
Sábado em Bruxelas. Das clarabóias do meu apartamento eu vejo com um misto de perplexidade e admiração o tempo passar. Chuva, nuvens, vento e sol e chuva de novo. Em Bruxelas temos o luxo (ou o lixo...) de ter as quatro estações do ano dentro de um mesmo dia. É inacreditável a veclocidade com que o tempo muda por aqui. E além disso, muda com veêmencia. Não é de uma chuvinha a um solzinho fraco não, é de uma tempestade a um dia de verão completo e de volta à tempestade outonal em questão de um hora ou até menos. Acontece por vezes que ao olhar para o céu da minha clarabóia direita eu vejo um céu cinzento e chuvoso, mas ao olhar para a clarabóia esquerda vejo que na verdade faz sol lá fora.
É claro que esta mudança de tempo influi em nosso espírito e nosso humor. Eu, caseiro e preguisoço por natureza, só preciso de uma desculpazinha pra resolver não sair e ficar em casa. Choveu, fico em casa. Tá ventando? Fico em casa. Céu nublado? Ah, ninguém me tira daqui. Preciso de sol forte e céu azul para colocar os meus pés pra fora e me aventurar pelas ruas da cidade, que diga-se de passagem, não é em todo caso das mais benevolentes com o pedestre de ocasião. Como isso não acontece sempre, de fazer sol assim, eu acabo ficano a maior parte do tempo dentro de casa mesmo. Eu me escondo da vida no conforto do meu lar. Ah, falem o que falem, até parece que estou perdendo grande coisa. Nada, ou quase nada, é para mim melhor que o aconchego do meu lar. A vida é aqui mesmo, na minha serena solidão. Gato escaldado tem medo de água fria.
Casa. Minha mãe e meu avô materno sempre foram também bastante caseiros. A minha mãe até que teve a fase aventureira dela, em que partiu para o mundo e deixou a casa pra trás. Mas um dia voltou pra casa e nunca mais saiu, assim como o pai dela, meu avô. Ele também, sei que trabalhava com a Marinha Mercante e tinha uma frota de navios, e com os seus navios ele saía de Belém rumo a portos distantes. Meu avô esteve creio eu em lugares como Paramaribo, Georgetown, e Trinidad e Tobago, de onde ele telefonava para a família, que se reunia para falar com ele. Meu avô era um homem próspero, foi o primeiro a ter carro e televisão a cores no bairro e conta a minha mãe que eles moravam em um casarão enorme que ia de uma rua até a outra. Um dia meu avô resolveu trocar a frota de navios por um navio só, o Clareon. O Clareou foi a escuridão na vida do meu pobre avô. O Clareon afundou, e meu avô descobriu amargamente que o seu sócio pateta havia embolsado a grana do seguro, ou seja, o navio afundou e com ele foi junto o negócio, meu avô perdeu tudo da noite pro dia. Tiveram que se mudar do casarão de quadra inteira para um apartamentinho de dois quartos no centro de Belém. A minha mãe e minhas tias dividiam um dos quartos, eo meu tio, mais novo, tinha que dormir na cozinha por falta de espaço. Meu avô ficou tão amargurado com o naufrágio do Clareou, que nunca mais saiu de casa. Isso mesmo, nunca mais. Ele saía quando muito para beber uma cerveja com o vizinho, mas ficava por aí. Meu avô não saía de casa nem pra ir aos casamentos da família. Meu pobre avô, que já se foi. Que Deus o tenha.
Ontem eu saí. Quebrei a rotina de nunca sair às sextas feiras. Eu estou sempre cansado às sextas feiras, porque sempre venho da ginástica, depois de mais um dia de trabalho, e depois de uma semana inteira o corpo pede repouso mesmo. Então eu sempre fico em casa nas sextas feiras à noite. Ontem fiz uma exceção. O Florian, meu antigo colega de mestrado da Universidade em Amsterdam, e que mora também aqui em Bruxelas trabalhando para o Banco Mundial, está sendo transferido para Washington, DC, e em função disto fez uma festa de despedida no apartamento dele, aqui perto. Felizmente era aqui pertinho, então deu para vencer a preguiça, colocar uma roupa legal, comprar uma garrafa de vinho tinto, e me apresentar para o festejo. Até que foi divertido, e consegui em todo caso voltar em um horário decente, detesto ir para a cama quando já está clareando.
