
Segunda feira, horário de almoço, estou aqui sentadinho no meu escritório, aproveitando a minha pausa e tentando descansar de mais um final de semana agitado. Já vai praticamente um mês que eu tenho viajado todo final de semana, e como normalmente eu aproveito os fins de semana para compensar o sono atrasado da semana, estou começando a sentir os efeitos desta vida ocupada e itinerante, tenho dormido em média apenas de 5 a 6 horas por noite e isto é muito, muito pouco pra mim. Eu adoro dormir, e não só isso, eu preciso mesmo, sem as minhas oito horas diárias e regulares, eu vou ficando meio zumbi. Hoje estou no câmbio automático, mas já me prometi que hoje no final da tarde depois do expediente eu vou sim pra academia, porque afinal de contas Ibiza está chegando e eu tenho que estar em forma. E, não é só mulher que sofre não.
E falando de mulheres. Desta vez eu passei um final de semana praticamente rodeado delas. Acho que o final de semana anterior em Paris com J, G e C foi apenas um preparativo para o que estava por vir. Este fim de semana a minha queridíssima amiga BBT (Blog por acaso, veja o link ao lado) havia resolvido fazer uma summer party em sua casa em Leiden (para quem não sabe, Leiden é uma cidade universitária a meia hora de trem de Amsterdam), e eu como ja tinha prometido várias vezes que ainda ia passar um final de semana lá com ela, dessa vez não escapei. Fui e fui com gosto, porque BBT é realmente uma pessoa muito querida e qualquer momento em sua companhia é válido em si. E também porque queria finalmente me encontrar com AV, outra amiga virtual que já virou parte da "família". Então eu me preparei para passar o final de semana em Leiden lá com BBT, AV e todo o galinheiro que se formou ali (deixa eu explicar que eu não estou sendo pejorativo nem ofensivo "galinheiro" foi o nome que nós mesmos demos às ocasionais reuniões de brasileiras vivendo na Holanda, isso quando do meu jantar de despedida de Amsterdam há dois anos atrás lá no Saturnino, em companhia de BBT, B, Ax, D, H, e outras galinhas mais, aquele foi o "galinheiro 1" e a gente sempre tenta repetir a dose. Eu e as mulheres.
Só que eu sempre fico cantando de galo mesmo porque aparentemente meu karma na vida é ser o bendito fruto entre as mulheres, para o bem e para o mal (Ik wil een Man!!!!). Estou sempre rodeado de mulheres e minhas melhores amigas sempre são mulheres, ou fag-heads, como queira, isso desde os meus anos de São Paulo. O fato é que as entendo muito bem (ou pelo menos é o que pareçe), e elas parecem me entender também em muita coisa. O papo flui solto. Ok, é verdade que eu sou bem fechado e não abro a minha pessoal inteira pra ninguém (é verdade, pra ninguém MESMO, tem fatos e coisas a meu respeito que vão morrer comigo), o que deve facilitar o diálogo, mas o tanto que eu abro aparentemente é bem acessível ao paladar delas, então acabamos sempre ficando amigos de uma maneira muito natural.
Com homens, é bem mais difícil. Se o cara é heterossexual, sou eu que já vou com quatro pedras na mão e nenhuma boa vontade de entrosamento, pra me defender da grosseria ou comentário malcriado. Gato escaldado tem medo de água fria. Eu já tenho 37 anos e não tenho mais a menor paciência de ter que ficar me "adaptando" ao padrão mental e social dos outros. Eu acho que já sou discreto e elegante por natureza (sorry for the lack of modesty here!!!), por índole, não faço drama nem escândalo, não comento a vida alheia, e o que deixo entrever a meu respeito é na verdade algo de bem leve se comparado a outros tantos, então não tenho saco pra gente de cabeça pequena. Os incomodados que se incomodem, eu tenho mais o que fazer. Mas na dúvida, até pra contornar uma eventual situação de conflito (e quem me conhece bem também sabe que eu odeio conflitos), eu acabo evitando o contato não profissional com os homens heterossexuais em geral, e a verdade é que tenho pouquíssimos amigos desta tribo.
