Saturday, November 8, 2008

As folhas do outono, ou saudades da primavera


No início, tudo são flores. É a primavera. Um festival de cores e cheiros, os pássaros a cantar, os dias ensolarados, a esperança pela renovação e por dias melhores. Uma festa sem fim. Em Amsterdam as pessoas combinam passeios de barco, em Paris vão todos caminhar às margens do Sena, na Espanha já estão todos na praia. Assim na vida, assim nos amores. Um amor novo é sempre motivo de alegria e frisson. Nada mesmo melhor que um bouquet de flores, flores primaveris, para representar um amor nascente. Aquela troca de olhares, sorrisos e expectativas que no princípio parecem se encaixar tão perfeitamente. Você quer aquilo, ele também! Como ele é animado, divertido, como sua presença é contagiante! Como a vida é linda e perfeita! Ah, a primavera... quisera eu fosse sempre primavera, uma primavera sem fim dentro e fora de nosso corações. A gente planta uma árvore e vê ela crescer. As folhas verdinhas, fresquinhas, novinhas.


Mas a vida é feita de estações, e em seguida vem o verão, a maturidade, o clímax, a segurança das coisas. Aquela esperança por dias mais quentes se concretizou. Faz calor nas ruas e faz calor na alma. Tudo está em seu lugar, tudo está em paz. Vamos todos sair de férias e aproveitar o dia lindo lá fora, vamos nos bronzear e vamos nos queimar que quem está vivo enfrenta o fogo mesmo. Verão, verão, verão, para onde você vai, com quem você está? Qual é a sua vida? Todos sorrindo na fotografia, os álbuns que se repetem e a ciranda do amor em seu apogeu, A está com B, C está com D, E está com F e está tudo bem pra todo mundo, todo mundo parece feliz na fotografia. Sorrisos de verão. A vida segue seu rumo e tudo parece ter chegado onde deveria. Você feliz, casado, aproveitando a vida ao lado de quem gosta. A árvore cresceu, os ramos estão fortes e as folhas estão todas lá, verdes e vibrantes, adultas, autênticas.


Está tudo tão bem e não deveria mudar... mas o verão é também a estação onde o calor aperta e o que era antes vontade de sentir calor pode virar desespero. Ah, que calor infernal, ninguém aguenta! Eu quero ar, eu quero o meu espaço! O verão é cansativo no final... será que não dá pra voltarmos pra primavera? Era tão melhor aquela esperança boa e aquele ventinho que beijava a nuca sob um sol que esquentava sem maltratar... os sonhos infantis eram tão reais naquele tempo... tudo era perspectiva, expectativa, tudo estava por vir... e agora que tudo veio, nos demos conta de nem tudo era exatamente como queríamos. Ao final estamos sentindo um certo desconforto, uma incerteza de que está mesmo tudo no lugar. Era isso que estávamos tanto querendo? A árvore está lá, imensa, madura, plena. Mas de certa forma estamos precisando de sombra e a árvore não está nos dando a sombra de que precisamos. O calor maltrata. Este é o verão... chegamos lá... e não sabemos o que fazer com ele. Saímos de férias e voltamos.


E aí vem aquele ventinho frio de setembro... e então nos damos conta de que as coisas estão mudando... mais uma vez... a verdade é que o ser humano nunca sabe o que quer, está sempre na busca de algo que parece impossível de encontrar. Sempre falta algo. Por que esta falta de sossego? Não deveriamos nos conformar com o que temos? Não é esta a fórmula da felicidade? Mas, o que fazer com os nossos sonhos, as nossas ilusões... é, temos que nos dar conta de que eram apenas sonhos e ilusões... que as flores só florecem na primavera e que no verão o calor por vezes é sufocante, e é assim que as coisas são. E começamos a nos questionar sobre a árvore que plantamos com tanto carinho e que não nos dá a sombra um dia esquecida e agora simplesmente desejada. Que tristeza que tudo na vida passa. A árvore era mais bonita quando estava cheinha de flores. Agora são "só" galhos e folhas. Mas a gente se esquece, que atrás da árvore há apenas um muro branco e feio, que aquela árvore ajudou a esconder.


