
Eu nasci às 2h05 da manhã do dia 6 de maio de 1971 na Clínica Dalmazia Pozzi, em Belém do Pará. A clínica estava situada a apenas alguns metros da minha primeira casa, na rua 14 de março, no bairro do Umarizal. Foi ali que eu aprendi a andar e é dali que eu tenho as minhas fotos mais antigas de infância, algumas das quais eu consegui roubar dos álbuns da minha mãe e da minha avó e guardo comigo até hoje. Eu era um bebê enorme, apelidado de "super primo", e tinha o cabelo castanho bem clarinho, bem fininho, e todo encaracolado. Quanta diferença.
De lá eu fui para a casa da Rua Rui Barbosa, no bairro de Nazaré, e a casa da Rui Barbosa é casa de onde eu guardo a maior parte das minhas lembranças de infância. Era uma casa bem bonita, dois andares, ligeiramente art déco se me lembro bem, tinha uma sala grande e confortável e um quintal enorme. É este o quintal que eu tanto gostava de atravessar, toda vez que eu conseguia. A minha mãe sempre gostou muito de plantas e o quintal era cheio delas. Lá na casa da Rui Barbosa nós tínhamos um cachorro, o Zorba, um boxer, que adorávamos e que um dia foi roubado, mas coincidentemente ele um dia passou na frente de casa com o "dono" novo, e nos reconheceu, e veio correndo pra gente. o Zorba morreu um dia de velho, e eu o vi deitado no pátio com uma poça de sangue ao lado, e fiquei muito triste. Da casa da Rui Barbosa eu me lembro sobretudo dos natais, que eram maravilhosos, a casa estava sempre enfeitada e a festa ia até tarde.
Daí os nossos pais se separaram em 1978 e foi aí que a nossa odisséia, minha e da minha irmã, começou. No início continuamos morando ali na Rui Barbosa mesmo, e a minha mãe mudou a casa inteira, pintou as paredes de cores bem fortes, ela era bem moderna e estava sempre ligada com as últimas novidades em moda e decoração. O papai entrou em casa um dia para buscar algo, e quando viu as paredes da sala, uma vermelha e uma preta, perguntou se "aquilo tinha virado boate". É verdade que a minha mãe era também bem ligada com música, ela tinha uma coleção de fitas K7 de disco music que faria inveja à qualquer discoteca. Um dia entrou um ladrão em casa e o ladrão roubou toda a coleção de música da minha mãe. Eu acordei naquele dia, era um domingo de manhã, e fui descendo às escadas porque ouvi um choro, e quando cheguei na sala deparei com a minha mãe chorando deitada no sofá, e ela apontou para o buffet e falou "ele tinha bom gosto" - o ladrão tinha roubado o aparelho de som e todas as melhores fitas da mamãe.
Em uma época que eu não consigo precisar começaram as viagens. As viagens do papai já haviam começado anos antes, e hoje em dia eu sei que este foi o principal motivo da separação. Era a época da ditadura militar, o meu tio Paulo era ativista de esquerda, tinha sido preso e estava desaparecido, e o meu pai fez inúmeras viagens a Brasília na tentativa de encontrá-lo, até que começaram a ligar para casa fazendo ameaças à nossa família, e aí a minha mãe não aguentou o trampo e foi aí que o casamento terminou. Detalhe, não foi só a vida privada do meu pai e da minha mãe que a vida política do tio Paulo atravessou. A minha tia Nitinha também foi vítima, de uma maneira tão feia que eu prefiro nem contar. Pobre tio Paulo, tinha ideais tão nobres, mas a únicas coisas que conseguiu trazer para a família foram honra, orgulho, e sofrimento, muito sofrimento. O meu tio Paulo foi assassinado a tiros em 1987. A minha avó ainda estava viva, e o tio Paulo era seu filho mais querido. A minha avó enterrou dois filhos antes de morrer. Dois.
