Friday, June 29, 2007

Enquanto chove...


Santa sexta feira. Depois de mais uma semana atribulada como esta que está terminando, espero poder ter um final de semana de paz e tranquilidade. Sei que não vai ser assim, a agenda social continua cheia. Mas não custa nada sonhar um pouquinho, que eu vou ter um pouquinho de tempo só para mim, que vou poder sentar no meu terraço e ler o meu livro sem pressa, sob um céu azul e uma temperatura agradável.



Esta semana só choveu.



Minha amiga A esteve de passagem por Bruxelas e ja foi embora, deixando muita saudade. foi muito divertida a sua passagem por aqui. Engraçada como sempre, lesada como nunca, desfocada como de hábito, de uma doçura, uma simplicidade e uma cortesia naturais, A é uma de minhas amigas paulistanas de quem mais sinto falta. A me contou algumas de suas histórias, de cair de rir. De como foi parar por engano no Autorama em São Paulo. De como lhe foi oferecido um ovo de codorna no trem aqui em Bruxelas. De como fez parte da comunidade japonesa no Brasil. Um dia fui com ela ao Chatelain, que é para Bruxelas mais ou menos como o Jardim Paulista para São Paulo. Fomos assistir à profusão de Maurícios e Patrícias que passeiam pelo local, uma fauna totalmente diferente do povo que anda pelas ruas aqui do centro de Bruxelas. Ali há uma pracinha com uma feira às quartas feiras onde se vai não apenas para comprar as frutas e legumes da semana, mas também e principalmente para saborear petiscos variados, acompanhados ou não de alguma bebida, bater papo, ver e ser visto. Madames com seus cachorrinhos, grupos de meninas com seus celulares em punho, políticos e empresários de terno, gays musculosos indo e vindo da academia de ginástica ao lado, peruas à busca de um pretendente, enfim, tem de tudo um pouco no Chatelain, de tudo um pouco de tudo aquilo que praticamente não há aqui do outro lado da cidade. Tivemos um final de tarde bastante agradável, sentados em um café, saboreando as cervejas locais e radiografando cada transeunte que passava ao lado.


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Final de semana terminando e eu não tive a oportunidade de ler o meu livro no terraço sob o sol. Eu disse que não passava de um sonho. Fez sol cedo pela manhã, mas durante as tardes e as noites, choveu.


Ontem à noite fomos eu e M à festa de despedida de L e S. L e S são diplomatas alemães, trabalhando atualmente para a representação permanente da Alemanha junto à UE. Ambos estarão deixando Bruxelas dentro das próximas semanas. L assume um posto em Cantão, na China, e S vai para o Rio de Janeiro. Ah, a vida dos diplomatas. A cada quatro anos um novo endereço, um novo cargo, novos amigos, nova casa, nova vida. Eu diria que é a vida perfeita para quem não quer criar raízes; quando cai na rotina arruma as malas e vai em frente. Se quer terminar um relacionamento que não está dando certo tem a desculpa infalível - sinto muito, amor, mas o trabalho me chama, estou me mudando para o outro lado do mundo, mandarei um postal. Por outro lado, pode ser complicado quando a coisa fica séria. Deve ser mais fácil para os homens que para as mulheres, eternamente perseguidas (ou será que eu estou sendo um tanto machista agora?) pelo relógio biológico.


Pois bem, L e S, que são também vizinhos, fizeram uma festa de despedida no terraço de seu prédio aqui pertinho de casa. Entre uma chuvarada e outra até que deu para aproveitar o terraço, um terraço enorme, rodeado de telhados antigos, pontas de igrejas, outros terraços. Foi uma festa bem gostosa, com a habitual mistura de expats que sempre frequentam as festas deste tipo. Eu mesmo tive a oportunidade de conhecer um casal lituano - ela simpática e falando pelos cotovelos, quase histérica, ele, lindo, sério e caladão - e uma alemã parecida com a Elisabeth Shue, entediada com a vida que leva de segunda sexta no vizinho e pacato Luxemburgo. Foi a segunda vez na vida que eu conheci alguém da Lituânia, a primeira vez tendo sido anos atrás, quando tive um colega lituano, lindo e louro, na Universidade de Amsterdam, que tinha o irritante hábito de só se apaixonar por garotos pequenininhos, magrinhos, moreninhos, feinhos, e depois vinha me contar tudo em detalhes, e eu alto, forte, bronzeado, bonito e à deriva na época, tinha que bancar o ombro amigo. Que raiva.
Resolvemos fazer uma brincadeira com L e S, comprando presentes adaptáveis ao destino de cada um. Assim, para L, que passará quatro anos na China, compramos um consolo bem grande e bem preto, para os prováveis futuros momentos de solidão (estávamos sempre brincando com ele, que a partir de agora teria que se adaptar em ver tudo pequenininho e amarelinho, e para S, que vai para o Rio, uma caixa bem grande de preservativos tamanho XXL. Aparentemente ambos gostaram dos presentes, então acho que acertamos. Recebemos também convites para futuras visitas a Cantão e ao Rio, que claro, aceitamos. Assim pode ser que o meu próximo destino intercontinental, depois do Brasil, será o Sul da China, onde poderei conhecer Hong Kong e Macau, ambas a apenas duas horas de trem de Cantão. E L terá à sua disposição uma penthouse duplex com terraço e piscina no trigésimo andar de um arranha céu no centro da cidade. Quando? Bom, tenho quatro anos para me decidir.


