Monday, June 18, 2007

Um rio que passou pela minha vida nas Ardennes


Algumas semanas passam tão rápido que a gente nem vê.


Assim foi a semana passada. Por um misto de muito trabalho e muitas outras atividades, durante a semana e no fim de semana também, os dias foram passando assim, bem rápido um atrás do outro, e quando mal percebi, a semana já havia terminado.


A segunda feira foi um dia normal, mas na terça feira tive que ir a uma excursão do meu trabalho. Away day, é o nome oficial da coisa. A unidade inteira, todos dentro de um ônibus até as Ardennes para visitar um dos projetos de town twinning (sei lá o nome da coisa em português, algo como irmanamento de cidades) que nós (a Agência européia para a qual eu trabalho; até parece que eu próprio tenho dinheiro pra financiar o que for) financiamos. Tive que me levantar bem cedo, às 6 da manhã, para poder estar em frente ao escritório às 8:30 em ponto, hora em que saía o ônibus com destino a Houffalize, uma cidadezinha a duas horas de viagem de Bruxelas, já quase na fronteira com Luxemburgo. Eu que não gosto muito destas invenções modernas de recursos humanos fui meio a contra gosto, mas uma vez lá, até que valeu a pena. Para quem não sabe, as Ardennes são uma região de morros, rios e florestas entre o sul da Bélgica e o norte da França. O lugar era lindo, uma associação esportiva bem no meio de uma floresta, inclusive com direito a uma área de repouco com um rio passando embaixo do morro e banquinho bem na beirinha, pra poder apreciar sozinho a paisagem, o barulho da água, o canto dos pássaros e o ar puro. Um mini paraíso, e felizmente apenas eu descobri o lugar, pois ninguém me acompanhou até a beira do rio, o que eu adorei. Parecia até comercial da Air France. Sério, só faltou o sapinho pulando na água e fazendo "ploc", "ploc". Depois na continuação emendamos até o centrinho da cidade, que havia sido totalmente destruída na Segunda Guerra e foi refeita na íntegra. Fizemos uma degustação de cerveja em uma cervejaria local, e depois de volta pra casa, isto é, Bruxelas, onde chegamos já por volta das 8 da noite.


Na quarta tive que acordar de novo bem cedo pra fazer exame médico e depois emendar até o trabalho. Já nem me lembro mais porque não fui pra ginástica como de costume na quarta à noite, mas sei que na quinta acordei de novo antes do horário habitual porque tinha uma entrevista para um outro emprego bem na hora do almoço, então tive que compensar. A entrevista era para uma vaga administrativa na Representação Européia da OMS em Bruxelas. Acho que foi tudo ok, mas em todo caso só receberei a resposta em julho ou agosto, não é pra já. O lugar é horrível, uma das áreas mais caidaças de Bruxelas, perto da Gare du Midi, mas tem a vantagem de ser bem mais perto de casa do que o meu atual emprego, além do salário ser bom e o contrato de pelo menos um ano - na Comissão Européia e instituições afins, atualmente sem fazer concurso só se consegue contratos de 6 meses, como o meu atual, que termina em Novembro. E mesmo que eu venha a passar em algum concurso, o processo total de contratação leva pelo menos um ano, então tenho que me precaver. Bom, vamos ver no que isso vai dar.


Na sexta feira, ufa, pude levantar em um horário mais decente, às 7, mas ainda assim o dia não foi fácil, começando com uma audiência com o juiz conciliatório da primeira instância da comarca de Bruxelas, para tratar de problemas frugais com o locador do apartamento onde moro. No final deu tudo certo, mas haja stress até chegar lá. Emendo para o trabalho, um dia puxado apesar do final de semana chegando, daí saio do escritório às 6, chego em casa às 6:30 da tarde, tomo um banho, troco de roupa, e lá vou eu de novo, desta vez para um jantar na casa de uma amiga, AW, uma alemã diplomata que já morou no Brasil e fala português. O jantar foi trilíngue, em inglês, português e alemão, e até que foi divertido no final, com direito a piadas em alemão que eu não entendi e a explicações sobre a economia de Cabo Verde por uma diplomata caboverdiana, que estava presente.


No sábado, finalmente, final de semana, hora de descansar... não, não, não... levantei cedo e fui comprar o meu jornal e os meus croissants. Tomei café, e a maratona continuou. Tínhamos a visita de K e seu namorado, um casal de amigos vindos de Rotterdam. Ambos ótimos, K é brasileiro e divertidíssimo, gosto muito dele. Mas eu lembrava que K tinha o hábito de articular palavras e argumentos com uma velocidade, digamos, fora do usual, assim mais no compasso da luz, e eu, devagar quase parando como sou, estava apreensivo que não ia ter pique pra aguentar a hiperatividade verbal dele, eu que já aguento a hiperatividade verbal, gestual e emocional de M 24 horas por dia - e sei que não é fácil. Enfim, K veio bem mais tranquilo que de costume, acho que o namoro está fazendo bem a ele. O final de semana foi ótimo. Choveu quase que o tempo todo, mas ainda assim conseguimos nos divertir, passear um pouco, colocar o papo em dia - isto nunca foi problema para K nem para M - e até mesmo descansar um pouco. No domingo até bateu um solzinho no terraço de casa, deu para tomarmos um bom brunch antes deles irem embora. Não deu pra ler o meu livro, mas tudo bem. Gostei muito da visita de K.


