
De repente me deu uma saudade enorme de São Paulo, assim sem mais nem menos. Estava ouvindo um cd do Gilberto Gil e sei lá porque eu me vi de repente de volta à Rua Nilo 337, lá na Aclimação, onde morei por anos, dividindo um casarão enorme com a minha querida tia Lélia, que apesar da idade era, sempre foi e sempre será mais jovem que todos nós. A rua Nilo é uma rua pequena, de bairro mesmo. Começa na rua do Paraíso e vai até a Pires da Mota. Eu morava bem atrás do Tênis Clube Paulista, e todo fim de semana podia ouvir do meu quarto o zum zum de pessoas e carros que vinha do clube. Mas fora isso, era uma rua bem calma, assim como o bairro inteiro, e como o meu quarto dava para os fundos, eu não tinha barulho nenhum da cidade grande. Aliás a Aclimação inteira era calmíssima, e para mim um dos melhores bairros da cidade. Pacato, tranquilo, descompromissado, e ainda assim de bom nível e melhor, pertíssimo de tudo. Eu morava bem pertinho do metrô Paraíso, e por isso a minha área era também identificada como Paraíso, mas eu gostava mais era da Aclimação mesmo.
Vejam o Parque da Aclimação. Para mim é um dos mais bonitos de São Paulo. Pequeno mas na medida certa para o bairro, e com um lago bem no meio, em volta do qual o povo ia correr nos finais de semana. Uma vez quando eu ainda nem morava em SP, estava de férias, e fiquei preso dentro do parque, culpa desse meu jeito distraído de ser. Eu fui passear, deu o horário de fechamento e eu não mei dei conta, e quando eu quis sair os portões do parque estavam todos fechados, só aí que eu notei que eu estava absolutamente só e que já tinha escurecido. Deu um pânico no início, mas felizmente eu era bem magrinho naquele tempo de adolescente e consegui sair passando por debaixo do portão. Fiquei um tempão sem ir ao parque com trauma da experiência.
Mas a Aclimação não era o meu único lugar preferido em São Paulo, eu tinha vários dependendo da ocasião. Eu cheguei em São Paulo para morar em maio de 1994 e como morava também perto da Avenida Paulista, foi mesmo a região da Paulista que eu considerei a minha "casa" antes de qualquer outra. Eu vivia por ali. Quando voltava do trabalho eu malhava na Runner da Paulista, e nos finais de semana eu geralmente almoçava ou no Shopping Paulista, sozinho, ou às vezes com a minha tia no Filé do Morais, lá na Alameda Santos, porque ela adorava as carnes dali. Aos domingos eu gostava de sair andando, passava pela feirinha do Masp, ia até o Espaço Unibanco de Cinema na Augusta, ou no Conjunto Nacional, para ver algum filme novo, e na volta tomava o metrô. Eu também gostava do Cinesesc, que tinha aquelas poltronas enormes e aquele bar dentro do cinema, coisa que até hoje eu só vi lá mesmo.
Eu gostava também de Moema, bairro que eu vim a descobrir a partir de 1996 quando tive o meu primeiro namorado, o Monir, que morava em um prédio na Rua Macuco. A gente se conheceu na Runner da Paulista, e uma vez ele me convidou pra ir para a casa dele, e eu fui, e acabei passando quatro dias inteiros ali com ele. Ah, velhos tempos. Alguns anos depois eu já trabalhava na Air France e comecei a trabalhar em um horário diferente, trabalhava à tarde e à noite e portanto sempre tinha as manhãs livres, e comecei a frequentar a Runner de Moema porque tinha amigos que malhavam ali também, entre eles meu querido Bernardo, e principalmente por causa da piscina... eu me dava ao luxo de passar meia hora na piscina todos os dias, depois da malhação e antes do almoço, que era geralmente ali mesmo, na lanchonete do clube. Ah, que tempo bom mesmo, eu vivia bronzeadíssimo, e competia em bronzeado e malhação (ela ganhava) com a minha querida colega Cenir, minha alma gêmea, que quando me viu pela primeira vez depois que eu vim de férias para o Brasil após já ter me mudado para a Holanda, falou "nossa, você está igual a uma lagartixa branca!".
