Tuesday, September 2, 2008

Twanna e a cidade


Hoje eu queria escrever sobra a minha amiga Twanna, a autora do Funky Brown Chick (cujo link pode ser encontrado aí do lado da tela). Li em seu blog um post bastante interessante sobre "dating in NYC", que me fez pensar um pouco sobre essa coisa complicada, desejada e temida chamada "relacionamento". Deixa eu explicar. O blog da Twanna é basicamente sobre os encontros e desencontros dela em sua vida de solteira em Nova York, mais ou menos como uma Sex and the City versão black power. E ponha power nisso, pois Twanna é uma das garotas mais carismáticas e assertivas que eu conheço, daquelas que prendem a tua atenção do momento em que você a conhece até a hora em que ela vai embora. Fala pelos cotovelos, ri alto como uma criança, fala o que pensa (bom, quase, Twanna é americana e os americanos sempre enrolam um pouco) e vive a vida que escolheu.

Eu conheci a Twanna em Setembro do ano 2000, quando ambos éramos alunos da Universidade de Amsterdam, ela fazendo o seu mestrado em Ciências Sociais, e eu fazendo o meu mestrado em Relações Internacionais. Fomos colegas de classe na turma de Introdução às Ciências Sociais, mas o que nos aproximou mesmo foi o fato de sermos também colegas nas aulas noturnas de holandês básico, que frequentávamos duas vezes por semana e que eram ofertadas pela Universidade. O problema é que a maioria dos alunos na classe eram alemães ou germânicos em geral (suecos, dinamarqueses, noruegueses, etc), de forma que o holandês para eles era praticamente como o espanhol para nós falantes da língua portuguesa: uma enroladinha na língua e eles já saíam falando. Ao passo que eu e Twanna, que sentávamos lado a lado, não conseguíamos entender nada, para desespero nosso e da professora, e em função de nosso rebaixamento circunstancial à posição de "os lerdos da classe", acabávamos por dar gargalhadas em plena sala de aula, para suplantar o constrangimento da situação. Acabamos ficando bastante amigos, e eu me lembro inclusive que um dia me armei de dedos pra explicar para ela que eu era gay, e depois da "revelação", ela reagiu da forma mais banal possível, dizendo algo como "Era essa a novidade? Até parece que eu não sabia, todos os meus amigos são gays, ora bolas!"

Depois com o tempo acabamos nos afastando, ela tinha um namorado holandês na América e quando ele voltou pra Holanda a gente acabou se vendo cada vez menos, o que é natural. Um dia eu pedi carona para ir ao casamento de uma amiga que tínhamos em comum, mas o namorado dela encrencou, e eu acabei ficando sem carona, e perdi o casamento. Depois ela pegou um cd meu emprestado, era o meu cd favorito, do João Gilberto com o Stan Getz, e se esqueceu de devolver, e eu fiquei chateado, e ela acabou voltando para os Estados Unidos, e meio que perdemos o contato. Até que um dia eu a reencontrei no Facebook, e reatamos o contato, e para mim foi uma agradável supresa saber que ela continuava a mesma Twanna alegre de sempre, e de quebra que não estava mais com o namorado holandês chato, he he he. Aliás deixa eu dizer que para mim o que há de melhor nesses sites de amizades virtuais como Facebook e Orkut não são as amizades virtuais em si, que no meu caso quase nunca fluem (se nem os meus amigos reais eu procuro numa regular basis, o que dirá dos meus pobres amigos virtuais), mas a possibilidade de rencontrar aqueles que um dia já fizeram parte de sua vida.


Pois bem, e foi através do perfil dela no Facebook que eu fiquei também sabendo que ela é a autora deste Funky Brown Chick, um blog sobre seus encontros e desencontros em NYC e que inclusive é parte de algumas revistas eletrônicas norte americanas. Legal, Twanna sempre gostou mesmo de escrever e de falar sobre relacionamentos, então acho que ela está no elemento dela quando escreve nesse blog, que tem umas tiradas bastante engraçadas de vez em quando. Neste último post ela nos conta como a cidade de Nova York está matando a sua vida amorosa, no sentido de que é fácil conhecer gente, mas é dificílimos você realmente "conhecer" alguém pra valer em Nova York, seja no sentido bíblico ou no sentido literal mesmo. Conhece-se uma porção de gente, transa-se menos, e envolve-se nunca. Então no final das contas as possibilidades que uma cidade como Nova York oferta são na verdade ínfimas. Paradoxal?


