
Ontem houve uma acalorada discussão aqui em casa, sobre um tema que sempre provoca acaloradas discussões: política. Havíamos convidado um amigo nosso, Frederico, para vir tomar uns drinques aqui em casa, após o qual ele e Mattia sairíam - eu, como sempre, fiquei em casa. Frederico tem 36 anos, é uruguaio, ex-diplomata, que abandonou a carreira para fixar residência em Bruxelas. Trabalha atualmente como gerente de conta para a EADS (companhia européia de aviação industrial) e mora no elegante bairro do Sablon, a área mais cara do centro de Bruxelas. Seus pais, italianos de origem, moram 6 meses por ano em Montevidéu, e outros 6 meses em Marbella, na Espanha, onde possuem uma casa. Pelo histórico, pela aparência, pelos modos e pela maneira de falar, é óbvio para quem o conhece que Frederico vem, digamos, de "boa família".
Frederico se diz socialista. Até aí, tudo bem. Eu próprio venho de uma família de políticos, uma família bem grande onde se pode encontrar todo o atual espectro da política brasileira: tinha um tio que era comunista, tenho uma tia que é afiliada ao partido liberal, tenho meu pai que é social-democrata, tenho conservadores e revolucionários entre os meus parentes. Então para mim a convicção política de quem quer que seja, qualquer que seja (salvo os extremos), não me incomoda nem me impressiona. O que me irrita é quando alguém veste uma determinada coloração política da boca pra fora, por pura demagogia ideológica, sem aplicação prática e sem vínculo com a realidade. Assim é fácil vestir uma camisa política. Ser socialista convicto e morar no Sablon, até eu.
Vou explicar: A um determinado momento, Frederico se disse socialista, porque acredita que "é a obrigação de todos nós ajudar a todos aqueles que precisam de ajuda, e que nem todas as pessoas nasceram com as mesmas oportunidades, portanto há pessoas que precisam de ajuda, e nós devemos ajudá-las". Lindo, perfeito. E quem disse que a consciência em nosso dever como ser humano em ajudar ao próximo é de propriedade dos socialistas?
Eu retruquei: Eu não acho que eu tenha a obrigação de ajudar a todo mundo. Eu quero sim ajudar aos que precisam, mas eu não tenho a obrigação de ajudar a todo mundo o tempo todo. E não tenho MESMO. Assim como ninguém tem obrigação nenhuma comigo. Pode parecer individualista, mas é simplesmente a concepção da vida como ela é, e não como ela deveria ser. Nós todos temos deveres e direitos, e eu acho que todos nós respondemos perante aos nosso deveres, antes de reivindicarmos os nossos direitos. Eu não tenho o dever de ajudar a quem não se ajuda. Eu quero contribuir para a construção de um sistema que realmente ajude a quem precisa ser ajudado. Mas eu não quero um sistema que parta do princípio que eu tenha a "obrigação"de ajudar a "todo mundo", e que "todo mundo" precisa de ajuda. Por que é esta concepção que baseou o modelo socialista do sistema de bem estar social, e este sistema está atualmente obsoleto, em crise, tantas são as pessoas que se aproveitam dele. Gente que recolhe mensalmente o seguro-desemprego não porque não consegue encontrar trabalho, mas simplesmente porque nem procura mais, tamanha é a falta de motivação.
E não tem como ser diferente, pois o sistema na sua atual forma é um sistema assistencialista, paternalista, que parte do princípio que os indivíduos precisam ser ajudados pelo governo. Eu sou contra este princípio. Eu acho que todos nós temos as forças necessárias para construir a nossa vida a longo prazo. Que há aqueles que precisam de ajuda em um determinado momento, sim, isto é verdade, e a ajuda deverá sempre existir para estas pessoas. Aquele que perdeu o emprego precisa e merece ajuda até encontrar outro trabalho; uma mãe solteira precisa e merece ajuda para criar seus filhos; um exilado político precisa e merece ajuda para sobreviver. Mas sou contra a idéia da ajuda como um direito infinito, que se perde no tempo e no espaço. Sou contra o seguro-desemprego para quem não se esforça em encontrar um trabalho (e são tantos!), sou contra a ajuda a mães cujos filhos já estão crescidos e que não trabalham porque o marido não quer (e são tantas!), sou contra a ajuda a imigrantes que se recusam a se adaptar às normais locais (e são tantos!). Porque se eu tenho o dever de ajudar aqueles que caem, estas pessoas também têm o dever de se tentar se reerguer e continuar a andar o mais rápido possível. Se eu posso, essas pessoas também podem, cada um com as limitações.
