Saturday, October 18, 2008

Detesto Che!


Cada um tem uma maneira diferente de lidar com o seu lugar de origem e com a política local. Geralmente esta é uma relação que vem desde a infância e passa por uma porção de situações até chegar na vida adulta, onde somos chamados pela sociedade para depor oficialmente sobre nossos sentimentos e nossas experiências, dizer ao mundo quem somos, e temos que definir as nossas opiniões sobre tudo, incluindo a nossa definição política e o gostar ou não de nossa cidade ou país natal, assim como a nossa relação com o lugar onde moramos. O problema é que nem sempre nós temos uma opinião clara e estabelecida sobre todos estes itens, e acabamos tendo que tomar partido sem estar totalmente convencidos de que estamos sendo fiéis a nós mesmos. Principalmente quando nos é cobrado ter uma posição "preto-e-branca" a respeito da vida quando na verdade a vida é feita de tons de cinza. Assim acabamos sendo rotulados em função de comentários feitos aqui e ali, e somos colocados em uma prateleira sem que ninguém nunca se dê ao trabalho de perguntar o contexto total, objetivo e subjetivo de cada comentário.


Eu nasci em maio de 1971, em Belém do Pará, no norte do Brasil. Venho de uma família de classe média alta. Meu pai é médico, e tinha uma carreira ascendente quando eu nasci. Minha mãe, havia estudado arquitetura, mas não terminou a faculdade porque casou muito cedo, e "mulher minha não vai pra faculdade, fica em casa cuidando do lar", essa era a mentalidade local, e por isso minha mãe teve que abandonar os estudos quando se casou com meu pai. Ambos vêm de famílias numerosas. A família de minha mãe é mais calma, mais conservadora e mais "normal", ao passo que a família de meu pai é o estereótipo da família latino-americana: brigas para todo o lado, reconciliações melodramáticas, dramas familiares, muita festa, muita risada, muita tragédia. Eu não posso esquecer de comentar que a família de meu pai é uma família de políticos. E o engraçado é que dentro da família há todo o espectro político: liberais, sociais-democratas, conservadores, socialistas e até comunistas. Sim, comunistas. O mais conhecido membro da minha família lá no Norte, o tio Paulo, era comunista de carteirinha, e político ativista.


No início dos anos 70 o Brasil atravessava uma ditadura militar, e como ativista comunista, é claro que o meu tio Paulo logo virou alvo do governo, assim como todos os militantes de esquerda na época. Não demorou muito para que ele fosse preso e "retirado de circulação". Ninguém sabia onde o tio Paulo estava. Falava-se que estava preso em Brasília, junto com a mulher, também ativista, e grávida. Isto foi em 1974. O meu pai, que era bastante influente na cidade, começou a tentar usar os seus contatos, na tentativa de, primeiro descobrir onde o meu tio estava, para depois tirá-lo dali. Em tenho lembranças muito vagas daquela época, mas me lembro bem do Tio Bona, um grande amigo do meu pai, que era militar e que fez constantes visitas à nossa casa naquela época. Eu também me lembro que o papai começou a viajar muito, sempre para Brasília, e foi ficando cada vez mais ausente de casa.


Eu não sei exatamente tudo o que aconteceu, mas eu sei os fatos mais importantes, que eu fui descobrindo, ou que me foram sendo contados ao longo do tempo, ou pela minha mãe, ou pelo meu pai, ou por outros membros da família. Sei que o meu primo Paulinho nasceu na cadeia. Sei que o tio Paulo, que antes de ser preso estava foragido, foi encontrado pelos militares através de um estratagema vil, que envolve mentira e traição, e que abalou muito a minha família, em especial uma tia minha, que nunca se recuperou do trauma. É uma história tão vil, mas tão vil, que eu prefiro não comentar, por respeito à ela. Sei que o meu tio e a esposa foram ambos torturados na cadeia. Sei que passou muito tempo até que pudessem ser libertados. E sei, desde há algum tempo, que o crescente envolvimento do meu pai na busca do tio Paulo irritou alguns setores da ditadura. Sei que a partir de um dado momento, a minha mãe começou a receber telefonemas anônimos em casa, dizendo que se meu pai não parasse com a busca, haveriam represálias contra nós. Sei que a minha mãe, que é hiper medrosa por natureza, não aguentou a barra. Sei que os meus pais se separaram em 1978, e hoje em dia eu sei, através da minha mãe, que estes telefonemas anônimos, foram um dos principais motivos. A minha mãe não aguentou a barra de ser uma Fontelles, um nome bastante carregado lá em Belém. Família de políticos.


