Saturday, June 9, 2007

Viva España!


Terminei finalmente de ler Anna, Hanna e Johanna, a história de três gerações de mulheres na Suécia entre o final do século XIX e o final do século XX. Muito bom livro; daqueles textos bem intimistas que te convidam pra ler na cabeceira da cama com uma luz suave antes de dormir. Gostei de algumas frases, e tem uma que ficou gravada: 'wie alles begript, moet veel verdragen"(algo como quem entende a tudo e a todos, carrega um peso bem grande nas costas). Interessante como a personagem do meio, Johanna, desprezada tanto pela mãe como pela filha, acaba sendo a criatura mais agradável da história, aquela com a qual você gostaria de fazer amizade se um dia encontrasse. Mas o livro explica o porquê disso tudo. Eu recomendo.


Agora tenho que escolher qual será o próximo livro. Já tenho uns 5 ou 6 comprados esperando pela sua vez. Mas no momento estou na dúvida entre dois livros. Ou eu continuo a ler White Teeth, de Zadie Smith, que tinha parado porque estava tendo dificuldades com uma certa personagem desdentada (dente é algo muito importante pra mim, não precisam ser lindos mas têm que estar no lugar...), ou pulo para Todas las familias felices, de Carlos Puentes. Por um lado a minha bússola literária me diz que é hora de ir para a Londres contemporânea, mas o meu coração latino-americano não deixa de bater, e ler em espanhol sempre me agrada mais do que em inglês. A ver, o final de semana está aí para que eu me decida.


Aliás por falar em espanhol, tive a impressão hoje de que a Espanha estava me seguindo. Por diversas vezes ao zapear pela televisão dei de cara com programas feitos na Espanha, ou sobre a Espanha, mostrando a Espanha... em canais diferentes, vi um programa de turismo sobre a Andaluzia, vi um programa sobre os desenvolvimentos no litoral espanhol, vi notícias vindas da Espanha - que já havia lido no jornal de manhã - e no final da noite ainda recebemos a visita de um amigo que é metade luxemburguês, metade espanhol.


Tudo isto talvez para me lembrar que na semana que vem estará fazendo um ano da minha frustrada tentativa de me estabelecer naquele país. Este foi um fracasso que eu contabilizo no diário da minha vida na conta de perdas pessoais. Eu queria muito que tivesse dado tudo certo, eu fui cheio de esperanças, ilusões, sonhos, promessas, planos, metas, objetivos... e deu tudo tão, tão, mas tão errado... difícil de pensar no que deu certo naqueles três, quatro meses que passei em terras espanholas.


Primeiro, Madrid. Madrid que é para mim uma das capitais mais interessantes da Europa. Uma cidade bonita, alegre, imperial, caótica, cultivada, fervente, em todos os sentidos. Uma mini Paris hispânica. Cada bairro com o seu charme próprio, o nosso bairro com o maravilhoso Parque del Oeste bem pertinho. E o centro, a Madrid castiza. Um calor insuportável, um forno a céu aberto no verão, um horror... mas um calor seco, com o qual bem ou mal a gente acaba se habituando. Não foi o calor que que matou em Madrid. Foram os próprios excessos da cidade, toda aquela gente, toda aquela poluição, todo aquele trânsito, todo aquele frenesi, Madrid é uma cidade hiperlativa, que não te deixa em paz, Madrid é puro Almodóvar com todas as suas cores, ela te dá um beijo e um tapa na cara, e depois te convida para um trago, sem o menor pudor. Madrid lembra muito São Paulo. Aliás, a Espanha lembra em muita coisa o Brasil. Talvez por isto eu não tenha ficado. Engraçado como as coisas que te atraem a algo ou a alguém acabam sendo as mesmas que te repelem no final.