Ah, para quê? Fui tachado de franquista, feudalista, e até mesmo nazista. Eu, franquista???? Logo eu, quem me conhece, quem conhece a minha família, sabe que estou longe disto. Apenas não aceito este socialismo festivo, que me diz que eu tenho a obrigação de ajudar a todo mundo, que nós temos que acreditar na "utopia"e no "sonho", que acha que tudo vai dar certo, e que enquanto isto bebe champagne francesa, dirige carros alemães, e passa as férias em Nova York. Esse socialismo que não enxerga o problema da imigração na Europa (e vejam bem, eu próprio sou imigrante, então acho que tenho qualificação suficiente para falar do assunto) porque mora em um bairro onde não há imigrantes, esse socialismo que admite o seguro-desemprego a perder de vista sem nunca ter precisado batalhar por um emprego, esse socialismo que não acha que a criminalidade é um problema porque anda de carro com chauffeur e nunca foi assaltado, esse socialismo que adora Cuba e Fidel, esquecendo que Cuba é atualmente a única ditadura do hemisfério ocidental. Esse socialismo demagogo e hipócrita que não quer admitir o fracasso do modelo que criou. Esse socialismo que teima em não querer ver a vida como ela é. Esse socialismo me cansa. Porque ele não resolve nada, e enquanto isto os problemas só aumentam, e com eles, os extremismos políticos, tão perigosos para a humanidade como um todo.
Eu pessoalmente acho que esta clássica divisão entre esquerda e direita é algo que já não faz mais parte do mundo em que vivemos, um mundo pós Muro de Berlim e pré China superpotência mundial. É um divisão ao meu ver ultrapassada, que não leva em conta as mudanças dos últimos tempos. O mundo é a tal aldeia globalizada de que tanto se falava nos meus tempos de escola, e não há como negar isto. Podemos continuar a tapar o sol com a peneira e fingir que tudo está ótimo e que o modelo europeu funciona muito bem e que nada precisa ser mudado. Mas enquanto isto os imigrantes vão continuar a chegar à Europa e as diferenças sociais e culturais vão aumentar, as empresas vão continuar a mudar sua produção de base para o sudeste asiático e colocar os operários europeus na rua, os barcos lotados de africanos vão continuar a chegar às ilhas Canárias todo verão, o fundamentalismo religioso vai ficar mais forte e ameaçar cada vez mais o secularismo ocidental a tantas penas alcançado na Europa, os Europeus vão continuar a deixar de ter filhos porque não têm como pagar as creches, e o déficit demográfico da Europa vai aumentar. No Brasil, a criminalidade só faz aumentar. Em Amsterdam, cidade antigamente tão liberal, homossexuais são agredidos nas ruas por bandos de jovens marroquinos. No prédio em que vivo, em Bruxelas, há uma famiía de paquistaneses que se recusa a aceitar as normais locais básicas de limpeza e higiene. E os holandeses, como alguns que conheço, vão continuar a recusar contratos de trabalho porque preferem viver do seguro social. A Constituição Européia foi vetada por França e Holanda praticamente porque as pessoas têm medo do futuro. Mas está tudo bem. No Sablon não tem nada disso. Sejamos todos solidários. Sem medo de ser feliz!!!