Já no caso dos gays... bom, falemos a verdade, nós somos todos (ou fomos, pelo menos, em uma fase de nossas vidas) uns galinhões mesmo, e é bem normal no mundo gay primeiro transar pra depois ir conhecer alguém. Às vezes até acaba rolando uma amizade mas na maior parte das vezes, fica na transa mesmo. Namoro então... bom, mas não estou aqui pra falar de namoro gay senão esse post não acaba. O que quero dizer é que também tenho infelizmente muitos poucos amigos gays por uma questão de tensão sexual mal resolvida. Pode ser culpa minha. Eu tenho o péssimo hábito de colocar a busca pelo prazer estético como fato primordial na vida (mal de taurino!) e por isso tenho mesmo a tendência de só me aproximar de pessoas que sejam esteticamente agradáveis, principalmente quando são gays. (Tem gente que vai cair de pau em mim agora dizendo que eu sou superficial, mas eu penso, se até Vinícius de Morais admitiu esta fraqueza pelo belo, por quê eu não?) Resumindo: Eu geralmente só consigo fazer uma amizade legal com alguém quando a tensão sexual já foi resolvida, ou porque já rolou o que tinha que rolar, e conseguimos ambos sair satisfeitos e ilesos da coisa, ou porque nunca foi do meu interesse, nem do outro. Claro, há exceções... que confirmam a regra. E enquanto fica aquela curiosidadezinha no ar, é meio difícil pra mim fazer amizade, e pra não entrar em fria (e eu já entrei em cada uma, sempre achando que eu ia segurar a onda, e dando com a cara a bater no final) eu acabo ficando na minha. Nunca procuro contato com ninguém, a não ser que venham até mim. Entao sobram as mulheres, essas sempre bem vindas (principalmente se bonitas, quem disse que gay não gosta de mulher,he he he?) e aqui na Holanda e Bélgica há várias delas, exiladas por casamento ou trabalho, e vivendo suas vidas de maneira exemplar. Deixa eu dizer que eu admiro todas elas.
Então rever todas estas mulheres em Leiden acabou sendo um barato, foi um final de semana ótimo. Só que foi também muito curto e cansativo. Eu havia saído de última hora na sexta feira à noite aqui em Bruxelas, e quando fui dormir o sol já tinha clareado... pensei que ia dormir até por volta da hora do almoço, mas capotei e acabei acordando `as quatro da tarde. Só deu tempo de tomar um café rápido, tomar um banho, trocar de roupa, arrumar uma sacola e correr pra estação, pois afinal Leiden fica a duas horas e meia de trem de Bruxelas, e a festa estava programada para começar às seis da tarde. Bom, ainda com a minha correria para pegar o trem o mais rápido possível, é claro que me atrasei e só fui chegar a Leiden às oito da noite, com duas garrafas de cava para me desculpar. Acho que a desculpa foi aceita, pois as cavas se foram rapidinho.
