Friday, May 11, 2007

Jazz


Sexta feira à noite, noite de chuva em Bruxelas. A temperatura caiu, faz um pouco de frio, nada comparado com o calor das últimas semanas. Pela janela eu ouço o barulho dos carros cortando sobre a rua molhada. Último dia no trabalho, saí mais cedo e fui à FNAC, pois havia ganho um daqueles cupons presente dos meus colegas - amigo que é amigo sabe qual é o presente que a gente vai gostar - livros, cds!!! - e fui à farra consumista. Saí da FNAC duas horas depois, com 4 coupons a menos, e 4 presentes a mais.

Meus presentes: um livro pro Mattia, pra deixar de fumar, mais dois livros e um CD. Os meus livros, um aquele do Khaled Hosseini que eu já ouvi tanto falar, comprei a tradução para o francês, "Les cerfs-volants de Kaboul". A minha irmã gostou, então tenho certeza de que vou gostar. Outro, do Carlos Fuentes, autor mexicano, "Todas las familias felices", que começa com a célebre frase de Tolstoi, "todas as familias felizes se parecem, as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira". Só pelo início, já gostei. E como tenho gostado bastante de ler literatura hispano-ibérica, é mais um pra minha coleção. Pelo que li na contra capa vai um pouco na mesma linha de "A Colméia", de Camilo José Cela, ou seja, várias histórias entrelaçadas e nenhuma história principal. A ver, estou curioso. E, aquisição máxima, um CD que eu tinha e perdi, e há muito, muito tempo queria comprar de volta: Miles Davis, "Ascenceur pour l'echafaud". Uma obra prima do Miles Davis, a trilha sonora do filme de igual nome, Louis Malle, anos 50, Paris. Toda uma atmosfera em volta, todo um clima noir, ouvir este CD é como uma viagem no tempo e no espaço, uma viagem a um lugar que só existe na cabeça de quem entende. Vai entender, difícil de explicar, mas quem gosta de jazz sabe o que eu estou falando.

Descobri que na FNAC há uma coleção inteira de jazz chamada Jazz in Paris. Gitanes, Jazz productions. Este é um dos títulos da coleção. Fiquei com vontade de trazer pelo menos mais uns dois pra casa, mas freei a vontade, deixa eu ouvir este primeiro e me contentar com ele por enquanto, depois vou lá e dou mais uma olhada nas prateleiras, quem sabe não é um tango que vai me seduzir da próxima vez? Eu ainda tenho um cupom sobrando... :-)

Jazz, jazz eu aprendi a gostar na infância, através da minha mãe que é fã inveterada de Ella Fitzgerald, Bill Evans, Sarah Vaughan, Cole Porter, Oscar Peterson, Stan Getz, George Gerswhin, Duke Ellington, Miles Davis. Esta foi a trilha sonora da minha infância. Um luxo só. Minha mãe era um luxo total. Loira platinada em terra de índio, Catherine Deneuve em Belém do Pará, 30 anos e divorciada, uma casa com paredes negras e vermelhas, uma loja onde vendia a última moda, ouvia jazz, viajava para o Rio e São Paulo, era amiga do DJ da boate local, fumava em piteira e saía nas colunas sociais e até em revistas sobre o carnaval, "A bela Selma Lobo no carnaval de Belém", de melindrosa e foto de página inteira, com direito a boá cor de rosa e tudo, eu me lembro disto. A bela Selma Lobo. A minha mãe se arrumando pra sair, eu o a minha irmã olhando pra ela, se pendurando sobre a porta do armário que servia de espelho, a mamãe dizia "não balança o espelho que eu estou me maquiando!", e eu um dia vi a reprodução exata da cena em uma peça de teatro em São Paulo, Irene Ravache e não me lembro mais quem, mãe e filha, mãe e filho. Cheiro do perfume Opium no ar, sinal de que a mamãe vai sair. "Mãe, a senhora vai sair? - Vou.". Sim, eu chamo a minha mãe de senhora e o meu pai de senhor, até hoje, questão de hábito, pra mim sempre foi normal, um dia uma amiga em São Paulo ouviu e achou estranho, super formal, eu nunca tinha me tocado, pra mim sempre foi assim. A senhora, o senhor.

Mãe. Jazz. Noite. Meu pai um dia chegou em casa, depois que tinham se divorciado, e olhou para as paredes negras e vermelhas da sala, recentemente pintadas, e perguntou, "isso aqui virou boate, agora?"

