
Eu já comentei isto de leve aqui no blog em outro texto, e gostaria de seguir um pouco mais adiante na análise: A impressão que a gente causa nas pessoas ao nosso redor, a imagem que a gente passa, e a diferença entre a imagem que nós temos de nós mesmos e aquela que passamos aos nossos amigos e familiares.
Eu sou visto por todos que me conhecem como um pessimista convicto. A minha visão dos fatos é sempre tão negativa! Parece que eu nunca consigo ver o lado bom das coisas; ao contrário, estou sempre buscando o defeito no argumento, o problema escondido por detrás da solução, as mazelas da sociedade sobre os feitos da raça humana... eu sou o chato por excelência. O engraçado disto tudo é que eu não me vejo assim. Eu não acho que eu seja pessimista. Eu acho, na minha humilde opinião a meu respeito, que eu sou realista, só isso. Eu procuro ver a vida como ela é, e não como eu gostaria que ela fosse, é isso o que eu sempre alego em minha "defesa".
Mas aparentemente a minha maneira de enxegar a realidade é dura demais aos olhos dos outros. Uma coisa é verdade, eu sou muito crítico com tudo e principalmente comigo mesmo. Eu me cobro demais. Este é um defeito meu (na minha opinião é um defeito) porque tudo poderia ser mais fácil e mais leve, se eu fosse mais distraído, mais desencanado,menos preocupado com a vida. Mas se eu o faço, esta cobrança toda, é porque tenho esperanças de melhoria, e uma pessoa que tem esperança não pode ser classificada como pessimista. Pessimista é aquele que acha que tudo vai dar sempre errado. Eu não acho que tudo vai dar sempre errado, eu na maior parte das vezes acho que tudo já deu errado, mas aí há uma grande diferença - achar que tudo já deu errado implica em que a melhora é totalmente possível e alcançável e que isso só depende da gente, só depende da gente aprender com a realidade e aprender a mudar, mudar pra melhor - e não é isso a essência de ser otimista? Eu acredito que o otimismo só tem valor se parte de uma análise verdadeira da realidade (ok, poderíamos aqui começar uma outra história, a história sobre a "Verdade" já que no meu ver a "Verdade" não existe, o que há são diferentes "verdades", mas isto é papo pra outro texto). Porque é somente assim que ele vai funcionar. Otimismo baseado em uma visão iludida dos fatos é utopia, e utopia é sempre utopia, nunca vira realidade, porque não tem embasamento sólido - e além do mais, se virasse realidade deixaria de ser utopia. Utopia não serve pra nada. É, neste ponto eu sou bastante pragmático, bastante terreno (mal de taurino?), o meu otimismo tem que ser alcançável, talvez seja este o meu problema. Eu não me permito sonhar com aquilo que a minha análise da realidade julga ser inalcancável.
Mas eu noto que não sou o único que tem que lidar com esta distorção entre o meu espelho e o espelho dos outros. Parece-me que todos nós temos que lidar com isto. Frequentemente acabamos tendo uma visão de alguém que não bate com a visão desta própria pessoa. Alguém que é visto como o mais gregário dos seres humanos se revela um tímido convicto. A moça de boa família, bem casada e bem vestida, que se revela uma mulher cheia de mistérios, segredos, desejos contidos. Aquele que vive reclamando da vida e ninguém entende o porquê. A bela da turma que se acha feia. O intrépido homem de negócios que não se acha competente o bastante. A melhor amiga que sofre de culpa por sentir inveja. A mulher independente que esconde uma bruta insegurança. O carinhoso rapaz, que bate na namorada quando está bêbado, e depois se arrepende. O que se diz fiel e trai em pensamento. A que ama mas trai. A doce e meiga criatura que sabe ser cínica e hipócrita. A feia que se acha linda... Há tantos exemplos para citar...