As folhas... e é aí que as folhas começam a cair. Primeiro elas vão amarelando, como que dando um sinal de que algo não vai bem com aquela árvore. Mas aquela mudança de cores é tão bonita e serena que ofusca a visão dos fatos. Que lindo é o outono, pensamos nós, o ventinho acalenta a alma de novo e aquele colorido de folhas nos remete um pouquinho que seja ao colorido das flores de maio. E nos deixamos encantar por algo que na verdade não tem nada de encantador... deveríamos naquele momento arrancar a nossa árvore e ir plantá-la em algum outro lugar, algum lugar onde seja sempre verão e sempre faça calor e aí a nossa árvore estará sempre a salvo, ainda que no final não nos dê a sombra que desejávamos. A árvore está começando a morrer, e nós nem nos damos conta. Ao contrário, ficamos admirando aquela morte tão encantadora que nos tira do peso do verão, em que tudo tinha que ser como queríamos, e não foi.


E as folhas então vão caindo... uma por uma... devagarzinho e sempre... e da mesma forma, no início nós nos deixamos envolver pela natureza das coisas e olhamos para aquele constante movimento de cair, dos galhos para o chão, com distância e amadurecimento... é isso mesmo, pensamos, veja que lindo o outono da árvore no meu quintal, as folhas amarelas se esparramando sobre o gramado, e afinal de contas essa árvore nunca deu a sombra desejada mesmo, a sombra sempre caía pro outro lado do muro, ora bolas. Será que o problema fora que árvore tivera sido plantada no canto errado do quintal? Mas o sol sempre corre de leste para oeste, isso não há como mudar. A sombra sempre vai cair para o lado de lá do muro, porque assim é a natureza humana, preocupar-se com a sombra que caiu no lugar errado sem se dar conta que bem ou mal aquela árvore embelezava o jardim. Puxa, mas fazia tanto calor no verão, e aquela árvore estava mal colocada, ela não ajudava.


E cada folha que cai é uma esperança que se vai, é um sonho perdido. E um certo dia nós abrimos a janela, e faz muito frio, e a árvore está quase careca, e aí nos damos conta de que ela está morrendo, e está fazendo cada vez mais frio e ficando cada vez mais escuro, e o que fizemos nós para tentar salvá-la? Nós não fizemos nada, ficamos paralisados admirando o outono chegar e sem se dar conta do lado traiçoeiro que ela beleza inicial traz consigo... está ficando cada vez mais frio, e o inverno vai chegar, e da beleza das folhas daquela árvore não vai restar mais nada, tudo se vai e só vão ficar os galhos, nos mostrando o muro branco e frio no fim do quintal, e nos fazendo lembrar da árvore frondosa e florida que um dia tivemos e que se foi, e é aí que sentamos e choramos. As lágrimas correm pelo rosto e lembranças de dias mais felizes vêm à tona. E o muro branco lá na frente. Mas se por um lado nós não fizemos nem metade do que poderíamos ter feito para salvar a nossa árvore, por outro lado... o outono é inexorável. Não há como correr contra o tempo nem contra as estações. Ele sempre vem no final do verão, mais cedo ou mais tarde, e essa é a tragédia da vida. Nada fica, tudo vem e tudo vai. As folhas do outono caem uma por uma, e só nos resta chorar, e depois secar as lágrimas e entrar dentro de casa, e enfrentar o duro inverno. E talvez a esperança, de que a próxima primavera não tarde a chegar. E que esta então, seja para sempre. Ah, como nós somos bobos, os humanos. As primaveras nunca são eternas, nem os verões, e as folhas do outono sempre cairão.

1 comment:

Unknown said...

Este foi o post mais bonito que vc já escreveu! Mas se te serve de consolo, o bom é que junto com as estações e os amores, as vezes, eu disse as vezes, a gente amadurece também, e aprende a apreciar o verão e o outono com o que eles tem de melhor sem ficar pensando na primavera, que não vai voltar mais mesmo, nem no inverno, que um dia chega pra todo mundo. E assim a gente vai levando. Talvez a felicidade mude, não seja mais fogos de artifício nem vontade de sair pulando por aí. Talvez ela seja mais calma, mais serena, mais realista, mas nem por isso deixe de ser felicidade.Olha, eu já passei por muitas primaveras na minha vida, mas não troco nenhuma delas pelo meu verão quase outono. Afinal, quando está calor demais, a gente conta até 10 e toma um banho frio. Quando está fazendo frio a gente aprende a esquentar. E quando a temperatura está amena, e a maioria dos dias são assim, a gente vê que a natureza é sábia.