
Semana bastante intensa esta que está terminando, outubro e o outono chegaram com tudo, trazendo muita chuva e muito frio e também muito trabalho e muita dor de cabeça mas também muita conversa, muitas idéias e muitas reflexões. Na segunda feira tudo parecia muito cinza. Depois de um final de semana de sol e tempo bom, o tempo havia mudado, chovia muito, fazia frio, e para piorar, a perspectiva da semana não era nada animadora. Não somente tinha mais da metade da semana ocupada com um treinamento profissional de 3 dias, mas também tinha que arranjar o tempo necessário para preparar a minha documentação para um concurso, assim como também tinha que dar conta do meu trabalho normalmente. O meu atual chefe é um chato ranzinza, que é contra treinamentos e que estava fazendo tudo o que podia para que eu tivesse que cancelar os meus cursos. Só que eu não queria cancelar nada, porque considero todos os cursos interessantes para o meu desenvolvimento profissional, e estava genuinamente interessado em seguir todos eles.
Então a semana começou assim, eu entrando cedinho no trabalho e indo direto para a formação, e no final do dia tendo que ficar até mais tarde no escritório para poder adiantar o pouco que fosse possível das atividades do dia a dia. Além disso, enviando e-mails para todos os envolvidos possíveis no setor de Recursos Humanos e dentro do meu departamento, tentando vender o meu peixe e explicando a todos o porquê da necessidade dos meus treinamentos. E com os dias que passavam, eu ia me preocupando também mais com a falta de tempo para a preparação da minha documentação para um concurso do qual eu já passei pela primeira fase e portanto quero continuar tentando. Para piorar estava meio resfriado e portanto sem energia nem pique para a academia, acabei passando a semana inteira sem por os pés no ginásio e isso me tira do sério. O meu lado fútil começa a coçar, "vais perder a boa forma, vais perder a boa forma" e vai criando aquela culpazinha dentro da minha cabeça que só faz aumentar. Tenho que voltar a academia, não posso deixar a peteca cair, mas cadê o tempo se todo dia eu só consegui me desocupar, por um motivo ou outro, quando já eram 8 da noite e o estômago pedia comida?
No meio deste stress todo, combinei de ir tomar um café com a minha colega C., um amor de pessoa que foi a melhor coisa que me aconteceu nesse departamento novo onde estou trabalhando, pelo menos uma pessoa na mesma sintonia. C. tem 35 anos, é francesa, recém chegada a Bruxelas e no momento nem um pouco satisfeita com o trabalho, pois sente saudade dos tempos de ONG, e atividades mais concretas, e está estranhando a burocracia de Bruxelas. E mais, C. vem de Paris, e para quem vem de Paris eu imagino mesmo que deva durar um pouco até alguém se habituar com Bruxelas, ainda que a língua ajude. Pois bem, neste café da quinta feira acabamos batendo um papo bem legal, ela me contava de seu passado e sua família, e eu contava a história da minha vida, e de uma forma estranha porém eficaz acabamos nos consolando um ao outro em nossas vidas, ao ver que não somos os únicos a ter problemas e que nem tudo é tão difícil assim, pelo menos quando a gente aprende a enxergar a vida com outros olhos.
Eu diria que C está na fase "relógio biológico tocando". Quer um amor na sua vida, não tem ninguém no momento, também não está satisfeita com o trabalho, e portanto a desmotivação é latente. Em um momento das várias conversas que tivemos esta semana - o escritório dela é ao lado do meu e de vez em quando ela vem se 'esconder' na minha sala, quando está estressada - eu acabei me dando conta de que a felicidade pode ser relacionada ao amor, mas não necessariamente. Na verdade a felicidade é mesmo um sentimento interior, ou pelo menos a pre-disposição para a mesma. Pois que C me disse que a vida sem amor não tem graça nenhuma e nenhum sentido, e afinal de contas nós estamos aqui só pra trabalhar e nada mais??? Neste momento eu fui confrontado com a minha atual fase, um certo vazio na vida pessoal... mas me dei conta de que é um vazio que não me abala no momento. Não, C, nós não estamos aqui só pra trabalhar e nada mais, mas isto não significa que só nos resta a infelicidade se não temos amor em nossas vidas.
E eu fui pensando... se eu tivesse que colocar a minha vida atual na balança, mais insossa impossível. Tudo está ok no trabalho, mas sem grandes emoções. Amor, não tenho nada em vista e o mais perto que chego disso é ainda a minha relação mal resolvida com M que não ata nem desanda, até porque é assim mesmo que é para ser, uma coisa meio termo, um amor fraternal. Família longe, amigos tenho pouquíssimos e também todos longe, aqui não conheco quase ninguém e portanto acabo passando a maior parte dos finais de semana sozinho em casa me divertindo comigo mesmo. Nossa, eu poderia dizer, eu estou a um passo da depressão... e não é que não???? Olha, é claro que tem aqueles dias em que eu fico mais cabisbaixo, mas estou longe de uma depressão. E na maior parte do tempo, a verdade é que eu eu realmente aprendi a tirar a minha felicidade dos pequenos momentos agradáveis do dia a dia. Adoro o meu sábado de manhã, gosto de chegar no meu apartamento todos os dias depois do trabalho, e me satisfaço com o ambiente multi cultural e multinacional no escritório. Sei lá, acho que eu resolvi que já tenho problemas demais pra me preocupar, problemas reais e concretos, e que portanto simplesmente não tenho necessidade de ser infeliz, a vida já me traz sofrimento suficiente de qualquer forma.
