Friday, November 21, 2008

Brazilians


Eu não queria mais falar sobre este assunto porque é um assunto que eu acho um tanto chatinho, para não dizer enjoado mesmo. Mas parece que o tema vive batendo à minha porta, ou vivo rodeado de gente que me faz pensar nisto o tempo inteiro. Essa coisa de ser brasileiro e morar no exterior... eu sinceramente e humildemente (apesar de soar arrogante) já passei desta fase de questionar o lugar onde moro. Moro aqui em Bruxelas e pronto, porque a vida me trouxe até aqui. Poderia estar morando ainda em São Paulo, ou em Amsterdam, ou em Los Angeles, ou em Belém, ou em Buenos Aires, Madrid ou Barcelona, e a minha vida seria certamente bem diferente do que é agora, mas não tenho como afirmar se seria melhor ou pior. Apenas diferente, porque quando a gente passa por vários lugares e vai colhendo experiências diferentes em cada um deles, acaba aprendendo que não é o lugar que define a nossa vida, é a vida que escolhemos que define o lugar. E se estamos aqui, ou acolá, é porque de uma certa forma escolhemos por isso (sim, porque sempre HÁ uma escolha), então o melhor que fazemos é tirar o melhor da situação.


Mas nem todo mundo pensa assim, e essas pessoas todas, todas diferentes e todas com idéias diferentes a respeito de suas vidas, do Brasil e do mundo, vez por outra passam pela minha vida com seus pensamentos e seus (pre)conceitos, suas manias e suas intrigas, suas queixas e lamentações, seus trunfos e orgulhos. Eu sempre ouço ou recebo comentários do tipo "que maravilha que você está aí" ou "que horror que você está aí" ou "quem me dera estar aí com você" ou ainda "sai dessa, volta pra cá". Olha, eu sinceramente acho que todas estas pessoas (e de novo, sem querer soar arrogante nem dono da verdade, mas enfim, este é o MEU blog e aqui eu dou a MINHA opinião, e os incomodados que se mudem) têm um problema com a vida e/ou consigo mesmas, e que acabam por refletir estes problemas no lugar onde vivem, ao invés de tentarem resolver os problemas dentro de si mesmas, que é onde está a solução. Não adianta tentar culpar nem glorificar o lugar onde se mora, mas muita gente faz isso. Eu divido estas pessoas em quatro grupos principais. Eu os chamo de os tacanhos, os revoltados, os deslumbrados e os amargurados.


O primeiro grupo é o grupo dos tacanhos, o único do qual eu talvez nunca tenha feito parte, porque tenho um senso crítico apurado demais para tanta falta de crítica. Os tacanhos são aqueles que provavelmente nunca saíram do Brasil, adoram o Brasil, acham que o Brasil é o melhor lugar do mundo e odeiam quando alguém fala mal do Brasil. Este é o grupo que sai dando porrada toda vez que aparece algum comentário maldoso sobre o Brasil na mídia internacional. Organizam abaixo assinados, fazem correntes indignadas na internet e vestem a bandeira nacional para mostrar o amor à pátria. Imagina, falar mal do nosso país!!! Mas são também os primeiros a jogar o lixo pela janela do carro na rua, passar em grupos jogando ovos em prostitutas, e pedir cargos em comissão no governo quando o primo de segundo grau é eleito vereador lá em Piracuí ou algo assim. Ou seja, são os primeiros a fazer do nosso país um lugar nem tão legal assim (poderia ser, bem que poderia!). Os tacanhos são aquela gente estúpida que tem dinheiro e que pelo dinheiro, e não pela capacidade, têm seu lugar ao sol no Brasil. Ou aqueles que nunca tiveram meios de sequer pensar na existência de algo diferente de suas existências, e esses eu nem posso culpar. É claro que eles têm mesmo que adorar o Brasil, porque em nenhum outro lugar do mundo conseguiriam ter chegado onde estão. Este grupo, eu passo longe. Não tenho paciência para tanta ignorância.


