Thursday, July 24, 2008

Nas praias de Paris


Chegamos em Paris às dez horas da noite do sábado, no trem vindo de Bruxelas. Eu, minha irmã, minha sobrinha G, e C, uma amiga da minha irmã. Estávamos todos cansados depois de um dia perambulando pelos altos e baixos de Bruxelas, e por isso resolvemos todos ir para os devidos hotéis dormir. Elas, um Best Western no 16eme arrondissement... eu, um duas estrelas pequeno mas simpático perto da Bastilha. Cada um de acordo com o seu bolso. Quem pensa que funcionário da União Europeia ganha uma fortuna, está enganado. Eu sou agente contratual, tenho um estatuo diferente dos funcionários de longa carreira, e meu salário é, digamos, mais modesto. Tudo bem, não vou pintar de pobre que também não é o caso, eu não posso reclamar do meu salário que está acima da média do setor privado, mas também não é uma fortuna, só isso. E como já tinha férias programadas pra Ibiza no final do mês - e aí sim, sei que vou gastar um montão, porque a ilha é caríssima - então tinha que controlar o meu budget parisiense.


No sábado acordei por volta do meio dia, pois estava muito cansado e precisando dormir, desde as loucuras de Madrid que o meu sono ainda não entrou no ritmo normal. E aí fomos presenteados pelo golpe do celular, aquele que a minha amiga Beth já explicou em um post recente no seu Noites em Claro. Explico: a minha irmã me ligou durante a manhã porque queria me convidar para acompanhá-las até o alto de Montmartre. Eu estava dormindo e só peguei a mensagem depois. Só que nesse meio tempo e antes que eu pudesse retornara a ligação, caiu a bateria do meu celular, e como eu, inteligente, havia esquecido na pressa de trazer o carregador, fiquei sem ter como ligar de volta. Tive primeiro que procurar no hotel alguém que tivesse um carregador parecido com o meu. Até que depois de um tempo eu achei, só que aí, quando eu finalmente consegui ligar para ela, era o celular dela que já estava descarregado, e portanto nos desencontramos totalmente. Acabamos passando o dia inteiro separados. Eu ainda tive a manha de ir até Montmartre procurar por elas, gastei uma pequena fortuna de taxi para não me atrasar, mas naquele mar de gente, sábadão em Paris, é claro que não as encontrei, então voltei pro hotel e esperei que a noite caísse, aí poderia ligar diretamente para o hotel delas. No final quando consegui falar com a minha irmã já eram por volta das oito da noite, eu já estava cansado depois de mais um dia perambulando por Paris - porque no meu caso, sozinho ou acompanhado, eu sempre ando bastante quando viajo e elas se animando e se arrumando para ir ao badalado Kong, restaurante japonês de propriedade de Kenzo que é a pedida do momento em Paris. Eu como não tinha nem roupa, nem orçamento, nem disposição para enfrentar um Kong a uma hora daquelas, resolvi ficar ali pela Bastille mesmo. Fui jantar em um restaurante de carnes perto do meu hotel, a preços bem mais acessíveis, e de lá voltei pro hotel mesmo.


Segunda feira, era o dia em que eu tinha que voltar para Bruxelas. Na Bélgica era feriado nacional e eu estava de folga o dia inteiro, mas como não queria gastar tanto assim tinha decidido voltar no final da manhã. Só que com o desencontro do domingo eu quase não tinha tido tempo de falar com minha irmã e fiquei tão chateado comigo mesmo, com meu celular e com a vida, que resolvi que era hora de fazer o meu cartão de crédito funcionar. Afinal, como diz a propaganda, hotel pode custar caro, passagem de trem também, mas um final de semana com a família em Paris, isso não tem preço. Então suspirei fundo, rezei uma Ave Maria para me perdoar do pecado financeiro que eu estava para cometer, e meti a faca no meu próprio estômago. Perdi a passagem do trem, tive que comprar outra na tarifa normal, tive que pagar uma diária a mais de hotel, tive que tirar dinheiro do caixa eletrônico pois já estava sem nada, mas enfim, fiquei um dia a mais em Paris para poder aproveitar a companhia de J, G e C. Porque não é todo dia que tenho esse privilégio, e deixa eu ir falando, quem tem família por perto e não dá valor, não sabe o que faz. Mais e mais eu me dou conta de que na vida, no final das contas, é só a família da gente que conta mesmo, e pouquíssimas pessoas mais, porque é a família que nos apara no final.


