Sunday, November 2, 2008

Lisboa, saudade

Não é sempre que eu tenho a oportunidade de ver a minha família pois acabo indo ao Brasil muito menos do que deveria e como vir à Europa e voltar ao Brasil, ou vice versa, não é algo que se possa fazer normalmente em um fim de semana, então minha família também não vem assim tão frequentemente. A minha mãe não vem quase nunca, tem medo de avião. O meu pai tenta vir uma vez por ano, mas em datas incertas. Já a minha irmã, essa se pudesse acho que viria mesmo todo final de semana, mas como isso não é possível, ela vem quando dá. Felizmente esse ano deu duas vezes. Ela já tinha estado aqui com a minha sobrinha em julho, quando passamos um final de semana maravilhoso em Paris. Mas quando eu os vejo, nunca sei quando será a próxima vez. Então quando a minha irmã me avisou que estaria vindo em Outubro a Barcelona e Lisboa, não hesitei. É claro que eu tinha que ir ao encontro dela! Verifiquei datas e horários, preços e possibilidades, e embora Barcelona tivesse saído mais barato, optei por Lisboa, que não somente encaixava melhor na minha agenda, mas também porque era uma cidade ainda razoavelmente desconhecida para mim.


Explicando melhor. Eu já tinha estado duas vezes em Lisboa, mas as duas vezes de passagem, a caminho do Brasil. Tipo chegando de manhã e tomando o vôo da TAP à noite. Então nunca tinha estado na capital portuguesa mais do que algumas horas. Conhecia o básico, aquilo que se pode ver quando se está por um dia em uma cidade. As principais atrações turísticas, tipo Castelo de São Jorge, Torre de Belém, Rua Augusta, Alfama, e nada mais. De Lisboa eu havia guardado na lembrança a boa comida, a sensação de estar em casa e o tempo bom. Felizmente a cidade não me decepcionou, e ao contrário, me encantou ainda mais. Fui a Lisboa, passei um final de semana maravilhoso na cidade, encontrei a minha irmà e meu cunhado (assim como os queridos K e R, que faziam a mesma viagem) e tive uma ótima estadia com eles. E voltei à Bélgica apaixonado por Lisboa, e com gostinho de quero mais.


Eu lá cheguei numa quinta feira à noite, cansado depois de um árduo dia de trabalho, e bem tarde pois o vôo da TAP havia atrasado na saída. Mais tarde fiquei sabendo que os vôos da TAP, assim como os da Iberia, atrasam com frequência. Mas fora isso, não posso reclamar. Já viajei algumas vezes com eles, e sempre achei o serviço bastante correto, o atendimento é simpático, a comida é boa, as poltronas são confortáveis. Então tudo ok. Bom, cheguei por volta das 10 da noite e depois de uma passagem rápida pelo hotel para deixar minhas coisas, tomar um banho e trocar de roupa - que delícia, 18 graus, uma camiseta e um blazer bastavam! fui ao encontro da minha família em um bar chamado Pavilhão Chinês, no comecinho do Bairro Alto, um lugar que impressiona pela decoração. O espaço atualmente ocupado pelo bar era um armazém ou algo assim, e portanto tem estantes espalhadas por todas as paredes. Cada estante tem várias prateleiras e cada prateleira está repleta, mas realmente abarrotada, de todos os tipos possíveis e imagináveis de badulaques, quiquilharias, estatuetas. A trecaiada é sem fim. Bonequinhos de chumbo... pratos de parede... armas... quadros... mais bonequinhos... enfim, dizer "de um tudo" é menosprezar a originalidade e a variedade do local. Literalmente impressionante. De lá ainda demos uma breve volta pelas ladeiras do Bairro Alto, a primeira do final de semana, e dali voltamos para o hotel.


No dia seguinte o passeio previsto era a visita ao bairro de Belém, que eu já conhecia. Mas como o motivo principal da viagem era mesmo estar com a minha família, acompanhei-os com toda a alegria do mundo. O tempo estava a nosso favor, estava um sol lindo em Lisboa, e uma temperatura super agradável, na faixa dos 20 graus. Fomos primeiro à Torre de Belém, um lugar para mim muito bonito, não só pela arquitetura e pela cor branca, mas também pelo local, bem à margens do Tejo, com uma bela vista para o estuário e a Ponte 25 de Abril ao fundo. Da Torre seguimos ao Pavilhão dos Descobrimentos, este um lugar que acredito ser mesmo a minha cara (para quem me conhece) devido ao enorme mapa múndi desenhado no chào. É claro que eu me sentei ali e tirei fotos do mapa inteiro. Em seguida visitamos o belo Mosteiro dos Jerónimos, sua igreja, os túmulos de Vasco da Gama e Luís de Camões, e em seguida o jardim, onde me encantei por ter encontrado o túmulo de Fernando Pessoa, que ali jaz em pé, simples e solene. Mas eu vou dar uma de ignorante sem cultura, porque para mim o melhor mesmo da visita a Belém veio no final, quando fomos lanchar na Pastéis de Belém, a fábrica-restaurante que serve a oitava maravilha do mundo, os pastéis de nata de Belém, sobremesa simples e simplesmente maravilhosa. Eu me esbaldei nos bolinhos de bacalhau, no folhado de atum e nos pastéis propriamente ditos, é claro.