Daí eu fiquei pensando, mas não é mais ou menos assim em qualquer grande cidade do mundo? Parece que ironicamente, quanto maior a oferta, menor a capacidade que temos de encontrar alguém. As grandes cidades nos oferecem uma série de opções de emprego, lazer, diversão, estilos de vida, e gente para se conhecer. Tem de todos os tipos, cores e tamanhos. Só que a gente acaba conhecendo uma porção de gente, mas não se envolve com ninguém. Eu tinha o mesmo problema em São Paulo, onde em seis anos de moradia na cidade só consegui ter um único namoro que tenha durado mais de três meses. Bom, pode ser que tenha sido incompetência ou imaturidade minha também, mas o fato é, que eu fui embora de São Paulo com a nítida idéia de que uma cidade daquele tamanho te dá todas as opções de vida que você queira, menos a de um relacionamento longo e estável, exatamente pelo mesmo motivo, excesso de opção. A gente se acostuma a ciscar, ciscar, ciscar, e acaba não se decidindo nunca por ninguém.


Fui para Amsterdam, que é uma cidade bem pequena. Mas Amsterdam é uma cidade à parte, é uma cidade turística onde os estrangeiros chegam e saem com a mesma frequência que os ponteiros de um relógio se movem. E neste sentido, ela acaba funcionando como uma cidade grande também. Há excesso de oferta, e por isso mesmo ninguém se apega a ninguém por mais de três semanas. Três semanas, este sempre foi para mim a barreira intransponível. Quando passava de três semanas, a coisa ia em frente... só que nunca passava de três semanas. O fato é que em seis anos de vida na Holanda, eu só tive aí um único relacionamento duradouro, com J, que durou quase três anos (e hoje em dia penso, que perda de tempo!!!!), e acho que só durou tudo isso porque ele não era de Amsterdam, e por isso passamos quase que a metade deste tempo todo morando separadamente, ou juntos na pacata e esquecida Leeuwaarden, lá onde o gato perdeu as botas e morreu de frio. O dia em que fomos morar juntos em Amsterdam, foi o dia em que a coisa começou a degringolar. Excesso de distração. Paciência, mas hoje em dia eu dou graças a Deus, he he he...


Daí na Holanda conheci M, e depois de um ano de namoro, namoro aliás que sempre fora um tanto, digamos, conturbado, resolvemos ir para a Espanha e inauguramos o inferno astral de nossas vidas. Hoje em dia eu penso, que na verdade tanto sofrimento acabou por fortalecer a relação, mas de uma forma um tanto estranha, porque fortaleceu nas bases erradas, e foi por isso que acabou ruindo tudo no final de qualquer jeito... as bases estavam erradas... e da Espanha viemos para a pacata Bruxelas, tentando colar os caquinhos, e aqui, isolados e esquecidos, até que estávamos fazendo a coisa andar, ainda que capengando, até que fomos para o Brasil e deu no que deu. O Rio de Janeiro no verão não é uma cidade para casais em crise. Mas paciência. Depois de um período de bastante turbulência, de histeria e convulsão, não é que no momento eu e e M estamos nos dando razoavelmente bem? Esfriamos a cabeça e resolvemos dar a vez à boa vontade. Sei lá se é amizade, brotherly love ou história mal acabada, mas o fato é que, se não posso dizer que tenhamos reatado, o que não é verdade e até porque não sei nem dizer se seria essa a nossa intenção, o fato é, que estamos numa boa, do jeito em que estamos, eu na minha e ele na dele. Almoçamos juntos, conversamos, fazemos planos de viagem. Tudo civilizadamente (incrível!!!). E enquanto isso Twanna está lá em Nova York conhecendo uma porção de gente e ao mesmo tempo não conhecendo ninguém.


