
Ontem eu assisti a um filme fantástico, no sentido literal da palavra, o qual recomendo: O Labirinto do Fauno. Nele, fantasia e realidade se misturam, numa fábula sobre a Guerra Civil espanhola e a crueldade do mundo em que vivemos. Uma coisa da qual gostei muito no filme foi o seu aspecto onírico, não só do ponto de vista do enredo em si, mas a própria construção visual da história. Um visual absolutamente fantástico. Devo admitir que histórias que combinam sonho e realidade sempre me fascinaram, desde "Alice no país das maravilhas", meu conto infantil predileto, então para mim não foi nada difícil gostar do filme.
Sonho e realidade parecem às vezes se misturar com mais frequência do que seria imaginável. Quem nunca teve um dia a impressão de que a vida havia se tornado um sonho, ou um pesadelo? Que nada do que está acontecendo deveria acontecer, ou que tudo o que está acontecendo não passa de uma ilusão, prestes a se desfazer a qualquer momento? Pode ser a sensação de que estamos vivendo a vida de outra pessoa, ou a de que nos tornamos outra pessoa, ao viver as nossas vidas. Assim como um sonho, a vida pode ser leve e prazerosa. Assim como um pesadelo, a vida pode se um fardo insuportável e angustiante. O consolo em relação aos pesadelos é que eles terminam quando acordamos. Mas em relação à vida, quando ela está longe de ser um sonho?
Um dia eu gostaria de conseguir colocar pra fora, de uma vez por todas, o grito mudo que eu guardo trancado dentro de mim. O grito de Munch que cada um de nós guarda dentro de si. Um grito que guardo há já muito tempo, mas que não consigo exteriorizar, porque ainda não consegui decifrar a língua na qual ele se expressa. É como um surdo-mudo, que quer falar, mas não consegue.
Faz sol lá fora. A brisa da tarde refresca o terraço, as plantas balançam suavemente, como se estivessem agradecendo à natureza por este belo fim de tarde. Aqui dentro do apartamento a vida corre mansa, está tudo em seu devido lugar... deveria ser uma tarde perfeita. Mas a angústia está aqui, veio me fazer companhia, veio tomar café comigo, e está a me perguntar como eu tenho passado.
Às vezes eu sinto como se a vida fosse um desfile por cima de uma corda bamba, atravessando um precipício. Parece tão simples, tão fácil... e pode ser simples e fácil. Você só tem que olhar para frente e seguir direto, se você se esquecer que há um abismo lá embaixo, você consegue. Mas pode ser tão infinitamente difícil, cansativo, angustiante, se você não consegue esquecer o precipício. Tudo depende de você. A consciência da gravidade da situação é o que acaba tornando a situação grave, mais do que a situação em si. Poderia ser tudo tão mais fácil. Mas o que fazer, quando simplesmente não se consegue esquecer o precipício lá embaixo?
A felicidade plena não existe, mas a infelicidade plena também não. O que há são momentos felizes e momentos infelizes, e temos que tentar achar um equilíbrio entre um o outro. Isto é óbvio. Mas o que fazer, quando o reconhecimento de uma situação como feliz ou infeliz não é óbvio? Quando a fronteira entre felicidade e infelicidade é tão tênue que não conseguimos mais enxergá-la? Por que teimamos em não nos sentir felizes, quando temos tudo aquilo o que acreditávamos necessário para alcancar a felicidade? Por que teimamos em não nos sentir infelizes, mesmo quando não temos nada daquilo que um dia sonhamos? E quando o sonho é tão estranho, que não se sabe mais se era sonho ou pesadelo? Quando não há nem felicidade nem infelicidade, há apenas um vazio que amedronta, um vácuo, uma página em branco em que tinta alguma consegue se fixar.