Tinha também a Praça Benedito Calixto, com aquela feirinha de antiguidades por onde eu sempre passava na volta das minhas aulinhas de alemão no Goethe, acho que às segundas e quintas de manhã, e que não rendeu muito porque como sempre eu desistia quando chegava nas declinações. Eu não conseguia empregar o dativo de jeito nenhum. Hoje em dia eu me arrependo de não ter insistido no aprendizado da língua, mas na época eu já falava inglês e francês bem, acabou dando preguiça mesmo de me esforçar no alemão. Ah, mas eu gostava das tortinhas que eram servidas na lanchonete do Goethe, todas bem alemãs mesmo, e era uma tranquilidade tomar um café ali no pátio do instituto depois da aula. Eu tinha uma professora que se chamava Sophie Charlotte, mais alemã impossível.
Nos finais de semana à noite eu saía muito com o Bernardo, era ele o meu companheiro de noitada, até porque ele morava também na Aclimação e passava pra me apanhar. Foi com ele que eu fiz o curso de Mitologia Grega, acho que foi em 1997. A gente ia as vezes jantar no Mestiço, bem badalado na época, e depois íamos para aqueles bares todos da região da Consolação, e geralmente acabávamos no Massivo, seja quinta, sexta, ou sábado. Eu ainda cheguei a pegar o tempo áureo do Massivo com a Bebete no comando (quem diria hein BBT! Você provavelmente já me deixou passar pela porta e nem me viu!!! he he he...), mas por uma questão cronológica eu me lembro melhor dos últimos anos, e da Cindy Babado na porta, loira e louca. Depois o Bernardo se aventurou na noite e abriu a Sogo, e passei a ir lá também. Uma vez tomei um porre tremendo dentro da Sogo, de caipirinha, o único na minha vida, e me lembro somente que acordei no dia seguinte na casa do meu amigo Hugo, em Moema, sem ter a menor idéia de como eu tinha parado lá. Com o Bernardo eu também fui uma ou duas vezes passar o final de semana em Parati, o irmão dele tinha uma casa no meio de uma floresta e haviam também alguns chalés, eu me lembro que a gente ficou em um desses chalés, junto com o David, outro amigo meu, mas eu e o David, a gente vivia meio que se bicando, sei lá porque, acho que ele tinha uma implicância comigo que até hoje eu não entendi o porquê.
Eu comecei a deixar São Paulo mentalmente pra trás a partir de 1998 quando comecei a viajar frequentemente para a Europa em função dos bilhetes de staff que eu conseguia com a Air France. Só em 1998 eu fui 7 vezes a Paris, apenas para passar um final de semana. Como na maior parte dos finais de semana eu trabalhava, acabava deixando para passear e me divertir nos finais de semana livres, quando eu viajava. Então acabei não saindo mais à noite em São Paulo. Mas ainda tinha um programa que eu gostava de fazer. Nos domingos à noite eu costumava me reunir com meus amigos Etienne, Eduardo, e Deborah, que conhecera por essa época, o Etienne tinha vindo da França e tínhamos um amigo em comum na AF, o Laurent. Ah, como eram gostosos esses jantates do domingo a noite com os três, o Etienne sempre preparava caipirinhas e a Deborah sempre trazia algo especial também. A Deborah era modelo não só de rosto e corpo mas também de voz, e me lembro do meu espanto uma vez quando eu liguei para a minhã mãe em Belém e ouvi do outro lado da linha a Deborah: "por favor queira discar novamente" ou algo assim...