Para não dizer que eu menti - deu para ler um pouquinho sim, no final da tarde de domingo. Peguei o White Teeth e avacei mais uns dois capítulos, já estou agora na segunda parte do livro. Mas já notei que este é um livro que vai descer bem devagarzinho, ao longo dos meses, entre um livro e outro. Ainda não consegui "entrar" na história. Estou curioso porque já me falaram que um dos filhos de um dos personagens acaba virando um fundamentalista muçulmano mais tarde na história, e eu estou curioso para saber como isto acontece. Mas ainda faltam muitas páginas até lá. Achei em todo caso muito divertida a passagem em que o pai de família bangladeshi pede na reunião da escola que os feriados muçulmanos sejam incluídos no calendário escolar, para desespero das professoras. E a reação das mesmas perante o voto forçado da mulher do pai de família, algo como "and they looked over to her with the pitteous, saddened smiles they reserved for subjugated Muslim women." Tenho que reconhecer que um dos trunfos da autora é humor contido no texto e a maneira irônica, bem à inglesa, que ela tem de caricaturar a sociedade britânica contemporânea, multi-étnica, multi-frustrada, multi-falida e multi-imcompreendida.


Ainda consegui ler os dois primeiros contos de um livro de contos que eu havia ganho de presente de aniversário de L, diplomata alemão, amigo de M, de V, de AW... L tem um jeito sério e desengonçado de ser. Pois bem, ganhei dele um livro de contos chamado "From Boys till Men", que trata daquelas primeiras lembranças que os gays têm da infância e adolescência, lembranças que na verdade são as primeiras manifestações da nossa sexualidade diferenciada, mas que na época ainda não tínhamos a capacidade de entender como tal. Pensamentos e situações que ficaram marcados na memória, pelo estranhamento que nos causaram naquele dado momento. Coisas que só vieram a fazer sentido muito tempo depois. Eu que tenho lembranças similares sei bem do que os autores estão falando (um dia ainda escrevo a respeito). Para homo esclarecido e para o hetero curioso, recomendo - mas vejam bem, só li até agora os dois primeiros contos, deixem eu chegar até o final do livro pra dar o meu veredito final, ok?


E assim foi-se a semana, passou rápido como um rio que passa pelas Ardennes (não querendo plagiar o maravilhoso Paulinho da Viola), e já estou de novo em uma segunda feira à noite e amanhã é terça feira e tenho de novo que acordar mais cedo que de costume devido a compromissos durante o dia. E na quarta provavelmente teremos a visita de um querido amigo vindo de Barcelona, e na quinta teremos a visita de um amigo de um amigo, de passagem por Bruxelas, no sábado terei que ir até a Ikea comprar um colchão, e então chega no domingo a minha queridíssima amiga A, direto de São Paulo, para ficar alguns dias aqui com a gente. E ainda tenho que arrumar tempo pra ir malhar, para ir ao supermercado, para ir ao correio... então peço desde já desculpas se eu ficar por alguns dias assim, meio desconectado, mas é que estou no momento conectadíssimo com a vida real.


6 comments:

Annix said...

hoho, eu sei como é. Depois disso tudo a gente precisa de uma semana só de repouso. :)
Beijo!

Beth Blue said...

eu ando tão no mundo da lua que nem tenho tido tempo pra escrever...tem algo pairando no ar, hehehe. no mais, estou na contagem regressiva para Praga - igualzinho criança esperando Papai Noel chegar, rsrsrsrs. e final de julho-início de agosto (quando LÇiam for com o pai pra Inglaterra), quero visitá-lo, então vê se não resolve sumir hein!!!

beijosssssssssss

Bebete Indarte said...

Pois eu achei que aconteceu bastante coisa nessa sua semana, você percebeu que apesar do turbilhão muitas coisas aconteceram?
E pelo jeito vocês estão "bookadados" até sua mãe chegar. Estava pensando em fazer uma visita com C.
Queria muito conhecer essa região das Ardennes, me falaram muito bem, natureza, verde, morros, água.
Super.
Bjs

Beth Blue said...

Antônio diz:
Mas eu lembrava que K tinha o hábito de articular palavras e argumentos com uma velocidade, digamos, fora do usual, assim mais no compasso da luz, e eu, devagar quase parando como sou, estava apreensivo que não ia ter pique pra aguentar a hiperatividade verbal dele...

Beth diz:
Prometo falar MENOS quando for te visitar (muita calma neste momento, rsrsrs). E o Jeff já acampou em Ardennes algumas vezes, ele adora (nature boy que ele é).

beijos

Anonymous said...

Oi!! Cheguei aqui por uma boa indicação e gostei muito do seu dia a dia. Assim,como você as vezes sou meio lento ao me expressar, mas acho isso uma um charme, coisa de baiano... rsrs... Te desejo uma boa semana!
Abraços!!!

Anonymous said...

Oi!!! Já ouviu uma música que canta bem assim: "nessa cidade todo mundo é d'Oxum, homem, menino, menina, mulher"?! Pois, bem, a musica fala de Salvador e como bom soteropolitano me considero filho de Oxum tb. Ta bom?! rsrsr... Beijos!!!