Sunday, November 23, 2008

Adoro a tecla delete!


Este ano o inverno chegou mais cedo na Bélgica. Desde ontem tem nevado aqui em Bruxelas, uma neve fina e molhada, que não deixa muitos traços mas que ainda assim dá aquela cara de inverno à cidade. Esta manhã os telhados amanheceram todos branquinhos - ok, a esta altura do dia já derreteu tudo - e eu aproveitei, assim como ontem, para ficar dentro de casa, tomando meu café, comendo meus croissants, e lendo o meu jornal, como adoro fazer nos finais de semana. Tinha uma lista de coisas para fazer, mas a lista foi ficando de lado... e como já são quase duas da tarde, acho que a maioria dos "to do's" vai mesmo ficar pra semana que vem... estou com uma preguiça danada de por os pés na rua, e com esse ar gelado que entra toda vez que eu abro a porta da varanda para dar uma ventilada, acho que se eu conseguir mais tarde criar a energia suficiente para ir à academia e depois ao supermercado, já estarei realizado.


Olhando para o meu texto, fico agora tentando reparar se cometi algum erro de linguagem ou ortografia. É que os meus textos sempre saem apressadamente pela cabeça e vão entrando aqui no computador sem muita revisão, da maneira mais natural e inconsequente possível, e é claro que em situações assim, erros acontecem. Eu deveria dar uma revisada em tudo o que escrevo antes de publicar, mas o binômio falta de tempo - falta de vontade acabam relaxando o meu viés conservador, que quer tudo no seu devido lugar, inclusive a língua. Até aí tudo bem, este blog é para mim um espaço pessoal acima de qualquer outra coisa - como o próprio título diz, é um papo comigo mesmo - eu não me importo muito se eu acabar escrevendo algo errado porque para mim o que importa aqui é a mensagem, o conteúdo, e não a forma, e se por um lado eu acho bem feio quando percebo um erro de escrita, por outro penso, ah, já tenho problemas demais na vida, não vou me criar mais um. Se sair errado no final, paciência.


Acontece que outro dia, lendo o blog da A, me dei conta mais uma vez que este é na verdade um espaço público onde qualquer um vem, entra, lê, e sai com uma opinião formada. E neste sentido, eu infelizmente tenho que me policiar, não só em termos de conteúdo, mas também em termos de forma. A comentava sobre o uso da crase, e sobre os vários textos que tinha encontrado na internet onde a crase havia sido empregada de maneira errada. É claro que eu, curioso como sou, imediatamente fui atrás dos meus próprios textos, e me verifiquei que o que A falava era infelizmente verdade, no meu caso também. Um texto que eu tinha acabado de publicar, estava cheio de erros, inclusive erros no uso da crase também. Se o meu texto servira de base ao texto crítico de A, isso eu não sei nem quero saber, mas a carapuça caiu, e é claro que eu fiquei bastante chateado em ter os meus próprios erros assim revelados e criticados tão publicamente. Mas enfim, A estava certa no final, o meu texto (e o de quem mais seja que tivesse dado origem àquela crítica) estava mesmo errado, necessitava ser corrigido, ponto final. Neste sentido, eu agradeço a A, pois acho que críticas, quando construtivas e bem formuladas, são sempre bem vindas. Fui lá no blog dela e agradeci, humildemente. Aliás, adoro quando escrevo um texto e aparece um e outro comentário discordando daquilo que eu escrevera. Gosto de uma polêmicazinha, de uma troca de ideias, não é à toa que estudei Direito. Não é assim que se aprende na vida, através do diálogo e do confronto com perspectivas diferentes da nossa? Que chato seria, se tudo mundo sempre concordasse com tudo.


Na ocasião, eu quase fui lá no meu texto pra corrigir tudo, depois resolvi deixar passar. Já estava escrito mesmo, pronto. Fica assim, até para me fazer lembrar modestamente das minhas limitações. Felizmente, ou infelizmente, não sou escritor, não tenho nenhuma vocação nem ambição literárias, e portanto, não me incomoda tanto assim que eu tenha cometido um erro gramatical em qualquer dos meus textos. Mesmo porque, se aos 37 anos e tendo ambições literárias pela frente, o meu único trunfo neste sentido até agora tivesse sido a publicação regular de um blog gratuito em um canal de internet, olha, eu acho que estaria na hora de rever os meus conceitos e minhas ambições. Tudo bem, Isabel Allende começou a escrever aos 40 e alguns outros só depois dos 60, mas ainda assim, sei que não é a minha praia. Até que gostaria de ter talento pra coisa, afinal de contas gosto de ler e adoro escrever, mas, de novo, sei das minhas limitações, não acredito que eu um dia tivesse nem o ânimo para escrever um livro inteiro, e nem ache que eu tenha uma mensagem assim tão importante para dar ao mundo que mereça um livro, pelo menos não por enquanto. Então vamos deixar as coisas assim como estão, eu escrevo o meu blog aqui, é um blog pessoal e eu não reviso nada, e se um dia eu cometer um erro de português, e sei que os cometo, peço desculpas desde já aos meus leitores ok?