Bom, estrago feito, era hora de aproveitar a vida. Fui ao encontro das meninas no hotel delas e de lá saímos às compras, pois era o dia Galeries Lafayette delas. Uma breve passagem para fotos no Champs Elysées (que estava todo decorado com bandeiras da França e da União Europeia, com aliás vários prédios públicos em Paris, inclusive o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel, em função da atual presidência francesa do Conselho da EU, por seis meses) e lá estava eu dentro da maior loja de departamentos francesa com três brasileiras endinheiradas e loucas pra gastar. Ah, um suspiro. E lá vamos nós. Eu tinha decidido que não ia comprar nada e ia apenas acompanhar a minha irmã. Mas não sei quantos perfumes e quantas bolsas depois, cheguei à conclusão de que acompanhar a minha irmã nas Galeries Lafayette não era tarefa das mais fáceis. Então resolvi acatar o conselho dela, fui dar as minhas voltas, sabendo que tínhamos que nos encontrar às duas da tarde bem no meio do saguão central. E lá fui eu. Fui na parte masculina e até que me deu vontade de comprar algumas coisas, a loja estava em liquidação e havia muitos artigos a preços bem acessíveis. Mas cada artigo que eu pegava meu cérebro logo me dizia: isso é um jantar em Ibiza... isso é uma entrada pra uma festa... o hotel ainda não está pago... tem certeza mesmo que precisa disso??? E assim fui mirando, mirando, mirando, e não levando nada. Consegui sair da loja impune. Pra não dizer que não gastei nada, paguei 30 euros no almoço buffet no restaurante do último andar, com vista panorâmica para a Ópera Garnier, isso porque é verdade, eu como muito mesmo, e todo restaurante por quilo ou buffet é sempre um assalto pra mim.


Ok, terminamos o almoço, voltamos ao hotel das meninas pra deixar as inúmeras sacolas - não vou dizer quantas eram! - e de lá seguimos para o Hotel de Ville, onde haveria um concerto de verão inaugurando a Paris Plages, as praias artificiais construídas nas margens do Sena todo verão em Paris. Chegamos lá por volta das 6, bem na hora programada do concerto, mas este atrasou e só foi começar depois das seis e meia. Acabamos não podendo ficar muito tempo pois queríamos curtir a tal da Paris Plages enquanto ainda fazia sol e calor, então depois de uma hora de concerto ao ar livre nos levantamos e seguimos rumo ao Sena, por onde entramos pela margem oposta à Ile de la Cité. E ali estávamos nós, no maravilhoso mundo de Paris Plages, surrealmente digno de uma Amélie Poulain: tinha areia, parasol, chuveirinho, palmeira, barzinho com terraço e até mesmo trocadores e chuveiros (na ausência de água do mar...). Quaaaaase uma mini Ipanema em dia de sol. Quaaaaaaaaaase. Mas enfim, Paris é Paris e até mesmo uma praia artificial brega, ali tem o seu charme. Então nos jogamos mesmo na Paris Plages, demos uma boa caminhada por ali, e ainda aproveitamos o dia de sol para uma taça de champagne em frente à Conciergerie. Nada mal para uma tarde de verão em Paris. Caro? Claro que o restaurante é caro, tudo que é bom em Paris É caro, mas enfim, é caro mas não é impossível.