Viagem. Taí um motivo que me faz sair de casa com prazer. Eu não sou muito de curtir os prazeres da cidade onde moro, mas adoro curtir os prazeres de outros lugares. Para mim não há coisa melhor para fazer na vida que viajar, conhecer novos sítios, novas culturas, novas pessoas. E pra mim que sempre fui vidrado em Geografia e História, adoro conhecer pessoalmente os lugares que já estudei nos livros. Lembro da emoção que senti ao conhecer as Pirâmides do Egito, a Acrópole de Atenas e o Muro de Berlim. Tenho uma lista enorme de lugares ainda para conhecer, e depois de finalmente ter conhecido Praga este ano, estão piscando para mim Istambul e Viena, que deverei conhecer em breve. Mas infelizmente o meu orçamento é limitado, questões da vida cotidiana. Eu já gastei uma pequena fortuna com viagens este ano, Ibiza foi bom mais saiu caro, e eu agora tenho que controlar a minha vontade de viajar, principalmente porque ainda tenho planos de ir ao Brasil no final do ano. Mas controlar a minha vontade de viajar é difícil... vi outro dia um forfait para Tallinn e Helsinki, tá baratinho! Deu uma vontade... adoraria chegar de barco à Finlândia, vindo da Estônia. Um dia ainda chego lá.
Aqui em Bruxelas, acabo ficando em casa mesmo. Deixa eu explicar que é injusto da minha parte quando eu digo que não há nada para fazer em Bruxelas. Na verdade a cidade tem uma agenda cultural bastante intensa, há uma revista que sai todas as semanas com a programação cultural e a quantidade é de fazer inveja aos grandes centros. Mas o problema, pelo menos para mim, é a qualidade. Eu sou exigente mesmo, não saio de casa nem gasto o meu dinheiro com qualquer coisa. Prefiro economizar para as minhas viagens. E aqui em Bruxelas tem um porção de coisas pra fazer, mas uma porção de coisas meia-boca, na minha humilde porém decidida opinião. Eu não vou ver qualquer concerto, qualquer filme ou qualquer exposição, só pra dizer que saí de casa e que fiz algo. Felizmente não tenho esta necessidade, meus livros já me completam neste sentido. Ano passado teve uma exposição super badalada sobre Leonardo da Vinci, na Basílica de Bruxelas que é uma das maiores igrejas do mundo, é um prédio enorme (e feio, feio como a cidade). Eu até que estava me animando a ir, mas quando soube que a exposição era baseada em réplicas e que não trazia absolutamente nenhum original, me desencantei. Podem me chamar de chato se quiserem, mas eu não vou sair de casa pra ver pôster.
Outra vez, teve o Brussels Jazz Festival, que acontece todos os anos por aqui. Eu pensei, legal, um cidade que tem um festival de jazz de rua, vou conferir, vou prestigiar... ai, pra quê. Cheguei lá, e as bandas que se apresentavam eram da qualidade de uma banda de colégio. Sério!!! Eu fui com a minha amiga Nina, que ficou com a mesma péssima impressão. O festival é de baixa qualidade, pura e simplesmente, as bandas eram sofríveis e no final acho que uma cidade como Bruxelas apresentar um festival de jazz tão chinfrim chega a ser constrangedor. Sei lá, pra mim festival de jazz é o North Sea Jazz Festival de Den Haag, este sim, um festival de porte. Ou até mesmo aquele festival que tinha em São Paulo, como era mesmo o nome? Free Jazz? Tem ainda? Eu assisti a Erikah Badu e Jamiroquai no Free Jazz uma vez em São Paulo, assisti a B. B. King no Parque Ibirapuera (lotado!!!!), vou me contentar com uma bandinha irlandesa na Grand Place? Não.... Taí, saudades de São Paulo neste aspecto. Acho que São Paulo talvez tenha menos a ofertar em termos de quantidade, mas mais em termos de qualidade. Acho que até mesmo a Holanda tem mais a ofertar também, porque na Holanda a vantagem é que é tudo pertinho, há o festival de Jazz de Den Haag, há o festival de cinema de Rotterdam, há o Prinsengrachtconcert em Amsterdam... no final dá sempre pra fazer um mix legal. Aqui, acabo ficando em casa mesmo.