Daí me instalei no jardim da casa, onde estava rolando a festa - noite de verão na Holanda quando faz calor é legal por isso, todo mundo faz a festa no quintale ali fui conversando e me divertindo com as histórias da mulherada, todas tão diferentes e ao mesmo tempo de um certo jeito, todas tão saborosamente parecidas no saber viver a vida. Solteiras, casadas, divorciadas, com filhos, sem filhos, três filhos, domésticas, empresárias, funcionárias, desempregadas. Desencanadas, alegres (ainda que seja alegria de uma festa de sábado, mas por que não?), neuróticas, determinadas, desiludidas e independentes, e eu sei bem o preço bem caro que cada uma delas pagou para estar ali, por sei também o preço caro que eu paguei para conquistar a minha própria vida e a minha própria liberdade. E se algumas delas sofreram bastante com a vida, o fato é que viveram, e viveram a vida que escolheram, e se talvez erraram na escolha, isso é responsabilidade de nós mesmos e delas também, e faz parte da vida. Assim como também é parte da vida o sofrimento de ir contra aquilo que se é esperado de nós em busca daquilo que esperamos de nós mesmos, isso já nos é contado desde as tragédias gregas. São milhares de Antígonas, Elektras e Medéias espalhadas pelo mundo, e eu admiro cada uma, porque ousaram pensar diferente, agir diferente, viver diferente. E é por isso mesmo que eu acho uma delícia estes galinheiros, porque é uma interação sempre positiva. E há sempre um batonzinho rolando no final, que mulher é mesmo tudo igual... ;-)
A festa foi um sucesso, conheci gente nova, e os últimos convidados saíram por volta das seis da manhã. Eu já estava no zumbi-automático de novo, mas segurando a onda porque não era sempre que tais festas aconteciam e eu estava ali somente por um dia, então quis aproveitar ao máximo. Fui dormir às 6, acordei ao meio dia. Desci pra tomar o café da manhã na companhia de BBT e ML, também convidada, que também ficara para dormir, ambas já acordadas. De lá fomos para o quintal, e estava um sol de verão tão bom, um calor abafado mas que de vez em quando dava uma tréguazinha com uma leve brisa que passava balançando as flores e animando os espíritos - além de mais duas garrafas de vinho, é claro. E ali passamos o resto do dia, desfrutando do verão holandês e da companhia um do outro, e em um dado momento me bateu uma tristeza - e eu estava agora lendo em um post antigo meu que às vezes a linha entre um momento de felicidade eou tristeza é bem tênue, e eu senti isto ontem, porque estava de um lado feliz em estar aproveitando aquele momento, mas ao mesmo tempo infeliz, a de saber não apenas que aquele momento estava acabando, mais ainda, que ele poderia ter sido ainda melhor aproveitado se na companhia de mais uma pessoa ou outra. Pessoas que estavam talvez não tão longe, talvez muito longe, mas que ainda com todos os problemas que dividimos, vivem e viverão sempre no meu coração, porque, assim como lembrou BBT da frase de Saint Exupéry, você é responsável por quem cativa, e aqueles que já conseguiram entrar no meu coração, nunca sairão. E naquele momento eu chorei uma lágrima, a minha única lágrima do fim de semana, uma lágrima de resignação, porque infelizmente a gente não pode ter tudo o que quer. Mas uma resignação plácida, por saber que se um e outro ali não estavam, eu tinha a meu lado BBT e ML, e a amizade de ambas naquele momento já me bastava.
E assim se foram as minhas 24 horas em Leiden, pois o dia acabou, eu tomei o trem de volta (sem pagar o mico de tomar o trem errado e ir acabar parando em Den Haag Centraal ao invés de Hollandse Spoor, onde eu tomaria o trem internacional, o que me custou uma hora a mais de viagem) e deixei as mulheres de Leiden pra trás, e voltei pra Bélgica, voltei para o meu apartamento imaculadamente branco e tranquilo (que constraste com a casa vermelha e cheia de vida de BBT) onde as mulheres de Leiden vão continuar existindo na minha memória,na minha risada e na minha emoção, até o próximo galinheiro. As Elektras do Rio, as Medeias do Brasil, as Antígonas de Amsterdam, as Mulheres de Hollanda, tão femininas como as demoiselles de Avignon, as Mulheres de Leiden. E este texto é em homenagem à todas elas.



10 comments:
AV disse...
Foi exatamente assim. Festa boa, comida boa, bebidas fartas e gente interessante (cada uma a seu modo) reunida. Uma genuína festa de Bebete:-) Este galinheiro tem poderes, hehehe!
Sabe de uma? Eu também preciso dessas oito mágicas horas. Sem elas, nada feito. Falando de beleza: que gatão, este Antonio:)
Para mim, este encontro, há tanto prometido, foi um dos higlights da festa;-)
Beijos!
