Thursday, April 24, 2008

Me, myself and I


Hoje faz uma semana que eu me mudei para o meu apartamento novo e que portanto a minha vida mudou, completamente. Não posso dizer que estou feliz porque não estou. Não vejo muito motivo para comemoração quando a gente tem que escolher entre permanecer em um relacionamento estável mas neurótico (no final eu acabo achando que a única coisa que nos mantia unidos era a neurose total) e a mais pura solidão total. Aqui em Bruxelas não tenho família e quase não tenho amigos, e esse meu jeito anti-social de ser também não me permite fazer amigos facilmente, então a verdade é que eu vou ter que me acostumar mesmo em passar uma boa parte do tempo apenas com a minha própria companhia. Eu gosto de ficar sozinho, e curto muito ter o meu próprio espaço outra vez. Mas é verdade que depois de três anos vivendo junto com alguém, e ainda mais alguém com uma presença digamos tão dominante como o meu ex, é um pouco estranho chegar em casa e encontrar a mais absoluta paz e o mais imperativo silêncio tomando conta do lugar. Era isso o que eu queria e estou satisfeito com a minha decisão, mas não deixa de ser amendrontador.


Para amenizar esta sensação de vazio, estou completando o ambiente com todos os sons e inputs que eu tenho à disposição. Estou aproveitando para ouvir todos os discos de música clássica e de jazz que eu quase nunca podia ouvir. Eu gosto de música barroca, de Bach, de Vivaldi, e meu ex sempre reclamava que era música de enterro, e depois de meia hora pedia para eu trocar. NO caso do jazz era ainda pior, eu não podia ouvir nem 15 minutos que ele já dizia que aquilo não era música, mas ruído, que insuportável, pedia para eu trocar. Eu acho que o mundo se divide mesmo entre aqueles que adoram jazz e aqueles que detestam jazz, não tem meio termo. Também instalei ontem a internet, e é bom ter agora pelo menos uma ponte de comunicação com o mundo externo. TV eu ainda não tenho e vai demorar, já gastei mais do que devia este mês, e como quero comprar uma TV boa, fai ficar pro mês que vem mesmo. Também estou lendo bastante, tirei do armário um livro do Rubem Fonseca que a minha irmã tinha me trazido quando esteve aqui no ano passado, "Ela e outras mulheres", um livro de contos, de leitura bastante fácil. No mais passo o resto do tempo cozinhando, limpando, arrumando o lugar, e pensando em tudo aquilo que eu ainda tenho que comprar para fazer do apartamento o meu lar.


Sim, tenho saudades do meu antigo apartamento, que era maior, que tinha um terraço enorme que agora na primavera fica ótimo de usar, da sensação de "lar" que eu já tinha lá e que ainda não tenho na minha casa nova. Era um lugar com o qual eu já havia me acostumado. De uma estranha maneira, sinto falta do meu ex também. Estou naquela fase em que o espectro da solidão te faz lembrar apenas dos momentos bons e esquecer os momentos ruins. Tivemos muitos momentos bons, e eu teria alegremente ficado na relação se os momentos ruins não tivessem sido tão ruins. Mas não dava mais, era simplesmente impossível recuperar uma relação que já estava tão desgastada. O meu ex tem uma ideia fixa a meu respeito, a de que eu sou infiel contumaz, devido ao meu espírito meio paquerador, de não resistir à atenção alheia. Eu sei que não sou asism, sei que não fui às vias de fato com ninguém, mas o simples fato de ter criado situações dúbias foi o bastante para ele me condenar e me crucificar. E não há relaçao que sobreviva à falta de confiança. Eu não quero passar o resto da vida sendo condenado por algo que não fiz, e mesmo se tenha feio, não acredito que eu mereça a prisão perpétua por causa disto, então cansei de ouvir as mesmas ofensas, os mesmos insultos, as mesmas acusações, que tanto me colocavam pra baixo, que tanto doíam em mim, que tanto me magoavam, e o meu ex achando que assim estava "ganhando" a briga, sem nunca ter conseguido perceber que eram os ataques dele mais do que qualquer outra coisa que foram me afastando dele. Pode ter ganho a briga, mas me perdeu, bela vitória. Que seja feliz.


Eu sei que agora tenho que olhar para o futuro, e tentar esquecer o passado o mais depressa possível. Eu poderia tentar me jogar de novo em uma nova relação, mas acho que seria muita burrice da minha parte depois de duas relações mal sucedidas que começaram rápido demais. Não, eu infelizmente tenho mesmo que encarar a solidão e aprender a conviver com ela, e não me sentir diminuído nem infeliz por isso. Sei que mereço ter uma pessoa especial ao meu lado, mas se ela teima em não aparecer, não posso me descabelar por causa disso, a vida é assim e pronto, a minha vida é assim e pronto, fazer o quê? Alguns têm sorte no amor, outros não. Eu talvez tenha tido sorte (sorte ou esforço??) na minha vida profissional, falo cinco línguas, tenho mestrado, tenho um emprego bem pago... mas lutei muito, muito, muito até chegar aqui. No caso do amor, qual esforço é necessário? O que é preciso fazer para chegar lá? Acabo concluindo que nenhum esforço é válido, porque amor é algo que aparece quando quer aparecer e pronto, não dá para ir atrás, não dá pra planejar, não dá pra mesurar, e qualquer tentativa neste sentido tende a ser frustrante ao longo prazo. Então o jeito é se acostumar, que nesse campo é tudo mesmo apenas uma questão de sorte, sorte esta que aos 36 anos ainda não bateu à minha porta, ponto final, problema meu, a vida que é madrasta mesmo segue em frente.


Então eu fico na minha, meio tristinho um dia, meio de bem com a vida no outro, e vou levando, ouvindo os meus cds, lendo os meus livros, cuidando do meu corpo, comprando coisas para a minha casa, tentando não gastar muito para poder economizar para uma viagem, e tentando esquecer a minha solidão, tentando esquecer que o meu telefone não toca nunca (mea culpa, eu nunca ligo pra ninguém), que nunca ninguém me escreve (mea culpa, eu nunca escrevo pra ninguém) e que eu vou ao cinema sempre sozinho, porque sempre acho que não tenho companhia, e também nunca procuro ninguém. E tentando me lembrar o tempo todo que foi uma decisão minha a de me separar e uma decisão muito necessária, porque eu me valorizei ao invés de me conformar com uma relação que não me trazia felicidade alguma, porque eu decidi que sendo puta ou não, a verdade é que eu não mereço ser destratado dentro da minha própria casa, eu mereço ser respeitado. Eu mereço paz. Melhor encarar o medo da solidão com unhas e dentes e tentar vencê-lo, que passar a vida inteira se escondendo da vida, por medo de acabar sozinho, porque no final, escondido dentro do meu quarto, trancado e esperando a hora de sair, eu já estava sozinho mesmo há um bom tempo. Vendo por este triste mas realista ângulo, nada mudou, a minha vida continua iguazlinha como antes, como sempre foi, desde que eu me entendo por gente. Me, myself and I. Ou tentando parafrasear o filme, "ah, eu sempre dependi da atenção de estranhos".


1 comments:

Anonymous said...

Nossa mas achar que a música sublime e barroca, de Bach e de Vivaldi é de enterro!!! Que alma pequena, sinceramente e desculpa mas, ainda bem que você terminou com esse cidadão, Jazz eu não entendo muito mas é interessante é chique.
A vida é assim altos e baixos.