Monday, June 23, 2008

A Vida de Bach a Miles Davis


A vida deveria ser como uma das suítes para cello de Bach. Simples, plácida, perfeita.


Eu adoro Bach, é meu compositor favorito, juntamente com Mozart e Vivaldi. Bach para mim é a pura perfeição matemática da música. É simplesmente perfeito. E realmente divino. A paixão de São Mateus sempre me toca na alma. Mas não precisa ser a Paixão de São Mateus pra tocar a perfeição, as suítes pra cello são singelas e igualmente perfeitas. Quem me dera a vida fosse assim. Perfeita como uma suíte pra cello de Bach. Plácida como o Prinsengracht em Amsterdam em um dia de sol. Simples como o barulho do vento soprando entre as árvores... ou o barulho das ondas do mar, ou até mesmo o barulho da chuva sobre a grama. Meus ruídos favoritos.


Mas infelizmente a vida não é assim, a vida é feita de caos e surpresas. E alegrias e decepções e tormentas e euforias e períodos de calmaria pra gente poder aguentar o pique.


Estes dias têm sido emocionalmente bastante intensos para mim. Esta semana fazem aniversário o meu pai, a minha irmã e a minha sobrinha e sempre me bate uma saudade danada da minha família nessa época. Saudade sobretudo da minha irmã que cresceu junto comigo e que por isso mesmo pensa igualzinho a mim em tanta coisa, apesar de termos vidas totalmente diferentes. Crescemos juntos, passamos pelo mesmo caos juntos e sobrevivemos ainda que com feridas diferentes, mas sobrevivemos e vivemos cada um a vida que escolhemos levar (dentre as possibilidades que nos foram dadas) e tenho muito orgulho dela e de mim mesmo por isso.


A minha irmã me confessou uma vez que quase nunca sente a falta de ninguém além da família. Tem várias amigas que a consideram "melhor amiga" mas ela não se considera a melhor amiga de ninguém e embora esteja sempre disponível para ajudar quem se apresente pedindo ajuda, e são muitos, ela mesmo nunca pede ajuda a ninguém e nunca procura por ninguém. E se um dia uma das ditas amigas resolve deixar de ser amiga, ela simplesmente dá com os ombros, e segue em frente. Ela pode até sentir falta, mas não sofre por isso, acho que porque assim como eu se acostumou com a idéia de que só tem a ela mesmo no final.


Minha mãe também nunca pede nada pra ninguém, e sempre teve pouquíssimos amigos. Acho que é um traço de família, nós somos todos no final das contas bastante introspectivos e voltados muito mais pra família que para os amigos. Minha avó é assim, minhas tias também. Na vida da minha irmã só cabem o marido e os filhos, na vida da minha mãe só cabem os filhos e netos, na minha vida só cabem aqueles que eu realmente sinto falta. De quando eu era criança eu me lembro que a minha mãe tinha uma melhor amiga, a Tia Lúcia, que sempre foi amiga da mamãe, até hoje. Mas de resto, a minha mãe estava sempre na companhia das irmãs e/ou do marido, e mais ninguém. A minha irmã, também. Quando viaja é sempre com o marido e os cunhados e um casal de amigos e mais ninguém. Este ano ela vai viajar com uma amiga, novidade no currículo dela, vamos nos encontrar em Paris, não vejo a hora do dia chegar porque morro de saudades da minha irmã.


Eu adoro ter amigos e já percebi através da vida que ter amigos é importantíssimo. Assim como a minha mãe e a minha irmã, eu sempre procurei não pedir nada para ninguém, nunca. Sou hiper individualista e obecado pela independência, fechado em mim mesmo e gosto de fazer tudo sozinho e não dever nada pra ninguém. Desde criança sou assim, queria fazer tudo sozinho. A minha lembrança mais remota vem do jardim de infância, era hora do recreio e todas as crianças desciam para o pátio pra brincar, e a professora vinha com uma sacola enorme cheia de brinquedos para a gente brincar. Eu peguei um brinquedo qualquer e fui brincar sozinho, embaixo de uma árvore bem frondosa; eu gostava de ficar ali, na sombra (também desde aquela época nunca gostei de calor), sozinho. Mas a professora veio me tirar dali, eu tinha que ir brincar com os meus colegas, eu não podia ficar sozinho e eu não entendia o porquê daquilo. Por que eu não posso brincar sozinho? Ela não me respondeu.


