
Se dizem que é impossível ser infeliz no Rio de Janeiro, não há lugar melhor para chorar as mágoas que Paris. Foi seguindo esta idéia que eu resolvi ir passar o final de semana na minha cidade preferida na Europa. E não me arrependi. Foi colocar os pés na cidade, e ver de novo toda aquela gente à noite na rua, todos aqueles prédios, toda aquela beleza, e de repente todas as pessoas, problemas, fatos e acontecimentos que têm assombrado a minha vida nestas últimas semanas me pareceram tão pequenos e distantes, tão... insignificantes de um certo modo.
Se o Rio de Janeiro combina com o verão, Paris combina com o inverno, e desta vez o tempo ajudou, pois o tempo não poderia estar melhor para a época do ano. Sol e frio, como eu gosto, ótimo para fazer caminhadas. No sábado durante o dia eu acabei não fazendo muita coisa, pois eu havia saído já na sexta a noite, voltado tarde, enfim, fui dormir tarde, acordei tarde... felizmente eu já estive em Paris o bastante para poder me dar ao luxo de simplesmente ficar no hotel descansando, se é o que o meu corpo pede para fazer, e foi isso que eu fiz durante a maior parte do dia. No final da tarde dei uma volta na área em torno do hotel onde eu estava, um pequeno e simples hotel em uma ruazinha meio caída perto da Republique, mas bem barato, 60 euros o quarto, quando a média é de pelo menos 80... chama-se Hotel Taylor, se alguém um dia quiser tentar. Pois bem, dei umas voltas por lá, Republique, Quai de Jemmapes, etc... e depois voltei. Dei mais uma descansada, e à noite saí para reencontrar a minha querida amiga J, ex colega dos meus tempos de Air France, hoje em dia trabalhando como comissária e morando em Paris. Fui encontrá-la em um bar chamado Île Enchantée, também ali no 10ème, onde estava havendo a festa de aniversário de outra comissária brasileira... enfim, o bar exilava a Brasil naquela noite. De quebra me encontrei também com L, também ex-AF como eu, hoje em dia estudante de filosofia em Paris, e que também foi ao aniversário. Foi muito divertido revê-las, eu já não as via há muito tempo, colocamos todo o papo em dia, rimos bastante... J deve ser a pessoa mais easygoing que eu conheço, nunca a vi se encucando com nada, leva a vida da maneira mais leve possível... faz muito bem, eu deveria tomar umas aulas com ela.
Na saída do aniversário - a festa acabou às duas da manhã, hora em que os bares fecham em Paris - ainda pensei em esticar e ir dar mais uma volta no Marais ou algo assim, mas como eu já tinha saído na sexta feira mesmo, decidi me comportar, até para poder aproveitar melhor o domingo, já que no sábado eu passei a maior parte do tempo morgando mesmo. Então voltei pro hotel e fui dormir. No domingo acordei cedo, e depois de um bom café da manhã em um bistro no Blvd de Magenta, saí passeando pela cidade. Tomei a Rue du Temple e fui descendo até o Hotel de Ville, passei pelo patinoire que ainda está lá, e continuei rumo ao meu lugar favorito na cidade, a Île Saint Louis. Eu simplesmente amo aquele lugar. Se pudesse, era ali que eu moraria, mas sei que os preços são absurdos. Pois bem, passei por aquela ponte de metal que une a Île de la Cité com a Île Saint Louis, e como sempre havia um grupo tocando música, desta vez um grupo de jazz e blues. Fiquei lá uns 15 minutos apreciando a música, a beleza do lugar, o bom tempo, o povo que passava... depois tomei meu rumo, entrei na ilha, primeiro eu a atravessei pelo meio, olhando as vitrines, para depois ir passeando pelas margens... pensei tanto na minha vida... em como eu havia chegado lá... em como ter aprendido o francês foi provavelmente a melhor coisa que eu fiz na vida, por ter sido a que mais me abriu portas na vida até hoje (o inglês também, mas inglês hoje em dia é básico, todo mundo fala mesmo).
E fui pensando... em como eu sou bobo quando reclamo da vida, porque tenho tanta coisa boa... eu passei por maus momentos na vida, momentos muito ruins mesmo... mas também passei por momentos maravilhosos, com os quais a maioria das pessoas apenas sonha. Eu ousei VIVER a vida na sua plenitude, ousei tomar as minhas escolhas e carregar o peso das consequências nas costas. Sempre fui determinado e sempre fui atrás do que eu queria. Nem sempre consegui, mas sei que tentei. Errei muito, muito. Paguei um preço muito caro pela minha enorme carência afetiva, fruto da minha infância atribulada, e, diga-se a verdade, infeliz. Até hoje eu acho que deva ser este o meu grande problema na vida, eu tenho que aprender a lidar com a minha carência afetiva e com a minha necessidade desmesurada de atenção, aprender a dizer não quando é hora de dizer não e aprender a dizer sim quando é hora de dizer sim, aprender a lidar com os meus sentimentos para não continuar fazendo as escolhas erradas no plano pessoal e machucando àqueles que estão ao meu lado e principalmente a mim mesmo no final. Porque no final quem mais sofre sou sempre eu, e disso eu tenho certeza. Eu sei que no final das contas eu sou um bom rapaz, no sentido mais singelo da coisa, e sei que mereço ser feliz.
Pois bem, da Ile Saint Louis segui em direção à Notre Dame, e fui andando, andando, andando... andando a ermo, seguindo as margens do Sena, às vezes virando à esquerda, às vezes àz direita, mais ou menos em direção ao Arco do Triunfo mas sem fazer uma reta. Quem me conhece de viagens sabe que eu sou um bom andarilho, sou capaz de conhecer uma cidade inteira em um dia. Então fui andando, e terminei a minha caminhada ali, no final da Champs Elysées, que por mais turísitca que seja, nunca perde o seu charme. Dali tomei o metro e voltei ao Marais. Já eram quase 4 horas da tarde, o meu trem saía para Bruxelas às 7 da noite, então eu ainda tinha umas 3 horas na cidade. Fui primeiro almoçar no Les Marronniers, na Rue des Archives, um simpático restaurante sempre cheio aos domingos. Depois fui sair para dar a minha última volta pelo Marais, antes de voltar pra casa.
E foi ali no gostoso Marais que eu terminei a minha viagem. Passeando por aquelas ruas, vendo aquela gente toda, entrando nas lojas e apreciando tudo o que a cidade tem de bom para oferecer... gente bonita, gente inusitada, gente de bem com a vida, gente casada, gente solteira, gente bem vestida, gente turista, gente local... comprei um cd de música italiana do século XVIII, comprei um livro sobre um jornalista gay no Peru, tomei um café, tomei outro café... ao passar em frente ao Amnésia, um bar bem conhecido no bairro, deparei com outra cantora de rua, que cantava alegremente:
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"Just the two of us... we can make it if we try, just the two of us... we can try... just the two of us, building castles in the sky, just the two of us... you and I..."
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... E eu me deixei levar por aquele povo em volta, aquele sol de fim de tarde, aquele ritmo gostoso da música... e foi assim, leve e de bem com a vida que eu terminei mais um final de semana na cidade que é não só a minha preferida na Europa, mas provavelmente no mundo. Paris, toujours Paris.



1 comment:
Li e gostei, como gostei, ouvi até a musica de fundo ideal para essa passagem. Sobre o Céu de Paris cantando Edith Piaf.
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