Na parte da tarde demos uma volta pelo Chiado para fazer compras, e depois de uma breve passagem pelo A Brasileira para um café, voltamos para o hotel pois estávamos todos cansados. O programa da noite em todo caso prometia: jantar no restaurante Faia, no Bairro Alto, de comida típica portuguesa e show de fado, e passeio pelo bairro em si depois da sobremesa. E digo, a noite não decepcionou. Tivemos um ótimo jantar, que turístico ou não, valeu pela boa comida, pelo atendimento simpático, e pelos belos show de fado. Em seguida, saímos para explorar a noite do Bairro Alto, e essa supreendeu. O Bairro Alto é animadíssimo, era sexta feira à noite e as ruas estavam totalmente repletas, uma multidão divertida que quase se acotovelava diante dos inúmeros bares locais. Eu fiquei bastante bem impressionado com a noite lisboeta, de uma vitalidade que eu até hoje só vira igual na Europa em Londres e Madrid - nem Paris chega perto em termos de animação. Depois de andar um pouco pelo bairro, escolhemos um bar para entrar, que se não me engano se chamava Clube da Esquina e tinha um dj ótimo, e lá terminamos a noite. Quer dizer, mais ou menos, pois minha família teve que voltar para o hotel, pois a passagem de volta para o Brasil já estava marcada para o dia seguinte, mas eu tinha ainda o final de semana inteiro em Portugal. Então com muito sentimento, ainda que contido (porque contido eu sou por natureza) me despedi da minha querida irmãzinha de quem eu sinto tanta, mas tanta saudade, e dos meus queridos J, K e R, e segui noite adentro.


Fui ao encontro de L, que me havia sido recomendado por dois amigos brasileiros. E entendo o porquê da recomendação, L foi também uma agradável supresa, simpático e generoso. Eu o encontrei em um lugar que mais português e lisboeta, impossível - um pequeno bar de fado (sim, fado outra vez!) localizado em uma antiga capela no bairro da Alfama. Um amigo do moço cantava naquela noite no local. Eu cheguei bem tarde e portanto peguei apenas o finalzinho mais ainda assim valeu a ida ao local, onde mais do que em qualquer outro local pude sentir a alma portuguesa vibrando com toda a força. Já eram por volta das quatro da manhã quando saímos do bar, mas como a noite em Lisboa é longa, aproveitamos a carona oferecida pela simpática V, e ainda fomos a uma festa, em um clube chamado LX Factory, ou algo assim, que não sei explicar exatamente onde fica mas sei em todo caso que está pertinho da Ponte 25 de Abril que podia ser vista bem de perto. Uma festa bastante descolada, mas eu como sou bicho do mato fiquei na minha, aproveitando a ótima música. Saímos dali por volta das 6 da manhã, e depois de uma frustrada tentativa de ir ao famoso Lux (as portas já tinham se fechado), voltei ao hotel. Quando fui dormir já passavam das 7 da manhã. É, as noites de Lisboa são longas.


Sábado, acordei por volta das 10 para não perder o café da manhã, o que quer dizer que dormi muito pouco. Voltei ao quarto para dormir mais um pouco mas eu nunca consigo dormir bem durante o dia, então fiquei apenas descansando. Saí por volta das 2 da tarde quando a fome começou a bater de novo. Eu tinha pensado em ir até Sintra e Cascais mas me bateu um bode danado naquele dia, algo que na ocasião eu não conseguir entender direito o porquê, mas que eu agora reconheço como uma enorme tristeza por ter me visto de novo sozinho ali em Lisboa depois de um encontro tão bom, mas tão rápido com a minha família. Eu acabei não fazendo quase nada no sábado, dei uma nova volta pelo centro, Baixa e Chiado, parando aqui e ali entre uma loja e uma livraria, e no final da tarde voltei para o hotel. No sábado à noite não fiz nada, estava cansado e resolvi não sair, fiquei no hotel e fui para a cama. E foi assim que eu fiquei não conhecendo praticamente nenhum dos lugares que me haviam sido recomendados a visitar à noite em Lisboa. Mas tudo bem, o sábado valeu por um motivo: eu matei a saudade da comida brasileira, me deliciando com um boa picanha acompanhada de arroz e feijão preto, um prato
fácil de encontrar em Portugal mas simplesmente impossível em qualquer outro lugar da Europa.


