
Eu sempre assisto o noticiário por uma questão de gostar de estar bem informado, saber o que está acontecendo, etc. Mas na maior parte das vezes o noticiário é algo que acaba passando um pouco longe da vida cotidiana, a não ser que seja o jormal local, que eu raramente assisto. Assim temas como a explosão da bomba no Paquistão, a corrida presidencial nos Estados Unidos ou a crise financeira mundial vão passando um a um sem deixar muitas sequelas, pois sei que quase sempre a minha vida continuará igualzinha à que era antes do jornal. A Bélgica é em todo caso um país relativamente pacato onde nada de muito sério acontece, e mesmo quando o país atravessa a sua pior crise institucional da história - com um governo capenga que não consegue acertar o passo em tema algum, tamanha a divergência entre opiniões no norte e no sul do país - isso acaba não influenciando muito radicalmente a vida do cidadão comum, pois a estrutura administrativa continua funcionando normalmente. E mesmo os mesmos grandes acontecimentos europeus, como assinaturas de acordos entre os líderes da Europa e coisas assim, que acontecem sempre aqui, não mudam muita coisa no dia-a-dia direto de ninguém, a não ser talvez o trânsito bloqueado na área em torno da rotonda de Schuman, onde ficam as sedes da Comissão Européia e do Conselho da UE.
Pois bem, mas esta semana foi um pouco diferente. Esta semana eu senti o bafo da crise financeira mundial nas minhas costas bem de leve, e o noticiário bateu na minha porta. Isso porque um dos bancos que está no momento correndo o risco de ser arrastado pelo crise é um dos maiores bancos belga, um gigange financeiro belgo-holandês. Que m! Eu tenho conta no banco e minhas excassas economias estão lá. Deu um medo na sexta feira quando de repente todo mundo começou a falar do banco, que o banco ia cair, o banco ia cair, e a onda de rumores foi tanta que as ações do dito cujo acabaram mesmo caindo 20% na bolsa de valores de Bruxelas. Isso levou o governo belga a tomar um medida também histórica, a cúpula máxima do governo teve que se pronunciar formalmente dizendo que o governo belga não deixará o banco falir e que mesmo se isso viesse a acontecer, o governo garantiria o dinheiro de todos os cidadãos clientes do banco. Isso porque esta banco é considerado uma das molas propulsoras da economia belga, com até um terço de todos os créditos do país depositados ali. Uma falência de um banco deste porte significaria uma bomba na economia belga, e isso o governo não pode deixar acontecer. Então eu posso ficar tranquilo que o governo belga não vai deixar ninguém na mão no caso de uma queda do banco? Aparentemente sim, não há o que temer. Mas que deu medo, deu.
E assim a gente vê que alguns temas estão mesmo mais perto de nós do que a gente pensa. Assim como a mudança do clima. Eu acho que talvez no Brasil isso ainda não se sinta de maneira tão evidente como na Europa. Aqui desde já alguns anos os verões têm sido mais chuvosos que de costume, mas quando esquenta, as temperaturas também sobem mais do que o normal. Além disso, as meias estações e os invernos têm sido mais suaves que antigamente. Atualmente neva muito pouco no inverno em cidades como Paris, Bruxelas e Amsterdam, e durante grande parte da primavera e do outono, o tempo é melhor e mais quente que o esperado para a época do ano. Agora por exemplo estamos já no outono, mas com um clima que está mais com cara de primavera do que de outono, com um sol forte e uma temperatura agradável. É claro que quando está assim, ninguém reclama. Mas o inverno vai chegar e as pessoas vão se lembrar mais uma vez que antigamente tinha-se mais neve e menos chuva, mas hoje em dia é só chuva, chuva e mais chuva. A ver o que vai acontecer este ano. Eu pessoalmente acredito que a mudança do clima e a crise energética é o problema mais grave que a humanidade enfrenta no momento, porque se não forem tomadas medidas sérias estamos realmente comprometendo as gerações futuras. Eu não entendo alguém que não tenha filhos não se preocupar com isso. Mas a maior parte das pessoas finge que não vê o problema. Eu não tenho carro porque sou contra o uso de automóveis e além disso não gosto mesmo de dirigir. Vivo a minha vida a pé ou no transporte público e isso nunca foi problema para mim. Mas noto pelas manhas quando vou ao trabalho, o engarrafamento nas principais avenidas da cidade: a maioria dos carros, mais de 90%, ocupados por apenas uma pessoa. Eu acho simplesmente que isso deveria ser proibido. O acesso ao centro deveria ser restringido a carros com no mínimo duas pessoas, para obrigar todo mundo a economizar energia, a poluir menos o ar e a mudar de hábito. A mudança de hábito é indispensável para a salvação do planeta, mas muita gente ainda não quis se dar conta disso.