Pois bem, voltando às viagens. Começaram as viagens dos meus pais e foi aí que a coisa começou a desgringolar para o nosso lado. Eu me lembro que entre a separação dos meus pais em 1978 e a nossa volta dos Estados Unidos em 1983 nós moramos com a minha mãe, com os meus avós, com o meu pai, com a minha tia Sílvia, e nem me lembro direito onde mais. Nós moramos com a mamãe no apartamento da Avenida Nazaré, que ficava em frente ao Clube do Remo e que portanto era barulhento nos fins de semana. Mas tinha a vantagem de ter uma varanda enorme dando para a Avenida Nazaré, onde passava todos os anos a procissão do Círio, e eu me lembro que um ano a mamãe fez o almoço do Círio lá em casa e foi um sucesso, todo mundo foi porque não tinha lugar melhor pra ver a santa passar. Isso foi antes dos Estados Unidos, eu me lembro porque a mamãe teve que fazer um leilão para se desfazer de todos os móveis antes de nós viajarmos, nós tínhamos móveis lindos, enormes e caros, e a mamãe vendeu tudo. Felizmente que o item principal, a mesa, que era de cristal com um pé único em madeira todo trabalhado e que certamente custa uma fortuna, foi comprado pela Tia Silvia e quando nós acabamos voltando dos Estados Unidos a Tia Sílvia resolveu devolver a mesa pra mamãe, e a mamãe tem essa mesa linda até hoje. Nós moramos também com o meu pai na casa da Rua Benjamim Constant, outra casa bem grande mas de onde eu só tenho lembranças ruins, pois fui muito maltratado naquela casa, lembranças que eu também prefiro não mais me lembrar, já chega. E nós moramos com os meus avós no apartamento da Rua Ó de Almeida, lá onde o meu avô não falava comigo e onde o meu pai me deixou esperando um dia sem aparecer. Eu morava na Ó de Almeida quando tive os problemas na escola dos quais já falei aqui um dia e também prefiro não mais comentar. E nós moramos com a minha tia Sílvia também um tempo, acho que lá no apartamento do ediício Gilberto Mestrinho, e é por isso que até hoje eu a chamo de tia-mãe, porque ela foi uma segunda mãe pra nós.
Em um dado momento nós fomos parar em Anaheim, na Califórnia. Fomos para nunca mais voltar, mas voltamos depois de uns quatro meses. Coisas da vida. Em Anaheim moramos em duas casas, a primeira foi um apartamento pequeno mas bem gostoso em um condomínio de luxo, com piscina, quadra de esportes, salão social, sala de cinema, tinha de tudo ali. E ficava a oito quadras da Disneyland, isso para mim e para a minha irmã era o melhor de tudo. Era 1982, tínhamos 12 e 11 anos e passamos do dia de Natal daquele ano na Disney, foi o máximo. Bem diferente do Natal de 1981, que passamos sozinhos. A segunda casa foi outro apartamento, também em Anaheim, também em um condomínio, mas menor e menos luxuoso que o primeiro. Dos Estados Unidos eu me lembro de árvore de Natal de infância mais bonita que eu tive.
Mas daí em 1983 nós voltamos e fomos parar de novo no apartamento da Ó de Almeida, e a verdade é que ninguém gostou. Felizmente a partir daquele ano a mamãe tomou a vida pelas mãos e nunca mais nos abandonou. Com ela nos mudamos para o apartamento da Rua Apinagés, e foi lá que passamos toda a nossa adolescência, a minha irmã aproveitando para fazer festas toda vez que a mamãe viajava a fazer compras para a loja, e eu me escondendo no que quarto do qual eu tanto gostava porque ali tinha todos os meus mapas, os meus livros, o meu mundo. E eu tinha ar condicionado e portanto podia fechar a porta e a janela e fingir que eu estava bem londe dali.
Teve a passagem pela Argentina. Foi em 1986. Naquela época a minha mãe quase se mudou para Buenos Aires e só não foi mesmo porque a vida não quis, sei lá. Mas eu cheguei a morar um mês e meio com ela em Buenos Aires, no apartamento da rua Palpa, na Chacarita, um bairro que me impressionou porque a maioria das ruas ainda era calçada com pedras e não com asfalto, como aliás creio que ainda é hoje em Buenos Aires e em muitas ruas de Paris ou de Bruxelas também. Eu gostei de Buenos Aires, e acho que teria gostado de ter ficado lá, mas a vida nos reservava algo diferente. Ah, esqueci de comentar que antes de ir a Buenos Aires eu e minha irmã também moramos um tempinho com o meu tio Antonio, já nem sei direito quando exatamente e o porquê.
