
Ser um caseiro contumaz também tem as suas desvantagens, é claro. E esnobar o circuito de cinema, também. É que de vez em quando aparece sim um ou outro filme que me dá vontade de ir assistir, mas por total falta de vontade de sair de casa ou de conexão com o mundo lá fora, acabo perdendo alguns lançamentos, por pura falta de informação. Nunca sei direito o que está em cartaz, quando e onde, e quando finalmente resolvo ir assistir a algum filme, geralmente ele acabou de sair de cartaz. Tem sido assim ultimamente, e por isso também que acabo ficando bastante tempo sem ir ao cinema. Então foi com um misto de surpresa e felicidade que eu consegui encontrar na locadora no sábado passado exatamente os dois filmes que eu vinha procurando, até então sem êxito: Paris, o último filme do diretor francês Cedrick Klapisch (quem não se lembra do delicioso L'auberge espagnole, do mesmo diretor?) e The Kite Runner, a versão para o cinema do famoso livro de Khaled Hosseini.
Gostei de ambos os filmes, do primeiro mais do que do segundo. The Kite Runner é um bom filme, mas nada de especial, e principalmente quando comparado ao livro que é mesmo uma pérola. Foi legal ter uma visão cinematográfica da vida de Amir e Hassan em Kabul, mas continuo preferindo a versão que se formou em minha mente ao ler o livro. É isso o que eu gosto em literatura, cada livro ganha uma versão extremamente pessoal de acordo com o leitor. A interpretação de cada palavra depende diretamente da pessoa que você é, das experiências que já viveu e das idéias que tem em relação ao mundo. Em um filme, principalmente quando é uma filmagem de um livro, tudo é mais óbvio. Só mesmo o puro cinema pra conseguir o mesmo nível de interpretação pessoal que qualquer livro possui. Mas enfim, é um bom filme, e para quem leu o livro, não deixa de ser uma interessante curiosidade.
Paris... é Paris. Adorei o filme, assim como eu adoro a cidade. Só o festival de imagens de Paris sob todos os ângulos que o filme proporciona, já vale a ida ao cinema - ou à locadora, no meu caso. Pra quem gosta de Paris, é um prato cheio. Eu já falei aqui que Paris é a minha cidade preferida na Europa. O que na minha opinião torna Paris uma cidade tão especial é que é uma das poucas, pouquíssimas, que consegue unir vibração e diversidade à uma beleza ímpar. Há cidades na Europa tão vibrantes e diversas quanto, ou talvez até mais, como Londres certamente e talvez até mesmo Madrid, e outras tão ou ainda mais bonitas, como Praga ou Veneza. Mas poucas cidades conseguem unir ambas qualidades na mesma proporção e intensidade. E acima de tudo, Paris ainda tem a vantagem de conseguir unir tudo isso de uma maneira uniforme e elegante. Ah, Paris é Paris, não preciso me explicar.
E a história do filme também é bastante interessante. Não é uma história única, mas várias historiazinhas que vão se cruzando ao longo do filme. Um formato um tanto conhecido e talvez mais bem resolvido (ou completo) em outros filmes como Magnolia e Short Cuts (engraçado, ambos os filmes curiosamente passados em Los Angeles, uma cidade que eu detesto... Los Angeles para mim é a anti-Paris por excelência, para mim que não gosto de carros depender do automóvel é uma tortura... viva o metrô!). Mas de qualquer forma, o conjunto de "Paris" funciona. É um filme ao qual se vai assistindo, e entrando na história, de uma maneira muito tranquila. E tem também a Juliette Binoche, que assim como na opinião da minha amiga Beth, é também uma das minhas atrizes favoritas (também já falei aqui que tenho uma queda por todas as atrizes francesas). Gostei também que o filme consegue falar de um tema difícil, a morte, sem cair no melodrama.
Morte, um tema comum nos dois filmes. Em The Kite Runner de uma forma mais óbvia e dramática. Em Paris, de uma maneira mais sutil, e por isso mesmo mais tocante no meu ver, porque você fica pensando a respeito... a morte. Quem tem medo da morte? Será que eu tenho medo da morte? Eu acho que não. Sim, apenas "acho" porque ainda não fui confrontado a ela de uma maneira contundente e irrefutável, que me obrigasse a me posicionar a respeito. Mas eu acho que não tenho medo da morte em si, porque acho que a morte no final deve ser mais uma liberação do que uma condenação. Comparado com o mundo em que vivemos partir para outra não deve ser tão ruim assim no final. Não, eu não tenho medo da morte em si. O que eu tenho medo, isso sim, pavor até, é do caminho que leva até a morte. Tenho pavor do sofrimento em vida. A vida acaba sendo mais temível que a morte em si. Tenho medo que minha vida termine um dia de uma maneira dolorosa.