Outro problema, esse um problema essencialmente europeu, é a crise demográfica. A Europa é um continente de adultos e idosos, e poucas crianças. A maioria da população está na minha faixa etária. O índice de natalidade na Europa é baixo, os casais hoje em dia não querem mais ter tantos filhos e muitos optam por apenas um filho ou nenhum mesmo. Os governos europeus arrancam os cabelos anunciando que no futuro próximo estaremos todos sofrendo as consequências desta baixa natalidade européia, porque ao entrarmos em idade de aposentadoria simplesmente não haverão adultos sufiicentes para pagar com os seus salários e impostos as nossas pensões. É um problema sério, mas tenho a impressão de que os governos europeus também não querem ver o óbvio: que se os casais hoje em dia não querem mais ter filhos, é simplesmente porque é caríssimo hoje em dia criar e educar uma criança com um mínimo de decência e propiciando um futuro digno a essa criança. Como na Holanda, onde a maior parte das mulheres opta pelo trabalho a tempo parcial depois de terem filhos, levando a Holanda a ter a menor taxa de trabalho feminino em tempo integral na Europa Ocidental. Mas de novo, o governo reclama que as mulheres têm que aumentar a participação no mercado de trabalho, mas não querem admitir a causa do problema: as creches na Holanda são caríssimas e acaba sendo mais barato para a maioria das famílias se a mulher abre mão de alguns dias de trabalho para ficar em casa cuidando pessoalmente dos filhos. Creche na Holanda é quase um luxo. Neste sentido eu acho certíssima a política sueca neste sentido. Eles têm a mais longa licença maternidade na Europa, de até um ano, e para o pai também. E depois deste ano, as próprias companhias suecas são obrigadas a providenciar a creche para os filhos de suas funcionárias. Resultado: a participação feminina no mercado de tabalho sueco é uma das maiores na Europa, assim como a taxa de natalidade. A Suécia é um dos poucos países europeus que não terão que atravessar a crise demográfica daqui a uns 20 ou 30 anos, porque já tomaram agora as medidas necessárias para contornar o problema. Ponto pra Suécia.
