrocas, a paz de espírito que advém do canto gregoriano, a exaltação que advém das composições de Bach. E ainda tenho o Cristianismo de alguma forma dentro de mim, ainda que afastado da idéia da igreja. Ainda gosto de entrar em igrejas em dias normais, quando não há ninguém, sentar e fazer as minhas preces. Ainda acredito na bondade da Virgem Maria, ainda acredito na força de Santo Antonio, ainda acredito na compaixão de Cristo. Se acredito em Deus, é algo que já não sei mais dizer, e neste ponto o Cristianismo está mesmo balançando dentro de mim. Eu não sei se acredito em Deus. Eu gostaria de acreditar, mas na minha atual concepção da vida e da morte, e da religião como explicação para isso tudo, não há racionalmente falando lugar para a idéia de Deus. Pois para mim a vida é um ciclo que se repete, são energias positivas e energias negativas, é o balanço entre as forças do universo, e em uma concepção deste tipo não há lugar para um poder absoluto, máximo. Mesmo porque se houvesse um poder absoluto máximo de energia positiva, então deveria haver um poder máximo negativo, e eu prefiro não acreditar nisto. Então já não sei mais se acredito em Deus ou não. Mas acredito nas forças do universo, acredito que todos nós fazemos parte de uma energia, somos faíscas desta energia, e um dia retornaremos à fonte de luz, no dia em que conseguirmos nos liberar do caos.


E enquanto isto não acontece, vou me deixando levar pelos sinos da igreja, já não como um chamado à missa obrigatória, mas como uma simples e doce lembrança, e de que hoje é domingo.

1 comment:

Unknown said...

VC leu o meu texto sobre São Francisco? E sobre a visita do Papa? Pois é, eu também já não me considero católica a muito tempo e concordo com tudo o que vc falou...É só uma questão de questionar e pensar mesmo...