
Piorei do resfriado, que m...! Achei que estivesse melhorando, que nada... o final de semana não fora suficiente, e eu tive que ficar os últimos três dias de molho em casa, me recuperando. Detesto ter que ligar para o trabalho e dizer que estou doente. Tem gente que gosta de ficar doente em casa pra não ter que ir trabalhar, eu sei; sinceramente, não é o meu caso. Eu tenho mania de culpa, e para mim ter que ligar para o trabalho para dizer que infelizmente eu não tenho condições de me apresentar é uma tarefa dificílima, eu sou Caxias mesmo pra essas coisas... eu me sinto culpado por estar doente e portanto só não vou quando realmente não dá. E na terça feira passada realmente não dava, eu acordei com uma baita dor de cabeça e febre, então tive que entregar os pontos. Felizmente acho que tomei a decisão certa, eu estava precisando mesmo de uma trégua. Agora já estou bem, e pronto para voltar ao trabalho amanhã. O meu corpo estava precisando de repouso.
Se nos dois primeiros dias deste meu intervalo de folga forçada eu tive que ficar mesmo deitado, hoje eu já me sentia melhor, e aproveitei o tempo livre para cuidar um pouco da minha casa, que eu tinha deixado meio de lado. O apartamento até que estava mais ou menos em ordem. O espaço aqui é pequeno então uma faxinazinha básica já dá conta do recado, e no mais eu tenho a tendência de ser mais organizado que desorganizado então a minha bagunça nunca é das piores. Já estive em casas que fariam o meu apartamento parecer um show room de perfeição. O meu fraco não é a falta de organização, mas sobretudo a preguiça para qualquer tarefa doméstica. Eu realmente não nasci para ser dono de casa, eu não tenho paciência alguma com tarefas do lar, acho tudo muito chato e além do mais não tenho muita prática no assunto. Culpa da cultura brasileira que não deixa menino cuidar da casa e deixa tudo pra pobre da empregada. Eu fui neste aspecto muito mimado e mal habituado no Brasil, eu cheguei na Europa há oito anos atrás sem saber cozinhar um prato decente que fosse, e nunca na minha vida tinha limpado um banheiro. Olha, falem o que falar, mas eu sou honesto: ai que saudades que eu tenho das mordomias que eu tinha no Brasil.
Também aproveitei estes dias para um breve reencontro com uma das minhas paixões antigas, o cinema. Não o cinema real, da sala escura e tudo, pois afinal de contas eu tinha que ficar em casa, mas o cinema possível, do dvd daqui de casa. Melhor que nada... quando eu era adolescente eu era ávido por cinema, assistia a todos os filmes, lia todas as resenhas, sabia tudo o que estava rolando, me interessava por diretores novos, roteiristas, cinematógrafos, eu era ligado mesmo em cinema. Daí um dia a minha mãe me falou que um dia isso ia mudar, que eu ia deixar o cinema de lado, assim como tinha acontecido com ela. Eu pensei, "claro que não!", mas vejo hoje em dia que infelizmente ela tinha razão. A verdade é que quando a gente trabalha full time e ainda tem que cuidar da casa nos finais de semana, e principalmente depois dos 35, acaba faltando pique pra ir ver tudo quanto é filme. Sei lá, eu fui ficando não apenas mais seletivo, mas também mais preguiçoso mesmo, e se antigamente uma crítica boa ou um elenco interessante eram suficientes pra me fazer sair de casa, hoje em dia eu só vou ao cinema quando acho que o filme em questão vai realmente me trazer algo em termos de puro deleite cinematográfico, conhecimento, cultura geral ou reflexão. Ver por ver já não faz mais a minha cabeça, e na maioria das vezes eu acabo preferindo ficar em casa lendo um livro, navegando na internet, ouvindo música, ou simplesmente descansando. Mas enfim, eu estava em casa sem ter o que fazer, me recuperando de um resfriado, com tempo de sobra e apenas a duas quadras de uma locadora, então mandei ver. Eu assisti a 5 filmes nestes últimos dias, todos bem diferentes um do outro, mas todos na mesma linha "sempre quis ver, nunca tinha conseguido".
O primeiro filme foi de André Techiné, "Les Temoins", com a bela Emmanuelle Beart, uma de minhas atrizes francesas preferidas (eu acho que já devo ter escrito a respeito do fato de que eu adoro todas as atrizes francesas, acho que elas têm um charme todo especial, de Catherine Deneuve a Ludivine Sagnier). É a história de um grupo de amigos cujas relações são atravessadas pelo início da epidemia de aids na França no começo dos anos oitenta, quando a praga ainda matava sem piedade não só na África mas também aqui na Europa. Muito bom filme, e o tema, embora pesado, é tratado de uma maneira bem leve pelo diretor, o que facilita sem dúvida alguma o acompanhamento da trama. Gostei, mas reconheço, é para mim um assunto difícil de lidar. É o tipo de realidade com a qual eu prefiro não ter que ser confrontado. O mundo em que vivemos é tão cheio de mazelas... é mais fácil e cômodo viver na ignorância.