Chegou o domingo e como fazia sol e calor - a temperatura foi aumentando ao longo do fim de semana - pude fazer o passeio que eu me havia prometido fazer se o tempo colaborasse: fui à praia na Costa da Caparica. Quem mora no Brasil pode não entender como é que eu vou a Lisboa e reservo um dia inteiro simplesmente para ir à praia, mas quem mora na Bélgica, Holanda, ou qualquer outro lugar do Norte da Europa, vai me entender muito bem, disso eu tenho certeza. Pegar praia no final de outubro é um luxo que não se pode desprezar. E ainda mais uma praia como a Costa da Caparica, um praião enorme, lindo, sem fim, que se esparrama em frente ao Atlántico até o perder de vista. A Costa da Caparica é uma das melhores praias onde eu já estive na Europa, e não fica a dever às praias brasileiras. Ok, é claro que não há plameiras, mas as dunas e falésias ali presentes dão um toque bem agreste ao local. Eu fiz longas caminhadas, deitei e me esqueci da vida, e no final fui contemplado com o pôr do sol mais belo que já tive em muitos anos, o sol se pondo atrás do mar e uma praia semi deserta ao meu dispor (aparentemente os portugueses não vão à praia fora do verão, ainda que com bom tempo).


A noite caiu, e depois de apreciar o céu estrelado sobre mim, tomei o caminho de volta à Lisboa. Ali chegando, combinei de me encontrar mais uma vez com L, e depois de um drink no bar do Hotel Bairro Alto, um design hotel no início do bairro, fomos a um restaurante italiano, onde apreciei uma saborosa pizza (e por que não uma pizza? programa de paulista é mesmo pizza no domingo à noite, não? e além disso, eu já tinha comido bacalhau, picanha, pastéis de nata e tudo mais que eu queria...). E no final vim andando, subindo a Rua da Atalaia até o fim em direção ao meu hotel na região do Parque Eduardo VII. E assim tive a oportunidade de passar no Portas Largas, um bar que me havia sido recomendado, que a princípio não me pareceu nada de especial, a não ser pelo ar de barzinho de Parati que não deixa de ser convidativo. Mas que acabou por revelar o seu charme quando alguém se levantou, um violonista se juntou, e de repente, lá estava eu assistindo a mais um show de fado, o terceiro da viagem, e tão bom e agradável de ser quanto os anteriores, só que dessa vez com a vantagem de portas abertas, e a agradável noite portuguesa lá fora.


Resuma da viagem: Lisboa, saudade. Saudade da minha irmã e da minha família em geral; saudade da comida deliciosa e familiar; saudade da minha língua que eu quase nunca mais uso; saudade de uma praia de verdade; saudade de um noite divertida e animada; saudade da arquitetura que nos faz pensar estar em Salvador ou no centro do Rio; saudade de ouvir bom dia, boa tarde e boa noite; saudade de uma porção de coisas que estão longe, mas que ali, em Portugal, estão um pouquinho mais perto. Saudade de sentir saudade.

2 comments:

Beth Blue said...

Com saudades agora quem ficou fui eu! Conheci Lisboa há mais de 10 anos, quando fiquei numa charmosa pensão familiar no bairro Alfama. Na época meu amigo alemão (Michael) que você conheceu em Barcelona morava em Cascais. Fiquei uma semana em Lisboa e 2 semanas viajando no norte de Portugal com o ex-marido (Minho e Trás dos Montes, região belíssima).

No mais: você em Lisboa, Anna em NY e eu aqui só chupando dedo!!! Ser pobre é ruim demais...mas confesso que nem sempre foi assim e tive épocas em que podia viajar e conhecer lugares novos. Mas hoje em dia anda complicado (melhores dias virão).

beijos

Unknown said...

E eu aqui, morrreeeeeendo de saudades de vc!!!! Olha só, ano que vem te mais, prometo, esses nossos encontros "europeus" não saem mais da minha vida!
E que cidade essa Lisboa heim? Ai Jesus, queria tanto estar a comer os pastéis de Belém!!!!!