Por quê é às vezes tão difícil fazer com que a nossa própria imagem coincida com a imagem que passamos ao mundo? Não é só o fato de que temos várias facetas, porque nestes casos é uma mesma faceta que é vista de maneiras diferentes, como se a cor da parede mudasse de acordo com os olhos de quem a vê. Mas a parede é a mesma. Eu humildemente acho que deve ser uma falha no nosso próprio discurso, um vício de linguagem. Nós simplesmente não somos entendidos porque não conseguimos nos fazer entender. Usamos as palavras erradas, por assim dizer. Mas esta falha também é aparada pelo fato de que nós nunca nos revelamos por inteiro, até porque nós mesmos não nos conhecemos por inteiro. O silêncio pode assim ser interpretado de várias maneiras diferentes. Às vezes agimos de maneiras que nem nós somos capazes de explicar o porquê. Ou até podemos, mas não queremos. Há sempre um saldo que fica escondido em cada história, todas as palavras não ditas, conscientemente ou não, que dariam ao conto um sentido diferente daquele que as palavras expressas conseguiram passar.
Assim sendo, no meu caso específico, acho que o meu "pessimismo" decorre da minha incapacidade em formular o meu discurso de uma maneira, digamos, mais aceitável, mais digerível pela maioria. Talvez eu carregue demais no uso da palavra? Pode ser. Deve ser. A minha argumentação é com frequência colorida demais, eu abuso de palavras como "adoro" e "detesto" e isso marca a mente das pessoas. Mas não pode ser apenas isto. Este problema de comunicação tem que ser aliado ao fato de que sou eu, e apenas eu, se tanto (!!!), que sei todos os motivos, causas e consequências de cada um dos meus atos. Como todo mundo, há uma parte de mim - e no meu caso uma parte bem grande - que eu guardo pra mim mesmo, pra me preservar. E portanto sou o único que conheco a receita inteira do bolo. E se eu não passo a receita por inteiro para todo mundo, se quero guardar alguns ingredientes para mim mesmo, por razões que conheço e que desconheço, é claro que no final cada um vai sentir um gosto diferente quando provar do meu bolo. E eu não tenho do que reclamar.
E você? Qual é a distorção do seu espelho?



3 comments:
Como todo mundo, há uma parte de mim - e no meu caso uma parte bem grande - que eu guardo pra mim mesmo, pra me preservar. E portanto sou o único que conheco a receita inteira do bolo.
bom, eu adoro a parte do seu bolo que eu conheço, até porque me identifiquei enormemente com este texto. não só porque a distorção do espelho aqui também toma proporções (quase) surreais como porque também tenho fama de pessimista (e com alguma razão). mas no fundo, sou igualzinha a você: por trás deste pessimismo rabugento existe um otimismo e a crença (ou teimosia) de que o futuro ainda pode e vai dar certo.
Engraçado...Eu acabo de escrever no meu blog um assunto aprecido, mas no meu caso fora apontadas duas características minhas que soou-me absolutamente certas.No meu caso me surpreendí por ser tão clara para os outros.Mas acho legal que a gente possa guardar sempre algo só pra gente, que a genste saiba que somos muito mais complexos do que uma ou outra definição.Não suportaria que todo mundom soubesse tudo sobre mim.
Quer ver uma distorção?
A maioria das pessoas que conheço diz que eu sou uma pessoa muito doce.E eu sei que não sou.Sabe o que acontece? Meu rosto é o que vêem primeiro e eu tenho um rosto assim, meio de bonequinha, como dizem, a voz fininha.Isso confunde as pessoas.Elas vêem primeiramente a imagem e a imagem é o cartão de visitas das pessoas.Eu, doce? Só a cara...E vc sabe bem disso!
Ai...de novo deixei pra ler seu posting muito tarde.
Amanha vou relê-lo e te darei uma resposta.
Gostei do tema.
Mas eu acho que é um pouco aqueles livros que eram febre antigamente.
We, She, he...ou coisa assim.
Como os outros nos vêem, como nós nos vemos, como nós achamos que os outros nos vêem.
E fora que nós (o eu) é um objeto em contínuo desenvolvimento, e até evolução.
Quando eu digo, sou a típica geminiana, esqueço que minha lua está em sagitário, e se eu tivesse memorizado mais meu mapa astral teria essa visão(parcial) de mim mesma mais completa.
Depois eu volto, porque se eu for ME VER estou mais perdida que Chapeuzinho vermelho no bosque.
Post a Comment