Engraçado, eu me dou conta atualmente que foi o "internacionalismo" do meu trabalho na Air France que acabou me propulsionando pra fora do Brasil, porque não somente a facilidade de viajar era enorme, como eu também fui entrando em contato com vários estrangeiros que foram me abrindo os olhos pra outras oportunidades... talvez se eu tivesse ido trabalhar em outro tipo de companhia, estivesse lá até hoje. Não sei dizer se me arrependo ou não porque a vida é feita de escolhas e a gente nunca sabe como teria sido se tivesse tomado a direita ao invés da esquerda, e além disso estou contente com a minha vida atual, mas a verdade é também simplesmente que em São Paulo eu era feliz e não sabia, aquela velha história.
Tanta lembrança misturada e tanta gente legal... todo o povo da AF, Cenir, Fernando, Alessandra, Juliana, Babi, Joyce, Jefferson, Marcos, Elaine... Lig Lig... Gloris... o povo da Rave, em 1994, nossa, como faz tempo... a Meire, que eu nunca mais vi... o menino que eu encontrava as vezes no Massivo que eu nem lembro mais o nome agora, tadinho, estilista, olhos lindos, vivia indo a Buenos Aires... meus primos Socorro e Estevão e seus respectivos, minha tia Regina e a dona Regina e a dona Rosa que tem aquela voz e aquele ritmo só dela... Dario e Orlando que eram meus vizinhos na Aclimação e eu nem sabia e agora a gente se encontra quando eles vêm pra Europa... a Marta, nossa Martinha, quanto tempo... o curso de administração na Mackenzie, que eu abandonei... o curso de jornalismo na Cásper, que eu abandonei... a menina que sofria de euforia, como era o nome dela? Era com S... o curso de hotelaria no Maksoud, pela Faap, que eu abandonei... a Ana Lucia... o curso de fotografia na Panamericana que eu desisti porque não conseguia encaixar o filme no rolo... a Patricia e nosso tempo de trabalho no SESI... o Angelo, arquiteto, maravilhoso, que nunca tinha me dado bola e resolveu mudar de idéia uma semana antes da minha viagem pra Holanda, tja, que raiva, ironia da vida... mas que apartamento era aquele, he he he... e que apartamentinho uó era aquele do dentista da Maria Antonia, e a trava de vizinha e eu que travei e não sabia o que dizer... e os afters do Columbia, e aquele banheirón lendário... e a exposição do Rodin na Pinacoteca... a Mostra de Cinema, e eu tive a honra e prazer de assistir um debate pelo Jean Claude Carrière, eu que amo Belle de Jour! E vi o Almodóvar junto com a Marisa Paredes... ah os bares de frutas do Ibirapuera... E Tamara, quem lembra daquela peça, naquele casarão reformado de Santa Cecília, e a gente tinha que seguir os personagens pela casa... e quantas vezes eu assisti ao Mistério de Irma Vap no Cultura Artística... e na Augusta... e os shows todos que eu vi, U2, Elton John, BB King, Paulinho da Viola, Cesaria Evora, Marisa Monte, Zizi Possi e cheio de meninas de corte joaozinho na primeira fila... as minhas traduções para o Estudio de Cinema... o Marcelinho, o Roberto, o final de semana na Ilhabela com o Marcus e o Antonio... a Marisa Orth... os bilhetinhos da Ale... a chegada do Prince Albert de Monaco... o Spot, o Ritz... o povo da KLM na Sogo... nossa, o Boudewijn e o Edgar da Rapido, eu conheco o Boudewijn desde São Paulo!... o numismata, como era o nome dele? Marcelo? e o Laurent também... o Eduardo dj...a 23 de maio, a garoa, o granizo... tanta lembrança, tanta gente boa, tantos lugares, tantas coisas e situações... e tanta coisa mais... tudo misturado no tempo e no espaço, tudo guardado no coração... tudo em São Paulo.
São Paulo, se não existisse teriam que inventar.



1 comment:
Rapaz...você anda nostálgico pra caramba, hein? E eu de saco cheio da minha pobreza crônica neste primeiro mundo...dá uma olhada no meu blog que você vai entender.
Se ser pobre é ruim, ser pobre na Europa é pior ainda. Falando sério!
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