Daí há o problema da imigração, a aí a política européia, causada principalmente (no meu ver) por demagogia barata "ganha eleiçao" é de um esquizofrenismo maluco. A Europa precisa de imigrantes exatamente para contornar o problema da crise demográfica que ameaça o futuro das nossas pensões. Só que uma análise mais profunda vai mostrar que o que a Europa precisa é na verdade de uma política de imigração seletiva, como há por exemplo no Canadá e na Austrália, que facilitam a entrada de gente jovem e bem preparada, porque são estes que poderao mais facilmente e rapidamente se incorporar à economia e contribuir com o próprio trabalho na contrução das pensões do futuro. Mas para o europeu médio working class que mora no subúrbio dividindo a rua com a família de imigrantes do outro lado da rua, falar abertamente em 'facilitar a política de imigraçao' é como um tiro no peito. Então este é um tema proibitivo, infelizmente. Infelizmente porque bastava educar corretamente a populaçao para as vantagens da imigração bem coordenada para aue se aumentasse a taxa de aceitação da mesma, e a partir daí tomar as medidas necessárias neste sentido. Mas o 'calor' to tema acaba condenando qualquer medida neste sentido à cesta de lixo, impedindo a resolução do problema demográfico. Jovens latino americanos e asíaticos bem preparados acabam indo parar na América do Norte ou na Oceania, mas desistem da Europa ao ver a barreira que têm que atravessar pra conseguir o visto. E enquanto isso, as populações pobres vindas da África, que não têm nada mesmo para perder porque não têm de qualquer jeito nenhuma perspectiva de futuro nos países de origem, acabam vindo pra Europa de qualquer forma, e se sujeitando à vida na ilegalidade e no subemprego, porque na ótica deles afinal de contas, um subemprego na Europa é mil vezes melhor que o desemprego no Congo. Entao estes continuam a vir em todo caso, aumentando as taxas de imigração ilegal dentro da Europa, aumentando as taxas de população imigrante nos subúrbios, e consequentemente aumentando a ojeriza dos Europeus médios à imigração em geral. Enfim, um ciclo vicioso. A União Européia até tentou lançar recentemente um tipo de "blue card" equivalente ao greencard americano, para facilitar o visto de trabalho a imigrantes bem qualificados, mas foi torpedeada pela maioria dos governos nacionais, por motivos eleitoreiros, é claro. Varrer o problema pra debaixo do tapete é sempre mais fácil.
Quer saber de uma coisa? Deixa o noticiário de hoje pra lá, eu vou é ver um dos documentários de arte no canal franco-alemão ARTE. Adoro esse canal, só fala de arte, cultura e história. Quem dera o mundo fosse assim. Cheio apenas de pessoas inteligentes, interessantes, e com algo pra contar. Acho que metade dos problemas da humanidade estaria solucionado, se pelo menos a humanidade fosse um pouquinho mais esclarecida a respeito do mundo e de si mesma. Mas infelizmente não... zé ninguém é ignorante mesmo, seja em Guarulhos, no Queens ou no Bourget. Eu fico impressionado por exemplo com as baixas taxas de comparecimento às urnas na Europa. As pessoas reclamam, reclamam, mas quando chega no momento de votar, único instrumento que é dado ao cidadão para que possa se fazer exprimir e tentar mudar algo, a maioria prefere ficar em casa. E não adianta dizer "ah, todos os politicos sao iguais e nada vai mudar mesmo" porque quando não se vai votar, aí que não muda nada mesmo, entao estão reclamando de quê? Mas não adianta, o bicho homem é assim mesmo. E no final todo o mundo paga o pato por todo mundo. Eu tenho certeza de que do jeito que a coisa vai, quando chegar a minha vez, não existirá mais o sistema de pensões como o conhecemos hoje e eu terei que trabalhar até a morte. Mas pelo menos acho que vou morrer antes das reservas de petróleo acabarem. Ainda bem, não quero estar aqui pra ver o que vai acontecer, nem como o mundo estará. E felizmente não terei filhos, portanto, a la Brás Cubas, não transmitirei a ninguém o legado de nossa miséria.



2 comments:
Pois é. Mas eu tenho filhos, três,e me preocupo com todas estas questões acima. Me preocupo com o aquecimento global, fico irritadíssima com pessoas que estragam papel a torto e a direito como se o papel não viesse de uma árvore a menos na Amazonia. Também sou daquelas que fecha a torneira quando escova para não gastar água e acho que todo mundo deveria aposentar banheiras que gastam litros e litros de água em minutos. Mas sou consciente de que uma andorinha só não faz verão e aqui no norte do Brasil a conscientização de que não se pode desperdiçar essas coisas ainda passa longe...
Já repararam que as grandes potências se unem para garantir a estabilidade financeira mundial é claro em detrimento dos ditos poderosos, e que estas grandes quantias de bilhões dariam para resolver muitos, mas muitos problemas no nosso pobre planeta?!!!
Pois é, isso aqui realmente é terra de provações e expiações.
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