Se o sentido da vida é a busca da felicidade, então a angústia maior que um ser humano pode ter é não saber qual é a felicidade que se deve buscar. Procurar por algo que não se sabe onde está é uma coisa, mas quando não se sabe nem o que se deve procurar... como fazer??? Por onde começar? Se a vida é uma viagem rumo ao auto-conhecimento, eu às vezes tenho a impressão de que estou dando voltas em círculos. Eu me encontro no meio de um labirinto, eu não consigo sair, simplesmente porque eu não sei para onde eu quero ir. Todos os caminhos levam a lugar algum, quando não se sabe aonde ir. Tudo depende de onde se quer ir. Mas como saber para onde eu quero ir, quando estou no meio de um labirinto?
O sorriso do gato de Alice é um sorriso sarcástico, um sorriso que tira um barato da nossa cara, que nos ridiculariza pela nossa inconsistência. Eu preciso saber para onde eu quero ir, a fim de conseguir sair do labirinto. Eu preciso descobrir onde fica a saída. Mas há várias saídas, que levam a vários lugares diferentes. Só eu posso dizer qual é a saída que me convém.
Há dias que são óbvios, dias em que a fortuna ou a miséria batem à nossa porta, não tem como negar-lhes a entrada. Mas há dias que são um verdadeiro mistério, dias que não se assumem, que não mostram a cara, que não dizem a que vieram. Há pessoas que são óbvias, que lideram suas vidas, elas sabem exatamente o que as torna felizes ou infelizes, e vivem o dia a dia coerentemente, sejam dias bons ou dias ruins. Há pessoas que não são óbvias, que não se definem, que se deixam levar, barcos à deriva. Há decisões que são óbvias, redondas, perfeitas, têm uma causa e um efeito reconhecíveis. E há decisões que não têm nexo, são decisões que são não-decisões, que não vêm de lugar algum, e que não levam a lugar algum, e cujo porquê é uma incógnita até mesmo para aquele que decidiu. São decisões que não decidem, são dias que não amanhecem, são pessoas que não vivem.
Meu único consolo é saber que estou me fazendo as necessárias perguntas, então neste sentido posso já ter dado um passo à frente (espero eu!), em relação àqueles por exemplo que continuam dormindo, vivendo em seus sonhos. Eu quero acordar, eu quero descobrir finalmente o que é que há do lado de fora, eu quero sair do labirinto. Eu quero acordar deste sonho de Alice, eu quero saber para onde vou, eu quero saber qual é o caminho para chegar aonde quero, e mais que tudo, eu quero querer chegar lá, eu quero saber o que eu quero. Pois o perigo de viver em um sonho, é que ele pode se tornar um pesadelo, um pesadelo sem fim. Eu estou tentando encarar a realidade e enfrentá-la, decifrar a esfinge, partir pra cima do dragão, porque é o único meio de chegar adiante. Mas a realidade me assusta, me ameaça, me afronta e me atormenta. A vida me dá muito medo. Às vezes parece que é bem mais fácil ficar dentro do labirinto, apenas tentando se esconder do Minotauro. Mas isto é fugir da vida, é fugir de si mesmo. O Minotauro, sou eu mesmo. É só enfrentando a mim mesmo, que eu vou achar a saída.
Nossa, como eu estou confuso. Eu sempre tive sonhos estranhos, mas a vida consegue ser infinitamente mais estranha.
Sim, há um segundo consolo. É o de saber que tenho pessoas queridas à minha volta, e quando uma delas está por perto, a vida fica mais fácil. Como agora, quando M volta pra casa, e está de bom humor, e assim traz consigo a sua habitual leveza no modo de viver, uma leveza que eu tanto admiro, tanto critico, tanto indago e tanto invejo. Uma leveza que me deixa perplexo. E aí a angústia pede licença, e vai embora, ainda que temporariamente. Nosso próximo encontro com certeza já está marcado, ela não falha nunca, ela sempre volta, ela me observa de longe. Mas enquanto isto não acontece, eu consigo finalmente relaxar, e aproveitar o lado leve da vida.


