Thursday, May 17, 2007

Bruta flor


Tem dias como o de hoje, dias cinza, em que não se sabe ao certo o que fazer, não se sabe exatamente em que estado de espírito estamos, nem feliz nem triste, nem vivo nem morto, nem entediado nem super atarefado, apenas assim, cinza, meio que pensando no que fazer. Coisas de um feriado que cai numa quinta feira de chuva.


Outro dia fui ao cinema, finalmente fui ver ao filme alemão Das Leber der Anderen, gostei. Hoje estava querendo ir assistir a um filme espanhol, Azuloscurocasinegro, mas aparentemente já saiu de cartaz, paciência. Agora tenho que rever a lista de filmes em cartaz inteira para decidir se há algo que valha a pena.


Talvez eu passe a tarde inteira deitado no sofa lendo o meu livro. Estou no momento lendo um livro de uma escritora sueca, Marianne Frederiksson, sobre a vida de três mulheres na Suécia desde o final do século XIX até os dias de hoje. Muito bom. O título é Anna, Hanna e Johanna. Estou lendo a tradução holandesa, o que me faz demorar um pouco mais na leitura. Por outro lado, admito que o holandês é uma língua na qual gosto de ler. Acho que cada língua tem a sua beleza, e mesmo o holandês, que quando falado chega a doer no ouvido, na palavra escrita tem uma certa agilidade, uma simplicidade que o torna bastante acessível, depois do conhecimento básico, é claro.


Uma coisa que me faz gostar de ler livros, é quando encontro passagens que descrevem muito bem uma idéia ou sentimento que trago dentro de mim, mas que ainda não havia tido a oportunidade de exteriorizar. Assim, no livro em questão, achei a seguinte passagem bem interessante, sobre o amor romântico como mera construção dan nossa época:


"Zelf dacht ik natuurlijk dat het liefde was die me in de armen van Donald dreef. Wij van mij generatie waren bezeten van het verlangen naar de grote liefde.

Hanna, jij zou niets van dat soort liefde begrepen hebben. In jouw tijd was de liefde nog niet van de hogere standen doorgedrongen naar de boerenlagen van de bevolking.

Er was romantische invloed, er waren tragische liefdesgeschiedenissen die in de plattelandsstreken werden verteld. Maar die hadden met de kern en de omstandigheden van het leven nieks te maken. Het waren net stuiverromannetjes (...).

Voor Anna en haar leeftijd genoten was de liefde een feit dat niet ter discussie stond. Wee de arme ziel, die er niet door werd getroffen. En daar kwam nog een eis bij: de perfecte seksualiteit. Levenslange verliefdheid en voortdurende orgasmes.

Nu springen de dromen kapot als zeepbeellen in de wind. Maar veranderingen hebben tijd nodig. Wanneer mensen er niet in slagen om de liefde en de overweldigende begeerte een heel leven lang te laten duren, denken ze dat dat aan hen ligt. Pas nu, bijna een op de twee huwelijken in een scheiding eindigt, begint men onwillig in te zien dat verliefdheid zelden uitgroeit tot liefde en dat zelfs de liefde een mens niet van eenzaamheid kan bevrijden. En dat seksueel genot geen levensvervulling is".


O que está escrito aqui é mais ou menos que no passado a idéia do amor como parte essencial da vida praticamente não existia; esta é na verdade uma invenção do romantismo, uma invenção que deu certo, afinal de contas hoje em dia não se consegue conceber o amor de outra forma. O que era inspiração poética virou dogma. Mas a evolução da sociedade, com a busca cada vez maior do auto conhecimento e da satisfação própria, tem nos mostrado ultimamente, e com frequência cada vez maior, infelizmente, as limitações desta certeza. Que bom seria se todos nós pudéssemos encontrar o príncipe/princesa encantados, apaixonar-se perdida e mutuamente, e ser felizes para o resto da vida, não? Mas todos nós sabemos que isto não passa de conto de fadas. Por que insistimos em acreditar que o conto pode e deve tornar-se um dia realidade? Porque queremos acreditar nele, porque a realidade da vida é dura demais, porque precisamos sonhar. E por que a decepção vem cada vez mais rápido? Porque o amor romântico em si não é mais capaz (será que um dia foi?) de preencher o conteúdo da vida de uma pessoa, porque atualmente queremos tudo ao mesmo tempo agora, a relação perfeita, o sexo maravilhoso, uma carreira ascendente, uma casa confortável, filhos lindos, dinheiro sobrando no final do mês, viagens, corpos atléticos, momentos a dois, quality time... mas o mundo não é assim.


Queremos preencher as nossas vidas de sentido, queremos acreditar que estamos aqui por algum motivo específico, que temos uma missão a cumprir. Queremos ser mais importantes do que somos. Nascemos, vivemos, amamos, sofremos, morremos. A banalidade da vida humana nos é insuportável.


