
Houve um tempo, efêmero como o verão no Norte da Europa, em que eu fui feliz. Nós não tínhamos muito, mas tínhamos um ao outro, e isso nos bastava. Tínhamos o suficiente para viver, nada nos faltava, para falar a verdade. Morávamos em um apartamento pequeno e acanhado, mas tínhamos um terraço tão gostoso, um terraço que dava para uma árvore bem frondosa, onde nós adorávamos tomar o café da manhã. Aos sábados, eu sempre ia até a padaria da esquina e comprava os croissants de que nós mais gostávamos. Comprava também o jornal, e passava a manhã inteira ali, sentado junto à varanda, o jornal esparramado sobre a mesa, lendo as notícias da semana e tentando aprender aquela língua tão complicada. Você ficava sentado no sofá, no fundo da sala, sempre grudado ao computador. De vez em quando você vinha e me dava um beijo, ou eu preparava um café a mais para você.
Nós não tínhamos muito, mas nós tínhamos um grupo de amigos adoráveis, que sempre nos visitavam, e como nós gostávamos de preparar jantares e almoços especiais para eles. Você que sempre foi bom de cozinha liderava a preparação da comida, enquanto eu jogava conversa fora com aqueles que chegavam, bebericando um copo de vinho tinto, e a conversa ia até as altas horas da noite. Às vezes alguém trazia algo especial, sushis, tiramisu, caipirinha... tudo e todos eram sempre bem-vindos na nossa casa. Eu que sempre fora anti-social por natureza, aprendera com você o gosto de receber amigos em casa, e você que sempre foi festeiro, aprendeu comigo o gosto de ficar em casa ao invés de ir para a rua.
Nós não tínhamos muito, mas nós saíamos bastante, nós sempre íamos no nosso restaurante preferido comer carne e jogar conversa fora com a atendente peruana e hiper simpática que ria feito uma louca de todos os nossos papos. Quando o gerente não estava por perto ela vinha e enchia os nossos copos de vinho, nós a adorávamos. Ou a gente ia no italiano ao lado, e o atendimento sempre era especial. De vez em quando íamos a festas, e como nós sabíamos aproveitar as festas, dancávamos até o fim da noite, e depois voltávamos pra casa, ou esticávamos ainda, tivemos noitadas incríveis, farras homéricas, ressacas gigantescas, às vezes terminávamos o final de semana destroçados, mas como era bom quando tudo terminava e havíamos apenas nós dois e a nossa cama.
Infelizmente este tempo se foi. Como tudo na vida. Vieram os problemas, eles foram chegando de mansinho e de repente se instalaram nas nossas vidas. E nem eu nem você estávamos preparados para lidar com eles, nós nos conhecíamos a tão pouco tempo... com eles vieram os fraquejos, as dúvidas, as tentações... primeiro de minha parte, e como você nunca me perdoou por isso. E com isto veio a desconfiança e a intriga, e elas foram destruindo a nossa relação pouquinho a pouquinho. E você logo perdeu a confiança em mim, eu que na verdade tinha feito tudo o que eu podia para demonstrar o meu sentimento por você, mas um momento de fraqueza foi o bastante para destruir tudo, e você passou a desconfiar de mim, e como eu nunca perdoei você por isso, porque detesto ser acusado de algo que não fiz, e eu não fiz, eu sei que não fiz.
Foi uma maré de problemas que invadiu as nossas vidas por todos os lados, contaminando todos os cantos, todas as frestas, todas as portas por onde a felicidade pudesse entrar foram sendo tapadas uma por uma, a nossa relação foi posta de quarentena por uma epidemia de problemas que tomou conta de nossas vidas e que só nos levou pra baixo. E quanto mais nós tentávamos buscar uma saída, mais pra baixo éramos levados, como se simplesmente os anjos tivessem decidido no céu que simplesmente não era para ser, não era para acontecer. Tudo o que podia dar errado deu, e com isto nós fomos nos machucando e nos odiando e nos afastando. os esforços de um e de outro nunca eram reconhecidos por inteiro, tamanha a mágoa mútua que só crescia. A espiral de problemas chegou a um clímax, a falta de confiança e a falta de respeito entraram em choque, e de repente pareceu que havíamos perdido tudo.
Mas nós nos reerguemos e continuamos o nosso caminho, ainda que feridos. E logo após houve um hiato, um momento em que parecia que os problemas tinham acabado, e que nossa relação ia florescer de novo. As coisas começaram a dar certo, e até mesmo o terraço voltou, desta vez um terraço enorme, de dar inveja a qualquer um, e com ele vieram de novo os ensolarados dias de primavera, as belas plantas que você comprou com tanto carinho e que eu tinha preguiça de regar, as visitas dos amigos de longe e os almoços e jantares entre amigos de que nós tanto gostávamos. Você comprou um ibisco, e era a sua planta favorita, sempre em flor, sempre recheada de flores vermelhas enfeitando o nosso terraço, trazendo cor às nossas vidas.
Mas foi uma ilusão. A verdade é que os problemas mas básicos não haviam sido solucionados, e tinham sido apenas varridos para debaixo do tapete. Continuaram a desconfiança, o ressentimento, a mágoa, e com eles a crescente falta de respeito que acabou sendo o golpe final numa relação, porque ninguém consegue viver sem ser respeitado, e assim se foi uma relação que talvez tivesse tudo para dar certo se tivesse podido contar com a boa vontade da vida desde o início. Mas a vida é madrasta, a vida é ingrata e a vida é dura, a vida é mesquinha e a vida não quis, a vida só nos presenteou com problemas, problemas, problemas, problemas, problemas até não caber mais. E assim nós fomos nos afastando, e o ibisco foi definhando, e chegou o inverno, e o ibisco foi posto pra dentro da casa, e o ibisco morreu.
Eu tenho saudade daquele terraço lá da Atjehstraat, porque ali eu fui feliz, ainda que por bem pouco tempo. Eu tenho saudades dos meus sábados comendo croissants e lendo o jornal. Eu tenho saudade dos bons momentos que tivemos. Mas infelizmente, essa felicidade já não existe mais. E não tem mais volta, porque tudo na vida é efêmero como um verão no Norte da Europa, é passageiro como um ibisco em flor. A gente não devia se apegar a nada nem ninguém, porque tudo na vida passa, e apego é sinônimo de sofrimento.



1 comment:
Respondi lá no meu blog...dá uma olhada.
beijos e sterkte!!!
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