
Depois de uma semana em Ibiza eu já estou bronzeado, feliz e cansado. Eu diria que, assim como o Brasil na opinião de Tom Jobim, Ibiza também não é uma ilha para iniciantes. Mesmo quem vai com o intuito de não fazer outra coisa que não seja descansar, acaba entrando na roda da vida festeira e noturna que toma conta do lugar, e se não prestar atenção para a saúde e para os bolsos vai voltar pra casa com um par de olheiras a mais e muitos euros a menos. É preciso ter uma boa dose de auto controle para segurar a onda em um local para o qual a maioria das pessoas vai exatamente com o intuito de se desgarrar. Não é à toa que um dos meus amigos locais, P, belga de nascimento e ibicenco de adoção, me repetia vez por outra: "Ibiza, c´est une île des fous". Ibiza é uma ilha para loucos. Loucos de todo tipo, ávidos por prazer e diversão. E quem vai dizer que estão errados, neste mundo sórdido em que vivemos? Viva o hedonismo, deixe os problemas do lado de fora, deveria ser esse o slogan de recepção no aeroporto local.
Eu até que achei a ilha no meu dia-a-dia mais calminha, se comparada com as histórias que me contaram. Histórias de outros tempos, tempos em que Ibiza era conhecida pelas after parties, públicas ou privadas, e onde viver até o último limite era a via de regra. Tempos em que os vôos de ida traziam jovens alegres e saudáveis, que voltavam alguns dias depois para seus destinos de origem completamente acabados depois de várias noites sem sono e várias doses a mais... tempos em que festas homéricas eram organizadas em alguma das dezenas de mansões locais, e onde o pozinho branco era servido em bandejas de prata como aperitivo, em quantidades, digamos, bastante generosas. Isso sem falar nas sex parties na beira das piscinas...
Eu não cheguei a ver nenhum destes excessos, talvez os tempos tenham mesmo mudado e Ibiza já não seja mais a mesma. Ainda assim, fui informado enquanto eu estava lá de um jovem de 33 anos que havia estado na ilha duas semanas antes da minha chegada, e que depois de 24 horas de festa ininterrupta, passou mal, mas recusou a ambulância que o clube onde estava lhe havia providenciado. Voltou para o seu hotel, foi para o seu quarto, se deitou, e morreu ali mesmo, horas depois, de overdose. Como tantos outros, havia exagerado na dose de ghb, a party drug mais em voga na ilha no momento, cujo consumo é largamente difundido nas chamadas festas do circuito, e que se tomada com cautela é quase inofensiva, mas quando misturada ao álcool pode ser fatal. Erro de cálculo, pode-se dizer.
Um erro que certamente não é cometido por profissionais da noite como A, um inglezinho do bem que eu conhecera na ilha. A é bonito, simpático, e divertido, e estava na ilha pra se divertir, assim como todo mundo. O que me chamou a atenção em A foi a rapidez em que ele trocava de par. Eu sempre o via no início de uma festa, e ele já estava com alguém, e ao vê-lo de novo mais ao final da festa, ele já estava com outro. No dia seguinte, quatro horas da tarde, e lá estava A, na beira da piscina, já com um terceiro, e dividindo uma dose de ghb, ali mesmo, no deck, sob o sol e o olhar de todos, sem problema algum. Porque em Ibiza, ninguém se importa, pois todo mundo ali já viu e já fez de tudo. É, quando só se tem uma semana na ilha, é imperativo saber aproveitar o tempo ao máximo.
Excessos e peculiaridades à parte, a verdade é que depois de uma semana de Ibiza eu já estava feliz e satisfeito, mas também já meio que pronto para ir embora, pois todos sabemos que paraíso na Terra não existe, e o quanto mais teimamos em reinventar o paraíso, mais Deus nos faz lembrar no final de que comemos a maçã e fomos expulsos. Eu não queria ser expulso do paraíso, então antes que isso acontecesse, tratei de providenciar a minha volta por conta própria. Mas antes disso, queria curtir um último final de semana, e assim o fiz. Paguei uma amarga quantia para trocar meus bilhetes e esticar a minha permanência na ilha por 48 horas, apenas o suficiente para aproveitar mais dois dias de sol na piscina com direito a uma vista espetacular sobre a cidade, e uma última visita à Matinée no sábado à noite, de onde eu sairia no dia seguinte, rumo ao aeroporto.
A Matinée é sempre a Matinée e a festa estava ótima como sempre, mas como já era mesmo o meu último dia eu fui com uma disposição bem light, quase de observador, curtindo a festa mas sem me jogar muito, apenas aproveitando a música e aproveitando para conversar com meus conhecidos da Holanda, que começavam a chegar em massa na ilha naquele final de semana. E assim foi rolando a festa, de uma maneira para mim calma e divertida, até que quase no final eu reencontro V, o alemão que havia encontrado no meu primeiro dia na ilha, e ele vem até mim, e começamos a conversar, e ele está louquinho como sempre, e meia hora depois estamos curtindo o terraço na parte superior do clube, onde uma música bem gostosa dá o ritmo da noite. Eu queria dançar, mas V está colocadíssimo e não segue o meu ritmo, e em um dado momento eu me pergunto se é minha sina terminar a noite cuidando da colocação alheia. Até que finalmente V se esperta, pois já são quase seis da manhã, e ele também quer aproveitar a festa até o último momento.
Então descemos, e a música bate forte, e o local ainda está lotadíssimo. Lá fora o sol já deve estar nascendo, os primeiros raios vão surgindo aos poucos, mas ali dentro a noite ainda impera, e não tem ânimos de ir embora. Nem a noite, nem ninguém. Vamos para a pista de dança e nos mesclamos à multidão de rapazes e garotas que cantam alegremente o refrão da música, "I need a miracle, I need a miracle..." e fazemos o mesmo... e assim vou me despedindo de Ibiza, esse paraíso onde o pecado não existe, e me vejo alegre no meio daquele povo todo, e todos ali, cantando, gritando e pulando, esperando um milagre, o milagre de que aquela festa, de que aquelas férias, nunca acabariam... e vivendo uma ilusão, a ilusão de que a vida era só diversão, era só prazer e folia, e nada mais. Viva Ibiza.



4 comments:
Caramba, você quase escreve um livro sobre suas aventuras e desventuras em Ibiza! Pelo jeito curtiu muito, né.
Eu viajei mesmo foi no livro que estou lendo: Itália, Índia, Indonésia. Vida de pobre é isso, hehehe.
beijos
Adorei este último post sobre o final de sua temporada ibicense! Bjsss
Fico admirado por tantas coisas que você passou e passa, digo que hoje mais leve, apesar da vida ter seus altos e baixos, mas é assim mesmo.
Você tão novo, sim 37 anos é novo e com tanta bagagem experiência e aprendizado, sem falar no seu conhecimento, use todo esse conhecimento e saberia para ajudar as pessoas e fazer o bem, sua aurea é bonita siga em frente.
Oi leitor anonimo,
muito obrigado pelo comentario tao meigo! :-)
XXX/A
Post a Comment