
Hoje é a final da Eurocopa. A partir das 20H45 da noite aqui na Europa, Espanha e Alemanha jogarão a partida final valendo o título, lá em Viena. A favorita é a Espanha, que teve a melhor performance até agora neste torneio, não perdendo um jogo sequer, e goleando times como o da Rússia por 4 x 1 na fase classificatória e 3 x 0 na semifinal. Mas a Espanha não ganha nenhum título importante há mais de 40 anos... a Alemanha por sua vez não impressionou, mas como de hábito foi cavalgando com seu futebol de resultados e chegou lá. Alemanha que é uma colecionadora de títulos, e que portanto nunca pode ser menosprezada.
Eu nunca fui muito chegado em futebol e acho que isso tem mesmo a ver com a orientação de cada um. Desde criança eu sempre me senti um peixe fora d'água. Na escola tinha muitos poucos amigos. Não conseguia me entrosar nem com meninos nem com meninas. Os meninos me assustavam com a agressividade, a competitividade, os palavrões... eu que não ousava pronunciar qualquer palavrão, na minha casa ninguém falava palavrão e uma vez minha avó me pôs de castigo porque eu falei "droga" na mesa. Imagine um palavrão de verdade. As meninas me entediavam com a futilidade, com os futricos e as panelinhas. Eu no final acaba preferindo a minha companhia mesmo. Então na aula de educação física era um martírio para mim porque eu era obrigado a me entrosar com aqueles meus colegas que mais me incomodavam do que agradavam. Eu me sentia absolutamente estressado em ter que jogar e ser vítima de toda aquela agressividade testosterônica a cada vez que eu fizesse um erro, e como eu sou desengonçado por natureza sempre cometia muitos erros. E eu era o mais novo da turma, era menor e mais fraco, e isso me colocava em franca desigualdade. Então eu fugia da aula sistematicamente, e por isso não aprendi a jogar nenhum tipo de esporte. Sou um zero à esquerda no futebol, no volei, no basquete e em tudo que exiga uma quadra, uma bola e um time. Eu ficava de recuperação em educação física ano após ano, e tenho certeza de que pelo menos em duas ocasiões só me passaram de ano porque eu era o melhor aluno da turma em todas as outras matérias.
E cresci assim, sem gostar e sem jogar futebol. E sem me entrosar com os meninos e nem com as meninas. Também não tinha colegas de bairro porque minha mãe sempre foi muito medrosa e não nos deixava sair de casa, eu e minha irmã, por qualquer motivo que fosse, se não estivéssemos acompanhados de um adulto da família. Eu tinha uma bicicleta que ganhei de presente de Papai Noel, mas que nunca pude usar porque minha mãe não deixava que eu saísse a passear de bicicleta, e ficar dando voltas de bicicleta no quintal não fazia sentido. Ah, eu também não podia brincar no quintal, porque minha mãe tinha medo que nos machucássemos, que nos sujássemos, sei lá. Havia um quintal enorme lá em casa mas a gente nunca podia brincar nele, e para mim era uma odisséia quando eu conseguia ir escondido até o muro no final do quintal, e me sentava embaixo de uma árvore que eu gostava, e a grama ali era diferente, era bem macia, e eu ficava ali quietinho até que me encontrassem e viessem me buscar.
Eu gostava de me esconder. Uma vez eu pus a minha mãe louca, eu me escondi embaixo da mesa a tirar os LPs das capas e empilhá-los separadamente, coisa de criança, e bem cuidadosamente e tentando não fazer barulho porque eu sabia que estava fazendo algo de errado. E a minha mãe começou a me procurar e a chamar por mim e eu fiquei calado porque não queria ser encontrado. Foi um alvoroço, a minha mãe foi bater na casa da vizinha a perguntar por mim e ninguém tinha me visto e o temor de que algo tivesse acontecido comigo foi aumentando até que ela ouviu um barulho embaixo da mesa, e levantou a toalha, e me encontrou lá, quietinho, e ela me diz hoje que só não ralhou comigo porque a alegria de me encontrar ali são e salvo foi maior. E uma vez eu saí andando sozinho na praia de Copacabana no Rio, estava a brincar com um balde e conchinhas e fui catar conchinhas e a minha mãe que estava conversando com a minha tia Sônia se não me engano não percebeu, e quando se deu conta eu não estava por perto e ela ficou desesperada, coitada, saiu me procurando feito uma louca pela praia e até hoje eu só posso ter a certeza de ser quem eu sou mesmo e que não sou outro menino que ela catou na praia por engano porque eu sou muito parecido com a minha irmã e com a família do meu pai, não dá pra duvidar. Ela encontrou o menino certo, de sunga vermelha e balde na mão.