AV, você é o maximo, porque não só e uma das mulheres de Leiden, mas você é menina bahiana, e só isso já te tornal especialíssima. E menina bahiana que mora na Alemanha, ninguém segura!!!
Não vejo a hora em que tenhamos a chance de dividir um acarajé em Salvador... ou mesmo uma cidrazinha em Frankfurt... e quem disse que só de champagne se faz a vida, né? :-)
XXX/A
ps - brigadinho pelo "gatão", hi hi hi hi.... ;-)
Bom...você é que nem Bombril...em escrever e descrever tudo isso muito rápido com as palavras certas, assim meio zumbi com essas poucas horas de sono, nossa parabéns!
Fora que o Jeroen (menino) de 8 anos jamais vai esquecer os seus músculos, jamais...e quando crescer vai querer ser esse Adonis como você.
E todas as mulheres te amam, desde as pagodeiras até as descoladas, e queriam sua atenção, ficar perto de você, ficar amigas, te conhecer melhor.
Sorte a minha que te descobri virtualmente antes de "muitas".
E é ótimo antes de ser homem ou mulher, de ter uma pessoa como você por perto, contagiante a sua beleza, inteligência e presença.
E ficou muito lírico "As mulheres de Leiden".
Muito obrigada por tudo e 'cê sabe, o nosso coração é grande, só não arranca sangue demais, que dói, isso válidos pros outros.
Próxima paragem: IBIZA
Se joga!
B,
Obrigado pela festa, obrigado por tudo, e obrigado pela amizade. Obrigado por existir! :-)
XXX
Eu acho beleza uma característica tão relativa ... claro que como apreciadores do belo ( todo gay é meio assim ) sempre buscamos estar rodeados por pessoas que encantam os nossos olhos , as nossas vidas . Entretanto , como vc mesmo disse num dos teus posts anteriores , nem sempre as pessoas enxergam a mesma face do espelho que queremos mostrar . Aquele que se apresenta como um pavão pode não passar de um grande dragão ... e vice-versa ( o sapo que vira principe ) . Tanto no sexo como na amizade , prefiro sempre pautar me na atitude alheia e exemplos não faltam . Aliás já que vc sempre fala da Espanha , vou me ater aos exs de Penélope Cruz : Tom Cruise é lindo , mas ela fez muito melhor negócio ao trocá-lo pelo Benício Del Toro ... ele é bonito ??? Nãooooo . Mas tem atitude !!! Entendeu ???
;*
Oooopsss ... Benício Del toro não . Javier Bardem !!!
Ai Jesus amado...acabei de falar com a anfitriã ao telefone pedindo mil desculpas por ter dado um bolo vergonhoso mas acho que ela me perdoôu :-(
E agora lendo o seu relato fiquei com vontade de chorar...Adoraria ter estado com vocês nesta Garden Party tão especial. Porque convenhamos, não há nada melhor neste mundo do que a companhia de bons amigos (ou quase nada...rsrsrsr). Mas meu coração anda dividido e tem horas que fica complicado gerenciar tanta emoção...
E que legal que você e Arnild finalmente se conheceram, esta baiana é mesmo das minhas!!!
beijos da furona...
Beth,
Fique tranquila... sentimos muito a sua falta sim! Mas tenho certeza de que outras ocasiões surgirão... leva o F da próxima vez, ora bolas... :-)
Ricko,
Entendo o que vc diz, mas felizmente beleza é algo subjetivo, e o que é belo pra um pode não ser para outro... Eu por exemplo acho o Tom Cruise muito sem graça... ;-)
XXX
Mas com toda certeza deste mundo!
BBT, de novo certeira: " todas as mulheres te amam, desde as pagodeiras até as descoladas, e queriam sua atenção, ficar perto de você, ficar amigas, te conhecer melhor."
Eu saio uma pessoa melhor desses encontros entre amigos:-)
Beijão,
Arnild
Um dia quero conhecer todas essas suas amigas de quem tanto vc fala. Beijos,
Ju
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