Wednesday, May 23, 2007

Estrangeiro


Estrangeiro. Se alguém me perguntasse um dia, qual é a palavra que define a minha essência através da vida até hoje, mais do que qualquer outra, eu diria: estrangeiro. Sempre fui um estrangeiro, e minha "estranhice" em relação ao mundo em geral, e ao meio ao meu redor em particular, vem desde a infância. Eu sempre fui um outsider, um observador, eu nunca "fiz parte". Eu sempre estive do lado de fora.


No início era a timidez. Eu era uma criança muito tímida, muito fechada, eu não confiava em quase ninguém - isso não mudou muito - e portanto tinha pouquíssimos amigos. E mesmo os amiguinhos mais chegados, estavam a anos-luz de distância da idéia que se tem de um "melhor amigo" dos tempos de escola. Eu nunca tive um melhor amigo, ninguém que chegasse perto de um conceito destes. Eu até tentava, tentava achar um meio de aprofundar a amizade com um ou outro, mas eu nunca conseguia, a minha intenção ficava travada na vontade, a conversa não engatava, o convite pra brincar juntos não saía. Eu no final desistia e voltava à minha ilha pessoal, onde ninguém me incomodava. Eu brincava sozinho. Sim, houve um ou outro coleguinha com quem eu tinha amizade, mas nunca senti tais amizades como verdadeiras, pelo menos não de minha parte. Era uma amizade forçada.


A minha timidez me excluiu do mundo por muito tempo. Na adolescência, eu era o irmão "estranho" da minha irmã. Ela sempre sociável, rodeada de amigos e convites para festas, e eu sempre sozinho, escondido, calado, na minha. Era muito inteligente e tirava boas notas, e como eu ajudava os meus colegas em dias de provas, isto me tirou do ostracismo. Eu escapei de ser um nerd total porque aprendi a ser generoso, para compensar a minha dificuldade de comunicação, e pricipalmente, a minha genuína falta de interesse pelas pessoas ao meu redor (isso eu só fui entender mais tarde). I couldn't care less about the world. As pessoas em geral eram para mim geradores de stress, de desconfiança, de desconforto. Eu na verdade tinha uma carência afetiva muito grande, e tinha medo da decepção com o ser humano, então eu me isolava. Eu vivia rodeado dos meus mapas, que eu adorava. Era obcecado por geografia. E desdenhava a sociedade.


A minha sexualidade eu só vim a descobrir bem mais tarde. Eu acho que eu a tinha escondido no fundo do armário, e jogado a chave fora, pois sabia que ia ser uma fonte de problemas. Quando criança, eu fui vítima de abuso sexual na escola (tudo bem, já posso falar sobre isso sem grandes traumas, passou), e isto me bloqueou para qualquer tipo de contato com a sexualidade por muito tempo. Muitos gays reclamam que o despertar da sexualidade os afastou do mundo social em que viviam. No meu caso foi a falta de sexualidade mesmo. Eu não queria ter qualquer tipo de contato com qualquer tipo de sexualidade, e isso me afastou de todos os meninos e meninas da minha idade, eu não queria nenhuma intimidade com qualquer um deles, eu tinha medo do que poderia advir daí. Então me isolei totalmente do mundo. Eu era um adolescente parado, quieto, que observava a todos e nunca falava nada. Eu vivia me escondendo do mundo. Intimidade. Eu sempre tive problemas com isto. Freud explica, eu espero. Eu nunca consegui ser muito íntimo com absolutamente ninguém, eu não consigo me abrir por completo para ninguém, e sei também que nunca vou conseguir. A maior parte de mim, eu guardo para mim mesmo. O que eu ofereco ao mundo não é mais do que a ponta do iceberg.