Eu me lembro da celebração do feriado de Corpus Christi em Colmenarejo. Colmenarejo é o lugarejo onde eu fiquei hospedado nas minhas primeiras três semanas de Espanha. O que era para ter sido um subúrbio de Madrid, era na verdade uma cidadezinha a uns 100 km fora dos limites da cidade. Duas horas para ir e duas horas para voltar. Mas enfim, o Corpus Christi em Colmenarejo. A cidade parecia uma dessas cidades do interior do Estado de São Paulo - alguém aí já foi a Tatuí? Pois era uma mini Tatuí, mas uma Tatuí jeitosinha, inclusive com um lago e casarões de verão das famiílias de classe média alta de Madrid. No domingo do feriado, a procissão que passa pelas ruazinhas antigas do centro, as casas de pedra todas enfeitadas com fitas brancas e amarelas, e as crianças, meninas de branco e meninos de preto, que levam a imagem da Santa até a igreja local. Aquilo me lembrou tanto da minha infância, do Círio de Nazaré em Belém... o Círio é uma festa à qual todo brasileiro deveria ir pelo menos uma vez na vida; uma pena que Belém seja uma cidade tão desconhecida no sul do Brasil.


Mas Madrid era grande demais, e o meu salário era pequeno demais, o meu emprego era confuso demais - não deu. Coisas que a gente só aprende vivendo. Que a gente que já passou dos trinta já não tem mais o mesmo espírito de aventura que tinha aos vinte. Que o nosso senso de conforto e espaço vital mudou. Que nossas necessidades são outras. E que, como minha amiga Beth comentou em seu blog, que as escolhas que fazemos hoje vão se refletir bem rapidinho na vida de amanhã, e aos trinta já não dá mais pra ficar brincando e experimentando muito - é acertar ou partir pra outra. Foi duro deixar Madrid, mas foi necessário. Madrid é contagiante.


Fomos para Barcelona, a capital do Mediterrâneo, cidade de todos os modernismos e de algumas modernidades, de Sitges, do delicioso restaurante Salamanca e da badaladíssimo clube Souvenir, para mim o melhor after hours da Europa, onde um dia eu conheci uma certa Gloria, também tipicamente saída de um filme de Almodóvar com seu sorriso cintilante... cidade onde eu sonhava ter uma sala bem ampla com uma varanda, portas e janelas de vidro e cortinas brancas balançando com a brisa que vinha do mar - sabe-se lá de onde eu tirei esta idéia fixa que eu tinha com as cortinas brancas balançando ao vento, mas eu tinha, e esse sonho sempre me vinha à mente quando eu ouvia um cd do pianista Bill Evans que tenho, um dos meus cds prediletos (eu sonho com lugares, eu posso descrever lugares sonhados perfeitamente, às vezes cidades inteiras). Barcelona é bem diferente de Madrid e até hoje eu não sei dizer de qual cidade eu gosto mais. Madrid é A Capital da Espanha sem sombra de dúvida, mas Barcelona tem o charme do balneário, aquela coisa "mar e montanha", uma vida mais relaxada, menos correria, mais meditação. Os catalães são um tanto estranhos, mergulhados no fundo do próprio nacionalismo, um pouco como os flamengos aqui na Bélgica, mas enfim, eu também não tive muito tempo de lidar com eles.


Depois de mais um mês tentando, tentando, até ser colocado pelo destino no olho da rua e de cara comigo mesmo, cheguei à conclusão de que temos às vezes sentimentos aos quais não conseguimos dar nome nem forma, sentimentos que na maior parte das vezes não conseguimos expressar, mas eles ao contrário nos formam e nos nomeiam e se expressam através de nós, e em nome deste sentimento eu resolvi vir para Bruxelas, acompanhando o Mattia, e vim sem nada, sem dinheiro, sem emprego, sem casa, sem sonhos, sem ilusões. Eu havia perdido tudo. Deixei tudo para trás, arrumei as minhas malas no último momento, abandonei o meu emprego sem nem sequer pedir demissão (eu jamais faria tal coisa!!!!), embarquei no primeiro avião, e vim. Vim do nada e para o nada fui. Eu fechei os olhos e me joguei no vácuo, talvez um gesto de desespero, talvez um gesto de loucura, talvez de sabedoria. Pulei para fora de todos os problemas e me joguei de cara na vida que eu queria ter, e não na vida que queria me ter. E felizmente, conseguimos fazer deste nada algo positivo e algo produtivo, e tenho que dizer que estou bastante satisfeito com a minha vida aqui em Bruxelas.


