Thursday, May 24, 2007

Identidade


É engraçado ver como as pessoas necessitam de rótulos para definir aqueles que estão ao seu redor. Todo mundo precisa ser devidamente analisado, rotulado, registrado, arquivado. E como estes rótulos acabam por se sobrepor à identidade única de cada um. Ao final, parece-me que a persona de cada um tem muito mais a ver com o que as pessoas pensam sobre você, do que aquilo que você é de verdade. O que conta é o rótulo, é ele que vai te definir perante ao mundo. Não adianta que você seja branco; se todo mundo achar que você é preto, você será preto, e está encerrada a história. Não adianta ser homem; se te tratarem como mulher, mulher você será. Não adianta ser cristão, se todo mundo achar que você acredita em Alá. Até que provem o contrário, você é um terrorista em potencial.


É bem verdade que seria muito difícil conhecer cada um de nós a fundo. Mesmo impossível, eu diria. Precisamos de alguns pontos de referência, marcos que nos ajudam a decifrar as semelhanças e diferenças entre nós e os outros, e que assim nos ajudam a compor a nossa própria identidade. Mas assim como a gente sabe que a nossa identidade única vai muito além dos pontos de referência que são usados a nosso respeito, deveriamos ter a abertura suficiente para aceitas que a identidade alheia vai além dos pontos de referência que escolhemos. É disto que nos esquecemos muitas vezes. Nos achamos todos tão diferentes, tão únicos, tão especiais, e nos esquecemos que a massa humana em volta é também composta de milhares de seres tão únicos, especiais e diferentes quanto nós. Então no final, não somos tão diferentes assim.


Eu me lembro de uma aula no curso de mestrado em Amsterdam, há já uns 6, 7 anos atrás (nossa, como o tempo voa!). A aula era de introdução às Relações Internacionais, e o tema daquele dia era exatamente este, da identidade como construção social. Discutimos vários exemplos de como a identidade de cada um é condicionada pela percepção do meio externo. E eu me lembrei do seguinte exemplo, que acabou sendo usado por uma colega americana, Twanna, na sua apresentação de fim de semestre. No Brasil eu sou considerado branco. No Censo e em todos os meus documentos afins consta "pele: branca". Acontece que nos Estados Unidos eu não sou considerado branco. Lá, eu faço parte de uma outra categoria, assim como todos os latino-americanos: somos os hispânicos, hispanic em inglês. E aí não importa se você é descendente de portugueses, negros ou índios, é tudo hispanic mesmo e não se fala mais disso. Para os gringos, entre Pelé, Gisele Bündchen, Mercedes Sosa e Alberto Fujimori não há diferença alguma. Porque para os americanos a cor da pele é menos importante que a nossa origem comum. Assim como em geral, a nossa própria percepção da identidade não é levada em consideração. A gente é o que querem que a gente seja, independente do que a gente for.


Hoje de manhã, no escritório. Estava eu a conversar com a minha colega de sala, Jana, eslovaca, marido italiano, há dois anos morando e trabalhando em Bruxelas. E ela a perguntar sobre a minha nacionalidade. Para se trabalhar em qualquer órgão da União Européia é necessário ser cidadão europeu, isto significa que eu não teria como trabalhar lá se não fosse pelo meu passaporte holandês. Então se eu disser simplesmente que sou brasileiro, sei que a segunda pergunta já está engatada - "mas como é que você está trabalhando aqui??" Então para me poupar do interrogatório, eu deveria simplesmente dizer que sou holandês, afinal de contas o meu passporte é holandês. Como eu sei que com o meu nome e o meu rosto, se eu sair por aí falando que sou holandês, ninguém vai entender nada, então sei que a saída também não é por ai. Para adiantar a explicação e me poupar de entrar em detalhes (porque todo dia cansa, ter que ficar explicanco a história da sua vida para cada rosto novo que aparece) eu simplesmente digo que sou meio holandês, meio brasileiro, assim como se eu tivesse dupla nacionalidade, digo que nasci no Brasil mas que tenho descendência holandesa (ambas afirmações corretas, portanto, nada mais do que a verdade). A maioria das pessoas aceita a resposta, e a conversa pára por aí (ufa!).