Aprender a ser feliz assim, sem muito esforço e sem muita expectativa, essa felicidade tranquila e pacata que nem sequer parece felicidade (mas é) requer maturidade, e eu acho que é isso que está acontecendo comigo, estou ficando mais maduro. Estou aprendendo a relevar mais as coisas e a identificar melhor o que é prioridade e o que não é. Claro que ainda faço uma porção de bobagens, e há dias em que choro sozinho no meu canto... mas quando eu penso no número de dias que eu gastava antigamente com o deleite do meu próprio sofrimento, e o número de dias que eu gasto atualmente simplesmente me ocupando com alguma outra coisa, me dou conta de que realmente algo mudou dentro de mim, e mudou para melhor. Não é à toa que digo que eu acho que eu realmente não sou para casamento, essa história de morar junto pra mim não dá certo. Adoro a minha independência e a minha privacidade, e se queria sim ter alguém ao meu lado, não significa que eu queira ter alguém ao meu lado o tempo todo. Não mesmo! Curto muito o tempo que passo sozinho e atualmente eu raramente me sinto entediado com algo... sempre aparece em todo caso alguma atividade para fazer, por mais simples que seja, e eu vou a aprendendo a me contentar com tudo isso e a sorrir para a vida ainda que nem todo dia seja um dia de sol.
E com isso o meu humor foi melhorando e o stress foi diminuindo e eu me dei conta de que só conseguiria resolver os problemas todos com os quais a semana tinha me presenteado se não só eu os colocasse primeiro em uma ordem de prioridades, para me concentrar primeiro no que é mais importante e relevar o que pode ser relevado... mas também se eu fosse encarando os problemas um a um na hora necessária, e jamais tudo ao mesmo tempo agora, pois isto sim é a fórmula da infelicidade. E assim fui, matando um leão por dia e com calma e resignação e fui chegando ao final da semana, e não é que no final deu tudo certo? Eu consegui completar o curso desta semana, consegui garantir que os meus cursos futuros não serão cancelados, consegui trabalhar normalmente e consegui também preparar a documentação de que eu falava, está tudo pronto. E ainda tive boas notícias referentes à minha transferência para o meu departamento anterior, que eu gostava mais. E no campo amor, me dei simplesmente conta de que felizmente eu não sou C e sinceramente não preciso do amor para a minha felicidade, ainda que fosse desejável... e minha felicidade está no momento no amor que eu nutro pelos meus amigos, pela minha família, e principalmente no amor que eu nutro por mim mesmo e pela vida que consegui me construir, o trabalho que eu tenho, o apartamento onde moro, na qualidade dos contatos que tenho, e até mesmo a manutenção do meu contato com M que segue sendo muito importante para mim. Eu tenho amor próprio, e isso é o mais importante.
Meu final de semana vai ser calmo, tranquilo e pacato, assim como o anterior. Eu provavelmente não irei ver nenhum filme, não irei a nenhum concerto nem exposição, não comprarei nada, não irei a nenhum bar ou restaurante, não farei nada demais. Ficarei em casa, curtindo a minha santa paz. SE chover amanha, fico tranquilo em casa comendo os meus croissants e lendo o meu jornal. Ah, que felicidade!!!! A serenidade, esse é o nome da coisa, é que dá o sentido peculiar da vida, a vida sendo não uma busca ao amor nem ao sucesso profissinal nem nada disso, mas a vida sendo somente o que é, um punhado de momentos sucessórios, uns bons e outros nem tanto mas ainda assim válidos, pelo simples prazer de um café da manhã, uma conversa com amigos, uma torta de chocolate, um bom livro, ouvir Mozart, uma mensagem amiga no facebook, um passeio pela Grand Place, uma lembrança de viagem, o cansaço gostoso depois de um bom treino, o barulho gostoso da chuva sobre o telhado, ou o eterno prazer de dormir em lençóis de seda branca, que eu talvez não tenha, mas um dia ainda hei de ter. Não vai rolar beijo na boca, mas que eu vou rolar na cama, ah, isso eu vou sim.



1 comment:
Tudo na vida são fases ... eu por exemplo , ando na fase materialista . Preocupado com conquistas materiais , com a boa forma do meu corpo material , etc ... mas se parar pra pensar pq a obsessão com tantas conquistas , vou te responder que tudo isto é pra no fundo , bem lá no fundo , me preparar pra encontrar um grande amor ... e quando chegar lá , encontrar a verdadeira felicidade . Se é que ela realmente existe ... boa semana !!!
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