O segundo grupo é o dos revoltados. Esses, ao contrário, detestam o Brasil. Provavelmente também nunca saíram do país, mas têm a certeza absoluta de que nasceram no lugar errado, de que o Brasil é uma bosta sem fim e que a única saída é mesmo o aeroporto. Ou saíram uma vez, não conseguiram ficar e tiveram que voltar, e já bastou. Por isso mesmo adoram ir passear no aeroporto e ver os aviões decolarem, sonhando que um dia estarão em um deles, e bye bye Brazil aqui eu vou colher o meu American dream e tudo será diferente, porque é claro que nos EUA e na Europa tudo é melhor mesmo do que no Brasil e não tem jeito, o único jeito é sair desta terra maldita e não voltar nunca mais, batendo os sapatos para não levar nem a terra, assim com fez Carlota Joaquina. Olha, esse grupo, formado principalmente por gente que por um motivo ou outro anda frustrado com a vida como um todo, até que é interessante porque pelo menos eles têm um senso de crítica, conseguem perceber as mazelas nacionais - só que lhes falta uma visão mais realista e menos romântica do mundo. Os outros lugares todos também são cheios de problemas, mas eles não conseguem ver isso. Para eles, Europa é sinônimo de castelos, de realeza, iates e de gente bonita, e EUA é sinônimo de star system, Disneyworld, Manhattan e Hollywood. Todo mundo que mora na Europa, é porque é rico e se deu bem e se eles podem, porque não eu? Lá é que é bom, faz friozinho no inverno, não é esse calor tropical sem fim! Tentam viver no Brasil como se estivessem na Europa, fecham as janelas e ligam o ar condicionado. Só que se esquecem que na verdade a vida nunca é como a gente pensa, e que a vida aqui do outro lado do oceano pode ser tão ou até mais difícil do que no Brasil dependendo do ponto de vista. Eu acho que o que falta a esse grupo é vivência. Eu gostaria mesmo que todos eles conseguissem sair do Brasil, pelo menos por um tempo, para poder enxergar que na verdade o Brasil não é tão ruim assim. Pelo contrário, pode ser muito melhor do que eles são capazes de enxergar. Tudo depende da perspectiva.


O terceiro grupo é o dos deslumbrados. Eu diria que esses são os revoltados que deram certo, ou são os tacanhos depois que finalmente saíram do Brasil. Os deslumbrados adoram o EUA e a Europa, moram aqui, acham tudo ótimo e não querem sair daqui de jeito nenhum. Estão aqui há 8 meses mas já se esqueceram como falar o português e falam com sotaque. Geralmente são mulheres casadas com estrangeiros. Mas também muitos gays de classe média baixa. Para eles voltar ao Brasil seria o mesmo que descer ao inferno. "Daqui não saio, daqui ninguém me tira", parece ser o refrão dessa gente. Olha, os deslumbrados até que são divertidos, pois pelo menos estão de bem com a vida, ainda que de uma maneira ao meu ver estranha. Mas não é a minha turma. Eu os acho um tanto superficiais, porque também não conseguem mais olhar para o lugar onde moram de uma maneira crítica e imparcial. Tudo é lindo, não há defeito algum!!! Eu fico me perguntanto como pode alguém que um dia teve um senso crítico tão apurado, simplesmente perdê-lo no momento em que cruza a fronteira. Será que senso de crítica tem prazo de validade? Eu imagino que eles deviam mesmo ter uma vida bem difícil no Brasil para estarem tão maravilhados com a vida aqui do outro lado do oceano, uma vida que pode sim ser mais fácil em vários aspectos, mas que do mesmo modo, está na grande maioria dos casos longe, bem longe, de ser glamourosa e nem mesmo particularmente comfortável. Quem tinha empregada doméstica no Brasil e hoje em dia tem que limpar o próprio banheiro sozinho, como EU, que o diga. Ah, que saudades do Brasil quando penso nisso... para não falar do calor humano, tão comentado, mas que a gente só entende mesmo quando sente a falta.


Mas o tempo vai passando, e algumas pessoas vão se dando conta de que a vida aqui não é assim tão cor-de-rosa. Ou pior, já vêm sabendo que aqui é o inferno na Terra, vieram a contra gosto, ou por causa do casamento, ou por causa da carestia, ou sei lá porquê vieram. E é assim que surge o quarto grupo, o grupo dos amargurados. Acho que de todos os grupos este é o pior, porque são os mais chatos, não só porque vivem reclamando, mas também porque estão bem perto (os revoltados também vivem reclamando, mas pelo menos estão bem longe de mim). Os amargurados se deram conta por um motivo qualquer (cada um terá o seu) que a vida aqui não é exatamente da maneira como tinham sonhado, só que ao invés de tentar aceitar o drama da vida e tirar o melhor proveito da situação, não, eles querem vingança. Geralmente eram mauricinhos e patricinhas no Brasil. Ou são desperate housewifes em momentos de crise. Ou ainda é gente que de uma forma ou de outra se deu mal mesmo na vida e pronto. Não conseguem se habituar com o fato de que no Brasil eram alguém e aqui são ninguém, não se acostumam com os costumes diferentes, não conseguem - e nem se preocupam em tentar - fazer amizades locais, porque esses europeus são todos uns bobos mesmo, enfim, odeiam tudo e todos, e só o que pensam é em como a vida é melhor no Brasil, como "lá no Brasil é que é bom", como todas as pessoas e lugares legais que conhecem estão lá (ué, pudera, nunca se deram ao trabalho de realmente ir atrás de tentar conhecer gente legal local?!?!) e vivem em função do Brasil, e de como era verde o meu vale. Tentam reproduzir aqui a vida que tinham lá. O chato desse povo é que reclamam, reclamam, reclamam, mas eu até hoje não vi nenhum deles pegando um vôo definitivo de volta para o Brasil, que é na minha opinião o que todos eles deveriam fazer, para o bem deles, e o nosso.