E assim foi acabando o nosso dia... de lá seguimos andando de volta ao centro da cidade e em direção ao Palais Royal, onde tínhamos reservado uma mesa para jantar no restaurante do Jardim do Palais Royal, um restaurante escondido mas hiper gostoso, com um terraço enorme bem em frente ao Jardim do palácio, ou seja, uma ótima dica para o verão. Delicioso. Andamos um pouquinho pelos jardins, tiramos algumas fotos, e depois nos deixamos levar pelo clima agradável e pelos risotos, especialidade da casa. Uma maneira super agradável de terminar um dia inteiro agradabilíssimo. Fizemos umas comprinhas, pegamos uma praiazinha, descolamos um jantarzinho do bem... nada mal, nada mal. No final da noite eu as acompanhei de volta ao hotel, e de lá de volta para o meu, e no dia seguinte pela manhã, agora sim, eu estava tomando o meu trem de volta pra Bruxelas, enquanto as meninas ainda curtiriam um último dia em Paris. Resumo da Ópera? Gastei três vezes mais do que havia planejado, mas não me arrependo, minha irmã e sobrinha valem muito mais. E felizmente consegui controlar o rombo, minhas férias em Ibiza terão uma pequena reprogramação orçamentária, mas ainda estão a salvo, he he he. E passei de leve um maravilhoso fim de semana, na minha cidade preferida, e na melhor companhia possível. Olha, felicidade existe sim.


Ju, Gabi, este post é pra vocês. Morro de saudades, embora não eu não demonstre. Eu sou assim mesmo, fechado, calado, quieto, seco, quase frio... mas isto não quer dizer que não tenha sentimentos. Vocês são duas das pessoas mais importantes na minha vida. Uma porque cresceu comigo, e passou pelos mesmos problemas que eu, e me entende como ninguém, e a outra porque eu vi crescer, e por quem eu apenas torço pra que não tenha nunca nenhum problema, embora eu saiba que isso é impossível. Saudade é uma palavra cujo significado a gente só aprende pra valer quando as primeiras lágrimas correm pelo rosto. Já correram muitas pelo meu, já aprendi o significado de cor, já aprendi a conviver com a dor da distância, e hoje em dia só posso dizer, que falta que vocês me fazem, que bom que vocês existem, e quisera eu, que a gente pudesse se ver mais vezes. Porque com vocês ao meu lado, ainda que eu não fale nada, apenas caminhando e observando, eu me sinto feliz. Sim, porque estou ao lado de gente que realmente conta pra mim, e gente que eu sei que realmente se importa comigo. Paris é linda, mas a beleza de vocês é dez mil vezes maior, e se a Torre Eiffel está brilhando ou não, isso pra mim não importa, o que importa é ter estado com vocês. Obrigado por tudo, e por serem parte da minha família. Um beijo carinhoso, e até a próxima.

3 comments:

Anonymous said...

Cacá: Rir e chorar num mesmo post...Só vc é capaz de me fazer fazer isso! Eu disse a Claudia no outro dia que ver vc partir é sempre muito difícil e que por mais que eu já tenha meio que me acostumado com o fato de que a nossa vida será feita de breves encontros, cada um deles para mim é mágico, feliz, muito feliz, embora doa no final ter que dizer adeus. Te amo mais que tudo, vc é o meu irmão querido e amado e deixa eu te dizer que em Paris, Belém ou qualquer outro lugar,todas as vezes em que estamos juntos eu também sinto a felicidade passar por mim! Beijosss

Andrea Drewanz said...

Que lindo seu encontro com a J e a G!
Fico feliz por vcs.
Bjssssss

RICKO said...

Demorei alguns dias para conseguir ler seu blog inteiro ( textos looooooooongos ) e fiquei realmente muito intrigado em poder conhecer melhor quem se abre de maneira tão grande nos posts deste blog . Gostaria de conversar mais com vc .

Abraços

PS : Tb tenho Orkut ... ;)