
Hoje é o Gay Pride aqui em Bruxelas, ao qual eu consegui assistir inteiro daqui da janela da sala, o cortejo passou inteiro bem em frente ao meu prédio. Estava na dúvida se eu deveria ir pra rua e assistir de lá, ou se deveria ficar em casa, como acabei ficando, e deixar a parada de lado. O mau tempo e a baixa qualidade do desfile me convenceram a ficar em casa. Que desfile mais caído, esse daqui de Bruxelas. Não querendo ser blasé, mas pra quem já participou da Canal Parade em Amsterdam, e já acompanhou a Parada de Madrid, ambas maravilhosas, e tendo como referência a enorme parada de São Paulo, esta paradinha aqui de Bruxelas não é nada, sinto muito. Em 40 minutos o circo se foi, e não posso deixar de chegar à conclusão de que fiz bem em ficar em casa. Até porque no meu atual momento de vida, em que estou revendo vários conceitos e procurando várias respostas, festa não é exatamente a minha praia. Já gostei muito de ir a festas, já aprontei muito, tomei todas, já fiz tudo o que tinha que fazer neste sentido... não estou dizendo que nunca mais irei a festas, afinal de contas sempre gostei de dançar e vou continuar gostando... mas a obcecada necessidade da coisa, muito comum no mundo gay, já não faz mais parte do meu "mindset". Não me importo em perder uma, duas, três, ou todas as festas do ano; já que no final elas são sempre mais ou menos iguais. Estou, assim dizendo, fechado pra balanço. Talvez um dia eu volte ao mundo das festas do circuito, ainda que esporadicamente - festa todo final de semana, para mim nunca mais, obrigado - mas ainda não é o momento.
Mas não estou aqui para falar do Gay Pride e do mundo gay; isto é papo para outro blog, que talvez um dia venha, talvez não.
Hoje eu queria falar sobre a Martha.
Martha é uma moça mexicana, de 33 anos, que vive e trabalha atualmente na Cidade do México. Há 6 anos atrás, Martha foi minha colega de mestrado na Universidade de Amsterdam. Ou meio colega, já que na verdade nós não frequentávamos aulas juntos, eu fazia Relações Internacionais e ela estudava Comunicação Européia. Mas tínhamos amigos em comum, e mais importante, tínhamos sintonias comuns, então nos tornamos amigos. Menos do que poderia ser, talvez porque eu na época ainda não estava preparado para aqueles dreadlocks e aquele cabelo cor de fogo, aquela tez pálida, olhos grandes cor de mel e roupas em estilo alternativo, que faziam de Martha mais parecida com uma adolescente escandinava do que com uma garota de classe média alta latino americana. Não é por nada que quase todos os amigos mais próximos de Martha eram noruegueses - Karen, os mesmos dreadlocks, o mesmo olhar manso, as mesmas idéias; Olaf, um dos meninos mais lindos e mais gays que eu já conheci, enorme, forte, loiro, meigo e louquinho, que comemorou o aniversário vestido de borboleta; e havia ainda uma outra norueguesa, cujo nome já não me lembro, mais intelectual, que fechava o grupo. Um grupo muito unido, por sinal, estavam sempre juntos, Martha e os noruegueses. Quem não conversasse com Martha jamais pensaria que sua língua mãe era na verdade o espanhol.
Martha usava dreadlocks, Martha andava descalça em dias de verão, Martha fazia parte de uma banda de rock, Martha tinha convicções humanistas e ecológicas, Martha fumava baseado, Martha era inteligente e engajada e ao mesmo tempo leve e alienada, Martha era a perfeita jovem européia. Uma vez, no final do curso de mestrado, eu a encontrei por acaso nos corredores da universidade, e conversa vai, conversa vem, ela admitiu que tinha ficado sem lugar para morar em Amsterdam por uma semana inteira - quem mora em Amsterdam sabe o quanto é difícil achar um quarto ou studio para alugar - e não tinha para onde ir, literalmente. Eu na época estava morando na casa de um amigo meu que estava no Brasil, um advogado holandês que trabalhava para o ABN AMRO, e tinha uma casa linda no Spiegelgracht, um dos canais mais charmosos de Amsterdam. Eu estava lá por dois meses apenas, e aquela era a minha úlitma semana na casa, mas a casa tinha vários quartos, estava vazia, então eu a convidei para ficar lá, e é claro, Martha aceitou. No dia seguinte lá estava ela com todas as suas malas em frente de casa, e ao lado um namorado holandês com os mesmos dreadlocks. Eles ficaram uma semana certinha comigo, e foi muito divertido. Ao final do prazo, eu tinha que deixar a casa, eles também, nos despedimos, e depois disto nós praticamente perdemos o contato. As aulas terminaram, cada um foi escrever a sua tese, as oportunidades de encontro diminuíram, os problemas da vida aumentaram, e ao largo de um ano todos foram um a um terminando as suas teses e voltando às suas vidas. Eu a encontrei ainda umas duas ou três vezes pela rua, e depois nunca mais a vi.