Meu pai é samba, meu pai é Vinícius de Morais, meu pai é Samba da Benção, meu pai é outra história. Porque hoje é sábado, essa seria a história do meu pai.
A minha irmã é a Lady in Red, mas é outra geração, a minha irmã. Outra história.
Jazz. Em questão de gosto eu sou a cópia da minha mãe, a gente sempre gostou exatamente das mesmas músicas, dos mesmos filmes, os mesmos gostos, eu ia na locadora e trazia filmes pra gente ver durante o final de semana inteiro, ela sempre gostava dos filmes que eu trazia, ficávamos a mamãe e eu, o final de semana inteiro na frente da televisão vendo os vídeos que eu tinha trazido. Todo sobre mi madre é pouco. A minha mãe diz que quando eu fui embora eu trouxe a memória dela comigo, ela nunca mais soube escolher um filme.

Jazz. Jazz desde a infância e sempre. Naquela terra de índio miserável, quente e suja, cheia de gente hipócrita e mesquinha, isso é que era Belém nos anos oitenta, e eu ouvia jazz através da minha mãe, e assim como a minha mãe, eu me deixava levar em pensamento a outros lugares, outras cidades, outras gentes, outros comportamentos, outras vidas, esquecer que a gente estava lá naquela terrinha insuportável onde nada acontecia e todo mundo falava da vida de todo mundo.

E se Rhapsody in Blue nos remete a Manhattan e a Woody Allen, Miles Davis nos remete a Paris, à Paris dos anos 50, 60, de Louis Malle, mas também das loucuras de Goddard, de Acossado, do cinema preto e branco e também do cinema das cores, e até mesmo de Buñuel, a Paris do maravilhoso Buñuel e suas mulheres que levam lama na cara e gostam, que saem da sala como Carole Bouquet e voltam como Angela Molina, de Truffaut, Jeanne Moreau, que voz, de tudo isso que a gente viu um dia e gostou, e passa a vida inteira querendo encontrar de novo, mas não tem jeito porque o mundo mudou. Sim, estou viajando na maionese, mas posso porque Miles Davis convida, Miles Davis é uma viagem cerebral, assim como Billie Holliday é uma viagem ao fundo da alma. Billie Holliday se ouve em dias de chuva, Ella Fitzgerald se ouve em dias de sol. Não quero parecer arrogante nem pedante nem pseudo intelectual porque estou longe disso, mas que decepção me dá a humanidade, de ver que um dia tivemos Miles Davis e Cole Porter, e Ella e Sarah e Billie, e hoje em dia temos que nos contentar com Puff Daddy e Fifty Cent, e Mariah e Mel C, e achar que Eminem é o máximo da contestação. Coitado. Que lixo que virou a humanidade. Quanta burrice vendida pela mídia massificada. Salve Madonna, até certo ponto a grande exceção - e olhe lá. Podem me chamar de elitista, eu assumo. Ainda bem que ainda temos um François Ozon, um Almodóvar, até mesmo uma Bebel Gilberto, gente que nos faz acreditar que ainda há luz no fim do túnel, ainda há vida inteligente neste planeta tão destruído. E a literatura, último bastião da qualidade, porque felizmente gente burra tem preguiça de ler.

Miles Davis, morreu em 1990 (ou será 91?), de Aids, era negro e homossexual, e deixou sua marca no mundo do jazz e mundo de quem rejeita ter que seguir os padrões pré-estabelecidos. Quem se questiona, quem acredita que pode e deve ser diferente, ainda que se pague um preço às vezes bem caro no final. A vida sempre cobra a conta no final, a humanidade cobra a conta, a diferença é sobre-taxada, e qualquer liberdade sai cara. A liberdade, bem máximo da vida, tão fácil, tão difícil, tão cara, tão gratuita, tão próxima, tão inalcancável. A liberdade é azul.

Sexta feira à noite em Bruxelas, virou a meia-noite, ouço o barulho dos carros cortando a rua molhada lá em baixo, ouço as vozes dos pedestres indo ou vindo dos bares, sinto a brisa da noite passando pela janela, ouço Miles Davis e penso, que bom que a minha mãe me ensinou a gostar de jazz. Posso ser um louco, mas sou um louco com estilo. ;-)

2 comments:

Beth Blue said...

eu também sou louca com estilo, rsrsrsrs. minha mãe me ensinou a gostar de livros, cinema de arte e música barroca!

Unknown said...

Eu pensei que eu era a Martha,que nada, eu sou a Lady in red,mesmo não tendo a mais vaga idéia do que isso significa.Por favor,me responda,foi um elogio ou devo ficar ofendida?