Da minha pequena infância eu me lembro dos maravilhosos Natais que a minha mãe preparava, acho que essa é a melhor lembrança que eu tenho daqueles anos. Mas eu me lembro muito pouco daquele tempo, pois aquela infância foi desde cedo atravessada pela história do Brasil. Eu me lembro mais da ausência do meu pai do que da presença dele; eu me lembro mais das constantes movimentações políticas na família do meu pai do que das festas de aniversário; e eu me lembro melhor da separação dos meus pais do que dos anos de casamento deles. E eu me lembro que desde sempre, na família do meu pai o tio Paulo foi considerado um ídolo, um "herói da resistência", um modelo a seguir. E eu me lembro de como eu, na verdade, no fundo da minha alma e escondido de todo mundo, odiava o tio Paulo e seu discurso comunista, que no meu entender só serviram para dividir e destruir a minha família.


O tio Paulo foi assassinado em 1987, a tiros numa auto estrada, e a foto dele com a cabeça estourada apareceu em todos os jornais locais. Foi morto a mandato das oligarquias rurais locais, que tentavam calar a sua voz, sempre na defesa do movimento dos sem terra e da reforma agrária. Eu na época já era adolescente, e me lembro bem daquele dia, de ter que entrar na sala de aula e sentir o olhar de toda a turma, inclusive do professor, calados, na minha direção, o "sobrinho do Paulo Fontelles, coitado". Na época, os meus pais já estavam separados há muito tempo, mas o drama recomeçou. Se antes o drama tinha sido "encontrar o tio Paulo", o drama agora era "desmascarar os mandantes do assassinato do tio Paulo". A família do meu pai pirou. Entraram todos em uma histeria coletiva, e não descansaram até que anos depois conseguiram colocar os principais responsáveis do crime atrás das grades. Foi um sucesso a campanha que eles fizeram. Mas eu sei o quanto isso corroeu ainda mais as já precárias relações que eu tinha com o meu pai na época. Eu queria um pai que prestasse um pouquinho de atenção em mim, mas o que eu encontrava era um político obstinado e enraivecido que só pensava em "vingar" a morte do irmão. Um pai que foi aos poucos abandonando a carreira médica pela política, de onde nunca mais saiu. Um pai para o qual o resultado das próximas eleições é mais importante que a data do meu aniversário.


Isso tudo criou em mim uma verdadeira ojeriza em relação à política brasileira. Eu não consigo deixar de nutrir um desprezo enorme por todos os políticos nacionais, para mim todos uma grande farsa. O que não deixa de ser irônico, pois filho de político como eu sou, é claro que eu gosto de política. Mas não consigo lidar com a política brasileira de uma maneira imparcial. Eu tenho uma mágoa muito grande dos políticos de direita em geral, reacionários, imorais e corruptos, por terem em grandes linhas ocasionado o desaparecimento e a morte do meu tio. Assim como também detesto os políticos de esquerda como um todo, eles e seus discursos pró-Fidel, que no meu entender nunca serviram para nada além de contaminar o meu ambiente familiar. Para mim são todos uns fracassados, uns chatos, lunáticos sem contato com a realidade, e teriam feito melhor serviço à humanidade se tivessem prestado mais atenção às suas próprias famílias. Não acho graça nenhuma quando alguém faz um comentário à la Che Guevara nem nada do tipo. Detesto Cuba, destesto Che Guevara.


Eu queria ter tido uma família normalzinha, assim como as famílias dos meus primos e primas por parte de mãe, ninguém envolvido com política, ninguém procuranto irmão preso nem assassinado, todos indo às festinhas locais, passeando nos shopping centres e se divertindo como jovens quaisquer. Nunca tiveram que ouvir de ninguém "seu tio era um exemplo", nem "eles são todos meio de esquerda, né?" Infelizmente eu não tive esse privilégio de ser de uma família qualquer. Eu venho de uma família de políticos, uma família cuja história, como eu falei, foi atravessada desde sempre pela história do Brasil, e é por isso mesmo, que eu detesto a política do Brasil. Eu gostaria que a história e a política do Brasil tivessem deixado a minha família em paz. E que o meu tio Paulo, que Deus o tenha, tivesse sido apenas um advogado qualquer.

3 comments:

RICKO said...

Eu entendo todas as tuas razões ... mas somos frutos do meio de onde viemos e sendo assim , talvez foi justamente toda esta história que te levou e te fez quem você é : um cara inteligente e sem maiores demagogias .

Boa semana !!!

;*

Beth Blue said...

Pois eu vou confessar uma coisa: adoro Che Guevara! E embora não tenha tido uma família de políticos como a sua (e sim uma família classe média baixa lutando desesperadamente pra continuar sendo classe média), minha família toda tem tradição de votar em partidos de esquerda. No mínimo trabalhistas. Há vinte anos atrás eu até votei em um candidato comunista, o Roberto Freire, lembra dele?

Ainda quer ser meu amigo? ;-)

Antonio Da Vida said...

Claro que eu quero ser seu amigo, que pergunta! :-) It´s a free country, after all... e além disso minhas amizades não dependem de política, e muito menos de um blog, felizmente, he he he... :-)
super beijo!