Mas, voltando ao futebol... cresci sem jogar futebol e sem entender quase nada do jogo e por isso mesmo achando incrível que tanta gente consiga ser tão fanática por futebol, algo que, como diria a minha avó que era professora de português, adora ler e destesta futebol, não passa de uma porção de homens correndo atrás de uma bola. Mas o tempo foi passando e fui aprendendo que futebol não é só o jogo em si, mas tudo o que o acompanha, a festa, a alegria dos que ganharam e a tristeza dos que perderam, a emoção pura e simples, as bandeirinhas nas ruas em época de Copa do Mundo, o noticiário dando a notícia da vitória e a transmissão ao vivo das festas de rua. Futebol é acima de tudo motivo pra festa, sem maiores compromissos nem preocupações e sob esta ótica fui aprendendo a gostar de assistir futebol.
Tenho meus times como todo mundo tem um, mas não acompanho nenhum jogo. Torço pro Clube do Remo lá em Belém, que nutre uma rivalidade enorme contra o Paysandú, o outro time local. Sou remista porque meu pai é remista de carteirinha e me inscreveu no clube como sócio dias depois que eu nasci, isso mesmo eu era bebê e já era remista, acho que sou o sócio mais novo da história do Clube do Remo. Mas na família da minha mãe todo mundo era Paysandú e isso sempre foi uma barreira invisível entre eu e os meus primos maternos (não tinha como dar centro entre eu e o meu avô mesmo, ele Paysandú e eu remista, ele conservador e eu filho de pais separados), e para piorar quase sempre o Paysandú levava a melhor, então de novo, eu ficava no meu canto. E em São Paulo eu sou são-paulino, isso desde que o São Paulo ganhou o título mundial interclubes em 92 contra o Barcelona, e a partir dali eu passei a torcer por eles, mas uma torcida mais festiva do que fanática, eu jamais poderia me tornar fanático por coisa alguma, não tenho sangue pra isso. Bom, tem uma exceção, eu era fanático por mapas e geografia, mas até este fanatismo já adormeceu.
Adoro ver os jogos da Copa do Mundo e é claro, torço pelo Brasil como qualquer brasileiro e me lembro como se fosse ontem o sufoco e a alegria de ver o Brasil ganhar da Itália nos pênaltis em 94 (eu que sou de 71 nunca tinha visto o Brasil ser campeão) e a festa inesquecível que parou São Paulo naquela noite de domingo, a tristeza de ver o Brasil perder da França de maneira lamentável em 98 - e eu estava em Paris no dia do jogo, foi uma tortura ter que passar a noite inteira ouvindo os franceses comemorarem, "trois zéro, trois zéro!" - e a redenção de ver o Brasil ganhar de novo em 2002, e desta vez contra a Alemanha, e aí eu já morava na Holanda e como os holandeses detestam a Alemanha estava todo mundo a favor do Brasil então foi uma festa só. Fui assisir a final do jogo lá no De Kluis, que é um tradicional bar de brasileiros na Prins Hendrikkade em Amsterdam, havia um telão enorme, o bar estava cheio de brasileiros e holandeses, e a festa foi longa. E em 2006, bem , eu estava na Espanha, mas nem me lembro de quem o Brasil perdeu e nem em que fase porque estava passando por tantas dificuldades que não consegui entrar em clima de Copa. Vi a final, França e Itália, torci pra Itália (porque desde 98 eu sempre torço contra a França, por mais que eu adore a França, assim como eu sempre torço contra a Argentina embora eu adore a Argentina, he he he) e gostei.