Mas de Buenos Aires voltamos para a Apinagés e em 1989 a minha irmã casou e se mudou e ficamos só eu e minha mãe no apartamento da Apinagés e a gente se dava tão bem... era uma calma só no apartamento, eu sou igualzinho à minha mãe em muita coisa. O silêncio e a paz reinavam. Todos os finais de semana eu pegava uma meia dúzia de filmes no vídeo, filmes que eu sabia que a minha mãe gostaria, e passávamos o fim de semana inteiro assistindo vídeos, assim com a personagem principal de Todo Sobre Mi Madre e o filho no início do filme. Exatamente igual. Minha mãe diz até hoje que quando eu fui embora eu levei a memória de filmes dela comigo.
Eu fui embora em 1994. Eu não consigo me lembrar se eu cheguei a morar no apartamento da Rua Padre Eutíquio, onde a mamãe morava até poucos anos atrás. O apartamento é bem parecido com o da Apinagés e ambos ficam no mesmo bairro, então a minha lembrança é confusa, eu não sei direito quando termina um apartamento e quando começa o outro. Pode ser que eu tenha morado na Padre Eutíquio; eu acho que não, mas não tenho certeza.
Pois bem, em 1994 eu fui para São Paulo e não olhei pra trás quando tomei o avião porque não queria me arrepender nem me sentir culpado, e sabia que minha mãe e minha irmã estavam chorando, e eu também chorei pacas no avião. Mas cheguei em São Paulo e minha vida mudou, e não sei dizer se mudou para melhor ou para pior, mas eu simplesmente deixei a minha vida de criança para trás e inicicei a minha vida de adulto. Em São Paulo eu tive um período de relativa calma e estabilidade uma vez que pelo menos eu não mudei de endereço. Mudei de emprego, tive uns 3 ou 4 empregos durante os 6, 7 anos em que morei lá, mas fiquei sempre no mesmo endereço, na rua Nilo 337, onde morava a minha tia Lélia, que tanto me ajudou em São Paulo. Mas dizer que não houve mudança nenhuma também é mentira porque a casa da Rua Nilo era quase como que duas casas em uma, era uma casa antiga que foi aumentada e eu morei uma parte do tempo na "casa" da frente e outra parte na "casa"de trás. Eu preferia a "casa" de trás porque ali eu praticamente morava sozinho, eu que sempre gostei de ficar sozinho.
E daí no ano 2000 eu fui parar na Holanda para fazer o meu mestrado em Relações Internacionais e dessa segunda fase eu já contei, desde o ano 2000 eu'já me mudei 16 vezes: Rua Nilo em São Paulo, depois em Amsterdam onde comecei pela Prins Hendrikkade, no inicio dividindo com o Takeo no estúdio do primeiro andar, prédio de trás e depois sozinho no loft do terceiro andar, prédio da frente, onde eu tinha uma varanda de onde via o porto e o Museu Marítimo. Depois no Spiegelgracht, um dos canais mais nobres da cidade, onde eu tinha um quarto no último andar de uma daquelas casinhas bem altas e estreitas, e ficava vendo os turistas passarem no caminho para o Rijksmuseum. Mais Amsterdam, impossível. De lá fui para o apartamento maravilhoso do Sarphatipark, que a maioria dos meus colegas conheceram e que eu chamo até hoje de "highlight of my life" porque não acho que eu vá consegui voltar a viver em um apartamento tão lindo como aquele, duplex com vista pro parque. Do Sarphatipark eu fui para Leeuwaarden, onde morei no estúdio da Caminghaburen com o Jaap, um estudio pequeno no fim do mundo e rodeado de árvores e gente estranha. Um vizinho solitário que nunca saía de casa, uma mãe solteira com dois filhos mulatos, uma velhinha nacionalista que sempre colocava a bandeira da Holanda na porta de casa quando os primos americanos vinham visitá-la, uma famílida de Cabo Verdianos que vivia ouvindo música e um chato mal humorado, esses eram os meus vizinhos. Lá fiquei quase um ano, e a minha companhia durante o dia eram a Bo, a boxer do Jaap, a gata cujo nome eu esqueci, e as árvores, como eram lindas aquelas árvores, até hoje eu tenho saudade das árvores da Frísia.