Enfim, críticas construtivas e bem embaladas são sempre bem vindas. Eu coloquei o moderador de comentários no meu blog não para evitar críticas, mas somente para evitar desaforos e spams. Eu já tinha recebido cada um... em uma determinada ocasião, eu havia escrito sobre o falecimento de uma prima, e recebi um comentário me convidando a comprar camisetas pela internet. Eu achei aquilo tão, mas tão desrespeitoso, que me dei ao trabalho de responder ao autor do comentário, "convidando" o sujeito a evitar de me escrever novamente. A falta de noção do povo às vezes beira o surreal. Eu próprio, quando quero postar alguma crítica, tento embalar a minha crítica da maneira mais correta possível, porque não quero ofender ninguém. E quando não sei exatamente como preparar a embalagem, tento recorrer ao bom humor, na tentativa de mostrar ao lado receptor da mensagem que a minha crítica é do bem, não é mal intencionada. Nem sempre dá certo, mas pelo menos eu tento. Eu sei, como já disse uma amiga minha, the road to hell is full of good intentions... mas eu juro, que minhas críticas são sempre do bem e nunca do mal, porque uma coisa que eu sei que não sou, é mesquinho. Posso ser atrapalhado, confuso, mas maldoso, não, isso não sou. De qualquer forma, acho que a prática de escrever blogs é acima de tudo uma maneira indireta de estabelecer diálogos com outras pessoas, e desta forma críticas sempre farão parte. O importante é saber lidar com elas, seja como autor ou como receptor da mensagem. E se algum dia alguém se sentiu ofendido com qualquer coisa que eu tenha escrito aqui, só posso pedir desculpas, porque nunca foi minha intenção ofender ninguém. Agora, sabendo que eu tento embalar tudo da maneira mais correta possível, é claro que eu me reservo o direito de dar a minha opinião sobre o mundo aqui no meu blog. E ninguém precisa concordar comigo sobre nada, e podem discordar o quanto quiserem, desde que, como eu falei, consigam expressar a discordância de uma maneira pelo menos correta.


Outro dia, recebi uma crítica que me deixou passado. Quem me conhece bem sabe que não há nada que me ofenda nem me machuque mais, do que quando sou acusado de algo que não fiz, ou algo que não sou. A injustiça é o que mais me dói. Assim se alguém um dia falar que eu sou carente e inseguro, isso não me machuca, porque eu sei que eu sou mesmo talvez o rapaz mais carente e inseguro sobre a face da Terra, então só posso engolir, porque é a mais pura verdade. Agora, quando alguém por exemplo põe em cheque a minha capacidade intelectual, e ainda por cima com sarcasmo, isso me tira do sério. Porque eu sei que eu não sou burro nem debilóide. Sinceramente, podem falar o que quiserem de mim em vários aspectos. Minha vida pessoal é um desatre total, minhas relações familiares são cheias de altos e baixos, minha relação comigo mesmo é egoísta, destrutiva e obcessiva, enfim, tenho vários defeitos. Mas não venham falar das minhas capacidades acadêmicas e profissionais porque neste campo eu tenho crédito suficiente para me defender. Tenho um mestrado obtido em uma universidade europeia depois de defender uma tese de 50 páginas escrita em inglês, algo que muita gente tenta, mas poucos conseguem. Falo 5 línguas em maior ou menor grau de fluência. Fui o melhor aluno da classe na escola, desde sempre. Tenho uma cultura geral acima da média. E, se tive uma carreira profissional complicada no princípio, porque não sabia qual caminho seguir (e, como diz o gato de Alice, qualquer caminho serve quando não se sabe para onde se quer ir, e eu segui um caminho qualquer, e fui parar num lugar qualquer) o fato é que agora tenho um posto de causar inveja a muita gente, um posto pelo qual lutei muito. Trabalho como gerente de projeto para uma organização internacional, tenho um salário decente, e sou responsável por um projeto de milhões de euros (prefiro não dizer a cifra exata, mas cabem dois dígitos aí) que vai beneficiar redes de pesquisa universitária em toda a América Latina, um projeto do qual eu sinceramente tenho orgulho de fazer parte. Todo dia eu vou com bom gosto ao trabalho e isso já diz tudo. Eu sempre quis trabalhar para um organismo internacional, e consegui. Então neste sentido, eu vou muito bem, obrigado, e quem quiser falar mal, só pode estar com inveja.


