
Quando eu era criança eu gostava muito de jogar de puzzles, de palavras cruzadas e de qualquer outro tipo de jogo e/ou brinquedo que se apoiava na lógica de distribuição simétrica e igualitária das coisas. Aqueles espaços em branco, aquelas lacunas faltando, aquilo tudo me convidava a ir completando tudo aos pouquinhos, devagar mas determinadamente, e eu não descansava enquanto não encontrasse a resposta para tudo, enquanto não preenchesse todos os espaços e enquanto todas as dúvidas não fossem esclarecidas por aqueles cruzamentos e encaixes que no início pareciam absurdos mas no final funcionavam tão bem. Tudo no seu devido lugar, um lugar para cada coisa, e a resposta para tudo no final, o grande desenho revelado. A minha mania por cartesianismo ia aos limites da idiossincrasia. Eu tinha tiques só meus. Não podia contar números ímpares, não podia mexer com os dedos de uma mão só, não podia coçar de um lado se não coçasse do outro também. Tudo tinha que ter o seu par, nada podia ficar avulso. Eu nunca falei destes tiques que eu tinha pra ninguém, mas eles eram muito importantes para mim. Eu perida horas com isso. Até que fui me forçando a aprender a deixar essas manias de lado... mas ainda hoje eu me pego de vez em quando agindo assim... quando ando na rua e percebo que evito andar sobre listas negras das faixas de pedrestes, pisando apenas nas faixas brancas, e se piso em uma folha seca de outono com o pé esquerdo, tenho que achar rapidamente uma folha pra pisar com o pé direito.
Há muito tempo atrás eu participei de um curso de Mitologia Grega, cujas aulas eram dadas por um grande amigo meu, B, médico psiquiatra e filósofo nas horas vagas, que dava um curso muito interessante, multidisciplinar, baseado em história, filosofia, antroposofia e tudo o mais que poderia estar relacionado à Mitologia Grega. Ali aprendíamos não só a história dos mitos em si, mas as suas diferentes interpretações e aplicações na vida cotidiana. Uma vez a aula discorreu sobre os mitos de Apolo e Dioniso, e no final houve uma espécie de work shop, em que tínhamos que tentar 'vivenciar' em nós mesmos os arquétipos de Apolo, a pureza e perfeição, e Dioniso, o caos desmesurado. Eu me lembro que de todos os alunos fui o que tive a reação mais extrema: no início totalmente apolíneo e travado, e no final completamente fora de mim mesmo, isso depois de ter sido praticamente forçado pelo professor em "ousar" sair do casulo que eu criei para mim e onde vivo desde que nasci.
Agora imaginem alguém assim, com toda esta mania de simetria e lógica apolínea, sempre procurando um sentido e uma resposta para tudo, sempre querendo que tudo seja organizado em pares e que nada fique sobrando, tendo que viver o caos que é a vida moderna, onde quase tudo é sem lógica nem sentido. Pois é, drama na certa. Eu acho que esse é um dos problemas que eu tenho no lidar com o lado prático da vida. Eu não consigo me sentir à vontade em um ambiente de caos e insegurança. Se tudo não está certinho no seu lugar, eu fico muito estressado. Eu não me conformo enquando eu não conseguir colocar as coisas em ordem, de uma maneira lógica, em que 2+2=4. Só que eu também estou longe de ser um metódico organizado contumaz, porque sou dispersivo por natureza, vivo divagando no meu mundo imaginário, então as minhas tentativas de pôr ordem ao caos são sempre fadadas ao fracasso, porque eu próprio carrego o caos dentro de mim, embora não consiga admiti-lo nem conviver com ele.
Será que alguém está conseguindo entender o que eu estou tentando dizer???
Todo ser humano procura um sentido para a vida. É necessário para a nossa sobreviênvia neste planeta que acreditemos em algo e que organizemos a nossa vida em torno de nossas crenças. Se acreditamos no amor, buscamos o amor de nossas vidas; se acreditamos no trabalho, buscamos o sucesso profissional; se acreditamos no conforto material, buscamos riqueza. Estamos sempre nos colocando metas que, se cumpridas, nos levarão à felicidade. Se eu conseguir conquistar fulano, serei eternamente feliz. Se eu passar no concurso, terei a felicidade plena. Se eu ganhar na loteria, ah, então...
Todo ser humano procura um sentido para a vida. É necessário para a nossa sobreviênvia neste planeta que acreditemos em algo e que organizemos a nossa vida em torno de nossas crenças. Se acreditamos no amor, buscamos o amor de nossas vidas; se acreditamos no trabalho, buscamos o sucesso profissional; se acreditamos no conforto material, buscamos riqueza. Estamos sempre nos colocando metas que, se cumpridas, nos levarão à felicidade. Se eu conseguir conquistar fulano, serei eternamente feliz. Se eu passar no concurso, terei a felicidade plena. Se eu ganhar na loteria, ah, então...
Na verdade estamos todos nós fazendo isso apenas para escamotear o fato de que a vida na verdade é uma experiência desprovida de qualquer sentido, e eu acho isso bem óbvio. Tentando preencher o vazio, tentando encaixar o puzzle e dar respostas às palavras cruzadas. Se encontrarmos a resposta, deciframos a bicha. Mas uma resposta sempre leva à outra, esse jogo nunca acaba! E assim vamos levando, até que dão cabo da gente.