Daí voltei pra Amsterdam. Por dois meses e meio no apartamento da Comellinstraat conseguido pela minha amiga Janet, perto do Oosterpark, e de lá para o apartamento comprado da Eerste Atjehstraat. Finally, pensei. Ledo engano. Ah, o apartamento da Eerste Atjehstraat, com a sua varandinha e aquela árvore bem frondosa bem ao lado que o tornava tão aconchegante. Quantos momentos alegres e tristes eu vivi ali. Eu acho que foi ali que eu virei gente, no sentido mais amplo da palavra. Antes eu só brincava de viver, ali eu vi a vida como ela é de verdade, e a vida pode ser bem feia de vez em quando, ou bem bonita, e eu não sei dizer se só depende de nós ou não. Acho que depende de nós e de uma série de fatores também. No apartamento da Eerste Atjehstraat eu morei duas vezes, porque entre uma vez e outra eu também morei por alguns meses no apartamento da Zeedijk, que era meio brega mas era enorme e tinha uma vista linda para o centro da velha Amsterdam. Eu gostei de morar no Zeedijk, foi uma época divertida, de final de 2004 a meados de 2005, eu tinha 34 anos e estava no auge da minha forma física.
Mas em 2006 eu fui embora de novo e desta vez para a Espanha, onde também fui para nunca mais voltar e voltei depois de quatro meses, exatamente como a minha mãe havia feito em 1982 e detalhe, eu tinha exatamente a mesma idade da minha mãe, 34 anos. Quanta coincidência. Só que ela ficou em apenas dois apartamentos na mesma cidade, e eu fiquei em dois apartamentos em Madrid e em pelo menos outros dois em Barcelona, um no Eixample e outro no Born. Detalhe, um dos apartamentos em Madrid não era exatamente em Madrid, mas em Colmenarejo, um povoado a duas horas de distância de Madrid, e eu só fui me dar conta disso quando já estava lá. De Colmenarejo eu me lembro da procissão de Corpus Christi que tanto me lembrou o Círio de Nazaré e outras procissões menores da minha Belém de infância.
E da Espanha vim para a Bélgica, e aqui a minha aventura começou na casa de Evere cujo nome da rua eu nem me lembro mais, e depois passamos (eu e M) para a casa da Valerie na Avenue du Castel, uma bela casa em um bairro muito agradável. E de lá para o apartamento do Boulevard Anspach onde fiquei até abril deste ano, quando a vida (ou eu) me fez me mudar de novo, e eu vim parar onde estou agora, neste apartamento todo branco de Ixelles, onde não há cores nem passado, só há paredes brancas, janelas envidraçadas e muita luz. Quanto tempo vou ficar aqui? Não sei, mas sei que não é pra sempre. Porque nada na vída é pra sempre. Nada na minha vida é pra sempre. Eu sempre quis estabilidade, segurança e previsibilidade, mas nunca consegui. E eu tenho apenas 37 anos portanto espero e acredito que muitas ondas ainda virão.
Alguém contou? Pode me ajudar a me dizer em quantos lugares eu já morei? Quantas vezes eu já me mudei? Em quantos países e cidades? Me ajudem com a resposta por favor, que eu já perdi a conta. Espero não ter esquecido nada. Estou cansado.



2 comments:
Vim ter aqui "por acaso"... Que vida mais agitada,querido Antonio!
Desculpe tratá-lo assim,mas a minha idade,permite-o,não é?
Aceita um beijo carinhoso?
Posso voltar?
Oi Maripa!
Pode voltar quando quiser, quem é que resistiria a um beijo carinhoso? muito obrigado! :-)
XXX/A
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