Martha era mexicana, Martha não tinha passaporte europeu, Martha terminou o mestrado, Matha teve que ir embora. Martha não era norueguesa. Martha voltou pro México, onde uma conservadora família da capital a aguardava, pronta para alisar os seus dreadlocks, atirar ao lixo o seu guarda-roupa maluco-beleza, devolver o tom natural aos seus cabelos, colocar de novo a farda burguesa sobre o seu corpo. Martha tinha que achar um bom emprego na publicidade, Martha tinha que arrumar um bom namorado e um bom casamento, Martha tinha que casar e ter filhos. Martha tinha que se readaptar à vida no México.
E eis que depois de anos eu volto a ter notícias de Martha. Martha está lá na Cidade do México, e já não tem mais dreadlocks nem guarda-roupa hippie, Martha se veste como a adulta que é. Martha trabalha para a tv, na produção de comerciais e também como modelo nas horas vagas. Martha não gosta da Cidade do México. Martha tem um namorado, rapaz de boa família, e pensa um dia em casar e ter filhos, mas a idéia de ter de vir a criá-los ali, naquela cidade, a amedronta. Martha se acostumara com a liberdade e com a independência de que desfrutara como mulher européia quando aqui morou, e tem dificuldades em se readaptar à vida mexicana, à falta de segurança acima de tudo. Martha gostaria de voltar a viver na Europa, está tentando achar um meio, mas ela sabe esta é uma meta difícil de concretizar - Martha já não é mais uma estudante, Martha já não pode mais se permitir as mesmas "loucuras"de antes, e por mais dinheiro que a família de Martha tenha, Martha não tem o bendito passaporte, e isto faz toda a diferença. As chances de Martha vir a encontrar um emprego na Europa são mínimas. Martha provavelmente vai passar o resto da vida lá, na Cidade do México, e seus filhos vão ter que crescer em meio à insegurança e instabilidade das grandes cidades latino americanas; eles que se habituem às janelas gradeadas, aos seguranças na frente dos prédios, aos shopping malls e aos eventuais planos econômicos e assaltos à mão armada. A Europa está fechada para Martha e seus sonhos juvenis. Direitos humanos e ecologia não dão dinheiro. Não há mais espaço para dreadlocks na vida de Martha.
Enquanto isto, aqui na Europa...
O tempo continua muito feio aqui em Bruxelas, o final de semana vai ser inteiro de chuva. Está fazendo frio, embora já estejamos em maio. Mattia detesta frio e chuva. Mattia gostaria de morar em um lugar onde o clima fosse sempre quente e seco. Mattia toma banho ouvindo o samba do salgueiro e sonhando em um dia ir viver no Rio de Janeiro, onde há sol e calor, onde há praia e caipirinha, onde todo dia é dia de festa e onde as pessoas sorriem e se divertem. Mattia é alemão. Mattia nasceu na Suíça, Mattia é poliglota, mas se Mattia tivesse um passaporte brasileiro, Mattia se mudaria para o Brasil.
É, parece que a grama é mesmo sempre mais verde no quintal do vizinho.
Mas não estou aqui para falar do Gay Pride e do mundo gay; isto é papo para outro blog, que talvez um dia venha, talvez não.
Hoje eu queria falar sobre a Martha.
Martha é uma moça mexicana, de 33 anos, que vive e trabalha atualmente na Cidade do México. Há 6 anos atrás, Martha foi minha colega de mestrado na Universidade de Amsterdam. Ou meio colega, já que na verdade nós não frequentávamos aulas juntos, eu fazia Relações Internacionais e ela estudava Comunicação Européia. Mas tínhamos amigos em comum, e mais importante, tínhamos sintonias comuns, então nos tornamos amigos. Menos do que poderia ser, talvez porque eu na época ainda não estava preparado para aqueles dreadlocks e aquele cabelo cor de fogo, aquela tez pálida, olhos grandes cor de mel e roupas em estilo alternativo, que faziam de Martha mais parecida com uma adolescente escandinava do que com uma garota de classe média alta latino americana. Não é por nada que quase todos os amigos mais próximos de Martha eram noruegueses - Karen, os mesmos dreadlocks, o mesmo olhar manso, as mesmas idéias; Olaf, um dos meninos mais lindos e mais gays que eu já conheci, enorme, forte, loiro, meigo e louquinho, que comemorou o aniversário vestido de borboleta; e havia ainda uma outra norueguesa, cujo nome já não me lembro, mais intelectual, que fechava o grupo. Um grupo muito unido, por sinal, estavam sempre juntos, Martha e os noruegueses. Quem não conversasse com Martha jamais pensaria que sua língua mãe era na verdade o espanhol.