O quanto eu vou viver eu não sei, nem me preocupo muito com isso, para falar a verdade. Sendo gay, o fato é que a idéia de envelhecer sozinho em um meio cujo estilo de vida impõe a juventude e a beleza como únicas fontes de felicidade chega a ser assombroso. A atual superficialidade máxima do meio gay, em que ter uma barriga tanquinho é mais importante que ter um título universitário, parece ir de contramão à necessidade de profundidade e recolhimento, típica da maturidade. E eu nem sequer posso culpar a ninguém por isso, pois me vejo muitas vezes caindo na mesma armadilha, e agindo da mesma forma. Somos todos frutos do meio, e do meio que nós mesmos criamos, ou ao qual nos sujeitamos (mea culpa?). Além disso, eu tenho a impressão que a maior curtição da velhice deve ser curtir a família que se criou ao longo dos anos. Mas no meu caso, eu não terei filhos, não constituirei família, de forma que sob este aspecto a minha futura velhice, se é que ela um dia vai chegar, perde muito do seu conteúdo e charme. Eu já me resignei com o fato de que provavelmente vou passar os meus últimos dias em um asilo de velhinhos, sozinho. E sinceramente até gosto da idéia, prefiro passar o tempo com gente como eu a incomodar os outros. Outro dia ouvi falar que na Holanda estão lançando, novidade mundial, asilos para velhinhos gays. Ah, adoro a Holanda por essas coisas. Já sei onde vou parar, se um dia chegar a tanto. Mas, como falei, não me importo tanto com a idade. Se chegar aos 60, 65, já me dou por satisfeito, não preciso passar disso.
O que quero é ter uma vida completa, conseguir realizar a maior parte dos meus sonhos, poder viajar, viver confortavelmente, ter relacionamentos de qualidade (e aqui eu não me refiro especificamente a namoro, não, eu digo de uma maneira bem ampla, incluindo família e amigos, que para mim são mais importantes que namoros de ocasião) alcancar o tão desejado balanço espiritual, e se isso tudo puder ser feito com saúde, tanto melhor. Mas se um dia a saúde faltar, a idade avançar e a minha hora chegar, só quero que seja de uma maneira tranquila e serena, ou rápida e eficaz, e sem muito sofrimento meu, nem de ninguém. Porque a morte faz parte da vida mesmo. E sendo assim quero apenas que a minha morte, quando ela vier, venha na hora oportuna, quando tiver que ser, ou seja, no momento em que ela significar liberação e não condenação, e depois que eu tenha vivido a maior parte das minhas aspierações. E aí ela deverá ser assim, parafraseando o comentário que um grande amigo meu, H., fez há muitos anos, e que nunca esqueci: "... and death becomes a welcome guest".



4 comments:
É, a morte ainda é um mistério por mais que se fale nela ou tente entender, todo mundo tem medo é algo desconhecido, por mais que se possa tentar entender, mas é nessa hora é que somos todos iguais, vamos pelo mesmo caminho.
Um dia iremos só não sabemos como.
Por isso que a religião espírita esclarece e muito esse momento e como se preparar para a chegada desse momento sem sofrimento, essa é minha opinião, resaltando o meu respeito aos outros em suas crenças e opiniões.
Pra quem gosta de Paris, é um prato cheio. Eu já falei aqui que Paris é a minha cidade preferida na Europa.
Same here! Amo Paris e adorei o filme, comentei tempos atrás sobre ele no meu blog. E eu também não tenho conseguido acompanhar os lançamentos do cinema com a mesma frequência de antigamente (leia-se: Volta e meia entro em crise e peço pro F. fazer uns downloads pra mim...como El Orfanato no fim-de-semana passado: imperdível (leia mais no meu blog).
beijos
A atual superficialidade máxima do meio gay, em que ter uma barriga tanquinho é mais importante que ter um título universitário, parece ir de contramão à necessidade de profundidade e recolhimento, típica da maturidade. E eu nem sequer posso culpar a ninguém por isso, pois me vejo muitas vezes caindo na mesma armadilha, e agindo da mesma forma. Somos todos frutos do meio, e do meio que nós mesmos criamos, ou ao qual nos sujeitamos (mea culpa?).
Você mesmo fez a pergunta e forneceu a resposta, nem vou dizer mais nada! ;-)
Querido Antonio ,
assim como vc , o que eu temo é o caminho que nos leva até a morte ... a dor , o sofrimento , os momentos finais ... do outro lado só Deus sabe o que acontece . Então , aprendi a não pensar muito nisto .
Mas mudando de assunto , fiquei curioso com o novo filme do Cédric . Infelizmente por aqui , nem no cinema estreou !!! Talvez passe na Mostra de Cinema de São Paulo ... quem sabe , né ?!!
Fiquei com água na boca .
;*
PS : Achei perfeito sua definição de que somos frutos do meio ... do meio que criamos .
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