Eu era muito desconfiado, o que sou também até hoje. Demoro pra confiar em alguém e por isso me fechava no meu mundinho. Só confiava na minha mãe, eu era totalmente agarrado à minha mãe e a seguia pra cima e para baixo (ah que saudades da minha mãe!). E não queria saber de mais ninguém. Mas a vida não é assim, a gente não pode passar a vida inteira brincando sozinho embaixo da sombra nem na barra da saia da mãe, e eu já me vi metido em enrascadas e tive que pedir a ajuda a quem eu considerava amigo e fui ajudado, e isso me alertou para o milagre da amizade, o qual eu nunca tinha sentido dentro da minha vida. E desde um tempo para cá eu tenho tentado cultivar as minhas amizades, ainda que à minha maneira. Eu não telefono nunca pra ninguém, não faço visitas a ninguém, não compro presentes pra ninguém e nem fico atrás de ninguém... mas tento me colocar à disposição daqueles que se dizem meus amigos, e tento ajudar quando me procuram. Quando me procuram. Essa é a minha forma de vivenciar a amizade. Não preciso ver os meus amigos com frequência, aliás alguns dos meus melhores amigos eu vejo quase nunca, mas não meço minhas amizades pela frequência, meço pela sintonia. Cabeças conectadas, sei lá.


Esta semana um amigo meu que eu considerava um dos meus melhores amigos, até porque já havia me ajudado muito em muita coisa, me confessou que não me considera como um de seus melhores amigos, aliás nem sequer me considera como amigo. Pior ainda, me disse que não sente nenhuma empatia por mim e me considera superficial na minha maneira de vivenciar a amizade. Isso para mim foi um choque, pois eu jamais esperava tal declaração de alguém que já havia me ajudado tanto. Fiquei realmente desbaratado. Eu pensava que sabia quem eram os meus amigos de verdade, mas quando um que eu considerava um dos melhores me diz que nem sequer amigo meu é, acho que é hora de rever os meus conceitos. Quem são meus amigos de verdade? O que é a amizade. Aquela pergunta boba: quando eu um dia morrer, quem vai chorar no meu funeral?


Passei um bom tempo pensando nesta situação, queria saber onde eu tinha errado com esta pessoa, porque eu achava que não tinha feito absolutamente nada de errado, e qualquer atrito que tivéssemos tido, era na minha cabeça tão desimportante que jamais poderia acarretar tamanha consequência. Realmente, ele tinha me ajudado muito mais que eu a ele; mas se eu não o ajudei, foi por falta de oportunidade. Ele me deu presentes, mas se eu não dei, foi por falta de dinheiro, ou de tempo, ou dos dois (e não venham me dizer que falta de tempo não é desculpa porque é sim, quem trabalha full time e ainda tem que resolver um batalhao de problemas nas horas vagas sabe disso). Ele me deu conselhos, mas se eu não dei, foi porque o achava muito mais preparado pra enfrentar a vida do que eu. A escassez da minha entrega nunca fora por falta de sentimento mas simplesmente por falta de oportunidade. Eu devo confessar que se ele nunca foi mesmo meu amigo, é uma pessoa admirável. Porque pra ter me ajudado tanto como fez, sem nem sequer se considerar meu amigo... haja desprendimento.