Martha usava dreadlocks, Martha andava descalça em dias de verão, Martha fazia parte de uma banda de rock, Martha tinha convicções humanistas e ecológicas, Martha fumava baseado, Martha era inteligente e engajada e ao mesmo tempo leve e alienada, Martha era a perfeita jovem européia. Uma vez, no final do curso de mestrado, eu a encontrei por acaso nos corredores da universidade, e conversa vai, conversa vem, ela admitiu que tinha ficado sem lugar para morar em Amsterdam por uma semana inteira - quem mora em Amsterdam sabe o quanto é difícil achar um quarto ou studio para alugar - e não tinha para onde ir, literalmente. Eu na época estava morando na casa de um amigo meu que estava no Brasil, um advogado holandês que trabalhava para o ABN AMRO, e tinha uma casa linda no Spiegelgracht, um dos canais mais charmosos de Amsterdam. Eu estava lá por dois meses apenas, e aquela era a minha úlitma semana na casa, mas a casa tinha vários quartos, estava vazia, então eu a convidei para ficar lá, e é claro, Martha aceitou. No dia seguinte lá estava ela com todas as suas malas em frente de casa, e ao lado um namorado holandês com os mesmos dreadlocks. Eles ficaram uma semana certinha comigo, e foi muito divertido. Ao final do prazo, eu tinha que deixar a casa, eles também, nos despedimos, e depois disto nós praticamente perdemos o contato. As aulas terminaram, cada um foi escrever a sua tese, as oportunidades de encontro diminuíram, os problemas da vida aumentaram, e ao largo de um ano todos foram um a um terminando as suas teses e voltando às suas vidas. Eu a encontrei ainda umas duas ou três vezes pela rua, e depois nunca mais a vi.
Martha era mexicana, Martha não tinha passaporte europeu, Martha terminou o mestrado, Matha teve que ir embora. Martha não era norueguesa. Martha voltou pro México, onde uma conservadora família da capital a aguardava, pronta para alisar os seus dreadlocks, atirar ao lixo o seu guarda-roupa maluco-beleza, devolver o tom natural aos seus cabelos, colocar de novo a farda burguesa sobre o seu corpo. Martha tinha que achar um bom emprego na publicidade, Martha tinha que arrumar um bom namorado e um bom casamento, Martha tinha que casar e ter filhos. Martha tinha que se readaptar à vida no México.
E eis que depois de anos eu volto a ter notícias de Martha. Martha está lá na Cidade do México, e já não tem mais dreadlocks nem guarda-roupa hippie, Martha se veste como a adulta que é. Martha trabalha para a tv, na produção de comerciais e também como modelo nas horas vagas. Martha não gosta da Cidade do México. Martha tem um namorado, rapaz de boa família, e pensa um dia em casar e ter filhos, mas a idéia de ter de vir a criá-los ali, naquela cidade, a amedronta. Martha se acostumara com a liberdade e com a independência de que desfrutara como mulher européia quando aqui morou, e tem dificuldades em se readaptar à vida mexicana, à falta de segurança acima de tudo. Martha gostaria de voltar a viver na Europa, está tentando achar um meio, mas ela sabe esta é uma meta difícil de concretizar - Martha já não é mais uma estudante, Martha já não pode mais se permitir as mesmas "loucuras"de antes, e por mais dinheiro que a família de Martha tenha, Martha não tem o bendito passaporte, e isto faz toda a diferença. As chances de Martha vir a encontrar um emprego na Europa são mínimas. Martha provavelmente vai passar o resto da vida lá, na Cidade do México, e seus filhos vão ter que crescer em meio à insegurança e instabilidade das grandes cidades latino americanas; eles que se habituem às janelas gradeadas, aos seguranças na frente dos prédios, aos shopping malls e aos eventuais planos econômicos e assaltos à mão armada. A Europa está fechada para Martha e seus sonhos juvenis. Direitos humanos e ecologia não dão dinheiro. Não há mais espaço para dreadlocks na vida de Martha.
Enquanto isto, aqui na Europa...
O tempo continua muito feio aqui em Bruxelas, o final de semana vai ser inteiro de chuva. Está fazendo frio, embora já estejamos em maio. Mattia detesta frio e chuva. Mattia gostaria de morar em um lugar onde o clima fosse sempre quente e seco. Mattia toma banho ouvindo o samba do salgueiro e sonhando em um dia ir viver no Rio de Janeiro, onde há sol e calor, onde há praia e caipirinha, onde todo dia é dia de festa e onde as pessoas sorriem e se divertem. Mattia é alemão. Mattia nasceu na Suíça, Mattia é poliglota, mas se Mattia tivesse um passaporte brasileiro, Mattia se mudaria para o Brasil.
É, parece que a grama é mesmo sempre mais verde no quintal do vizinho.



3 comments:
Sim, Mattia sonha de morar um dia no Brasil...gente linda, lingua linda, comida gostosa, musica maravilhosa..pra mim um paraiso....Rio de Janeiro...
Mattia e alemao, sim, mas e italiano tbm....nao esquece meu amor...ITALIANO...de sangre mais italiano..aparencia nordica mas o coracao italiano....
E como um mercedes com uma mistura entre perfecao tecnica alemao com o charme irristivel e fantasia italiana....bla bla bla...hahahahahaha
entao tenho dois pasaportes...quem quer trocar um contra um brasileiro????? vc pode escolhar...me avisa por favor..
beijos a tudos
Mattia SuperDoura
Eu troco de lugar com o Mattia.Eu sou a Martha.
hella hot pic.. i'm a guy with dreads with a boyfriend with dreads... we are on xtube as well.. i'd like to talk to you.. i'm jeffrey at guessthehet@gmail.com
peace
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