Felizmente há luz no fim do túnel e há sim um quinto grupo, que é também felizmente o grupo no qual eu gosto de me incluir, e que eu chamo do grupo dos resignados. É, o título não é dos mais espirituosos e aparentemente nada de bom deveria sair de um grupo com um nome desses, mas sinceramente, eu acho que é de todos, o melhor. Os resignados são aqueles que já passaram por uma ou mais destas fases, apenas para aprenderem no final, ainda que na marra, que paraíso na Terra não existe, que todo lugar tem defeitos e qualidades, e que já que NENHUM lugar no mundo jamais vai mudar em função de alguém, então o melhor que nós fazemos é aprender rapidinho a se adaptar ao meio que nos rodeia, seja ele o lugar de onde viemos ou o lugar onde viemos parar. Se você odeia o Brasil, por favor, dê um jeito de ir embora do Brasil e vá viver a sua vida, vá atrás da sua felicidade... mas também por favor não venha dizer depois que eu nào avisei, quando se der conta de que veio com a intenção de ser pesquisador e acabou como michê. Mas quem sabe, pode dar certo, e pelo menos você tentou. Agora, se tem que ficar no Brasil, então que tal párar de reclamar e ir atrás do que poderia fazer a sua vida melhor, ainda que no Brasil? E se você odeia a Europa, então por favor, pegue logo o primeiro vôo de volta para o Brasil, vá ser feliz lá de onde veio e que é tão melhor que aqui, e poupe os nossos ouvidos e as nossas vidas de tanta chatice e reclamação, que sinceramente, ninguém merece. Eu repito, vá ser feliz lá no lugar que é para você o melhor lugar do mundo, e que você tem todo o direito de achar o melhor lugar do mundo. Mas vá. Não fique aqui. Agora, se não tem como ir, então por favor, cresca e apareça, deixe de lado a criancice e abra os olhos para a vida lá fora, pois vida, você vai encontrar em qualquer lugar, seja na Avenida Paulista, no Baixo Leblon, na Waterlooplein ou Place de Brouckère, é só procurar.


Eu me acostumei com a minha vidinha aqui na Bélgica. Vivo dizendo que Bruxelas é uma cidade que não fede nem cheira. Tem defeitos e qualidades como qualquer outra cidade no mundo. Gosto da comida, gosto do cosmopolitismo pan-europeu local, gosto da facilidade de viajar, e gosto (porque não) de ganhar o meu salário em euros todo mês. Não gosto da chuva constante (pelo menos neve, mas nem isso!), não gosto da mentalidade careta e provinciana dos belgas, não gosto da feiura e sujeira de algumas partes da cidade, nem da falta de senso de serviços. Mas enfim, Bruxelas é assim, e fui eu quem escolheu viver aqui, não foi Bruxelas que me escolheu. Entao o melhor que eu faço para mim e para a cidade é fazer as pazes com ela, e encontrar a minha felicidade dentro da minha realidade. Viver com síndrome de ufanismo, rebeldia, deslumbre ou amargura são para mim na verdade válvulas de escape, pretextos, e acima de tudo, demonstrações de uma profunda imaturidade em relação ao mundo e à vida. Porque nem o mundo nem a vida irão mudar por causa da gente, e esperar tal coisa é a fórmula da infelicidade. Mas mudar as nossas vidas, e escolher por um caminho mais sensato, realista e proativo (se tem como ir para onde quer, vai, se não tem, aprende a ser feliz onde está), isso sim, só depende de nós. E boa sorte pra todo mundo e para todos os brasileiros, onde que que estejam, seja na mãe pátria, ou espalhados mundo afora.

2 comments:

Beth Blue said...

...porque quando a gente passa por vários lugares e vai colhendo experiências diferentes em cada um deles, acaba aprendendo que não é o lugar que define a nossa vida, é a vida que escolhemos que define o lugar.


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Amei esta frase. Singela e tão verdadeira. O paraíso é uma questão pessoal, digo e repito!

Beth Blue said...

E se você odeia a Europa, então por favor, pegue logo o primeiro vôo de volta para o Brasil, vá ser feliz lá de onde veio e que é tão melhor que aqui, e poupe os nossos ouvidos e as nossas vidas de tanta chatice e reclamação, que sinceramente, ninguém merece. Eu repito, vá ser feliz lá no lugar que é para você o melhor lugar do mundo, e que você tem todo o direito de achar o melhor lugar do mundo. Mas vá.


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Pois eu também conheço um monte de brasileiro revoltado por aqui mas nã é a minha praia (nem os deslumbrados peloamordeDeus). Eu já falei isso na cara de algumas pessoas e quase perdi uma amizade, rsrsrsrs. Hoje acho graça porque é a pura verdade. Os incomodados que se mudem!

Quanto a mim, com mais de 14 anos em Amsterdã, já faço parte da turma de resignados há tempos. Não tenho ilusões de que aqui seja a terra prometida nem tampouco considero (nem nunca considerei) o Brasil como o paraíso na terra! Cada um cria a sua própria vida, com as ferramentas que recebe (ou não, mas essa é uma looooooooonga estória e eu estou sem saco de escrever).

E assim vamos levando, um dia de cada vez...