Junte à esta vocação natural para a solidão e o isolamento a inconstância que foi a minha vida de adolescente filho de pais separados. Depois que meus pais se separaram, ambos foram cuidar de suas vidas, seja no Brasil ou fora dele, e eu e minha irmã viramos bagagem. Eu já contei uma vez, desde criança eu já me mudei umas 30 vezes. Isso mesmo, por volta de 30 lugares que eu um dia já chamei de lar. Devido às peripécias de minha mãe eu morei quando criança nos Estados Unidos e na Argentina, ainda que por curtos períodos de tempo. Devido aos zelos de meu pai, me mudei também de uma casa para outra, na mesma cidade, lá em Belém. Eu posso descrever pelo menos umas 4 ou 5 casas nas quais tenho lembranças suficientes para considerá-las como o meu "lar de infância", sem contar todas as outras em que passei entre uma viagem e outra, entre um país e outro, entre uma briga e outra, entre um parente e outro.


Toda esta agitação habitacional, aliada à minha dificuldade de comunicação com o mundo e com a minha, digamos, àquela época preoupante sexualidade, contribuíram para que em Belém eu sempre tivesse me sentido um peixe fora d'água. A educação que recebi de minha mãe, me educando para o mundo em uma cidade que só enxergava o próprio umbigo, temperou ainda mais a receita. Eu posso dizer que na minha adolescência eu odiava Belém, eu detestava aquele lugar com o meu rancor mais profundo, eu não conseguia ver nenhum ponto de encontro com a população local, eu me sentia um estrangeiro total, eu só queria sair dali, o mais rápido possível, e nunca mais voltar.


Quando o desespero de continuar naquela situação tornou-se maior que o medo de mudar (eu, taurino, mudar???) , fui embora para São Paulo, a meca de todo brasileiro que se acha diferente (pois quem se acha igual vai pro Rio de Janeiro, e faz muito bem). E foi aí que a minha saga como "estrangeiro em busca da própria identidade"realmente começou. Em São Paulo eu era apenas mais um, mais um "nordestino", embora eu na verdade viesse do Norte, o que para o paulista médio não faz a menor diferença. Este preconceito inerente ao paulistano, que eu senti também, ainda que sutilmente, reforçou em mim a sensação de não fazer parte. Por outro lado, eu descobria naquela cidade a minha sexualidade, e como foi bom encontrar pela primeira vez gente como eu, que agia, pensava, falava, vivia... e transava como eu. A primeira vez em que eu fui a uma boate gay, a Rave, eu já tinha 23 anos, foi um alívio. Finalmente eu encontrara a "minha turma". Mas eu tinha que lidar ainda com a minha timidez, e esta demorou pra passar. Eu acho que só aprendi a conviver com a timidez e a driblá-la (porque perder ninguém perde, a gente nasce e morre tímido mesmo, e eu sou hiper tímido) quando fui trabalhar na Air France, e tinha que lidar com tanta gente todo dia. Neste sentido, a Air France foi uma escola da vida para mim, me foi muito útil no meu crescimento como pessoa, ainda que profissionalmente falando tenha sido um pequeno suicídio.


Eu poderia ter ficado vivendo em São Paulo, onde após anos de descobertas eu meio que havia conseguido definir o meu meio, a minha São Paulo. Tinha poucos, mas bons amigos. Saía pouco, mas sempre me divertia. Ganhava pouco, mas sobrevivia. Mas algo me dizia que eu ainda não estava pronto para criar raízes. Como todo jovem, eu precisava da aventura, da descoberta, ver o que há do outro lado... viajar é preciso. Hoje em dia, olhando pra trás, e me dando conta de como sou, e de como fui criado, sei que não é que eu não estivesse pronto para criar raízes, eu simplesmente não as tinha, e quem não tem raízes não se apega nunca a nada nem ninguém nem a lugar algum. Eu cresci sem raízes, como poderia ser diferente?