Mas tem aqueles que não acham a resposta suficiente, querem saber mais, seja por curiosidade, seja por falta do que fazer, seja porque uma mistura brasileiro-neerlandesa não cabe na cabeça de muita gente, ou seja, a idéia não bate com o rótulo pré-fabricado. Tem que haver uma explicação. Jana é uma destas pessoas. Não acho que ela tenha feito por mal, mas em todo caso a curiosidade dela não estava satisfeita, ela queria saber mais. "Como assim?" Então fui explicando, que eu tinha nascido e vivido a maior parte de minha vida no Brasil, que me mudei pra Holanda em função dos meus estudos, que uma vez lá acabei ficando e que adquiri a nacionalidade, e que a título de curiosidade, eu tinha descendência holandesa na minha família, assim como portuguesa, de fato que poderia muito bem ser também português, se meu avô ainda fosse vivo.


Conclusão de Jana: "Ah, então, você não é holandês, você é brasileiro puro!". Daí eu perguntei pra ela: "O que é um brasileiro puro?"Ao passo que ela admitiu não ter a menor idéia do que um brasileiro puro viria a ser. Eu continuei a explicar para ela, acho que eu estava muito paciente hoje: "O Brasil é um país de imigrantes, ninguém é brasileiro puro, isto não existe, todo mundo é uma mistura. O meu avô materno era filho de portugueses, a minha avó materna é neta de holandeses, a minha avó paterna, de quem adquiri o sobrenome Fontelles, é de origem catalã (mas os Fontelles já estão no Brasil desde 1687!), e o meu avô paterno era descendente de índios do Amazonas. É, acho que neste sentido eu acho que sou mesmo um brasileiro puro, pois mais misturado que isso, impossível.


Mas o que me chamou a atenção neste episódio foi a "recusa" de Jana em aceitar a hipótese inical, a de que eu seja meio brasileiro, meio holandês. Hipótese esta que é legalmente falsa, pois oficialmente falando, eu sou apenas holandês, pelo menos por enquanto (teria que fazer um pedido de reaquisição da nacionalidade brasileira pra voltar a ser brazuca perante a lei). Não, para ela tal mistura não tinha cabimento, não podia ser, era estranha demais, e merecia detalhadas explicações. Explicações dadas, mistério solucionado, "ah bom, eu sabia!", o rótulo está prontinho pra sair do forno e ser estampado na minha cara: Eu sou brasileiro. Ponto final. Que eu tenha adquirido formalmente a nacionalidade holandesa, que eu tenha voluntariamente optado por ela, isso não conta. A minha vontade não conta. Eu não conto. O que conta é o rótulo.
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E para terminar, antes que alguém me pergunte: eu não sou nem brasileiro puro, nem holandês puro... sou um pouco de cada, sou a soma de minhas experiências vividas até hoje, e a esperança do que ainda está por vir. Sou a minha infância no Brasil, a minha juventude em São Paulo, e a minha vida adulta em Amsterdam. Sou a lembrança de um Natal feliz na Califórnia, sou um Réveillon em Paris, sou o Círio de Nazaré e sou também o feriado prolongado em Parati. Sou o fracasso na Espanha e sou o recomeço na Bélgica. Eu sou o lugar em que nasci, todos os lugares em que morei, e todos os lugares aonde ainda irei. Portanto, eu não sou nem brasileiro, nem holandês. Eu sou o Antonio, cidadão do mundo, e digo isso sem nenhuma arrogância. E espero que um dia todo mundo possa entender. E que todo mundo seja cidadão do mundo, como eu.

2 comments:

Unknown said...

Esse foi o melhor texto que vc já escreveu!

Bebete Indarte said...

Esse texto é realmennnnnnnnnnnnnnnnte um LUXO.
Fiquei arrepiada!
Nem vou comentar mais pra não estragar.
Sucesso total.