Eu no Brasil votava no PSDB. Votei no Mário Covas na eleição de 1989 (será que a data está certa?) e no segundo turno anulei meu voto. Votei em Fernando Henrique na eleição seguinte. Não votei na sua reeleição porque havia me decepcionado com ele. Assim como não votei no José Serra na primeira eleição seguinte. Mas também não votei no Lula, nem nunca votaria, embora tenha chegado perto de fazê-lo. Na Holanda, nunca cheguei a votar, pois na primeira eleição depois que eu obtive o passaporte eu já não estava mais lá. Mas tinha simpatia pelo D66, que quem mora na Holanda sabe que é um partido de centro. Gostava principalmente da Lousewies van der Laan, que sempre achei muito inteligente, pró-européia, e uma mulher absolutamente moderna, e senti muito a sua saída da política. Hoje em dia não tenho nenhuma preferência política nem no Brasil nem na Holanda. O PSDB me decepcionou, mas o PT nunca me encantou; na Holanda, o CDA é conservador demais, Christen Unie nem se fala, o VVD é direitista demais, o PvdA é ineficiente demais, o SP é esquerdista demais e o D66, tadinho, só fez encolher. Não há mais espaço para sutilezas ideológicas no mundo de hoje. Sobrou o Groenlinks. É, eu gosto da Femke Haselma. Vai ver o meu destino é virar ecologista. É mais fácil defender planta do que defender gente.



2 comments:
ooooooooooops, agora você me assustou um pouco (mas não muito porque eu também já vi de tudo nesta vida). é bem verdade que futebol, política e religião não se discute mas vamos lá...
essencialmente entendo a sua repulsa ao socialismo festivo (e tem muito por aqui mesmo) mas isso não me faz deixar de ver o que ele tem a oferecer em um mundo tão individualista e globalizado como o mundo em que vivemos hoje. e não acredito que termos como esquerda e direita estejam ultrapassados. muito pelo contrário, cada dia mais acredito que problemas extremos requerem soluções extremas (nada desse negócio de jogar no meio do campo e virar a casaca quando melhor lhe convém, como ocorre regularmente na política brasileira). e se tiver de pecar pelo excesso, sempre pecarei por ser esquerda demais do que direita demais, quanto a isso não tenho dúvidas...
talvez porque tenha crescido em uma família de esquerda (gente pobre que lutou a vida inteira pra pagar as contas...não devia dizer isso aqui mas meu pai recebeu 2 ordens de despejo no Rio, perdeu duas lanchonetes e acho que sei do que estou falando). a única herança que meus pais me deixaram neste mundo foi uma boa educação - e esta ninguém me tira (a faculdade só não parei porque uns amigos médicos pagaram os dois últimos anos). porque educação é fundamental, são as ferramentas que um indivíduo precisa para construir seu futuro, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo!
então por questões de experiência de vida (e visão de mundo, não se iluda), sempre fui e sempre serei PT (no Brasil e na Holanda), com um certo grau de admiração pelos socialistas (não os festivos, mas os de verdade).
dito isso, você ainda quer que sua amiga te visite em Bruxelas? vamos combinar desde já: não se fala de política! em vez disso, a gente toma uns vinhos e ouve um jazz, rsrsrs.
PS. meu comentário ficou quase maior do que o seu texto!!!
Querida Beth,
Engraçado, eu sabia que você ia reagir... ;-) não se preocupe, pois eu tenho certeza de que no final nós temos mais pontos em comum do que diferenças. No finalzinho do seu comentário você disse algo que resume o meu pensamento: assim como você eu admiro os socialistas de verdade. Só que infelizmente eles já quase não existem. O que me precupa é exatamente a ineficiência do socialismo festivo, porque enquanto a festa continua, os problemas só se agravam, a polarização aumenta, e os extremismos de esquerda e de direita florescem... e é isso tudo que ninguém quer. Eu, que quero acreditar em balanço de forças, em equilíbrio, em harmonia, prefiro achar que a solução não está nem à esquerda nem à direita, mas no meio do campo. Temos sim que lutar por um mundo melhor, mas sem perder de vista as limitações da natureza humana. É só com uma visão real do mundo que a gente pode mudar alguma coisa. Utopia pura, no meu entender, não leva a nada.
E é claro que eu ainda quero que você venha, deixe de ser boba, mulher! :-)
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