Na primeira oportunidade que tive de sair do Brasil, peguei-a como se fosse a última, me armei com toda a minha coragem e meus pertences, e vim para Holanda, não exatamente com a intenção de ficar, mas com a idéia de lá me desenvolver, pessoal e profissionalmente, para depois partir para outro lugar, seja no Brasil ou onde quer que fosse. Na Holanda completei o meu mestrado, conheci gente nova, entrei em contato com outros grupos e outras idéias, me perdi na vida, me reencontrei e me perdi de novo, me deixei levar, me apaixonei, me arrependi e me envolvi de novo, me casei e me separei, troquei de passaporte, virei holandês, me estabeleci e me destruí e me levantei. Na Holanda eu vivi mais do que em toda a minha vida no Brasil, e é por isto que apesar de ser originalmente brasileiro (e isto não vai mudar nunca) eu me sinto às vezes tão próximo da Holanda. Não pelos holandeses, não pelo país em si, nem pela cultura, mas por tudo àquilo em que eu lá vivi, coisas boas e coisas ruins. Todo o aprendizado. O melhor e o pior da vida, eu vivi na Holanda. Nossa, como foi difícil sair da Holanda, como eu me surpreendi comigo mesmo no final. Eu que me sentia por vezes tão mal em viver um país que se tornara tão tristemente xenófobo, eu que queria tanto ir para um país com uma cultura mais próxima à minha cultura original (sem se dar conta que eu tinha mudado), eu que vivia falando que queria ir embora, eu no final chorei copiosamente, eu não queria ir, eu tinha me acostumado com a minha vida lá, com tudo de bom e de ruim que ela trazia consigo. Eu estava a ponto de criar raízes.


Mas eu fui embora. Eu fui embora para a Espanha, porque a Espanha era um sonho que eu tinha, eu fui embora para a Espanha na busca de finalmente me encontrar, de encontrar o meu lar na Terra, o lugar com o qual eu me identificasse em todos os níveis, e no final a única coisa que eu consegui foi reforçar ainda mais a minha essência de estrangeiro. Porque tudo deu errado na Espanha. Porque a Espanha, ainda que seja um país admirável, não é a Espanha que eu sonhava. Porque os sonhos nunca são realidade (quão ingênuo a gente ainda consegue ser mesmo depois de adulto!!) e porque eu já não acredito mais em sonhos. Entào a Espanha foi um sonho que não deu certo, e antes que ele virasse um pesadelo, eu resolvi acordar, acordei e vim para a Bélgica, assim pelo menos continuo tendo a Espanha como um sonho, ainda como um sonho frustrado.


E eis que estou na Bélgica, este país tão em busca de uma identidade própria quanto eu, este país tão esquizofrênico entre querer ser francês e ter que ser flamengo, este país tão pequeno e ao mesmo tempo tão importante, Bruxelas capital da Europa (!!! Bruxelas???) este país tão peculiar, onde eu ganho bem mas faço um trabalho inócuo, onde eu moro bem mas não possuo nada ao meu redor, onde eu entrei em contato com várias pessoas de várias nacionalidades, mas onde eu não conheço absolutamente ninguém, este país em que eu estou tão bem casado mas onde eu estou tão verdadeiramente só. Este país em que eu sou mais estrangeiro do que nunca. Eu nunca fui tão mais EU do que aqui na Bélgica. Ah, acho que eu encontrei o meu lugar. Sei que ainda é muito cedo para fazer balanços de vida, eu tenho apenas 36 anos e muita coisa ainda pode acontecer, eu ainda posso vir a me mudar muitas e muitas vezes. Mas por enquanto, aqui é o meu lar.

3 comments:

Beth Blue said...

fui embora para São Paulo, a meca de todo brasileiro que se acha diferente (pois quem se acha igual vai pro Rio de Janeiro, e faz muito bem)...você conseguiu resumir em poucas palavras porque eu nunca me senti em casa no Rio, eu sempre fui diferente das patricinhas e da turma das academias - em vez de entrar no esquema, criei meu núcleo alternativo na adolescência, com gente diferente como eu (eu era dark, hehehe...)

Beth Blue said...

enne...eu não acho que Bruxelas seja a capital da Europa sim (acho é que ela tem a pretensão de ser, sem dúvida). de qualquer forma, vou aí em julho conferir, quero visitá-lo no verão pra gente brincar de turista e tomar cerveja no Grote Markt! rsrsrsr

Unknown said...

Ah, Cacá, como eu te entendo... Pois apesar de ter sido a irmã sociável, pelos mesmos motivos que vc, tb crescí sem raízes e tb não me apego a nada nem ninguém ( com exceção claro de meu marido e meus filhos). As pessoas se surpreendem quando eu digo que iria embora daqui na mesma hora se pudesse sem olhar para tráz.É que não tenho mesmo nada que me prenda, somente minha família.