Pensei, pensei, pensei... e no final eu cheguei a conclusão de que eu não errei em nada. Eu sou como sou, a minha maneira de ver e vivenciar uma amizade é talvez diferente da maneira como a maioria das pessoas o faz. Eu não posso ser considerado culpado por ser quem sou, por ser como sou. Se dou instintivamente pouco a quem está a meu redor, também nunca peço nada... Nunca espero nada... e quando precisei, pedi e me ajudaram e sou eternamente grato e gostaria um dia de retribuir o favor, mas se X acha que a minha intenção não é o suficiente, e que nossa amizade na verdade nunca "rolou", nada mais posso fazer. Não vou deixar de ser quem sou porque eu sou assim mesmo, na minha. Eu sei que não sou superficial, eu simplesmente sou pra dentro mesmo, e não vou muito até as pessoas. Mas sempre me coloquei à disposição dos meus amigos, e isso pra mim é amizade. Ajudar ao outro quando ele precisa. Mas não posso adivinhar, é ele que tem que vir até mim me e dizer do que precisa. Algumas pessoas têm mesmo o dom de adivinhar os nossos desejos e correr atrás pra gente, mas eu não tenho esse dom. Eu não sou proativo, eu sou reativo. E não posso ser culpado por isso, nem devo tentar passar a vida inteira tentando agradar a gregos e troianos. Então sou como sou, e prezo pelos meus amigos e pelas minhas amizades. Só que prezo à minha maneira. Uma maneira certamente introspectiva e contida, mas certamente genuína. Abro a porta da minha casa; entra quem quiser. Eu não saio chamando por ninguém. Quando ofereço ajuda a meus amigos, e bem sei que já ajudei uns tantos, já consegui casa, emprego, até marido eu já arranjei pra amiga minha. E não é para agradar nem pra ser aceito, é simplesmente para ajudar e nada mais. Já fui muito de correr atrás pra agradar e ser aceito, mas isso já não faço mais desde algum tempo, felizmente.


Então no final das contas eu cheguei à conclusão de que se X resolveu que não consegue, não pode, não tem como, simplesmente não é meu amigo, nem quer ser, nem será, que não há empatia e pronto, então não há absolutamente nada que eu possa fazer em relação a isso a não ser lamentar, suspirar, e virar a página, porque é uma decisão baseada na interpretação dele sobre a minha pessoa e sobre os meus atos, e não na minha pessoa, e a interpretação dele, essa eu não tenho como controlar, essa depende das experiências dele e não das minhas. Temos conceitos diferentes a respeito de amizade e de como devemos vivenciar uma amizade. Então só posso fazer como a minha irmã sempre fez, dar de ombros, e seguir em frente. Porque no final das contas, a verdade é, que também não vai fazer muita diferença pra mim. Porque eu sou assim mesmo, eu sou como a minha mãe e a minha irmã, e quase nunca sinto falta dos meus amigos, embora eu tenha amigos e goste muito de todos eles, e adoro quando estão por perto. Eu sei sim quem sao os meus amigos, e posso ter me enganado com um ou outro, mas todos seguimos caminhando no final, felizmente, e eu só desejo o bem a todos, porque acredito em boa fé. E de resto, tant pis. Minha vida continua, Zé.


E nesses dias de pensar em família e amizades, eu me lembrei daquele que foi pra mim um pai sem nunca ter sido família, e que me ajudou em tanta coisa sem nunca ter se perguntado se era meu amigo ou não: meu querido falecido padrasto, D, que já se foi há alguns anos e de quem eu sinto tanta, tanta, tanta falta. D foi pra mim quase como que o pai que eu nunca tive, e sem dúvida a pessoa mais generosa que eu já conheci, um ser absolutamente admirável, que foi injustiçado pela vida e que se foi sem ter conseguido o que tanto buscava e tanto merecia. Mas consegui captar o amor de todos nós, isso merecidamente e de uma maneira infalível, e eu sempre lembro dele também nesta época, porque era canceriano assim como o meu pai e a minha irmã e a minha sobrinha... e como eu gostaria que ele ainda estivesse aqui, e como ele sim faz muita falta. E eu espero um dia reencontrá-lo, e assim como ele um dia mandou dizer "tell your mother that I love her", eu espero um dia revê-lo, e quando este dia chegar vou lhe dar um abraço, e vou dizer "would you like to be my father again?"


D se foi, e se foi há muito tempo, e se foi sem mais nem menos, assim como havia entrado. Chegou de avião e se foi de avião. Um dia ele entrou nas nossas vidas, e um dia ele se foi. E nós nunca pudemos dizer adeus. E ele deixou um imenso vazio, que até hoje não foi, e nem será preenchido, porque D era único.


A vida é feita de caos e supresas e alegrias e decepções. A vida não é perfeita. A vida não é Bach, a vida é Miles Davis.


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