E da Espanha, o que ficou? Antes de tudo o aprendizado. E também a tristeza, mas faz parte. A paixão pelo país, que de alguma forma mágica segue intocada. O interesse pela história e pela cultura locais. A admiração por uma sociedade tão latina e tão aberta. A percepção da realidade, como ela é e não como deveria ser. O reconhecimento de verdadeiros (Marc, Didier, Michael, Pepita...) e de falsos amigos (que não merecem menção). O arrependimento por decisões erradas, e a humildade de reconhecer quando é necessário se arrepender. A frustração de não ter feito tudo o que queria - não cheguei a conhecer o litoral norte da Espanha, o que adoraria ter feito, pos desconfio ser a parte mais bela do país, porque verde; não fui esquiar nos Pirineus, como já tinha prometido fazer a um casal de amigos; não melhorei tanto quanto queria os meus conhecimentos do castellano, e se falo sem grandes problemas, ainda me complico para escrever na língua de Cervantes; não li Cervantes; não aprendi o català, que eu adoro; não fui à Ibiza nem à Costa Brava; não achei o apartamento dos meus sonhos nem o emprego da minha vida. Ficou a saudade e ficou o alívio de que tudo se foi. Mas ficou também uma certeza - a de que certos sonhos na vida, são apenas sonhos, e nunca devem se tornar realidade. Deixa a Buika cantar Mi niña Lola, eu fecho os olhos e já estou lá, naquele domingo de Corpus Christi, e não passa daí. E assim sendo, eu posso me permitir sonhar que um dia talvez eu consiga arranjar os meios de ir morar na Espanha - desta vez sabendo, desde o início, que é pura ilusão. E viva a Espanha!


3 comments:

Beth Blue said...

Antônio disse: Tudo isto talvez para me lembrar que na semana que vem estará fazendo um ano da minha frustrada tentativa de me estabelecer naquele país. Este foi um fracasso que eu contabilizo no diário da minha vida na conta de perdas pessoais.

Bem, provavelmente vou me arrepender de expor minha opinião por aqui mas vamos lá...eu basicamente acho que você está chorando de barriga cheia porque afinal, o que são 4 meses perdidos quando algumas pessoas perdem mais de 10 anos batendo a cabeça contra o muro...o que são 4 meses perdidos quando você em menos de 1 ano já se estabeleceu confortavelmente em outro país, com direito a emprego e apartamento no centro...eu sei lá, tem horas que perco a paciência com este tipo de reclamação porque tem situação muito, mas muito pior - e acredite, eu sei do que estou falando (você tem a sorte te não ter filho e estar livre para ir para onde bem entender, quando bem entender e isso já faz uma diferença enorme na hora de somar perdas e ganhos).

Quanto a mim, até hoje estou tentando me perdoar pelos meus erros do passado...e não estou falando apenas de 4 meses em que tudo deu errado pra depois começar a dar tudo certo de novo. então me desculpa a sinceridade (e o mau-humor) mas não sei do que você reclama tanto.

da sua amiga que está há 13 anos na Holanda e nem passaporte holandês ainda tirou!!!

Annix said...

"mini Tatuí"?? hahahahahahahah, can Tatuí BE any smaller? hahahahahahaha

"'wie alles begript, moet veel verdragen'(algo como quem entende a tudo e a todos, carrega um peso bem grande nas costas" Discordo totalmente. ENTENDER a tudo e a todos só faz a carga ficar mais leve, pq vc faz cada vez menos expectativas e se frustra menos. Agora, se for "AGRADAR" em vez de "entender" na mesma frase, aí concordo. Mas tá, entendo, é algo tipo "ignorance is bliss". Concordo, mas prefiro não seguir isso.

Mas vc se cobra demais, chéri. Desculpa, mas na minha opinião esse período não pode ser considerado fracasso. Aliás, palavrinha abusada, hein?
No máximo, foi um "abre olhos" pra ti, te possibilitou se livrar completamente do passado e começar de novo. Quantas pessoas poderiam ter essa coragem e não têm...*suspiro*

Annix said...

Na vida, algumas coisas dão certo e outras não. Pronto. Falado assim parece meio óbvio, mas acho que às vezes a gente esquece. Ninguém acerta sempre, é uma questão tão natural que é matemática, probabilidade. Então não é conformismo nem derrotismo aceitar que a gente erra, sacudir a poeira e continuar andando, viu? Fracasso é ficar no mesmo lugar sabendo que não é lá que vc deve ficar.