E aí eu me pergunto, será que Bruxelas tem algo a ver com isso? Olha, temo que sim. Bruxelas é como Belém, a minha cidade natal, pacata e tediosa por excelência. Aqui não há nada para fazer, e ninguém para conhecer. Bruxelas já foi votada a capital mais chata da Europa, e temo que seja verdade. Então no final acho que a gente acaba se atando às formulas já conhecidas, e cada um sabe onde lhe dói o sapato. Talvez se vivêssemos em Paris ou Londres as chances de um reencontro amigável seriam ínfimas, ainda que quiséssemos. Porque nestas cidades se você quiser, pode ter um encontro a cada noite, então pode-se ficar tentando, tentando, tentando, e não se desiste nunca, porque amanhã tem mais. E aí aquele encontro "X" pode ser eternamente protelado, e assim a coisa vai. Já aqui em Bruxelas a coisa é diferente, aqui não há quase distração nem motivos pra olhar para os lados, e por isso a gente acaba se dando conta de que 1+1=2 e já está de bom tamanho. Assim como em Belém, onde quase todas as pessoas que eu conheço da minha idade estão casadas. Resumo da Ópera: encontrar ou desencontrar alguém depende muito sim do lugar onde você está morando, mas talvez da forma oposta à qual nos habituamos a pensar. E isso seja em Manhattan, Ipanema ou no bairro de Nazaré.

4 comments:

RICKO said...

Querido Antonio ,

Não acredito muito nesta sua teoria ... não pra mim . Até porque eu só me envolvo quando acho que tem chance de dar certo ( a maioria das vezes não deram ) e quando isto acontece , eu posso estar em qualquer cidade do mundo que apenas uma pessoa se torna o foco da minha atenção . Mas de maneira genérica , como nem tudo são flores , as pessoas mantém o hábito de estar com um olho no queijo e o outro no rato .
Então vc tem razão quando acha que em cidades maiores tudo é sempre um pouco mais complicado .

Mesmo assim gostei do seu novo texto ... aliás , amigos virtuais são muitas vezes melhores que os reais , pois não criamos expectativas em relação ao outro ... se vc não for legal comigo , eu simplesmente deleto .

Talvez isto torne as amizades virtuais mais verdadeiras . Só precisa ser vc mesmo ... não precisa impressionar ... como diz um amigo virtual chamado NUCOOL , aqui esta a nova face das relações interpessoais .

;*

Antonio Da Vida said...

Oi Ricko,
Eu não sou o dono da verdade, nem quero! Aqui eu coloco apenas a minha opinião... mas todo mundo tem o direito de discordar, ok? :-)
XX/A

Beth Blue said...

Bom, eu também não sou dona da verdade mas não acredito muito nessa sua teoria de relacionamentos não.

Claro que nas cidades grandes existe maior oferta, mas essencialmente acho que tudo depende de uma predisposição interna para se relacionar e não de uma coordenada geográfica. Quando a gente escolhe entrar num relacionamento a fundo, a gente também escolhe abrir mão de outras escolhas...Pelo menos numa relação monogâmica é assim, desculpe-me se estou sendo careta mas nunca gostei dessa estória de relacionamento aberto. Relacionamento pra mim tem de ter dedicação de ambas as partes e vontade de dar certo, também de ambas as partes!

Minha experiência neste ponto é bem distinta da sua, mas também tenho minhas dúvidas e não são poucas!!! rsrsrsrs

Andrea Drewanz said...

É Antonio, acho que encontrar uma pessoa legal para um relacionamento estável, independe de onde vc esteja geograficamente. Se as "ofertas" são muitas e não deixam você se dedicar a uma só pessoa é pq esta pessoa não significa muito para vc.
Quando você conhece aquele que faz seu coração bater mais forte, em ritmo acelerado, não tem vizinho, amigo, conhecido, ou estranho que tire vc do rumo...
E você percebe que se perder aquela pessoa, não tem outra para substituir!
Pelo menos comigo foi assim e ainda está sendo. (sou romântica, mesmo, não tem jeito!)

O lance é saber aproveitar e detectar as boas ofertas/oportunidades e não deixá-las escapar, pq pode acontecer de elas não voltarem nunca mais.

Bjssss