
... E na semana passada eu comemorei, calma e silenciosamente, os meus dois anos de vida aqui em Bruxelas, uma cidade da qual eu vivo falando mal, desmerecidamente, porque Bruxelas é na verdade uma cidade bastante agradável de se viver, ainda que não seja perfeita (mas qual cidade é? Paraíso na Terra não existe, isso eu já aprendi há um bom tempo). Ok, o sistema público belga é de uma ineficiência que faria corar as repartições brasileiras. Ok, a cidade é suja e mal conservada em vários bairros. Ok, não há muito o que fazer por aqui. Ok, o conflito Flandres-Wallonie sucks. Mais ainda assim, tenho motivos de sobra para gostar daqui (a velha teoria, mais vale se concentrar no lado bom das coisas do que perder tempo com o lado ruim). Ontem, ao voltar para casa depois de um jantar com M na rua dos restaurantes asiáticos do centro (tem um restaurante ali chamado Rêves d'Asie, é barato, simpático, comida gostosa e ambiente confortável, então sempre íamos lá, e conservamos o hábito amigavelmente), dei uma passada pela Grand Place, pois vi que tinha algo acontecendo por ali. Era uma fanfarra, não sei o motivo, mas o ambiente até que estava animado. A orquestra estava toda vestida em trajes de guerra napoleônicos, e tocavam um pout pourri pra lá de popularesco, mas para um domingo à noite, tudo bem. Fiquei ali uma boa meia hora, apreciando a beleza daquele lugar, sem dúvida uma das praças mais bonitas da Europa, um lugar absolutamente especial e único. E me dando conta de que sim, eu tenho motivos de sobra pra gostar daqui.
Primeiro deles, Bruxelas é uma cidade que me acolheu bem. Eu tive um início dificílimo aqui, fruto de todas as mazelas que me atacaram em 2006, e cheguei aqui praticamente com as mãos no bolso, nenhum dinheiro, nenhuma promessa, vários problemas de todo tipo, e apenas algumas vagas perspectivas. Fui morar com amigos de M, e a experiência de morar de favor na casa dos outros me traumatizou de tamanha forma (eu, anti social por natureza, me obrigar a ser social o dia inteiro e até mesmo dentro de casa por uma questão de obrigação, que horror!) que eu virei um total bicho do mato aqui na Bélgica, não saio da minha casa para praticamente nada, quem quiser que venha me visitar...e eu não convido todo mundo... Mas no início de 2007 as coisas foram começando a se ajeitar, mudei para o apartamento do centro onde fiquei até abril deste ano, um apartamento ótimo do qual tenho boas recordações, consegui um trabalho melhor, que acabo servindo de trampolim para o meu trabalho atual, e tudo foi melhorando aos pouquinhos. Hoje, em Setembro de 2008, eu posso dizer que pela primeira vez na vida eu tenho um trabalho condizente com os meus estudos e a minha capacidade, e que me remunera da mesma forma. Tenho o meu apartamentinho branco perto do Parlamenteo Europeu, um apartamento que não é nenhum castelo mas é confortável e me transmete uma paz infinita (tenho saudades às vezes do apartamento do centro, dos sábados de croissants com M e dos jantares no terraço, mas, enfim, coisas da vida), e a única coisa que continua complicada é a minha vida emocional, mas essa sempre foi um desastre total mesmo, desde Belém e desde sempre, então não posso culpar Bruxelas por isso, a culpa aí é minha mesmo. O fato é que aqui em Bruxelas a minha vida evoluiu, no que ela se diferenciou dos altos e baixos de Amsterdam, e da estagnação que foi a minha fase em São Paulo. Só isso já bastava pra eu ser mais do que grato a esta cidade.
Mas tem mais: Bruxelas pode ser uma cidade menos atraente se comparada à outras capitais européias, mas ela tem seus charmes discretos. Não tem a beleza de Paris nem a graciosidade de Amsterdam, mas tem vantagens bem específicas. Eu já comentei aqui uma vez que Bruxelas é uma cidade absolutamente cosmopolita, pois a presença das instituições européias por aqui faz com que a cidade seja uma mini Babel européia. Tem gente de todos os cantos, fala-se todas as línguas, e num ambiente assim, estrangeiro nenhum é olhado de lado, até por quê por aqui, ser estrangeiro é praticamente a norma geral. E todo mundo convive razoavelmente em paz. Se há conflitos periódicos em algumas camadas menos favorizadas da população, por outro lado não há grandes tumultos, muito raramente.
A Babel européia traz outra vantagem consigo: o multiculturalismo gastronômico. Como há gente de toda a Europa e de outras partes do mundo por aqui, há também todo o tipo de suporte alimentar que se possa imaginar, todos em abundância. Supermercados bem equipados, Restaurantes asiáticos, mercearias portuguesas, bistros franceses, mercadinhos marroquinos e até mesmo cantinas brasileiras podem ser encontrados por aqui. Tem de tudo, é só procurar. E diga-se de passagem: Bruxelas é uma das capitais européias onde melhor se come. Os restaurantes aqui são ótimos, a comida é boa e farta. E barata. Poucas cidades européias oferecem a mesma equação de comida boa a preços acessíveis e ambientes confortáveis como aqui em Bruxelas> Talvez Lisboa, ou na Itália em geral, mas no norte da Europa Bruxelas é um caso à parte. E além disso, o hábito alimentar. Come-se comida quente no almoço! Isso pode parecer uma redundância aos ouvidos brasileiros, mas não é. Na Holanda e na Escandinávia o almoço é frio. Eu que venho de 7 anos de sanduíche de queijo e presunto com leite ao meio dia que é o almoço padrão dos holandeses, não posso negar a minha satisfação de voltar a viver em um lugar onde se come comida decente para o almoço.