Quem me ouve vai pensar que eu detesto Bruxelas. Não é verdade, eu gosto da cidade, porém gosto por outros motivos que a beleza ou a agenda de atividades. Bruxelas é uma cidade feia, uma feiura que me incomoda. Pode ir ler em qualquer horóscopo de araque: nós taurinos temos um senso estético apurado e necessitamos nos rodear de coisas belas para que possamos nos sentir bem. Ah, que saudades da beleza de Amsterdam e da graciosidade de seus canais em um dia de sol! Mas Bruxelas é também bastante cosmopolita, e nela a integração como estrangeiro é bem mais fácil que em outras capitais européias, ninguém aqui fica se sentindo por fora (ok, eu tenho a vantagem de trabalhar para a União Européia e por isso fico fora do sistema belga, isso ajuda bastante!). Também gosto pela língua, o francês sempre será para mim mais fácil e mais tragável que o holandês, por exemplo. E gosto pela comida, come-se divinamente por aqui, há uma boa seleção de bons restaurantes. No mais, fico em casa porque sou chato mesmo, chato assumido. Podem me chamar de chato, mais chato ém que me diz, he he he... sou chato mais sou feliz.. dá licença que eu vou ver televisão! Nossa, tá o maior sol lá fora... pelo menos, é o que diz a minha clarabóia...



4 comments:
Eu também gosto é ficar em casa, conheço pessoas que moram muito bem, em casas ou aptos muito belos mas não param em casa um minuto, não sei pra quê morar tão bem, se não param em casa.
É tão bom ficar em casa, ainda mais quando está muito frio ou muito quente, hoje estou em casa e nem quero sair,estou muito, mas muito cansado e chateado, passando por um momento muito ruim em minha vida, estou sem rumo, espero que essa fase passe.
Realmente como você disse, Amsterdam deve ser linda, fico imaginando esses lugares em um dia frio mas com céu bem azul, adoro esse clima.
Gostei de ler sobre os detalhes da história do nosso avô. Engraçado estar lendo isso hoje, pois pela primeira vez desde que entrei no curso de francês, faltei aula hoje só para ficar em casa, sem nenhum motivo. Tb não fui trabalhar. Se pudesse só sairia de casa para ir para o aeroporto, eu não vivo muito a cidade em si, vivo mais as casas de amigos e alguns jantarezinhos em restaurantes mais reservados, logo eu que já fui arroz de festa...Hoje não troco a paz da minha casa por nada, é minha fortaleza, onde nada (ou quase nada) me atinge.Já viajar, ambos sabemos que é disso que eu gosto, né? Bjsss
Vixe, eu também ando caseira demais (outono-inverno então é difícil me tirar de casa)! Pra mim já basta pegar aquele trem toda sexta-feira pra ir pra casa do F. e de volta na segunda de manhã. Confesso que praticamente não tenho saído mais em Amsterdam, com o filho dia-de-semana não dá e fim-de-semana estou namorando em Haia ;-)
É...sou portuguesa e vivi em Bruxelas durante dois meses no Verão de 2008, e devo confessar que senti o mesmo que você. A cidade é feia e deixa a desejar em aspectos culturais, o clima não ajuda...enfim, mas a diversidade cultural é sem dúvida excelente e poder falar francês ou inglês quando se sai também. Apesar de ser uma cidade onde você se aborrece se não arranjar um programa pessoal, tenho saudades da chatice que é Bruxelas...tudo é bizarro e simultâneo...mas é isso que a torna fascinante.
À tant tôt!
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