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V e H também estavam na festa. V é alemã e trabalha como secretária na Representação da Alemanha. É grande amiga de M, inclusive nos ajudou muito em nosso começo aqui na Bélgica. Gosto muito de V e acho muito divertido o seu eterno complexo de adolescente. V é neste ponto bem parecida com M, se recusa terminantemente a envelhecer e viver a vida como um adulto. No caso de V a coisa é um pouco mais engraçada porque além dela ser mais velha, tem também um filha universitária que pelo que ouvi falar é bem certinha e não aprova as loucuras juvenis da mãe quase cinquentona. Uma coisa assim como Edwina e Sapho em Ab Fab. H é o marido de V, turco, com o qual a minha conversa nunca vai além do "boa noite, como vai?", não por falta de simpatia mútua, mas pelo simples fato de que H não fala uma palavra de inglês, francês, ou qualquer outra língua fora o turco e o alemão. V e H têm uma casa de verão em Izmir, na costa oeste e ocidentalizada da Turquia, e planejam voltar para lá um dia. Recentemente nos convidaram para entrar de sócios em um projeto de um restaurante lá na Turquia. Eu categoricamente respondi que não, obrigado, não só porque não me vejo morando na Turquia, mas também porque simplesmente não quero entrar no ramo da restauração, que segundo a minha irmã é a melhor receita para acabar com a tranquilidade da vida de alguém.


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E esta semana fizeram aniversário meu pai, minha irmã e minha sobrinha Gabriella. Liguei para os três para dar os parabéns; não consegui falar com o meu pai, que estava em Buenos Aires, mas consegui felicitar a minha irmã e a minha sobrinha. Ah, três cancerianos na família. Com o meu pai e a minha irmã o meu relacionamento sempre foi um tanto peculiar. Para eu que sou de Touro, signo de Terra, signo da chatice e da falta de expressão, é muita água. Haja paciência para lidar com todo este dilúvio de sentimentos à flor da pele. A minha sobrinha me parece mais controlada neste aspecto; pode ser que seja apenas impressão, pelo fato de que eu não tenha tanto contato com ela. A minha irmã melhorou com o tempo, está bem mais ponderada, já quase não a reconheço, mas uma vez ou outra ela ainda se trai. O meu pai continua o mesmo... adoram uma frase de efeito, um momento dramático, uma decisão irrevogável, uma opereta. Às vezes é impressionante como a mesma história, se contada por mim ou pela minha irmã por exemplo, pode ter contornos totalmente diferentes e conclusões opostas no final. É, em cada verdade há uma verdade diferente, dependendo de quem a conta.


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Agora no final da tarde aconteceu algo de que eu não gostei. Acabei dando uma de desagradável, ao cortar pela raiz o que poderia ser o início de mais uma noite de festa, e que pode ter causado a saída precipitada de nossos convidados, que iriam ficar para jantar e depois desistiram. M estava no terraço com F e J, em um dos raros momentos de sol do dia, e em um dado momento teve a idéia de preparar batidas de suco de laranja com cachaça, trazida do Brasil por A. A princípio ninguém quis, mas M insistiu e F aceitou. Até aí tudo bem, mas o problema é que M quando começa a fazer festa não sabe parar, não tem limite, bebe além da conta e acaba varando a noite, então eu cortei na hora, dei uma de chato mesmo, falei que não queria pois hoje já é domingo, amanhã temos que levantar cedo, e eu já vi esta história antes, etc. Acho que falei mais do que deveria, mas é cansativo ser sempre aquele que no final tem que lembrar que nem só de festa é feita a vida, que a vida (infelizmente, mas inevitavelmente) também é feita de acordar cedo de segunda a sexta feira, de pagar as contas em dia, de ir ao supermercado e de economizar quando possível. No final eu levo a fama de chato e ranzinza, sou sempre o que corta o barato, o que diz "não", o "estranho", eu viro a "mulher chata do casal", o que acho muito injusto. Eu também gostaria de poder me dar ao direito de ser inconsequente uma vez ou outra, de sair um final de semana por exemplo sem prestar atenção no quanto estou gastando, de voltar tarde pra casa sem me preocupar com o dia seguinte, mas sei que não posso, pois no meu caso não há nunca ninguém para bancar o chato, o "chato"sou sempre eu, ou não é ninguém, pois o outro é sempre o "maluco beleza". Engraçado, aqui nesta casa parece às vezes que M é que é brasileiro e que eu sou alemão. Os estereótipos estão totalmente invertidos no nosso caso.
Bom, felizmente M está mais para Goldie (o apelido que ele mesmo se deu) que para Gremlin (o apelido que eu dei pra ele) este final de semana, então a minha chatice obrigatória não teve desdobramentos, felizmente. Terminar o final de semana com briga é a última coisa que eu queria.
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Continua chovendo aqui em Bruxelas.













2 comments:

Bebete Indarte said...

Já estava com saudades de ler um texto seu. Afinal essa maneira de blogar é perfeita pra saber o que se passa no outro lado.
Você não é chato, simplesmente é uma pessoa que sabe o que quer, consequente, e não adianta querer mudar, porque se você fazer festa num domingo até a noite com convidados "trebados" de cachaça, vai te causar uma dor de cabeça, mesmo sem ter bebido na segunda.
Legal ter amigos assim, que fazem visitas (e não fazem basfond), mas realmente não te vejo dono de restaurante morando na Turquia, no máximo numas férias por lá, qdo ver V e o marido voltarem, ai quem sabe vc queira fazer uma festinha no domingo a noite, hehehe.
Boa semana pra vc, tá no meio e está valendo.

Bebete Indarte said...

fizer festa, tô ficando anaRfa