Motivos práticos: Bruxelas é uma cidade barata se comparada a outras capitais européias, principalmente se comparada às duas referências mais próximas que são Paris e Amsterdam, ambas lindas, encantadoras, mas caríssimas para se viver. Para se ter uma idéia: o apartamento em que eu moro atualmente aqui em Bruxelas seria no mínimo 50% mais caro se estivesse localizado em Amsterdam, ou o dobro do preço se fosse em Paris. É verdade! E em geral o custo de vida aqui é menor. Transporte público, alimentação, seguro social, todas estas coisas são mais baratas por aqui, e isto tudo junto faz uma diferença considerável no final do mês. Acaba-se tendo mais pelo seu dinheiro quando se mora aqui. Muita gente em Bruxelas adora Paris e vai até aquela cidade com regularidade, mas poucos ousariam trocar a comodidade de Bruxelas pelas dificuldades da vida parisiense.
Falando em Paris, mais uma vantagem de Bruxelas. Quer coisa melhor que morar a apenas uma hora e 15 minutos de Paris, sem ter que estar em algum subúrbo parisiense? O Thalys liga Bruxelas à capital da França em trens de alta velocidade que faz o trajeto de mais de 300 km em pouco mais de uma hora. Dá até pra ir e voltar no mesmo dia se quiser, a minha irmã já fez isso duas vezes. E não é só Paris. Londres está a duas horas daqui com o Eurostar, Cologne na Alemanha também a duas horas com o Thalys, e se Amsterdam ainda está a penosas 3 horas de trem quando na verdade é o destino geograficamente mais próximo, isso vai mudar assim que entrar em operação o trem de alta velocidade que ligará Bruxelas à cidade dos canais em duas horas apenas (e isso porque o trem ainda vai parar em Antuérpia, Rotterdam e Schiphol). É muito bom morar em uma cidade que dá tantas opções de passeios de final de semana. Por mais tediosa que a cidade possa ser às vezes, pelo menos ela te dá a possibilidade de sair e voltar com a maior facilidade. Ok, no final das contas eu acabo não indo tanto assim a Paris, mas só o fato de "poder ir quando eu quiser" já ajuda mentalmente. Então no final só fica entediado em casa, quem quer.
E eu poderia citar ainda muitos outros motivos que me fazem gostar de Bruxelas (a simpatia dos moradores, a facilidade da língua francesa e - para mim, é claro, e por motivos pessoais - a proximidade da língua neerlandesa, que não quero esquecer, as livrarias de segunda mão do centro, a minha seleção de cafés preferidos como o Travel Arts, todo em motivos geográficos, etc...) mas para que o texto não fique muito longo, vou citar apenas mais um motivo, um dos mais peculiares e deliciosos. O chocolate. Uma vez uma amiga minha me contou que não gostava de chocolate, e eu que havia pensado em lhe presentear com uma caixa de chocolates da chocolaterie mais gostosa de Bruxelas fiquei perplexo: é que o meu amor pelo chocolate é tão incondicional que foge à minha humilde compreensão alguém não gostar de uma iguaria que para mim é tão divina. Mea culpa, não posso querer olhar o mundo apenas pelos meus olhos, mas eu conto o fato somente para ilustrar a minha paixão pelo chocolate. E quando se gosta de chocolate, Bruxelas é mesmo um dos poucos paraísos na Terra. Aqui há algumas das melhores chocolateries do mundo, que produzem em alguns casos, verdadeiras obras de arte. Mas não precisa ficar no ramo dos chocolates de luxo, basta ir a um supermercado belga qualquer para se dar conta. O chocolate de qualidade está por toda parte. Seja puro ou com leite (eu prefiro o chocolate puro, para mim quanto mais "amargo" melhor), pralinés ou truffés, em barra ou em caixa, com eu sem fruta... a oferta é imensa. Eu amo os chocolates da Pierre Marcolini, da Godiva, mas também adoro os chocolates belgas de supermercado. Tem um de chocolate puro com laranja que é um sonho! E acho um luxo poder me presentar com essa ambrosia negra com regularidade. Como eu não engordo mesmo, posso me esbaldar: aqui em Bruxelas eu adquiri o talvez pernicioso mas sem dúvida alguma delicioso hábito de comer chocolate todos os dias. Só um pouquinho, geralmente depois do jantar, mas o suficiente para presentear o meu paladar com algo especial depois de um árduo dia. Em bom francês, que é a lingua local: Ah, Bruxelles... merci pour le chocolat!



2 comments:
Ai que saudade de Bruxelas e dos chocolates! Ai, que saudade de Paris!
Não faz isso comigo não...eu aaaaaaaaaaaaamo chocolate! Só isso já seria uma razão e tanto pra ir a Bélgica, rsrsrsrs.
E sim, o paraíso é uma questão pessoal (como bem disse o escritor Richard Bach).
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