Thursday, January 17, 2008

Krakatoa


Acho que toda separação vem em fases. Tem a primeira fase, a fase vulcão. É a fase da briga, da explosão, da raiva e do ódio, a fase das frases de efeito, "nunca mais!", "eu quero que você morra!", vá embora!" Você merece morrer... você merece morrer... Vá embora, saia da minha vida, leve consigo todo o seu bem e todo o seu mal, que eu não te quero mais perto de mim. Leve a sua existência para longe da minha existência, que eu quero ter o direito de ser e de existir. Eu não vou morrer, eu vou viver, vá embora! Nesta fase irracional e desmesurada, não há lugar para mais nada além da mágoa contida que explode feito lava saindo de um vulcão em atividade e queima a todos em volta. Nesta fase, todos os olhos estão voltados para o vulcão fervendo e atirando ódio, rancor e ressetimento para todos os lados. "Morra!" "Vá Embora!"


Depois vem a segunda fase, a fase tsunami. Porque depois da explosão do Krakatoa, vem a tsunami, que ninguém esperava. A tsunami é traiçoeira, ela chega despercebida e em segundos toma conta de tudo. É a destruição de tudo aquilo que você tinha ao seu redor, a destruição da sua casa, da sua família, da sua vida. Todas as coisas que você tinha e apreciava, o jardim da casa, os lençóis do quarto... as fotos do álbum... a vida a dois... aquelas boas lembranças, os bons momentos que de repente são varridos para longe, para o nada, submergidos no mar de sujeira que tomou conta de sua vida... é a fase em que você percebe que a erupção do vulcão ocasionou muito mais prejuízos do que você tinha noção quando o deixou explodir. É aí que você percebe que perdeu tudo, tudo o que tinha construído, e como dói, como dói a percepção de uma vida a dois que se vai assim, sem mais nem menos, varrida por uma tsunami. Não sobra nada.


E vem a fase chuva de cinzas, a fase da tempestade e da solidão e o desejo de morte e de luto. O luto por tudo o que se foi, tudo o que morreu, tudo que se perdeu. O céu que teima em não sair do cinza. As paredes em volta que parecem cair em cima de você. O silêncio aterrador. O frio. A saudade. O remorso. A imcompreensão. O choro. A incredulidade, isto não está acontecendo! A teimosia em querer acreditar que há vida depois da morte, mas não há, você vê o caixão descendo para debaixo da terra e só pode chorar cada vez mais e cada vez mais mansinho à medida em que ele se afasta de você, levando para o fundo da terra a esperança de uma vida feliz.


E então vem a calmaria. Os ânimos arrefecem. O choro pára e você pode pela primeira vez olhar para trás e pesquisar com calma o fenômeno acontecido, para poder entender o que de fato ocorreu, o que sobrou ou não, e porque tudo ocorreu da forma como ocorreu. É a fase das perguntas, do "onde foi que eu errei?" do "porque não foi diferente?" ou do "porque não consegui?", ou "será que eu mereci?" É uma fase de meditação, de recolhimento, de análise, de reflexão. A gente procura entender porquê o Krakatoa explodiu. Será que tudo poderia ter sido evitado?


E aí depois de muita análise, de muita pesquisa, a gente chega na fase final, onde a gente se dá conta, de que o vulcão explodiu simplesmente porque tinha que explodir, porque não dava mais pra segurar, porque aquele relacionamento já tinha virado há muito tempo uma bomba latente, ressentimento em cima de ressentimento, mágoa alimentando mágoa, a comunicação cada vez mais difícil no meio daquele mar de lava comprimida. Não tinha como ser diferente, o vulcão explodiu porque estava no ponto. Para que não tivesse explodido, teria sido necessário que o vulcão simplesmente não existisse, mas ele já vinha sendo construído há muito tempo, a cada nova pastagem verde, a cada novo milharal, vinha também uma pedra negra no quintal, e depois duas pedras e depois mais três, construindo aquela montanha de rancor e de tristeza que foi crescendo, crescendo, crescendo, foi encobrindo o sol, foi transformando praia em sombra, e como tentávamos nos concentrar em salvar o milharal, e como as visitas sempre olhavam apenas para o milharal, e que belo era o milharal, não nos demos conta da montanha que cresceu, do vulcão que evoluiu sob as nossas costas e finalmente entrou em erupção. Explodiu porque tinha que explodir, não dava mais pra segurar.


E é melhor assim, porque milharal nenhum poderá algum dia florescer em terreno onde não bate mais o sol, onde só o que há é uma sombra enorme e um vulcão amedrontador no horizonte. Tinha que ser assim, perdemos o milharal, perdemos tudo, mas pelo menos o vulcão se foi, está extinto, levou tudo ao redor consigo, mas adubou a terra, ao final. As cinzas adubaram a terra porque com elas nós aprendemos sobre nós mesmos, e poderemos quem sabe aprender a evitar os mesmos erros, poderemos evitar a mesma sorte, e poderemos quem sabe plantar outros milharais em outras plantações, onde não haverá mais um vulcão, porque saberemos evitá-lo, ou não, e onde um dia o sol poderá talvez voltar a brilhar.


O krakatoa explodiu, a tsunami varreu tudo, as cinzas congelaram o dia, e eu perdi o meu milharal. Chorei, chorei, chorei. Mas ao final eu me dei conta, de que eu tenho ainda dois pés e duas mãos, e que enquanto eu ainda estiver por aqui, nada me impede, que um dia eu tente plantar um outro milharal em um outro terreno, e quem sabe desta vez, eu vou colher os frutos do meu esforço.


5 comments:

Beth Blue said...

As cinzas adubaram a terra porque com elas nós aprendemos sobre nós mesmos, e poderemos quem sabe aprender a evitar os mesmos erros, poderemos evitar a mesma sorte, e poderemos quem sabe plantar outros milharais em outras plantações, onde não haverá mais um vulcão, porque saberemos evitá-lo, ou não, e onde um dia o sol poderá talvez voltar a brilhar.

Sim, enquanto estivermos vivos, sempre haverá esperança. Dói, dói muito e provavelmente é a experiência mais humana que um ser humano pode ter. Eu também passei por todas essas fases e vi um casamento ser destruído a cada dia...até não sobrar nada além das cinzas. Mas a gente aprende, é só prestar atenção nos detalhes e (tentar) não repetir os mesmos erros do passado. E sim, um dia o sol volta a brilhar. Volta mesmo, acredite!

Annix said...

Pois é. O solo vulcânico é um dos mais férteis, tu sabe. A natureza sabe o que faz.



(e claro, nem todo relacionamento tem essa parte do vulcão - mas também não nasce nada daí)

Labelle® Paz said...

E se precisar de um colo, grita que a gente te dá!

Antonio Da Vida said...

Oi Bela, obrigado... eu bem que estava precisando de um colo na semana passada, estava hiper triste... mas agora o pior já passou, sei que é isso mesmo que tem que ser feito e a mágoa é tanta neste momento que não sobra mais espaço pra pensar em volta, eu agora só quero pensar no futuro mesmo. Esta relação já deu o que tinha que ter dado. Chega.

Andrea Drewanz said...

Tá parecendo a Fênix, que ressurgiu das cinzas!
Tomara que seus vôos sejam ainda mais belos a partir de agora...
Bj!