Monday, April 21, 2008

Paz e amor


Branco. Eu já escrevi aqui uma vez que a minha cor preferida é o branco. Branco é sinal de paz, de limpeza, e de recomeço. Mais do que o vazio, que é negro, o branco é indicativo de todas as oportunidades reunidas, de todas as cores juntas que podem resultar em algo. Como a neve, branquinha, caindo, que me dá uma sensação de paz enorme toda vez que eu a vejo caindo silenciosamente; ou como uma folha de papel branca que te convida a fazer dela tudo aquilo que você quiser, que te dá o espaço para escrever tudo o que você tem a dizer.


Na semana passada eu me mudei para um apartamento novo aqui em Bruxelas. Um apartamento pequenininho, de um quarto só, com um pequeno terraço e semi mobiliado, e branco, todo branco, imaculadamente branco, pacificamente branco. É um loft no terceiro andar de um antigo casarão renovado, no bairro de Ixelles, que está mais ou menos para Bruxelas assim como o Jardim Paulista para São Paulo); é um bairro legal, que não é o mais caro nem o mais bonito mas é onde tudo acontece. Saí do centro, saí de quase 3 anos de uma relação que não estava me fazendo feliz, saí do marasmo da minha incapacidade de decidir, e tomei uma decisão, que não sei ainda se foi a certa ou a errada, mas foi a necessária, pois ficar do jeito em que eu estava, não dava mais.


Uma prima minha me disse uma vez que me achava muito corajoso, em nome de todas as mudanças que já tive na minha vida. Eu que venho lá de Belém do Pará, passei por São Paulo, passei pela Holanda, passei pela Espanha, e estou aqui agora na Bélgica. Eu disse para ela que estava bastante surpreso com a opinião dela, pois eu não me acho nem um pouco corajoso, pelo contrário, sou medroso mesmo. Mas eu expliquei para ela que as minhas mudanças não eram fruto de nenhuma coragem especial para enfrentar a vida, mas simplesmente que elas aconteciam quando eu já não aguentava mais a situação anterior, e aí a mudança nem exigia mais coragem alguma, ela era urgente e se impunha.


E assim foi. Eu aguentei o quanto pude uma situação totalmente estressante, a de ter que conviver com alguém com o qual eu simplesmente não conseguia mais me entender, de forma alguma, paciência esgotada, total incompatibilidade de gênios. E não é culpa de um nem do outro, é culpa dos dois ou culpa da vida. Eu não estou aqui querendo apontar o dedo pra ninguém. Eu estou simplesmente dizendo que eu não aguentava mais a situação. Eu cheguei no meu limite, e antes de explodir, antes de matar ou de morrer, dei o fora, da maneira mais rápida e mais determinada possível. No espaço de uma semana procurei um apartamento, assinei o contrato, me mudei. Pá pum, sem olhar para trás para não correr o risco de mudar de idéia, eu que como bom taurino ODEIO mudanças de qualquer tipo.


Tudo o que quero na vida é segurança, estabilidade, previsibilidade. Rotina mesmo, saber todo dia o que vai acontecer e estar satisfeito com isso. Ter um parceiro em quem eu possa confiar e que confie em mim. Ter um trabalho seguro sem necessidade de ascenção nem medo de demissao. Ter uma situação financeira sem altos e baixos. Tudo isso foi o que eu nunca tive na vida, como a vida é ingrata, irônica e traiçoeira com todos nós. Tudo o que eu mais preciso na vida, é isso mesmo o que a vida nunca me deu, e provavelmente nunca me dará. Esta é uma vida de penitência, eu devo ter sido muito mauzinho na minha vida anterior.


Eu que sempre achei que era o parceiro ideal para um relacionamento estável e duradouro. Eu sei que sou leal, embora talvez meu ex discorde pelos motivos dele, que eu não vou comentar. Eu sei que sou caseiro, adoro ficar em casa e não preciso ficar em festas ou na rua, então o meu dinheiro rende mais, posso fazer economias que posso gastar depois dentro de casa. Eu sei que sou burro de carga e que aguento um mundo inteiro nas costas só para evitar o confronto. Eu que sou sensato, já fiz muita besteira na vida mas hoje em dia procuro viver da forma mais balanceada o possível, para o meu próprio bem. Eu sempre achei que um dia eu ia encontrar a pessoa certa, e que eu ficaria sempre com esta pessoa, até devido ao meu comodismo nato de taurino. Ledo engano.


Pois eu já estou chegando aos 37 e cá estou de novo solteiro e de novo morando sozinho, e desta vez em uma cidade onde não tenho família e praticamente também não tenho amigos, portanto estou quase que absolutamente só. Vendo por este lado, não dá para encarar mais esta mudança (em termos de mudança de residência, a décima-sexta vez em um período de oito anos, o que dá uma média de uma mudança a cada seis meses...) como algo que me faça feliz. Não, eu não estou feliz com ela. Mas esta mudança não foi propulsionada pela busca da felicidade, ela foi o resultado da mais pura necessidade de mudar, de virar a página de uma vez por todas, de me fazer ouvir nem que seja da forma mais radical possível. Ir embora para fazer a vida entender que esta não é a vida que eu quero viver.


Esta mudança foi um fruto da minha busca pela paz, pela paz de espírito que eu tanto procuro. Pela necessidade de ter um lugar que eu possa realmente chamar de lar porque nele me sinto bem e me sinto em PAZ. Por saber que vou abrir a porta no final do dia ao voltar do trabalho e vou encontrar um ambiente de paz, sem brigas, sem reclamações, sem cobranças, sem acusações, sem neuras. Paz, paz, paz. Posso ouvir as suites de cello de Bach todas as manhãs sem ter que ouvir que é música de enterro, troca por favor. Posso esquecer de limpar a geladeira sem ter quer ouvir pito de namorado por causa disso (eu hein!!!). Posso sair para ir ao cinema e dar uma emendada pra ir comer algo porque estou com fome sem ter a Gestapo aguardando por mim quando chegar. Sozinho, absolutamente sozinho, mas em paz.
A vida deveria ser feita de paz e amor, mas eu cheguei a conclusão que se tiver que escolher entre um e outro, eu fico com a paz. Até porque sem paz não há amor que consiga prosperar. E a paz é branca, e o meu apartamento novo é todo branco. E a neve se foi, a temperatura subiu, e seja bem-vinda a primavera. E digo que nem Frida Kahlo. Vou tentar aproveitar esta vida ao máximo, e quando morrer quero nunca mais voltar.

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