Eu posso passar horas, dias, meses, anos até, procurando cartesianamente dar lógica à minha vida, procurando "casar" os fatos com os motivos e as consequências, planejando metas e as buscando com afinco, apenas para depois construir novas metas e novos obstáculos, apenas pra continuar seguindo em frente. Eu tenho que encaixar o puzzle da minha vida, eu tenho que encontrar as palavras que estão faltando neste jogo sórdido em que me meteram, eu tenho que enconrar a saída do labirinto. Mas eu não consigo!!! A vida é feita de momentos de um vazio que não é nem a felicidade nem a tristeza, é apenas o caos na sua mais pura forma. Falta de sentido, falta de nexo, acaso, ocaso. Um dia como outro qualquer onde nada acontece. Uma ida ao trabalho, um exame de contratos diversos, e a volta para casa no princípio da noite com a sensação de que não vivenciamos nada. Não houve uma festa de casamento, nem um funeral. Não sorri, nem chorei. Não me desesperei nem me empolguei. Apenas esperei o ônibus, que estava atrasado, e em função disto terminei o meu jantar uma hora depois do habitual. Comi frango com arroz. Não, um sanduíche apenas, pois não tinha fome. Vi televisão e li um livro, na esperança de que um ou outro me trouxesse alguma infomação, algo que viesse a me diferenciar da falta de sentido e de diferenciação que é o mundo à nossa volta. Sim, tenho televisão, e posso me permitir sair de férias de vez em quando. Dizem que tenho que aprender a ser feliz com o que tenho. Tenho certeza de que isto é verdade.
E quem disse que eu sou infeliz? Não estou me jogando pela janela nem escrevendo meu testamento. Não estou desesperado nem deprimido. Estou com fome, deveria ter comido mais, isso sim. Se estivesse desesperado, talvez fosse mais fácil, eu estaria 'vivenciando' algo. Neste momento imbecil a única coisa que eu vivencio é a fome do meu estômago. O mártir sempre tem o motivo de orgulho no final, a morte dá sentido à vida. Eu não sou mártir, eu não procuro o sentido da vida na morte. Eu quero apenas comer. Eu procuro o sentido da vida na vida, mas eu não acho. Não há sentido algum. Eu vou comer agora, e daqui a oito horas terei fome de novo, e vou comer de novo. Nós vivemos uma série de dias, sentimos uma série de emoções boas e ruins, sofremos e nos regozijamos, gozamos e gritamos, e no final morremos, e dentro de três ou quatro gerações ninguém mais se lembrará de nós. Minha bisavó se chamava Dolores, morreu tomando um suco de laranja, ia à igreja todos os dias às 5 da manhã, e é quase tudo que eu sei sobre ela.
Entrar em desespero pela falta de sentido, isso também não faz sentido algum! Porque não há saída, não há muito o que fazer. O desespero está apenas tentando encontrar à força algo que não está aí para ser encontrado. Não adianta nada. Nada adianta.
Ah, o amor. Sim, o amor dá sentido à vida. Mas quem tem o amor o tempo inteiro, a vida inteira? O amor é passageiro, assim como tudo na vida. A vida é passgeira. Não há muito o que fazer, vamos amar e vamos sofrer, e isso dará sentido às nossas vidas por enquanto que nos deixamos levar pelos sentimentos. Mas mais cedo ou mais tarde a hora do jantar vai chegar, vamos sentar e vamos ver o noticiário, e vamos nos impressionar com as enchentes na Indonésia e a crise financeira nos Estados Unidos, e às onze vamos todos dormir porque amanhã tem mais. Tem mais. Tudo de novo. Over and over again. Já dizia Dorothy Parker, "this living, this living, was never a project of mine". Ok, também não acredito em suicídio porque não sei o que vem depois. Do que adianta trocar alhos por bugalhos. Fico com o que já conheço. Call me a coward. Pobre Dorothy, tentou ir sete vezes e nunca conseguiu. Morreu de velha.
Quando eu morrer, quero ir como Tchecok... quero pedir uma última taça de champagne. Esse é o sentido da vida. Os pequenos prazeres e nada mais. Os pequenos prazeres que nos levam a seguir em frente. Champagne. Por que não há muito mais que champagne e o amor, nesta vida de todos nós. Vamos todos beber champagne, muita champagne, que é o que melhor podemos fazer, para combater o vazio dos copos e da vida. Fugindo de mim mesmo? Não. Fugindo da vida? Também não. Pelo contrário, encarando a vida de frente, e não se deixando abalar por isso. A vida não tem sentido, e já que é assim mesmo, vamos beber champagne. Para comemorar o quê? Para comemorar que já que a vida é assim mesmo, sem lógica e sem sentido, não precisamos na verdade de motivo algum, para comemorar. Vamos comemorar porque queremos comemorar, pronto. E não é assim que a vida tem que ser vivida? Vixe, lá vou eu de novo procurando o sentido... Champagne!



2 comments:
Cacá, fiquei muito surpresa!!! O que vc tem é TOC!!!!! Transtorno Obssessivo Compulsivo. É isso o que vc tem, é uma doença e tem tratamento, embora algumas pessoas consigam se curar por si mesmas. O Roberto Carlos, cantor, tem isso, a atriz Luciana Vendramini também. Pesquise sobre isso, vai lhe ajudar muito. No mais, concordo que além dos filhos ( que deram sentido sim a minha vida), são as coisas pequenas, os pequenos prazeres que fazem a vida valer a pena. beijossss
Pois é, isso sem contar no número de vezes que eu lavo as mãos por dia... mas já me acostumei e já aprendi a lidar com isso, é um mal que já não me atinge mais, apenas uma vez ou outra ainda me vejo agindo assim.
XXX/A
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