E agora, a Eurocopa. Na Eurocopa passada eu torci pra Portugal, mas ganhou a Grécia, na final. Torci por Portugal porque sou descendente de portugueses, meu avô era filho de portugueses e porque acho que todo Brasileiro é um pouquinho português assim como todo português é um pouquinho Brasileiro, não existe cidade na Europa mais parecida com o Brasil que Lisboa, onde eu já estive por duas vezes, e adorei, como é gostoso e diferente a gente poder falar a nossa própria língua mesmo não estando no nosso país de origem. O engraçado é que naquele ano, 2004, Portugal jogou a semifinal contra a Holanda, onde eu morava, e ganhou. Eu torci para Portugal, só pra ser "do contra", contra os meus colegas de trabalho e contra os holandeses em geral, que me viam - e me tratavam - como estrangeiro. Na firma onde eu trabalhava eram todos fanáticos por futebol e a vitória de Portugal me deu um gostinho de vingança.
Mas o tempo passa e com ele eu aprendi que, pelo menos no meu caso, é bobagem se ressentir pelo tratamento que me é dado como estrangeiro porque um peixe fora d'água eu sempre fui e sempre serei, e portanto se vai ser sempre mesmo assim, melhor é se habituar. Talvez se eu voltasse para a minha terra natal... mas em Belém eu me sinto ainda mais estrangeiro, então não tem saída... e a verdade é que quem tem que se adaptar ao meio sou eu, o meio jamais vai se adaptar a mim, e se eu quero ser feliz e me sentir bem onde eu moro, seja lá onde for, tenho que começar por aceitar as coisas como elas são e não como eu queria que elas fossem. Em Belém eu era um estranho no ninho, em São Paulo eu era "nordestino" - embora eu seja do Pará, mas o paulistano médio não se dá ao trabalho de entender a diferença... lembro que uma vez uma colega de trabalho me disse na cara que pra ela "de Brasília pra cima é tudo Bahiano", no que eu respondi, no gatilho "pois pra mim, de Brasília pra baixo, é tudo carioca!" E ela emendou... "é, tenho que reconhecer que a sua resposta foi à altura..." - na Holanda eu era "allochtoon" como eles chamam de maneira um tanto pejorativa os estrangeiros (e da Holanda me lembro da seguinte passagem, eu comentando com um amigo holandês que pra mim que vinha do Brasil, um país enorme e com tantas diferenças regionais, não fazia sentido que houvesse na Europa três países tão pequenos e tão parecidos como Holanda, Bélgica e Luxemburgo, que tudo deveria ser um país só, e aí ele interviu dizendo que sim, que tinha sido tudo um país só no passado, que era tudo parte da Holanda, e aí eu virei pra ele e disse com ironia "so it was all yours? And you have LOST it??? What happened??? E meu amigo ficou com um sorriso amarelo...) , e agora na Bélgica eu sou "o povo que trabalha pra Comissão" e portanto jamais vou ser considerado "local" - e nem quero. Eu já detestei Belém por me sentir rejeitado, eu já detestei São Paulo por me sentir menosprezado, eu já detestei a Holanda por me sentir humilhado. Mas passou. Talvez o fato de viver fora de todos estes lugares me faça os ver com outros olhos. Eu adoro quando volto a Belém e revejo a minha família tão querida, aquelas mangueiras enormes que cobrem as ruas e as mangas que caem em dezembro, os sinos das inúmeras igrejas batendo às cinco da tarde e o cheiro de tacacá nas esquinas. Eu adoro quando volto a São Paulo, a cidade que hoje em dia eu considero como o meu lar no Brasil, e revejo os meus amigos, minha tia e meus primos, e vou passear na Avenida Paulista nos domingos à tarde como eu fazia antigamente, dar uma volta na feirinha do Masp e emendar até o Espaço Unibanco de cinema lá na Augusta, onde só passavam filmes bons. Eu adoro quando volto a Holanda e revejo meus amigos todos, revejo a Ayumi, filha dos meus queridos Valentina e Takeo, que está cada vez mais linda, dou voltas pelos canais, tão calmos durante a noite, e paro para tomar um café do De Jaren ou no Walem, meus cafés preferidos pelos terraços bem junto aos canais. Sem rancores. Paraíso na Terra não existe.