E a parte que eu mais gostei, que mesmo o amor não é capaz de livrar alguém da solidão.


Eenzaamheid. Esta palavra eu entendo muito bem. Eenzaam te zijn. Não é estar só, é ser só, no sentido mais profundo da palavra. É a incapacidade de se comunicar com o mundo, de entender e de se fazer entender. E a resignação que advém daí.


No mundo atual a liberdade e o amor são dois conceitos que têm se chocado, o amor livre (não confundir com a liberdade sexual, o que é outra coisa) e o amor romântico não se admitem um ao outro, os conceitos não se encaixam. Porque o amor livre parte do pressuposto que ninguém é capaz de completar a vida de uma outra pessoa inteiramente; só o indivíduo pode completar a sua própria vida. Ora, isto é exatamente o contrário da idéia do amor romântico, na qual duas pessoas são capazes de se complementar inteiramente uma à outra, formando um só ente. Para o amor livre, a idéia do amor romântico lembra uma prisão, ainda que uma prisão cor-de-rosa; para o amor romântico, o amor livre é um cadafalso, um buraco negro.


Eu tenho a impressão que os relacionamentos que "dão certo" (às vezes me pergunto se "dar certo" tem mais a ver com a intensidade do que com a duração do relacionamento) são aqueles em que ambas as partes conseguem encontrar o ponto de equilíbro entre o ideal romântico e a vida real gritando do lado de fora. A liberdade total e o amor total dificilmente andam de mãos dadas, eles correm em sentidos opostos - um "se joga" pra galera, o outro busca o aconchego do lar; por outro lado, matar o amor em função da liberdade, ou matar a liberdade em função do amor, não chega a ser uma solução. É mais uma anulação do problema, ou uma postergação do problema, do que uma solução.


Equação complicada, essa do amor. Queremos amar, amamos, mas amamos de maneiras diferentes, e às vezes amamos o ser amado, ou somos amodos por ele/ela, de uma maneira diferente daquela que nós gostariamos, ou que ele/ela gostaria, e acabamos entrando em choque. É triste ver duas pessoas que se amam sinceramente entrando em choque porque não conseguem amar uma à outra da mesma forma, porque uma não consegue ver o amor nos atos da outra e vice versa,porque uma não consegue lidar com as manifestações de amor da outra e vice versa, porque as peças do puzzle estranhamente teimam em não encaixar. Uns amam com palavras, outros com gestos, atos, outros com carícias, e há aqueles que amam com a simples contrução diária da sobrevivência mútua. Deveríamos conseguir enxergar o amor daqueles que nos amam em cada uma destas manifestações, e aceitar como plenas e verdadeiras cada uma delas; mas nossas idéias pré-concebidas sobre o amor nos impedem de agir assim, e acabamos nos negando do prazer de ser amados, apenas por não sermos capazes de reconhecê-lo.


O quereres, de Caetano Veloso. Esta música diz tudo.


"Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és..."


Ah, bruta flor do querer...

3 comments:

Bebete Indarte said...

Bom Antonio, de qualquer forma você estava muito inspirado quando escreveu isso e pode retratar bem nossa solidão, nossos nãos na vida, e AMOR.
Esse último sempre me interessa.
A realidade é um grande jato de água fria ao acordar. Sonhar sempre é preciso como instinto de conservação.
Eu acredito no amor, dentro de mim, não amor o romântico, não o amor realista, não o amor comodismo...amor evolução, aceitação, e liberdade, e antes de tudo AMAR.
Aliás o melhor do AMOR é que ele é AMOR...se relacionar são outros 500.
bjs

Beth Blue said...

Nossa Antônio, você está mais verborrágico do que nunca, hehehe. gostei muito do texto mas vou precisar de tempo para digeri-lo.

Então só vou dizer que já tinha assistido e adorado o filme alemão..e que também já tinha lido e gostado do livro das 3 mulheres (temos gostos parecidos).

No mais, eenzaamheid é uma palavra que também faz parte do meu dia-a-dia. e nunca me assustou, muito pelo contrário: eu preciso dela! é uma solidão por escolha, de certa forma. como você, eu também cultivo meus momentos (ou mesmo dias) de solidão. e como você, também acho (e aprendi) que o amor não pode livrar a gente da solidão - não existe solidão maior do que a solidão a dois.

No mais, AMOR existe de todos os tipos, e não apenas o AMOR ROMÂNTICO dos filmes e comerciais. Amizade também é amor, o amor pelos filhos então, nem se fala. As pessoas valorizam DEMAIS um tipo de amor, enquanto existem tantos outros por aí..

sorry, agora eu é que fui verborrágica!!!

Unknown said...

Genial!!!Vc escreve bem melhor que eu maninho...