No caso em questão, eu havia feito um comentário em relação a um post que havia sido publicado em um dos blogs que acompanho. No meu comentário, eu fugia um pouco do assunto em questão, e emendava uma outra conversa (Ué, não é assim que as conversas vão se produzindo, a gente começa falando de A e termina em Z?), fazendo uma ligação com um outro ponto, para mim pertinente à situação. Pois bem, até aí tudo bem. Só que um dos comentários posteriores àquele texto não só dizia, a respeito do meu comentário, que eu tinha fugido do assunto (ok, concordo!), mas também desdenhava da minha capacidade intelectual, dizendo que eu precisava de "um curso de linguagem e interpretação de texto", como se eu não tivesse a capacidade para escrever a respeito de um texto qualquer. Eu achei aquele comentário tão grosseiro, mas tão grosseiro, e tão gratuitamente agressivo, que ocasião fiquei chocado (já vão comentar aqui que eu estou cometendo erro de linguagem, GRatuitamente aGRessivo, mas tudo bem, grgr... até que cai bem aqui). E absolutamente injusto, pois como eu falei, eu sei que não sou burro nem idiota. O que fica no final é o espanto em relação ao ser humano. Como é que pode, gente que se acha tão bem educada a ponto de dar aulas de etiqueta, reagir de uma forma tão grosseira, tão rude, tão mesquinha, a um comentário que nem tinha nada a ver com a pessoa? Quer discordar de mim, discorde, acho ótimo, mas precisa me ofender??? O que neguinho ganha com isso??? Será mesmo que a pessoa em questão ficou com um gostinho bom na boca, depois de escrever o que escreveu a meu respeito? É, veneno deve ser mesmo delicioso na boca de muita gente... só espero que nunca mordam a própria língua.


Eu só posso concluir, que algumas pessoas podem ter sim uma ampla noção de etiqueta, mas não têm noção nenhuma do contato social, transformam copos d'água em tempestades, e reagem agressivamente em relação a coisas no final tão desimportantes, que portanto perdem todo o seu valor a meu ver. They have a problem, not me! Eu no princípio fiquei ofendido e magoado com o comentário... depois conclui, comigo mesmo, que se fora um comentário injusto e maldoso em relação à minha pessoa, aquele comentário revelava mais na verdade, mais muito mais, em relação à pessoa que o havia escrito. Então melhor deixar pra lá, como eu já aprendi a fazer, em se tratando de muitas coisas, e de muita gente, pois já tenho problemas suficientes na vida (de novo, se eu estiver aqui esquecendo ou abusando da crase, me perdoem por favor, não estou a fim de revisar! Quem quiser corrigir, de uma maneira educada, será bem vindo, obrigado :-) ). Críticas construtivas são sempre bem vindas, mas comentários grosseiros, melhor deletá-los da minha memória. Simplesmente, não valem a pena. Outro dia recebi um comentário no Orkut, da minha queridíssima Alê, que dizia ter adorado o meu cabeçalho "Adoro a tecla delete!". Pois é isso mesmo. Adoro a tecla delete, que me permite jogar pra bem longe tudo aquilo que eu quero bem longe de mim.


Está nevando de novo... voltando ao inverno... adoro a neve... seu silêncio, sua constância, e a paz branca que ela me traz.

4 comments:

RICKO said...

Eu não sei se isto aqui pode ser usado como base para julgar alguém ... o meu blog pelo menos , eu acho que não . Mas mesmo muitas vezes não concordando com alguma idéia , acho uma delícia ler seus textos , porque a cada letra , cada frase , cada parágrafo ... eu acho que consigo te conhecer um pouco mais a cada dia . E sinceramente , o que eu vejo sempre me anima muito , pois tenho certeza que você é no mínimo , alguém muito especial ... Boa semana !!!

Beth Blue said...

Eu no princípio fiquei ofendido e magoado com o comentário... depois conclui, comigo mesmo, que se fora um comentário injusto e maldoso em relação à minha pessoa, aquele comentário revelava mais na verdade, mais muito mais, em relação à pessoa que o havia escrito.

Não sei de detalhes específicos mas concordo em gênero, número e grau! Eu mesma já tenho problemas o suficiente nesta vida pra perder tempo com gente maldosa ou agressiva. Hoje em dia reservo meu tempo (e energia) exclusivamente para os amigos. A vida é curta demais pra perder tempo com gente invejosa, maldosa e por ai vai.

E não esquenta com esta estória de crase não. Eu adoro seus textos...E o que tem de gente por esta blogosfera escrevendo errado não é brincadeira (infelizmente é mais regra do que exceção, e não me refiro somente ao uso de crases)! Eu costumo rever meus posts antes de publicá-los por puro hábito da profissão. E se você por acaso achar um erro, me avise! ;-)

beijos e fique calmo, rsrsrsrs

Anonymous said...

Cara eu acho você fenomenal, apesar de não te conhecer,só pelo blog, sua luta para vencer, sua garra e força de vontade, sem falar no seu preparo intelectual muito estudo, e muito conhecimento que se acaba adquirindo, não ligue para esses coitados que ficam criando problemas, por "crase" veja só! O Mundo mergulhado em problemas tão sérios, como aqui no Brasil enchentes em Santa Catarina, e crise Mundial, e ainda têm gente que fica cobrando bobagens.
Cara, siga seu caminho e continue com essa força que você têm, meus parabéns, sorte e sucesso.

Andrea Drewanz said...

Ihh, eu li o texto da Anna sobre a crase e vesti a carapuça também...
E olha que sou jornalista, mas muitas vezes a gente pede uma "licença poética" e ataca o português...
rsrsrsrs

Bj grande