Acho que no meu caso ajuda muito também que eu fui criado sem raízes. Minha irmã falou isso para o marido um dia, que ela não tinha raízes, e ele ficou chocado, ele que sempre viveu em Belém e tem toda a sua família lá e que por isso mesmo não quer nunca sair de lá. Mas eu e minha irmã não temos raízes porque fomos criados ali e acolá. Morei com minha mãe, morei com meu pai, morei com meus tios, com minha tia Sílvia, que até hoje eu chamo de tia-mãe porque é uma tia mãezona mesmo, que cuidava da gente quando estávamos doentes mas que também ralhava e punha de castigo, morei também com meu tio Antônio, e com os meus avós. Morei nos Estados Unidos, e mesmo nos Estados Unidos no pouco tempo em que passamos, morei em duas casas diferentes, e passei também um tempinho na Argentina e só não acabamos indo morar em Buenos Aires porque a vida não quis, e depois fui pra São Paulo, e depois pra Holanda, e depois pra Espanha e depois pra Bélgica. Eu sou literalmente uma metamorfose ambulante, talvez muito mais ambulante que metamorfótica, mas o fato é que cresci sem raízes e me habituei a isso, e se por um lado isso reforça o sentimento de "peixe fora d'água", por outro isso facilita a adaptação, porque eu estou acostumado com a mudança. Desde o ano 2000 para cá, eu já me mudei 16 vezes. Isso sem contar todas as mudanças anteriores. A gente acaba se acostumando a "não fazer parte". Já não espero que me tratem bem nem que gostem de mim, apenas exijo respeito e nada mais. De resto, minha família, meus amigos, e principalmente eu mesmo, me bastam. Já disse Erasmo de Rotterdam, "nosso lar é onde somos felizes". Os lugares por onde passei, passei, e fui. Não quero passar a vida com síndrome de "como era verde o meu vale", meu vale é o aqui e agora e o aqui e agora pra mim é a Bélgica que é um país que não fede nem cheira e que talvez por isso seja tão fácil de se viver. Sorte minha que sendo parte do "povo que trabalha pra Comissão" não tenho muitos afazeres com a administração pública belga e isso me poupa de uma porção de dores de cabeça porque a administração pública belga... deixa pra lá.
E voltando ao futebol, veio a Eurocopa 2008 e a Bélgica não se classificou e eu torci para a Holanda, sem rancor nem fanatismo, porque bem ou mal com todas as reclamações que eu tenho em relação àquele país, foi o país que me adotou, que me deu a nacionalidade e que sem ela eu não teria o trabalho que tenho nem poderia morar onde moro, e portanto sou grato à Holanda, um país que admiro pelo respeito às liberdades individuais, embora me choque o hiper-materialismo dos holandeses que perdem um amigo mas não perdem o dinheiro. Mas enfim, problema deles. Torci pra Holanda, mas a Holanda perdeu, paciência. Daí eu torcia também pra Portugal, mas Portugal também perdeu. Sobrou a Espanha, minha querida Espanha, país que pelo qual eu tenho motivos de sobra pra odiar se eu quisesse, pelos quatro meses infernais que eu passei ali em 2006. Mas eu resolvi não detestar terra nenhuma, porque os povos são mesmo como as pessoas, cheios de defeitos e qualidades, e sendo assim ou a gente se adapta ou deixa pra trás, mas detestar é perda de tempo e energia, não vale a pena. Então eu prefiro me lembrar da Espanha festiva das férias, da simpatia dos espanhóis, da facilidade da língua, da beleza de Madrid e de Barcelona, das praias e das parties. Todo mundo na Europa gosta da Espanha porque todo mundo passa férias na Espanha e sempre passa bem. Então hoje a noite eu vou torcer pela Espanha, não porque eu seja contra a Alemanha pois eu também gosto da Alemanha e dos alemães, mas simplesmente porque eu quero torcer para a Espanha. E que vença o melhor... e no final das contas, tudo não passa de futebol. No need for drama.



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