Depois assisti também ao épico "Elizabeth, the Golden Age", a continuação do filme "Elizabeth", de alguns anos atrás, com Cate Blanchett, sobre a vida da Rainha Elizabeth I da Inglaterra. Produção tipicamente norte-americana: muito bem feita, belos cenários, belos figurinos, bela fotografia, e personagens totalmente maniqueístas. Elizabeth é a boazinha que luta pra se fazer respeitar, Walter Raleigh é um pirata do bem e garanhão, e os espanhóis são os vilões que traíram a coitada da Mary Stuart pra poder atacar a querida Inglaterra. Ah, tudo bem, será que alguém vai mesmo ao cinema ver um filme destes esperando fidelidade histórica, perspectiva crítica dos acontecimentos e nuances de caráter? Valeu a diversão, gostei.
Assisti também ao desenho animado 'Ratatouille". Adorei. Peguei no vídeo meio que por falta de coisa melhor, e porque todo mundo tinha me falado bem do filme, mas eu geralmente não sou muito chegado em desenho animado. Mas reconheço, o filme é de uma qualidade superior à maioria dos filmes, digamos, "de gente de verdade". A história é boba, é claro, afinal de contas estamos no mundo da Disney, mas é absolutamente envolvente o mundo da culinária francesa. E eu posso não gostar de cozinhar, mas quem disse que eu não gosto de comida? Achei o filme delicioso, dentro das limitações próprias a um desenho da Disney. E também um espetáculo visual, pois a representação gráfica de Paris é perfeita. Eu assisti ao filme na versão francesa, o que no meu ver tornou o filme ainda mais autêntico.
O quarto filme da série foi a divertidinha comédia francesa L'invité, com a engraçada Valérie Lemercier e o menos engraçado Daniel Auteuil. Eu tenho uma implicância com o Daniel Auteuil porque acho que ele está muito aquém do sucesso todo que ele faz no cinema francês e eu realmente não entendo como pode ser que ele nunca sai de cartaz. Aliás eu entendo: na minha modesta e medíocre porém honesta opinião, o cinema francês peca pelo excesso de talentos femininos e a franca excassez de talentos masculinos. Eu não aguento mais ter que ver mais um filme com Daniel Auteuil, Gerard Depardieu ou François Cluzet. Por Deus, encontrem caras novas!!! Mas enfim, paciência. Olha, até que L'invité é engraçadinho sim e o Auteuil dá conta do recado direitinho nesta comédia bobinha e despretenciosinha que quebra o galho de uma tarde sem ter o que fazer numa boa.Enfim, quatro filmes bons, mas nenhum que me fizesse pensar: "puxa, eu deveria ter ido ver este filme no cinema!!!". Até que eu abri a última caixa que me aguardava. Era "In the Mood for Love", de Wong kar Wai, a história de um quase-adultério na Hong Kong dos anos 60. Um quase adultério porque os personagens principais, eles próprios vítimas do adultério mútuo de seus cônjuges na trama, não conseguem concretizar o próprio desejo (ou se conseguem, isso não é de forma alguma clarificado), nem as próprias decisões. Tudo fica na vontade, nas premissas, no pode-ser-que... nada é concreto, nada é afirmado, tudo é sutil e volátil, volátil como as cortinas vermelhas que voam com o vento, sutil como a bela e sensual trilha sonora que acompanha as cenas mais marcantes. In The Mood for Love é puro cinema, seja na convincente interpretação dos atores principais, na beleza das imagens e sons ou no ritmo descompassado da narrativa que vem e que vai, como que para nos fazer mostrar que não estamos indo a lugar algum, que tudo vai ficar ali, no mundo da vontade, até ser enterrado como um segredo. In The Mood for Love me fez ter vontade de voltar ao cinema. Pena que eu perdi esse filme!



6 comments:
Eu acho o Daniel Auteuil a cara do tio Edgar,kkkkkk... Quer ver, repara...
Wong kar Wai é um dos meus diretores favoritos . Aliás o cinema chinês de um modo geral , é um dos meus favoritos ... mas entendo quando vc fala que depois dos 30 , não vamos mais ao cinema por qq motivo . Hoje em dia , a não ser que a ansiedade não me permita esperar , eu não vou ao cinema por nada deste mundo . Nem no UNIBANCO que eu adoro .
E se cuida , hein ??? Depois dos 30 não é só a preguiça de ir ao cinema que ataca ... a baixa resistência para altas baladas seguidas tb .
;*
Pois é cara se cuide gripe é muito ruim, alimente-se bem de hora em hora , se pegou gripe é porque o organismo está fraco.
Quando puder assista um antigo filme chamado "All This And Haven Too", "Tudo isso e o Céu Também", com Bete Davis e Charles Boyer, é muito interessante eu gostei muito, vale a pena.
good you saw so many movies.. may be I should do the same ...M
Eu amei In The Mood for Love, aliás o diretor é um dos meus favoritos atualmente. E Ratatouille é mesmo uma graça, não tem como não gostar!
E sim, eu também gostaria de poder ir mais ao cinema do que antigamente, mas com filho em casa, e trabalhando aqui e ali pra pagar as contas fica difícil. C´est La Vie :-(
Gostei da sua "resenha" do filme de Wong Kar Wai. Já ouvi falar dele, mas ainda não consegui assistir nenhum filme.
Vou procurar ver se já chegou por estas bandas. Tomara que eu dê
sorte. Fiquei bastante curiosa!!!
Bjs
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