
Nestes dias ensolarados e ao mesmo tempo sombrios, não posso deixar de pensar que você e eu somos como o dia e a noite.
Você é o dia, o sol da manhã; você é a praia, a festa, o sonho; a alegria contínua de viver e de não se deixar abalar pelas tempestades que teimam em vir, uma após a outra. Você se molha e continua a dançar. Mas você é também a inconsistência, a volatilidade, a fuga e a ilusão. Você é pura fantasia.
Eu sou como a noite, fria, quieta, uma noite que pode ser mansa e tranquila, mas que também pode ter milhares de armadilhas escondidas a cada esquina. Eu sou a necessidade do recolhimento e da contemplação. Eu sou o individualismo, eu sou a desconfiança, eu sou a chuva em si; eu sou a realidade nua e crua.
Nós não poderíamos ser mais diferentes. Eu preciso de segurança, estabilidade e liberdade. Você precisa de aventura, de paixão e comprometimento. Noite e dia se completam, mas é preciso achar o equilíbrio entre um e outro. O dia tem 24 horas e não apenas 12. Noite e dia são complementares, não substituíveis. Caso contrário teríamos apenas o deserto e a tundra. A natureza precisa do equilíbrio entre o sol e a lua, o calor e o frio, a luz e as trevas, para se manifestar em toda a sua potência.
É engraçado como a vida parece andar em círculos. Eu fui o irmão estranho da minha irmã, aquele que se escondia dos convidados em dias de festas e se trancava no quarto. Eu tinha medo do mundo. E eu parti para a conquista deste mundo, eu o enfrentei. Eu vivi, eu sofri, eu chorei, eu aprendi. Eu aprendi a conviver com o mundo, e em seguida eu me recolhi. Não porque não quero mais viver, apenas porque preciso de uma pausa. E, antes de ter "recusado" à vida, como você teima em pensar, eu apenas aprendi a me aceitar. Eu sou como sou, as pessoas não mudam. Eu tenho uma necessidade enorme de introspecção, de tempo para mim mesmo, e eu gostaria que você fosse capaz de entender isto. E agora aqui estou eu de novo, me trancando no meu quarto e me escondendo dos convidados, não porque tenho medo deles, mas simplesmente porque não os quero ao meu redor.
Há diferentes meios de viver a vida e de viver a vida ao máximo. Para mim o máximo que eu posso e quero apreender da vida é o aprendizado, é a busca da sabedoria e da paz espiritual. É aprender sobre o ser humano na sua essência e não mais sobre a superfície. Eu vivo a vida ao máximo quando eu me recolho em minha individualidade, pois é em mim que eu encontro o mundo. Por exemplo para escrever, ou para ir ao cinema, ou para ler um livro e através dele me deixar levar a outros mundos, outras épocas, outras vidas. Eu vivo a vida ao máximo quando eu viajo e entro em contato com outras culturas e outros modos de ver a vida. Eu assim multiplico as minhas vidas, eu me transcendo. O que pode ser mais completo que transcender a si mesmo? Eu não preciso de mais uma uma noite fora, eu não preciso de mais uma conversa de bar, eu não preciso ouvir as mesmas velhas histórias ditas pelos mesmos rostos iguais, repetir o mesmo modelo, apenas para não ter que confrontar a mim mesmo. Eu quero me olhar no espelho e me decifrar e me aceitar.
Ainda assim, eu tenho um sentimento de culpa, que está sempre presente. Culpa. Esse sentimento cristão que nos persegue desde a infância. Eu sinto culpa. Culpa por ter sido quem eu fui, culpa por ser quem eu sou, culpa por quem ei ainda virei a ser. Culpa por existir. Culpa por não ter conseguido ser aquilo que se esperava de mim. Culpa por não ter conseguido ser o que eu esperava de mim. Culpa por não mais querer ser o que se espera de mim, culpa por querer ser apenas eu. Esta culpa eu ainda tenho que vencer. Mas não é mais por sentir culpa que eu vou deixar de ser quem eu sou.
Na minha vidinha mais do que ordinária, como tantas outras vidinhas ordinárias, sejam elas serenas e felizes, ou conturbadas e atrozes, facilitaria tanto a mim como a você se todos nós aprendêssemos que noite e dia só funcionam quando um segue ao outro e vice-versa.



2 comments:
Chéri, o momento mais libertador da minha vida foi aquele que chamo de "me assumir": que não sou perfeita, que não vou satisfazer às expectativas de ninguém e pronto. Desde então, não dou a mínima pro que os outros digam ou pensem de mim. Eu entendo que pra quem teve uma educação católica é mais difícil, mas go on : vale a pena. O que você é hoje você não deve a ninguém, a não ser a você mesmo. Beijo!
Eu também concordo com a Anna, 10 anos atrás era católica quando cheguei na Holanda, e a minha vida inteira tinha sido assim, apesar de que nos últimos anos tinha um Q de católica não praticante, casamentos, etc.
É quase que impossível extirpar e essa é a palavra uma religião que exerceu muita inflûencia em minha infância e idade adulta.
Mas o complexo de CULPA, e da falta de meio termo, DEUS E DIABO, eu não aceito da Igreja Católica.
E quando recebi o diagnóstico de uma filha autista, logo eu...a pseudo-rainha da comunicação, noite, vida social agitada...o primeiro encontro do grupo budista, foi crucial na minha "virada"...rumo a uma vida mais responsável, praticar e estudar a filosofia budista, foi uma grande revelação, porque TUDO depende somente de nós, e todas as respostas estão em nós.
Uma filosofia racional, sem enfeites, sem mentiras, sem promessas de paraíso, nada.
Me empolguei...virei fanática, virei eu mesma, descobri a América, ou a América me descobriu.
hehehe.
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